Por Machado de Assis (1872)
A conversa tomou outra direção até que chegaram algumas visitas mais. Daniel pôde ficar algum tempo a sós com Augusta, no canto de uma janela.
— Recebeu uma carta minha? perguntou a moça.
— Um simples bilhete.
— Isso mesmo. Não me julga leviana?
— Não; apenas audaz.
— É um sinônimo neste caso. Seja o que for; o certo é que recebeu a carta... e veio.
— Viria em todo caso, observou Daniel; mas o seu bilhete apressou a minha visita.
— Sabe o que lhe quero?
— Não adivinho.
— Lembra-se o que me disse há tempos?
— Disse-lhe que a amava.
— Pois bem, proponho-lhe uma coisa. Quer casar comigo?
Daniel ficou espantado com a franqueza desta pergunta. Fez-lhe o mesmo efeito de uma bala em cheio no estômago. Não atinando com a resposta, murmurou um monossílabo. Quem visse os dois julgaria que os papéis estavam trocados. Daniel assemelhava-se a uma donzela tímida, e Augusta a um cavalheiro amante e solícito, querendo arrancar da amada a resposta decisiva.
No fim de alguns segundos, disse Augusta:
— Não responde?
— Quer que lhe responda ? perguntou Daniel, readquirindo o seu sangue frio. É tão singular esta pergunta feita por V. Excia.
— Singular? Não acho.
— Singular por dois motivos. O primeiro é que essa pergunta costuma sempre ser feita por nós outros; aqui os papéis estão trocados; o segundo é que, depois do que me disse há tempos, aí...
— Mudei de opinião.
— De opinião? perguntou Daniel, sorrindo.
— De sentimento, queria eu dizer, respondeu Augusta. Não exijo a resposta imediatamente; basta que a mande amanhã.
E retirou-se da janela.
Daniel ainda ali ficou algum tempo, aturdido com o que acabara de ouvir. Tudo lhe parecia estranho naquela moça. Para supô-la leviana encontrava um desmentido no seu caráter, que estudara outrora; seria o que ele lhe disse a ela mesma, apenas uma audaciosa? Daniel meditou nessa noite na resposta que lhe havia de dar, ou antes na forma de resposta, porque a resposta era negativa. Consultou o coração e reconheceu que nada sentia por ela. Estava frio. Enganá-la, seria baixeza; mais valia ser franco. Mas como dizer-lhe, sem que lhe ofendesse os brios, esta revelação inesperada? No dia seguinte, depois de muito meditar escreveu a carta seguinte:
Minha senhora,
A singularidade da nossa situação só pode ter uma solução singular. Convidado a casar por uma moça bonita, prendada, que a todos os respeitos é a ambição de um homem, é singular que esse homem, não tendo outros compromissos, recuse o convite. Pois é justamente a minha resposta; tomo a liberdade de recusar.
Não me acuse, porém, antes de meditar bem nas considerações que me obrigam a recusar o seu convite. Aceitá-lo-ia, quando eu a amava; hoje, que o sentimento que lhe votava desapareceu de todo, não posso fazê-la feliz, porque casar sem amor é desgraçar uma senhora.
Tudo isto é singular; a maior parte dos casamentos fazem-se independentemente do amor. Mas, que quer? Eu, profundamente cético, a respeito de tudo, tenho a veleidade de crer no amor, ainda que raro, e quero que o amor seja a única razão do casamento. À vista destas razões, o meu procedimento, recusando, é tão nobre e digno como vil seria se aceitasse. Creia-me, entretanto, seu amigo e respeitador.
Fechou a carta e mandou-a.
Que impressão produziria ela no ânimo de Augusta?
XX
Augusta não se mostrou irritada com a resposta de Daniel; conteve a irritação; revelar-se, era contrário ao seu orgulho; não queria fazê-lo e não fez.
Mas, poucos dias depois, notavam-se as visitas repetidas de Luís à casa de Madalena; as pessoas que freqüentavam a casa notavam, também, que as relações entre o deputado e Augusta eram muito mais cordiais do que antes.
Madalena quando percebeu isto, estimou muito que a situação tivesse tomado aquele caráter; preferia vê-la casada com um homem que parecia merecer toda a confiança. E seria namoro?
Alguns afirmavam que sim; outros que não.
Todos concordavam, porém, que a situação entre ambos tinha-se modificado muito. Luís, pela sua parte, já se acreditava mais feliz; não é que ela desse esperanças positivas; mas todo o seu procedimento dava a entender isso mesmo. Daniel, depois da carta que escreveu a Augusta, hesitou em freqüentar a casa; mas, ao mesmo tempo curioso por ver o efeito da carta, resolveu lá ir, e com efeito apareceu ali quinze dias depois do último em que lá estivera.
Como o recebeu Augusta?
Daniel ia atravessando um corredor e encontrou Augusta que vinha de uma sala interior. A moça apenas o viu foi mais depressa para ele, com um sorriso nos lábios, a ponto que o rapaz, contando com um gesto de despeito ou ao menos de indiferença, ficou como dizem, desapontado.
Trocaram alguns cumprimentos, depois dos quais Daniel perguntou a Augusta:
— Perdoou-me?
— Perdoei-o.
Augusta disse estas palavras com tanta graça que Daniel sentiu-se arrependido de ter mandado a carta.
Nessa noite, lá esteve Luís como de costume.
Madalena recebeu Daniel com um sorriso de piedade. Ignorava a troca de cartas, mas o sorriso queria dizer:
— O que perdeu o senhor! Vai outro ser feliz!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.