Por Machado de Assis (1872)
— Que é isto? Por que motivo nutro eu uma esperança vã? Para ser insultado todos os dias? Aquela mulher é uma estátua; não tem sangue, nem alma. É feita de um pedaço de mármore. Amar para quê? para ter neste amor o meu tormento e a minha humilhação? Não! é demais! tudo precisa de um termo.
Desse dia em diante, Luís não voltou à casa de Madalena.
XVII
O procedimento de Augusta era objeto da curiosidade de todos.
— Por que motivo esta moça recusa todos os pretendentes? diziam as mães de família; parece que não quer casar. Quererá ficar para tia?
O argumento era singular; devia ocorrer a todos que Augusta recusava os pretendentes justamente por que não gostava de nenhum.
Mas a reflexão das mães de família era que um casamento nunca se recusa, salvo circunstâncias especiais.
Madalena respeitava os escrúpulos da filha; queria vê-la feliz e entendia que o melhor meio era casá-la com quem lhe falasse ao coração.
Mas onde estava esse fênix, visto que nenhum até agora lhe agradara? Augusta conservava-se na sua torre de marfim, pouco disposta a ceder às instâncias, nem de Luís, nem de Daniel. Viu partir um e outro sem a menor emoção. Quem teria azão? Os que esperavam que chegasse a Augusta a hora do amor ou os que a julgavam uma simples estátua de mármore?
Tinham já corrido dois meses depois da partida de Daniel para Minas Gerais, quando Augusta encontrou Amélia na Rua da Quitanda, indo a primeira com a mãe ver umas fazendas, e vindo Amélia de um passeio com Valadares. Era raro que os dois andassem juntos; Valadares gracejara muito por essa circunstância, apenas encontrou as duas senhoras.
— Não repare, D. Madalena; o sol e a lua ao pé um do outro é sinal evidente de eclipse. Depois de alguns minutos de conversa, Amélia seguiu com Madalena e a filha, ao passo que Valadares foi a outras ocupações. Amélia jantaria com as amigas e voltaria à noite para casa. Valadares escusou-se, dizendo que tinha um jantar diplomático. Com efeito, ao jantar a que ele assistiu, estiveram presentes alguns secretários e adidos de legação; mas o caráter do festim tinha mais de guerra que de diplomacia. Notas, se as havia, não eram de embaixada.
— Já sabe que a nossa partida está próxima? disse Madalena a Amélia, apenas chegaram à casa.
— Ah!
— Apenas se fecharem as câmaras, continuou Madalena, vou deixar o seu Rio de Janeiro.
Amélia olhou para Augusta com uma insistência que a moça não compreendeu.
— Vai deixar o meu Rio de Janeiro, disse Amélia depois de alguns instantes. Não gosta dele?
— Muito, decerto.
— É magnífico, disse Augusta; mas a nossa província...
— Amor de bairro, respondeu Amélia sorrindo.
— Será, será, mas não somos todos assim?
— Conforme. Às vezes, muda-se de sentimento, conforme os afetos que encontramos nos lugares novos.
— Isso não sei.
— Não achou cá alguma coisa?
— Coisa nenhuma.
Augusta disse isto com tanta frieza e firmeza, que Amélia não pôde reprimir um gesto de espanto.
— Pois olhe, disseram-me...
— O quê? perguntou Madalena.
Amélia hesitou alguns instantes.
— Estou gracejando, disse ela.
Mas daí a algum tempo, achando-se a sós com Augusta, disse-lhe:
— Disseram-me que estavas apaixonada pelo Daniel.
— Eu? Qual!
— Disseram-me... Juras que não é verdade?
— Juro.
— Então, toma cuidado!...
— Por quê?
— Porque podem dizê-lo e então...
— Que importa que o digam? disse Augusta.
— Perdão; importa muito. Se disserem, por exemplo, que fizeste presente de uma liga ao Daniel, como se fosse uma flor ou um botão de camisa...
— Dirão uma tolice.
— Mas se disserem que ele possui esse objeto?
— Que ele possui? Ora essa! Estás brincando, Amélia.
Amélia contou-lhe o episódio da casa de Daniel.
XVIII
No fim de uma ausência de quatro meses, voltou Daniel ao Rio de Janeiro. A viagem foi uma verdadeira restauração. Daniel achou-se como sempre fora, tendo perdido o menor vestígio do parêntese que se dera em sua existência. A falar verdade, Daniel achava agora que fora ridículo durante os dias em que se sentiu apaixonado por Augusta. O caráter indiferente do rapaz, por um momento agitado, voltou a ser o que era.
Entrou em casa de noite, e não tendo prevenido a ninguém, ninguém foi esperá-lo à chegada.
Ao entrar em casa, não pôde deixar de olhar para a casa de Augusta. Ignorava se ainda ali moravam ou se haviam partido para a província. A casa estava silenciosa. O criado, que o recebeu, deu-lhe notícia de que a família de Augusta ainda morava na mesma casa.
— Mas quem te perguntou por isso? disse Daniel.
— Eu lhe digo, meu amo; é que, de quando em quando, mandavam saber de lá quando é que meu amo chegava?
— Sim?
— É verdade. E há coisa de três dias recebi uma carta com ordem de entregar-lha apenas chegasse.
— Uma carta?
— Sim, senhor; está no seu gabinete.
— Deixa-me ir descalçar as botas.
Noutro tempo, Daniel teria ido ver a carta primeiro; agora, preferia descalçar as botas. Sirva isto de termômetro; quando um homem procura antes de tudo ler uma carta, ama; quando descalça as bota antes, já não ama. É receita que lhes dou de graça. Descalçadas as botas, Daniel foi ler a carta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.