Por Machado de Assis (1872)
— E dizem bem; a natureza fala, mas fala como uma alma deve falar a outra, sem intermédio dos lábios. Ora, eu tenho notado que o falar é perigoso para as nossas ilusões; uma palavra destrói às vezes um mundo.
Augusta mordeu os lábios.
— Veja, disse Daniel, colhendo uma flor agreste que lhe ficava ao alcance da mão. Há nada mais do que isto? Esta flor diz mil coisas justamente porque não pode articular o que me diz: o perfume é a sua linguagem; esta cor branca ligada com esta cor azul formam uma frase que eu compreendo sem explicar. A coitadinha desta flor não pode fazer mal; mas, se eu por um capricho qualquer, achasse na sua linguagem alguma coisa que me ofendesse, tinha o remédio nas mãos; destrui-la-ia assim...
E Daniel esmagou a flor entre os dedos.
Augusta olhou para a flor e para Daniel. Nem um gesto de surpresa ou de despeito; apenas sorriu, dizendo:
— Mas, ainda esmagada entre as suas mãos, essa flor vale mais que o senhor, porque... Luís aproximou-se do grupo quando Augusta ia continuar.
— D. Augusta, disse ele, sua mãe quer falar-lhe.
Augusta foi ter com a mãe.
— Está um bonito dia, disse Luís a Daniel.
— Está, respondeu o rapaz distraído.
E voltou os olhos para Augusta que se afastava.
Luís viu o gesto e procurou adivinhar o olhar de Daniel. Palpitou-lhe o coração mais fortemente; que haveria entre eles?
Alguns minutos durou o silêncio; no fim deles, Daniel voltou-se para Luís e encetou uma conversa; Luís respondeu por monossílabos ao interlocutor, até que o jantar veio pôr termo à situação esquerda em que se achavam os dois.
XIII
Daniel levantou-se um dia com a idéia de fazer uma viagem a Minas. Sentia que Augusta já o prendia mais do que convinha ao seu coração; nasciam-lhe forças até então ignoradas. A indiferença da moça fazia-lhe supor que lutava em vão; temia o desgosto. Resolveu viajar.
Valadares recebeu uma manhã a seguinte carta:
Valadares,
Vou para Minas amanhã. Não sei se terei tempo de ir fazer-te as minhas despedidas. Recomenda-me à tua senhora. Teu do coração
Daniel.
Apenas Valadares recebeu a carta, foi imediatamente ter com o amigo.
— Vais para Minas?
— É verdade.
— Que tempo te demoras lá?
— Uns cinco meses. Queres alguma coisa?
— Estava capaz de ir contigo.
— E tua mulher?
— Fica.
— Pois tens ânimo?
— Pois então! Eu te digo; tenho até necessidade de ver-me livre por algum tempo de semelhante algoz...
— Valadares, isso não é bonito...
— Seja bonito ou não, eu vou contigo; mas só te peço uma coisa.
— O que é?
— Que adiemos a viagem para a semana que vem.
— Impossível.
— Por quê?
— Tenho minhas razões.
Valadares fez uma careta de desgosto; insistiu, mas Daniel resistiu ao convite.
— Então, não poderei ir, disse Valadares.
— Não sei por quê.
— Ora! ir só é aborrecido. Contigo, a coisa era outra. Olha lá; e se fôssemos a Paris?
— Isso mais tarde.
A conversa durou pouco mais. Valadares saiu desconsolado. Daniel continuou a dar as suas ordens precisas para a viagem.
Foi nessa mesma tarde à casa de Augusta despedir-se da família e oferecer-lhe os seus préstimos em Minas. A mãe de Augusta agradeceu-lhos e ao mesmo tempo participou que, acabada a sessão do Parlamento, partiriam para o Norte; e, portanto, só no ano seguinte se poderiam encontrar.
— Até para o ano, disse Daniel tranqüilamente.
Augusta não manifestou surpresa, nenhum desgosto com a notícia da viagem de Daniel; conversou alegremente com ele sobre coisas ínúteis; tocou um pouco de piano e despediu-se dele como se tivesse de vê-lo no dia seguinte.
Às seis horas, estava Daniel em casa, de volta da casa de Augusta. Mas daí a cinco minutos, parava-lhe um carro à porta.
— Quem é ? perguntou ele ao criado.
O criado foi ver e voltou.
— É uma senhora, vem subindo.
Pouco depois entrou-lhe na sala Amélia Valadares.
— Desculpe se venho assim sozinha à casa de um homem solteiro.
— Desculpar? disse Daniel, convidando Amélia a sentar-se. Não há que desculpar; há que agradecer.
— Então, como vai de saúde?
— Assim, assim... creio que preciso fazer uma viagem a Minas Gerais, e já mandei fazer lhe minhas despedidas por intermédio de Valadares.
— Ele me disse isso, e é justamente por causa desta viagem que eu venho aqui. Amélia sorriu-se com ar sonso.
Daniel não atinou com a ligação da viagem a Minas e a visita da mulher de Valadares.
— Venho reforçar, disse Amélia, um pedido de meu marido.
Daniel já se não lembrava que pedido era.
— Um pedido? disse ele. Qual?
— Valadares entrou agora lá em casa muito triste; perguntei-lhe o que tinha e contou-me que, desejando ir a Minas com o senhor, não pudera obter que o senhor adiasse a viagem até a semana que vem. Ora, é isso justamente o que lhe venho pedir. Desta vez, foi Daniel quem sorriu.
— Não podia, respondeu ele, adiar a viagem há tanto preparada; mas, à vista do pedido, não posso recusar o adiamento. Diga a Valadares que pode contar comigo.
— Agradeço-lhe o obséquio, disse Amélia muito satisfeita, e creia que favorece a meu marido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.