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#Contos#Literatura Brasileira

Rui de Leão

Por Machado de Assis (1872)

A morte respeitava-o. Um dia, saindo fora do acampamento, encontrou um oficial paraguaio.

- Senhor - disse ele -, sou inimigo: mate-me.

O paraguaio disparou-lhe um tiro, que lhe não fez mal nenhum. Acudiu a companhia de Rui e o trouxe para o acampamento.

Desesperado, voltou o homem à Corte e aqui ficou, até que se deu o acontecimento que vou resumir e com o qual se conclui a história.

Travou Rui conhecimento com um médico homeopata, Álvares Melo; era excelente conhecedor da ciência e Rui gostava de conversar sobre medicina.

Um dia conversando em casa de Bernardes disse Rui ao Doutor Álvares:

- Nunca pude compreender o principio homeopático.

- Por quê?

- Acho ele contraditório.

- Não é - disse Álvares -; os maiores luminares da alopatia escreveram máximas que apoiam o principio homeopático.

- Acho isso um sofisma.

- Não é, e vai ver.

Álvares entrou a explicar detidamente o sistema homeopático ao amigo; acumulou exemplos; raciocinou com calma e ciência, pois era homem que sabia o que dizia.

Rui ficou um tanto abalado.

Foi para casa e estudou o sistema homeopático com o afinco que lhe era peculiar, sempre que queria saber profundamente uma cousa.

Dentro de pouco estava convencido.

Mas então que disse ele?

- Tupã! És tudo; mas erraste. Fizeste-me imortal; mas deste ao mundo a homeopatia. Venço-te com as tuas armas.

Similia similibus curantur; estás vencido.

Bebeu o resto do elixir do pajé.

No dia seguinte morreu.

Assim acabou este grande homem, após quase três séculos de existência, tendo colhido louros na guerra, na ciência e no parlamento; feliz no jogo e nos amores; mimoso da fortuna; homem, enfim, que provou praticamente que a morte, longe de ser um mal, é um corretivo necessário aos aborrecimentos da vida.

Imitemo-lo nas façanhas e no amor ao estudo; não no desejo de ser imortal; e convençamo-nos de que o melhor elixir de imortalidade não vale os sete palmos de terra do Caju.

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