Por Gregório de Matos (1696)
5 E suposta esta livrança
entre Sodoma, e Tudesco
ou há grande parentesco,
ou mui grande semelhança:
quem quiser com confiança
entrar no fogo veemente,
escuse o ser inocente,
como os Moços do Salmista,
trate de ser flautista,
e beba muita aguardente.
6 Lá no forno do Pombal
Vila do Conde Valido,
quando está mui acendido
entra (prodígio fatal!)
um vilão de ânimo tal,
que dentro vira a fogaça,
com que a todo o povo embaça,
sem o mistério alcançar,
e eu agora venho a dar,
que vai cheio de vinhaça.
7 E pois o nosso Andrezão
leva o fogo de vencida,
para toda a sua vida
temos nele um borrachão:
e como é mui asneirão,
e em tudo tão material,
fará um discurso tal,
que a beber, e mais beber
há de escapar, e viver
no dilúvio universal.
8 Engana-se o asneirão,
porque no final juízo
há de acabar, que é preciso,
vinho, vide, cepa, e chão:
tudo há de acabar então,
e quando ache o Brichote
escondido algum pipote,
como é tão geral a mágoa,
porque morra, dar-lhe-ão água,
que é veneno de um vinhote.
LAMENTA A MULHER DESTE MESMO SUGEYTO A MÁ SORTE,QUE TEVE EM SE
CASAR COM HOMEM DETALCONDIÇÃO, PORQUE ACTUALMENTE ESTAVA
BEBADO.
MOTE
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.
1 Coitada de quem
teve tal marido,
que bebe o vestido,
e sem ele vem:
porventura alguém
pode tal sofrer?
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.
2 Mofina de mim,
nunca eu fora feita
por não ser sujeita
a um vilão ruim:
Até o chapim
me foi já beber.
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.
3 Melhor me tivera
meu Pai encerrada,
num canto fechada
melhor estivera,
e não conhecera,
quem me há de beber!
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.
4 Sobre camarões
Sem comer mais nada
Só de uma assentada
bebe dez tostões:
vendeu os calções,
só para beber.
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.
5 Darei um pregão:
sabia todo o mundo,
que é poço sem fundo
este Beberrão:
com tal condição
há de já morrer.
Mofina mulher,
que tão mal casou!
Ai que se lá vou
hei-vos de moer.
A AMAZIA DÊSTE SUJEITO QUE FIADA NO SEU RESPEITO SE FAZIA SOBERBA, E
DESAVERGONHADA.
1 Puta Andresona, eu pecador te aviso,
que o que amor te tiver, não terá siso;
tu te finges não ser senão honrada
e nunca vi mentira mais provada:
porque de mui metida, e atrevida
te vieste a sair com ser saída;
mas quando de ti, Puta, não cuidara,
fazeres tais baratos de tal cara!
2 Esse vaso encharcado, qual Danúbio
dá a crer, que és puta inda antes do dilúvio:
tão velha puta és, que ser podias
Eva das putas, mãe das putarias,
e por puta antiquíssima puderas
dar idade às idades, e era às eras;
e havendo feito putarias artas,
inda hoje dás a crer, que te não fartas.
3 Entram na tua casa a seus contratos
Frades, Sargentos, Pajens, e Mulatos
porque é tua vileza tão notória,
que entre os homens não achas mais que escória:
a todos esses guapos dás a língua,
e por muito que dês não te faz míngua:
antes és linguaraz, e a mim me espanta,
que dando a todos, tenhas língua tanta.
4 Mas isso te nasceu, puta Andresona,
de seres puta vil, puta fragona:
que o falar da janela, e da varanda,
só se achará em putas de quitanda.
Cal-te, que a puta grave, qual donzela,
geme na cama e cala na janela:
mete a língua no cu, e havendo míngua
quando deres ao cu darás à língua.
5 Pois te deixas calar sempre por baixo,
e lá para calar-te tens o encaixe,
cal-te um dia por cima atroadora,
que já se enfada quem na rua mora:
e diz até uma Preta, e mais não erra,
que a ovelha ruim é, a que berra;
cal-te Andresona, que de me aturdires,
tomei eu a ocasião de hoje me ouvires.
A MORTE DE AFONÇO BARBOZA DA FRANCA AMIGO DO POETA.
Quem pudera de pranto soçobrado,
Quem pudera em choro submergido
Dizer, o que na vida te hei querido,
Contar, o que na morte te hei chorado.
Só meu silêncio diga o meu cuidado,
Que explica mais que a voz de um afligido,
Porque na esfera curta de um sentido
Não cabe um sentimento dilatado.
Não choro, amigo, a tua avara sorte,
Choro a minha desgraça desmedida,
Que em privar-me de ver-te foi mais forte.
Tu com tanta memória repetida
Acharás nova vida em mãos da morte,
Eu triste nova morte às mãos da vida.
AO MESMO ASSUMPTO.
Alma gentil, esprito generoso,
Que do corpo as prisões desamparaste,
E qual cândida flor em flor cortaste
De teus anos o pâmpano viçoso.
Hoje, que o sólio habitas luminoso,
Hoje, que ao trono eterno te exaltaste,
Lembra-te daquele amigo, a quem deixaste
Triste, confuso, absorto, e saudoso.
Tanto a tua vida ao céu subiste,
Que teve o céu cobiça de gozar-te,
Que teve a morte inveja de vencer-te.
Venceu-te o foro humano, em que caíste,
Goza-te o céu, não só por premiar-te,
Senão por dar-me a mágoa de perder-te.
ÀS DUAS MULATAS PREZAS FINGE O POETA, QUE VlSlTA NESTE DOUS SONETOS
INTERLOCUTORES. FALLA COM A MAY.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.