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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Pança farta e pé dormente

Por Gregório de Matos (1696)

25
Empinou-se-lhes a ruça,
e de quatro companheiros
sem mais outros cavaleiros
fizeram a escaramuça:
o General se debruça
para metê-los bem nela
na janela com cautela,
porém usou de revoltas,
porque metendo-os nas voltas,
mandou cerrar a janela.

26
A escaramuça acabada
fizeram a cortesia,
e todo o Povo se ria
vendo a janela fechada:
nas voltas não viram nada,
que com notável trabalho
no ay hombre cuerdo a cavalo,
porém depois que acabaram,
e o General não acharam,
ficaram de vinha-d'alhos.

27
Cos rostos descoloridos,
desesperados agora
iam por dentro, e por fora
da própria cor dos vestidos:
os que são desvanecidos,
e de néscia presunção
presumem mais, do que são,
emendem seus pensamentos,
que para seus desalentos
e vivo o Senhor D. João.

28
Não presumam, porque têm,
que são mais que os pobres nobres,
pois há muitos homens pobres,
mui bem nascidos também:
ao pequeno não convém
por pequeno desprezar,
que se este quiser falar,
achar pode algum defeito
que nenhum há tão perfeito,
em quem se não pode achar.

29
Seguia-se um cavaleiro
ao famoso André Cavalo,
que levou sem intervalo
de cada golpe um carneiro:
também foi aventureiro
de um prêmio: mas com defeito
dava ao corpo um grande jeito,
e ficou passado, e absorto,
de que fosse ao prêmio torto,
e o prêmio a outro direito.

30
Ao famoso Brás Rabelo
razão é de mestre o apode,
que dar dias santos pode
nesta arte, ao que for mais belo:
e se com louco desvelo,
do que digo, algum se abrasa,
escute a razão, que é rasa,
e verá, se faz espantos,
que dar possa os dias santos,
quem tem Domingos de casa.

31
Nas lanças, que pôs mui bem,
teve de prêmios ganança,
e certo, que pela Lança
não o há de vencer ninguém:
dos cavaleiros, que tem
modernos hoje a Bahia,
leva Brás a primazia,
porque não há nesta praça,
quem se ponha com mais graça,
fortaleza, e bizarria.

32
Também aquela fatal
emulação de Mavorte,
para os inimigos forte
para os amigos Leal,
aplauso merece igual,
pois nesta cavalaria,
se aos mestres não excedia,
por mais antigos na arte,
aos Modernos desta parte
ele leva a primazia.

33
Também no Machado falo,
que e razão por ele acuda,
pois sempre ao cavalo ajuda,
mas não o ajuda o cavalo:
inda assim posso louvá-lo,
dando-lhe vários apodos,
porque conheço em seus modos,
e mui bem posso afirmar,
que nisto de cavalgar
leva vantagens a todos.

34
Em mau cavalo corria,
mas um prêmio mereceu;
veja-se, quem o perdeu,
que cavaleiro seria:
aposto, que alguém diria,
vendo, que as carreiras passa
sem fortaleza, nem graça,
que o Moço com seu sendeiro
é nos fumos cavaleiro,
porém não cá para a praça.

35
Outro cavaleiro airoso
andou na festividade,
e vi na velocidade,
com que corre, ser Veloso:
por cavaleiro famoso
o Povo o aclamou de novo,
eu só admirando o louvo,
e acho discrição calar,
que é escusado falar,
quando por mim fala o Povo.

36
O Ripado valeroso
andou bem, porém sem sorte,
porque tem pouco de forte,
se bem tem muito de airoso:
perdeu pouco venturoso,
mas sem nenhum sentimento,
um prêmio, que Brás atento
ganhou, porque não se atreva
a aquilo, que também leva
com as palavras o vento.

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