Por Machado de Assis (1872)
Daniel resolveu responder às tolices de Amélia com partida imediata, sem embargo da promessa anteriormente feita. Ao princípio, repugnou-lhe o ato que era descortês; mas venceu o aborrecimento que Amélia lhe causara na tarde em que foi visitá-lo. E justamente quando Valadares agradecia à mulher os esforços que fizera em favor dele, estava Daniel em caminho para Minas, acompanhado de um simples criado. Valadares saíra de casa para ajustar objetos de que precisava para a viagem. Às duas horas, lembrou-lhe ir ter com Daniel.
— Onde está o amo? perguntou a um criado que lá encontrou.
— Saiu, respondeu o criado.
— Volta?
— Foi para Minas.
— Para Minas...
Valadares ficou contrariadíssimo com a noticia.
— Parece, disse o criado, que eu tenho aqui uma carta para o senhor.
— Para mim? Dá cá.
O criado foi buscar a carta e entregou-a a Valadares.
A carta dizia assim:
Valadares,
Prometi à tua mulher que adiaria a viagem; mas sinto não poder cumprir a palavra prometida a tão gentil senhora, porque entrou-me por casa uma fúria, uma bisbilhoteira, uma mulher sem pinga de juízo que pôs a minha sala e o meu espírito em desordem. Para esquecer esta hóspede inesperada só me resta o recurso de precipitar a viagem. Até lá ou até à volta. Teu Daniel.
Valadares leu a carta e não a entendeu muito bem.
Quando Amélia soube que Daniel, a despeito da promessa que lhe fizera, havia partido, sentiu-se um pouco humilhada; mas como as impressões da moça eram passageiras, o ressentimento não lhe durou mais de um quarto de hora. Ficou, porém, despeitada com o bilhete de despedida de Daniel. Aquilo que Valadares não compreendia, Amélia o compreendia demais. Achou-se injuriada com as expressões da carta e mais ainda porque fora sem dúvida escrita na previsão de ser lida por ela.
Valadares resolveu seguir viagem na época escolhida por ele; mas um acontecimento estranho à nossa história impediu que a viagem fosse executada. Achando-se numa ceia com rapazes e moças, Valadares sentiu-se preso pelas algemas do amor, e sacrificou a viagem a Minas nas aras de uma Laís de contrabando.
Nunca mais falou em viajar.
Amélia ainda tentou mandá-lo tomar ares; e Valadares, que em todas as ocasiões, era o tipo do esposo maricas, desta vez resistiu violentamente, prova de que amava profundamente... a outra.
XVI
Quando Augusta soube realmente que Daniel partira para Minas, sentiu uma decepção; apesar da despedida solene que este lhe fizera e à família, Augusta acreditava que a viagem nunca seria executada.
Não supunha, note-se, que Daniel estivesse a fazer comédia, quando se despediu deles; mas acreditava que lhe seria difícil deixar a corte. É que, apesar de tudo, Augusta estava convencida de que Daniel amava-a loucamente.
O advérbio era demais.
Daniel amava a rapariga, e justamente para acabar com esse germe, que já começava a desenvolver-se no coração, é que ele fazia aquela viagem. Ouvira dizer que as viagens são excelentes contra o reumatismo da coração.
Augusta sentiu-se ferida; o despeito pôde muito naquela ocasião.
A sua esperança foi que, demorando um último olhar na janela da casa dela, Daniel não pudesse seguir viagem e tornasse a entrar para casa, dispondo-se a encadear a
existência ali a seus pés.
A esperança foi iludida.
Mas para que desejava Augusta isso, se o não amava?
Não sei; desejava-o.
Madalena procurou sondar o coração da filha, depois da partida de Daniel.
— Que sentes tu a respeito desta ida súbita do dr. Daniel? perguntou-lhe uma tarde.
— Eu, nada, respondeu Augusta. Acha que devo sentir alguma coisa?
— Não; era simples pergunta. Sabes que ele gostava de ti.
Nenhum palavra mais se conseguia arrancar a Augusta relativamente a este negócio. Um dia, Luís estando com ela anunciou que voltava para a província, e que estava disposto a abandonar a carreira política. Acrescentou que até então tivera alguma esperança, mas que essa mesma se desvanecera.
— Pensei, disse Augusta, pensei que já não houvesse esperanças para o senhor.
— Havia uma...
— Qual?
— A de ser amado quando já todos se houvessem esquecido de mim!
— Perdeu essa esperança? disse Augusta. Olhe que não perdeu grande coisa.
— Perdi, porque ela era fundada numa base falsa. Eu acreditava até agora que o seu coração era mudo.
— Ah!
— Mas sei que não; o seu coração falou.
— Que disse ele?
Augusta estava disposta a gracejar; as suas últimas palavras foram ditas com um riso de escárnio, cujo segredo só ela possuía.
— Disse que ama a um ausente...
Augusta levantou-se ao ouvir isto; olhou fixamente para, Luís e disse:
— Ou é ilusão sua ou calúnia de alguém! Demais, creio que pouco lhe deve importar o sentimento do meu coração...
— Importa-me muito, dona Augusta. Não quero falar-lhe de amor, pois que já mo proibiu; mas permita que lhe pergunte só por que razão eu...
Augusta lançou-lhe um olhar de profundo escárnio e desprezo, voltou-lhe as costas e saiu.
— É demais! disse Luís.
Pegou no chapéu e retirou-se.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.