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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

Tomaram em silêncio o café; depois passaram à sala. Rubião desfazia-se em obséquios, mas preocupado. Corridos alguns minutos, estava satisfeito com a primeira suposição dos dous convivasa de um amor adúltero; achou até que se defendera com demasiado calor. Uma vez que não dissesse o nome de ninguém, podia ter confessado que era, em verdade, um negócio íntimo. Mas também podia acontecer que o próprio calor da negativa deixasse alguma dúvida no animo dos dous, alguma suspeita... Aqui sorriu consolado.

Carlos Maria consultou o relógio, eram duas horas, ia-se embora. Rubião agradeceu lhe muito e muito o obséquio e pediu-lhe que repetisse; podiam passar alguns domingos assim em boa palestra amigável

- Apoiado! bradou Freitas aproximando-se.

Tinha metido meia dúzia de charutos no bolso, e, ao sair. disse ao ouvido do Rubião; - Cá vai a lembrança do costume; seis dias de delícias, uma delícia por dia.

-Leve mais.

-Não; virei buscá-los depois.

Rubião acompanhou-os ao portão de ferro. Quincas Borba, logo que ouviu vozes, correu do fundo do jardim e veio saudá-los, particularmente ao senhor; fez festas a Carlos Maria, quis lamber-lhe a mão; o rapaz afastou-se com repugnância. Rubião deu um pontapé no cachorro, que o fez gritar e fugir. Afinal despediram-se todos.

-O senhor para onde vai? perguntou Carlos Maria ao Freitas.

Freitas calculou que ele iria a alguma visita para os lados de S. Clemente, e quis acompanhá-lo.

-Vou até o fim da praia, disse.

-Eu volto para trás, tornou o outro.

CAPÍTULO XXXIII

RUBIÃO viu-os ir, entrou, meteu-se na sala, e ainda uma vez leu o bilhete de Sofia. Cada palavra dessa página inesperada era um mistério; a assinatura uma capitulação. Sofia apenas; nenhum outro nome da família ou do casal. Verdadeira amiga era evidentemente uma metáfora. Quanto às primeiras palavrasMando-lhe estas frutinhas para o almoço respiravam a candidez de uma alma boa e generosa. Rubião viu, sentiu, palpou tudo pela única força do instinto e deu por si beijando o papel,- digo mal, beijando o nome, o nome dado na pia de batismo, repetido pela mãe, entregue ao marido como parte da escritura moral do casamento, e agora roubado a todas essas origens e posses para lhe ser mandado a ele, no fim duma folha de papel... Sofia! Sofia! Sofia!

CAPÍTULO XXXIV

-POR QUE VEIO tão tarde? perguntou-lhe Sofia, logo que ele apareceu à porta do jardim, em Santa Teresa.

-Depois do almoço, que acabou às duas horas, estive arranjando uns papéis. Mas não é tão tarde assim, continuou Rubião vendo o relógio, são quatro horas e meia.

-Sempre é tarde para os amigos, replicou Sofia em ar de censura.

Rubião caiu em si; mas não teve tempo de emendar a mão. Diante dele, ao pé da casa, estavam sentadas em bancos de ferro umas quatro senhoras, caladas, olhando para ele, curiosas; eram visitas de Sofia que esperavam a vinda de um capitalista Rubião. Sofia foi apresentá-lo a elas. Três delas eram casadas, uma solteira, ou mais que solteira. Contava trinta e nove anos, e uns olhos pretos, cansados de esperar. Era filha de um Major Siqueira, que daí a alguns minutos apareceu no jardim.

-O nosso Palha já me tinha falado em Vossa Excelência, disse o major depois de apresentado ao Rubião. Juro que é seu amigo às direitas. Contou-me o acaso que os ligou. Geralmente, as melhores amizades são essas. Eu, em trinta e tantos, pouso antes da Maioridade, tive um amigo, o melhor dos meus amigos daquele tempo, que conheci assim por um acaso, na botica do Bernardes, por alcunha o João das pantorrilhas. .. Creio que usou delas, em rapaz, entre 1801 e 1812. O certo é que a alcunha ficou. A botica era na Rua de São José, ao desembocar na da Misericórdia. .. João das pantorrilhas... Sabe que era um modo de engrossar a perna. . . Bernardes era o nome dele, João Alves Bernardes. . . Tinha a botica na Rua de S. José. Conversava-se ali muito, à tarde, e à noite. Ia a gente com o seu capote, e bengalão; alguns levavam lanterna. Eu não, levava só o meu capote.. Ia-se de capote; o Bernardes,- João Alves Bernardes era o nome todo dele - era filho de Maricá, mas criou-se aqui no Rio de Janeiro... João das pantorrilhas era a alcunha; diziam que ele andara de pantorrilhas, em rapaz, e parece que foi um dos petimetres da cidade. Nunca me esqueciJoão das pantorrilhas... Ia-se de capote...

A alma do Rubião bracejava debaixo deste aguaceiro de palavras mas, estava num beco sem saída por um lado nem por outro. Tudo muralhas. Nenhuma porta aberta, nenhum corredor, e a chuva a cair. Se pudesse olhar para as moças veria, ao menos, que era objeto de curiosidade de todas, principalmente da filha do major, D. Tonica; mas não podia; escutava, e o major chovia a cântaros. Foi o Palha que lhe trouxe um guarda-chuva. Sofia tinha ido dizer ao marido que o Rubião acabara de chegar; daí a nada estava o Palha no jardim, e saudava o amigo, dizendo-lhe que viera tarde. O major, que explicava ainda uma vez a alcunha do boticário, abandonou a presa, e foi ter com as moças; depois saiu à rua.

CAPÍTULO XXXV

(continua...)

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