Por Padre Antônio Vieira (1655)
Perguntaram ao Batista, quem era? Respondeu ele: Ego vox clainantis in deserto (Jo. 1,23): Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto. Desta maneira se definiu o Batista. A definição do pregador, cuidava eu que era voz que arrazoa, e não voz que brada. Pois porque se definiu o Batista pelo bradar, e não pelo arrazoar, não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Batista pregava. Vede-o claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam, lavou as mãos, e disse: Ego nullam cousam invenio in homine isto (Lc. 23,14): Eu nenhuma cousa acho neste homem. Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora que fosse crucificado: At illi magis clamabant: crucifigatur (Mt. 27,23). De maneira que Cristo tinha por si a razão, e tinha contra si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados que a razão. A razão não valeu para o livrar, os brados bastaram para o pôr na cruz. E como os brados no mundo podem tanto, bem é que bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem. Por isto Isaias chamau aos pregadores nuvens: Qui sunt isti, qui ut nubes volant?21 A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio: relâmpago para os olhos trovão para os ouvidos, raio para o coração: com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere a um, o relâmpago a muitos, a trovão a todos. Assim há de ser a voz da pregador: um trovão da céu que assombre e faça tremer o mundo.
Mas que diremos à oração de Moisés: Concresat ut pluvia doctrina meo; fluat ut ros elo quium meum (Dt. 32,2)? Desça minha doutrina como chuva da céu, e a minha voz e as minhas palavras como orvalho, que se destila brandamente e sem ruído? Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo, tão celebrado par Isaias: Non clamabit neque oudietur vox ejusforis (Is. 42,2): Não clamará, não bradará, mas falará com uma voz tão moderada, que se não possa ouvir fora? E não há dúvida que o praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos, não só concilia maior atenção, mas naturalmente e sem força se insinua, entra, penetra, e se mete na alma.
Em conclusão, que a cousa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus nem é a circunstância da pessoa: Qui seminat, nem a do estilo: Seminare, nem a da matéria: Semen, nem a da ciência: Suum, nem a da voz: Clamabat. Moisés tinha fraca voz. Amós tinha grosseiro estilo, Salomão multiplicava e variava os assuntos, Balaão não tinha exemplo de vida, o seu animal não tinha ciência, e contudo todos estes, falando, persuadiam e convenciam22. Pois se nenhuma destas razões que discorremos, nem todas elas juntas são a cousa principal, nem bastante, do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos finalmente que é a verdadeira cousa?
§IX
A verdadeira razão: as palavras dos pregadores são palavras de Deus, mas não são a palavra de Deus. As Escrituras, quando não tomadas em seu verdadeiro sentido, podem transformar-se em palavras do demônio, como no caso da tentação de Cristo. Analogia entre o pináculo do Templo e o púlpito. Os pregadores e as duas falsas testemunhas do julgamento de Cristo. Admoestação de S. Paulo. Excelência dos comediógrafos pagãos sobre os maus pregadores.
As palavras que tomei por tema o dizem: Semen est Verbum Dei. Sabeis, cristãos, a cousa, por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus, como dizia, é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavra de Deus, que muito que não tenham a eficácia e os efeitos de palavra de Deus? Ventum seminabunt, et turbinem colligent (Os. 8,7), diz o Espírito Santo: Quem semeia ventos, colhe tempestades. Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta em vez de colher frutos?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf. Acesso em: 10 ago. 2026.