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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

E, malgrado essa disparidade de caracteres, o almoço foi alegre. Freitas devorava, com alguma pausa é certo.-e, mesmo que o almoço, se tivesse vindo à hora marcada (onze) talvez não trouxesse o mesmo sabor. Agora orçava pelos primeiros bocados que acodem à fome do náufrago. Ao cabo de uns dez minutos, pôde começar a falar, cheio de riso, multiplicando-se em gestos e olhares, desfiando um rosário de ditos agudos e anedotas picarescas. Carlos Maria ouviu a maior parte deles com seriedade, para humilhá-lo, a ponto que o Rubião, que realmente achava graça no Freitas, já não ousava rir. Para o fim do almoço, Carlos Maria afrouxou um tanto a gravata do espírito, expandiu-se, referiu algumas aventuras amorosas de outros; Freitas, para lisonjeá-lo, pediu-lhe uma ou duas dele mesmo. Carlos Maria estourou de riso.

-Que papel quer o senhor que eu faça? disse ele.

Freitas explicou-se; não era uma apologia, eram fatos, pedia-lhe fatos; não havia inconveniente, nem ninguém era capaz de supor. . .

-O senhor dá-se bem com a residência aqui em Botafogo? interrompeu Carlos Maria dirigindo-se ao dono da casa.

Freitas, interrompido, mordeu os beiços, e, pela segunda vez, mandou o moço ao diabo. Colou-se ao espaldar, teso, grave, olhando para um painel da parede. Rubião respondeu que se dava bem, que a praia era linda.

-A vista é bonita, mas nunca pude tolerar o mau cheiro que há aqui, em certas ocasiões, disse Carlos Maria. Que lhe parece? continuou voltando-se para o Freitas.

Freitas desencostou-se e disse tudo o que pensava, que um e outro podiam ter razão; mas insistiu em que a praia, a despeito de tudo, era magnífica; discorreu sem amuo, nem vexame; fez até o obséquio de chamar a atenção do Carlos Maria para um pedacinho de fruta que lhe ficara na ponta do bigode.

Chegaram ao fim, era pouco mais de uma hora. Rubião, calado, recompunha mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos e os seus resíduos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da mesa, em vésperas de café. De quando em quando dava um olhar à casaca do criado. Chegou a apanhar o rosto de Carlos Maria em flagrante prazer, quando tirava as primeiras fumaças de um dos charutos que ele mandara distribuir. Nisto entrou o criado com uma cestinha coberta por um lenço de cambraia, e uma carta, que acabavam de trazer.

CAPÍTULO XXXII

-QUEM É que manda isto? perguntou Rubião.

-D. Sofia.

Rubião não conhecia a letra; era a primeira vez que ela lhe escrevia Que podia ser? Via-se-lhe a comoção no rosto e nos dedos. Enquanto ele abria a carta, Freitas familiarmente descobria a cestinhaeram morangos. Rubião leu trêmulo estas linhas

Mando-lhe estas frutinhas para o almoço, se chegarem a tempo; e, por ordem do Cristiano, fica intimado a vir jantar conosco, hoje, sem falta.

Sua verdadeira amiga,

SOFIA.

- Que frutas são? perguntou Rubião fechando a carta.

- Morangos.

-Chegaram tarde. Morangos? repetiu ele sem saber o que dizia.

-Não é preciso corar, meu caro amigo, disse-lhe rindo o Freitas, logo que o criado saiu. Estas cousas acontecem a quem ama...

-A quem ama? repetiu Rubião corando deveras. Mas, pode ler a carta, veja...

Ia mostrá-la, recuou e meteu-a no bolso. Estava fora de si, meio confuso, meio alegre; Carlos Maria deleitou-se em dizer-lhe (que ele não podia encobrir que o mimo era de alguma namorada. E não achava que repreender; o amor era lei universalse era alguma senhora casada, louvava-lhe a discrição...

- Mas pelo amor de Deus! interrompeu o anfitrião.

-Viúva? Estamos no mesmo caso, continuou Carlos Maria; a discrição aqui é ainda um merecimento. O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado. Eu, se fosse legislador propunha que se queimassem todos os homens convencidos de indiscrição nestas matérias; e haviam de ir para a fogueira, como os réus da inquisição com a diferença que, em vez de sambenito, levariam uma capa de penas de papagaio...

Freitas não podia ter-se com riso e batia na mesa, à maneira de aplauso; Rubião, meio enfiado, acudia que não era casada nem viúva . . .

-Solteira então? replicou o moço. Um casório em breve? Vá que é tempo. Morangos de noivado, continuou, pegando alguns entre os dedos. Cheiram a alcova de donzela e a latim de padre.

Rubião não sabia mais que dissesse; afinal tornou atrás e explicou se; eram da senhora de um seu amigo particular. Carlos Maria piscou o olho, Freitas interveio dizendo que agora, sim, senhor, estava explicado; mas que, a princípio, o mistério, o arranjo da cestinha. o ar dos próprios morangos,-morangos adúlteros, disse ele, rindo - todas essas cousas davam ao negócio um aspecto imoral e pecaminoso; mas tudo ficara acabado.

(continua...)

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