Por Machado de Assis (1872)
A presença de Félix era até vantajosa naquela casa. Entre a viúva e o irmão havia um abismo. Eram dessemelhantes nos sentimentos, nos. hábitos de viver, na maneira de pensar. Lívia tinha alternativas de afabilidade e rispidez, ao passo que o. irmão era de uma inalterável paz de espírito. Viana tinha cousas más e boas, sendo que as coisas boas eram justamente as que se opunham ao gênio especulativo da viúva. Era homem essencialmente prático; o seu reino era todo deste mundo. Apesar das suas pretensões a rapaz estouvado e extravagante, tinha hábitos de ordens e economia. Lívia era a este respeito negligente e "meia douda", como lhe chamava o irmão; alheava-se muitas vezes das cousas que a cercavam para subir a um mundo superior e quimérico. O médico era entre ambos uma espécie de mediador plástico. Não pertencia à esfera de nenhum deles, mas sabia a maneira de os conciliar.
Félix encontrou algumas vezes em Catumbi o Dr. Batista, que ele vira dançar com a viúva em casa do coronel. Lívia não parecia prestar-lhe atenção, nem o pretendente magoar-se por isso. Era um modelo de dissimulação e cálculo. Conhecia todos os artifícios da campanha amorosa, a indiferença, o desdém, o entusiasmo, e ate a resignação.
Uma noite em que saíram de lá juntos, Félix procurou sondar-lhe o espírito a respeito da moça.
— Não há, respondeu Batista com indiferença; nem eu pretendo cortejá-la. Mas, se o pretendesse, triunfaria; a paciência é a gazua do amor.
— Não lhe parece que essa sua máxima é imoral?
— Efetivamente é assim; mas e por isso mesmo que estes amores são deliciosos. Quinze dias depois apareceu Viana em casa de Félix. Deu-lhe parte de que a irmã já não ia para a Europa.
— Por que motivo? perguntou Félix.
— É justamente o que eu desejara saber, disse Viana com um gesto de mal contido despeito; mas estou certo de que o não saberei jamais. Aquela minha irmã não me parece ter a cabeça no seu lugar.
— Alguma razão haveria. Estará doente?
— Está de perfeita saúde.
— Quem sabe se.... algum namoro?
— Já pensei nisso, disse Viana; pode ser algum namoro
— Naquela idade as paixões são soberanas. Seria inútil querer dissuadi-las e ainda que não fosse inútil, seria desarrazoado, porque ima viúva moça... Ela amava muito o marido, não?
— Antes de casar, muito; três meses depois, muitíssimo; ao cabo de alguns meses, nem muito nem pouco. Toda essa história é mistério para mim...
— Não lhe vejo mistério nenhum; o casamento é justamente isso acalma os afetos para os tornar mais duradouros. Se a paixão de sua irmã se tornou mais calma...
— Não se trata disso. Lívia não amava menos; aborrecia o marido. . Mas por que nos demoraremos nestas cousas que não podemos explicar? A única explicação que lhe acho é o seu caráter esquisito. O senhor não imagina bem que eterna- variação de gênio é aquela moça. Há dias em que se levanta meiga e alegre, outros em que toda ela é irritação e melancolia. Ninguém a entende, e eu menos que ninguém.
— Não esteja o senhor a exagerar uma cousa naturalíssima. Todos temos essa mesma alteração de humor. Há manhãs tristes e aziagas. Quer que lhe dê um conselho? Não a contrarie nunca, é o melhor.
— Mas o senhor há de concordar que quando a gente já preparava os beiços para ir saborear a vida parisiense..
— Há tempo para tudo, disse Félix, e o senhor ainda está moço. Iremos juntos daqui a um ano.
— Palavra?
— Palavra.
CAPITULO VI / DECLARAÇÃO
— ENTÃO, já não vai para a Europa? perguntou Félix à viúva nessa mesma tarde.
— Quem lho disse?
— Seu irmão.
— Desfiz a viagem, bem contra a vontade dele, que me chamou caprichosa e não sei que mais. Talvez tenha razão. Eu mesma não me entendo às vezes. Esta viagem, que era um desejo ardente. acha-me agora fria. Que lhe parece isto?
— Alguma razão há de haver, ponderou o médico e eu sentiria se o motivo…
— Se o motivo? repetiu a moça.
Calaram-se e ficaram algum tempo a olhar um para o outro A explicação, que já os lábios não pediam nem davam, começaram a pedi-la e a lê-la os olhos de ambos. Lívia baixou os seus.
— Vamos para o terraço, disse ela por fim; a tarde está bonita
A tarde estava realmente linda. Félix, entretanto, cuidava menos da tarde que da moça. Não queria perder o ensejo de lhe dizer, como se fora verdade, que a amava loucamente. Encostada ao parapeito do terraço que dava para a chácara, a viúva simulava contemplar os esplendores do ocaso; na realidade, afiava o ouvido para escutar a confissão amorosa. Félix olhava para ela e não ousava romper o silencio. Quase a soltar dos lábios a palavra decisiva, a si mesmo perguntava se ela não pesar no seu destino mais do que imaginava então, e se daquele capricho de momento não resultaria o mal de toda a sua vida.
Mas a hesitação foi curta; Félix ia enfim lançar a sorte, quando um escravo apareceu no terraço, a anunciar a visita do Dr. Batista.
— Não quero falar a ninguém, João, disse a moça; estou incomodada.
— Que resposta é essa? perguntou Félix, baixinho, quando o escravo voltou as costas.
— João! disse a moça.
O escravo voltou.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.