Por Machado de Assis (1872)
— Eu hoje só posso receber as pessoas mais íntimas de casa, os amigos de meu irmão. Às outras dize que estou incomodada.
O escravo saiu.
— Adota esta explicação?
— Antes essa, respondeu Félix; é melhor para a senhora; sinto-a contudo por mim; não quisera ser envolvido entre os íntimos da casa.
— Quer que eu corrija a ordem que dei?
— Não peço tanto; não tenho direito a isso; e todavia...
— E todavia?...
Houve um curto silêncio.
— Não me compreende? disse Félix com voz quase sumida.
— Compreendo, murmurou ela, depois de uma pausa; mas receio enganar-me.
— Não se engana, insistiu Félix com calor; amo-a, e seria impossível negá-lo, porque a minha voz e o meu rosto hão de tê-lo dito melhor do que as minhas palavras. Não percebe isso há muito tempo? Não adivinhou já que a esperança do seu amor é para mim toda a felicidade de amanhã? Diga! diga uma palavra só, cruel ou benévola, mas uma e definitiva.
Lívia escutara-o enlevada, e a sua resposta foi mais eloqüente que a declaração do doutor; estendeu-lhe a mão trêmula e fria, e embebeu nos olhos dele um longo olhar de agradecimento e felicidade.
— Ama-me também? perguntou Félix depois de alguns minutos de muda contemplação.
— Oh! muito! suspirou a moça.
E ambos ali ficaram silenciosos, ofegantes e namorados, nesse êxtase dulcíssimo que é porventura o melhor estado da alma humana. Ambos, porque o coração do médico, naquele instante ao menos, palpitava com igual fervor.
— Muito! repetiu Lívia, como se essa palavra fosse apenas um eco do seu pensamento ou uma resposta à muda interrogação dos olhos do médico.
Félix passou-lhe o braço à roda da cintura e puxou-a docemente para si, depois segurou lhe a cabeça entre as mãos, e inclinou os lábios para lhe imprimir um beijo na fronte. Deteve-o um rumor estranhos uma voz infantil e desconhecida.
Instantes depois apareceu no terraço um menino de cinco anos, criança gentil e esperta, rosada e gorda, como os anjos e os cupidos que a arte nos representa em seus painéis.
— Mamãe! mamãe! gritava o pequeno, correndo a abraçar-se com a mãe e fugindo à mucama que vinha atrás dele.
Lívia recebeu a criança nos braços; beijou-a e pô-la ao colo.
— Apresento-lhe meu filho, disse ela ao médico; estava em casa da madrinha; veio ontem para cá.
E voltando-se para o menino:
— Luís, conheces o Dr. Félix?
O menino olhou para o médico com a expressão pasmada e interrogativa das crianças que vêem uma pessoa, pela primeira vez, é voltou-se para a mãe, sem parecer impressionar-se muito. Lívia encheu-lhe as faces de beijos. A criança rindo de prazer, repeliu com as mãozinhas aquela chuva de carícias maternas.
— Ora bem, disse a viúva, quem te deu ordem de andar a correr
— Ninguém, respondeu o menino, eu pedi a Clara para me deixar vir; ela não quis, mas eu vim. Não fiz bem, mamãe?
— Fizeste mal. Vai brincar, vai, mas não corras.
— Quem é esse moço? perguntou Luís, olhando outra vez para
— Já te disse: é o Dr. Félix.
— Ah!
Luís encarou o médico; depois olhou para a mãe, e fez um gesto para descer. Lívia pô-lo no chão.
— Posso ir à chácara?
— Podes, leva-o, Clara.
Luís deitou a correr seguido pela mucama. A mãe acompanhou-o com os olhos até vê-lo desaparecer do terraço.
Durante esta cena, Félix parecera completamente estranho a tudo que o rodeava. Não ouvia as repreensões da moça, nem a tagarelice da criança: ouvia-se a si mesmo. Contemplava aquele quadro com deleitosa inveja; e sentia pungir-lhe um remorso. "É mãe, repetia o moço consigo, é mãe!"
— Olhe, dizia a moça, debruçada sobre o parapeito que dava para a chácara; veja como ele vai correndo...
Félix debruçou-se também; o menino corria efetivamente adiante de Clara que o acompanhava de longe. De quando em quando, parava o menino aguardando a mucama; mas tão depressa esta w lhe aproximava, a criança negaceava o corpo, e deitava a correr outra vez. A mãe parecia esquecida de tudo mais, Félix contemplava-a com religioso respeito. Estiveram assim calados alguns segundos. De repente Lívia voltou-se para o médico:
— Vê? disse ela; a pouco se reduz a minha felicidade: o senhor e aquela criança. Dizendo isto, deixou pender a fronte; Félix beijou-a ardentemente mas não pôde dizer nada. A comoção embargou-lhe a voz; a reflexão impôs-lhe silêncio.
CAPÍTULO VII / O GAVIÃO E A POMBA
INICIANDO afoutamente esta aventura, era natural que Félix saísse de Catumbi com a vaidade satisfeita de um triunfador. Não era ele amado, e amado sem esforço seu, sem resistência nem combate? E a mulher que lhe acabava de dar francamente o coração não tinha todas as qualidades que podem seduzir um homem e lisonjear-lhe o amor-próprio?
Qualquer outro teria motivo de se julgar superior ao resto dos mortais; mas era a natureza mesma da vitória que vinha travar a felicidade de Félix . A que propósito interviria o coração neste episódio, que devia ser curto para ser belo, que não devia ter passado nem futuro, arroubos nem lágrimas?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.