Por Gregório de Matos (1696)
Perg. Dona Secula in seculis Ranhosa,
Por que estais aqui presa, Dona Paio?
Resp. Dizem, que por furtar um Papagaio:
Porém mente a querela maliciosa.
Perg. Estais logo por ladra, e por gulosa:
Não vos lembra o jantar de Fr. Pelaio?
Resp. Então traguei de carne um bom balaio,
e de vinha uma selha portentosa.
Perg. Para tanto pecado é curta a sala,
Ide para a moxinga florescente,
Onde tanta vidrada flor exala.
Resp. Irei, que todo o preso é paciente;
Porém se hoje furtei cousa, que fala,
Amanhã furtarei secretamente.
FALLA O POETA COM A FILHA.
Perg. Bertolinha gentil, pulcra, e bizarra,
Também vos trouxe aqui o Papagaio?
Resp. Não, Senhor: que ele fala como um raio,
E diz, que minha Mãe Ihe pôs a garra.
Perg. Isso está vossa Mãe pondo à guitarra,
E diz, que há de pagá-lo para Maio.
Resp. Ela é muito animosa, e eu desmaio,
Se cuido no Alcaide, que me agarra.
Perg. Temo, que haveis de ser disciplinante
Por todas estas ruas da Bahia,
E que vos há de ver o vosso amante.
Resp. Quer me veja, quer não: estimaria,
Que os açoutes se dêem ao meu galante,
Porque eu também sei ver, e vê-lo-ia.
PINTURA ADMIRAVEL DE HUMA BELLEZA.
Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?
O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?
Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês desse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?
Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isto bem? pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.
DESAYRES DA FORMOSURA COM AS PENSÕES DA NATUREZA PONDERADAS NA
MESMA DAMA.
Rubi, concha de perlas peregrina,
Animado Cristal, viva escarlata,
Duas Safiras sobre lisa prata,
Ouro encrespado sobre prata fina.
Este o rostinho é de Caterina;
E porque docemente obriga, e mata,
Não livra o ser divina em ser ingrata,
E raio a raio os corações fulmina.
Viu Fábio uma tarde transportado
Bebendo admirações, e galhardias,
A quem já tanto amor levantou aras:
Disse igualmente amante, e magoado:
Ah muchacha gentil, que tal serias,
Se sendo tão formosa não cagaras!
A OUTRO SUGEYTO QUE ESTANDO VARIAS NOYTES COM HUMA DAMA, À NÃO
DORMIO POR NÃO TER POTENCIA; E LHE ENSINÁRAM, QUE TOMASSE POR
BAXO HUMAS TALHADAS DE LIMÃO, E METTEO QUATRO.
1 Tal desastre, e tal fracasso,
com razão vos chega ao vivo,
que eu não vi nominativo
com tão vergonhoso caso:
do Oriente até o Ocaso,
desde o Olimpo até o Baratro,
do Orbe por todo o teatro
se diz, que sois fraca rês,
porque às três o Demo as fez
mas vós nem três, nem as quatro.
2 Quatro noites de desvelo
fostes passar com Joana,
tocaram-vos a pavana,
bailastes o esconderelo:
um homem do vosso pêlo
que dirá em tal desvario,
senão que foi tanto o frio,
tanto essas noites ventou,
que a cera se não gastou
por não pegar o pavio.
3 Isto é para insensatos,
não para os gatos de lei,
nem para mim, que bem sei,
que o frio é, que arreita os gatos:
deixemos esses recatos,
demos na verdade em cheio,
o que eu pressuponho, e creio,
é, que era alheia a mulher,
e a vossa porra não quer,
levantar-se com o alheio.
4 Vos quereis adrede errar,
porque nos alheios trastes
uma vez que vos deitastes,
força será levantar:
se vos não hão de emendar
estas lições de Gandu,
dai a porra a Berzabu,
que não presta para o alho,
ou tomai este caralho
metei-o, amigo, no cu.
5 Engano foi de capricho
a mezinha do Limão,
pois a cura do pismão
é uma, e outra a do bicho:
para entesar esse esguicho,
e endurecer esse cano
o remédio é um sacamano,
e se sois de fria casta,
e nada disto vos basta,
sede frade franciscano.
6 Meter um limão sem tédio
no cu, é cousa de bruto,
é remédio para puto,
não para as putas remédio:
em todo o Antártico prédio
não se viu tal asnidade,
porque se na realidade
sois tão frio fodedor,
como curais o calor,
se enfermais de frialdade.
A CERTO SUGEYTO DE SUPPOSIÇÃO, QUE TENDO-SE RETIRADO DA CÔRTE E
VIVIA NA SOLEDADE DE HUMA QUINTA MANDOU AO POETA A SEGUINTE DÉCIMA.
Goze a Corte o ambicioso
de aplausos, e vaidades,
que eu cá nestas soledades
o melhor descanso gozo:
aqui vivo cuidadoso
de descuidos, e este estado
julgo bem-aventurado,
que o melhor estado, cuido,
é aquele, em que o descuido
vem a ser todo o cuidado.
RESPONDE O POETA A SEGUINTE DECIMA COM ESTE SONETO.
Ditoso Fábio, tu, que retirado
Te vejo ao desengano amanhecido
Na certeza do pouco, que hás vivido,
Sem para ti viver no povoado.
Enquanto nos palácios enredado
Te enlaçaram cuidados divertido,
De ti mesmo passavas esquecido,
De ti próprio vivias desprezado.
Mas agora que nessa choça agreste,
Onde, quanto perdias, alcançaste,
Viver contigo para ti quiseste.
Feliz mil vezes tu, pois começaste
a morrer, Fábio, desde que nasceste,
Para ter vida agora, que expiraste.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.