Por Machado de Assis (1872)
— É favorecer a V. Excia., creio, interrompeu Daniel. Pode dizer que conte comigo. A mulher de Valadares levantou-se para se despedir, e nesse ato fez o que fizera ao princípio, segundo costumava, correu por toda a sala olhos minuciosos.
— Desculpe, disse Daniel, desculpe o desarranjo em que isto se acha... Estou em véspera de viagem; e bem vê...
— Pois não; desculpo tudo, disse Amélia aproximando-se de uma mesa. São lindos estes objetos de bronze; são principalmente de bom gosto... O senhor tem bom gosto.
— Creio que sim...
— Por exemplo, a Augusta...
E calou-se.
— Que tem a Augusta? perguntou Daniel.
— A Augusta é bonita; e o senhor mostra que tem bom gosto...
— Maliciosa! bem sabe que...
— Sei que o senhor gosta dela.
— Perdão, gostei dela.
Amélia sorriu, mas não respondeu. Não teria acreditado? Daniel suspeitou-o; e quando ia continuar a conversa para deixar-lhe bem claro no espírito que já nada havia dele para com Augusta, a mulher de Valadares chamou a atenção para não sei que volume que estava sobre a mesa.
Como ele lhe explicasse o que era o livro, ela continuou no exame dos objetos que viu sobre a mesa.
Amélia era naturalmente indiscreta e leviana. A visita à casa de Daniel era já um ato de sofrível leviandade; a demora, e a bisbilhotice com que examinava a sala tinha mais graves conseqüências. Que pensaria Daniel se não conhecesse o espírito frívolo da moça?
De repente, Amélia, indo levantar um álbum, viu debaixo um objeto que lhe chamou a atenção; era uma liga. Daniel estava voltado para um espelho e não viu o gesto da moça. Amélia examinou a liga e viu duas iniciais; as iniciais de Augusta.
O leitor lembra-se do episódio da Rua do Ouvidor.
Quando Daniel se voltou para Amélia, viu-a sorrir; aproximou-se e reparou que ela estava com a liga nas mãos. Não lhe ocorrendo a circunstância das iniciais (circunstâncias bem próprias de romance), Daniel arriscou a seguinte observação:
— Fez mal em descobrir isso: é um despojo de vencido.
— Ah! disse Amélia.
E mostrou as iniciais de Augusta.
Daniel empalideceu.
Amélia olhou para ele, atirou a liga sobre a mesa, e disse, caminhando para o espelho:
— Não se assuste; eu sou de segredo.
Daniel tinha recobrado o sangue frio.
— Assustar-me de quê? perguntou ele.
— Não sei, respondeu Amélia, consertando o chapéu.
— Além de que, não é segredo.
— Ah! não é segredo ? Eu cuidei que era... Não me disse há pouco que já não gostava
dela?
— Perdão, disse Daniel aproveitando a aberta que lhe davam essas palavras; eu creio que está enganada.
— Estarei enganada, e o Luís também.
— Quem é o Luís?
— O deputado, respondeu Amélia rindo.
E apertando a mão de Daniel acrescentou:
— Adeus, adeus! tenho pressa. Tenho a sua palavra; só irá na semana que vem. E antes que Daniel lhe oferecesse o braço ou procurasse detê-la, saiu da sala e desceu as escadas.
Daí a pouco, partiu o carro.
XIV
Daniel não pôde conter um gesto de despeito, apenas Amélia saiu.
Tinha vontade de ir agarrá-la e castigá-la de toda a leviandade com que procedeu entrando em sua casa. O incidente da liga, e as meias palavras com que ela o encerrou, tudo estava fervendo no espírito até há pouco tranqüilo de Daniel.
— Que leviana! dizia consigo. Vir à casa de um homem solteiro por um modo tão singular; fazer-me o singular pedido de ir com o marido para fora; revolver os meus móveis; caluniar pessoas a quem abraça... Ai, Valadares, que mulherzinha te caiu nos braços!
XV
Valadares era menos exigente que Daniel.
O que lhe parecia mal em Amélia eram as impertinências da mulher faceira, os caprichos, as imposições, de maneira que tudo acabaria se estivesse algum tempo fora dela... a espairecer.
Cuidou que a viagem a Minas era boa ocasião; mas Daniel não quis adiar a sua viagem para esperá-lo. Amélia soube disso e foi ajudá-lo nos seus desejos pedindo esse favor ao próprio Daniel
Quando no dia seguinte, de manhã, Valadares encontrou a mulher à mesa do almoço, disse-lhe ela:
— Já preparaste as malas?
— Para quê?
— Para a viagem a Minas.
— Só, não vou.
— Vai com o Daniel.
— Mas ele não quer adiar...
— Quer.
— Como sabes?
— Pedi-lho eu.
Valadares tomou a liberdade de abraçar entusiasticamente a mulher diante da criada, cujo pudor lhe aconselhou imediatamente uma excursão à cozinha.
— Não sabes como te agradeço o que fizeste por mim.
— Ah! tens muito prazer em ir a Minas? Queres esquecer-me?
— Eu, lindinha? Nem por sombras. Quero estudar a província, e além disso preciso de tomar ares. O Valadão diz que eu estou caminhando para a cova, e que preciso reforçar a minha constituição. Sabe Deus que saudades levo de ti! Mas tu não queres ir.
— Bem sabes que não posso.
O almoço terminou alegremente; parecia que aqueles dois galés já saboreavam a felicidade de se separarem durante algum tempo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.