Por Machado de Assis (1864)
Durou muitos minutos esta cena muda. Finalmente, Eduardo levantou-se e dirigiu-se para o leito da finada. Aí, com os olhos rasos de lágrimas, disse para o cadáver:
— Perdoa-me! Adeus!
E saiu da casa, louco, desesperado.
IX
Eduardo andou muitas horas sem saber de si. Acompanhava-o o espectro de Sara. Ouvia-lhe as palavras; parecia vê-la morrer, esperando embalde por ele. De um triste jogo, em que a sua vaidade entrara por muito, resultaram tão funestas conseqüências. Sua dor era sincera; seu terror verdadeiro. Até ali, de seus caprichos dom-juanescos só resultaram, quando muito, desgostos passageiros que o tempo ou outras circunstâncias atenuavam e faziam desaparecer. Mas no dia em que se deitara a amar deveras, ou antes, no dia em que desejou amar, as vítimas do seu capricho sucumbiram. Via-se autor de uma morte; e os espíritos da ordem de Eduardo podem cometer todas as ações covardes, mas não resistem a um espetáculo destes. Fazer perder-se uma donzela ou separar um casal, é uma façanha mais ou menos celebrada, mais ou menos aceita; mas impelir para a sepultura um ente a quem se enganou, eis o que faz estremecer os audazes. Eduardo, preso de remorso, apreciava toda a extensão do abismo em que caíra.
Os sentimentos vivos da dor e do remorso, as idéias tumultuárias e cruéis, encheram por longo tempo o espírito e o coração de Eduardo. Ora parecia-lhe dever fugir à vida e ir alcançar a donzela no caminho da eternidade, para pedir-lhe perdão. Ora julgava que devia ficar neste mundo, para purgar em longo sofrimento o crime que cometera.
Nesta incerteza, neste suplício moral, andou até que se achou diante do mar. Sentou-se pensativo em uma pedra. Era quase noite. Muita gente que o viu supô-lo doido. Estava ali, havia já alguns longos minutos, quando um homem parou e procurou descobrir-lhe as feições. Eduardo tinha o rosto fechado nas mãos. Depois de alguns instantes o homem exclamou:
— Eduardo!
— Que é? disse o moço, estremecendo.
Voltou e reconheceu o interlocutor;
— Pedro Elói!
Eduardo caiu-lhe nos braços.
Depois de alguns momentos, Pedro Elói perguntou;
— Que há?
— Sara morreu!
— A donzela?
— Sim!
— Desgraçado! É obra tua!
— Ah! não aumentes a minha dor e o meu terror; bem sei o que fiz; vejo a enormidade do meu crime.
E o moço derramava sinceras lágrimas.
Pedro Elói continuou:
— Se tivesses atendido aos meus conselhos, tinhas poupado este desgosto e este remorso. Bem te dizia eu que não iriam a bons resultados as tuas paixões simuladas. Não quiseste crer, ou antes a tua vaidade recusou-se a crer. Enfim, vê se eu tinha razão! Houve um silêncio entre ambos.
— Está acabado tudo; agora só resta uma coisa; é seres o carrasco de ti mesmo, como aquele pai do teatro latino. Eia! se alguma coisa pode agora levantar-te aos olhos do mundo e aos teus é a volta aos deveres morais. Sirva-te a morte de Sara, tua vítima, como ponto de partida para a tua regeneração.
E dizendo isto, Pedro Elói arrastou Eduardo.
Pedro Elói, recebendo em Petrópolis a carta de Eduardo, receou pelos resultados dos acontecimentos narrados nesta carta. Logo que pôde pôs-se a caminho para ver se ainda podia fazer alguma coisa. Chegando à cidade foi procurar Eduardo; disseram lhe que partira para S. Domingos.
Como saberia ele a casa de Sara? Ninguém podia dizer-lhe em casa de Eduardo. Apesar de tudo, tomou o caminho da barca de S. Domingos e dirigiu-se para lá. Foi quando encontrou Eduardo.
No sétimo dia ao da morte de Sara, Pedro Elói conseguiu levar Eduardo para Petrópolis.
Eduardo não quis deixar de ir orar pela vítima, a um canto da igreja, na missa do sétimo dia. Todos viram o moço ajoelhado, com o resto coberto; foi o primeiro que entrou e o último que saiu.
X
A obra de Pedro Elói teve feliz resultado. Eduardo converteu-se ao dever, depois de um longo suplício.
Maria Luísa, cuja alma também morrera, refugiou-se no mais completo isolamento. Quanto à família de Sara, nunca mais teve um momento das alegrias puras que a presença da querida menina lhe dava.
Eduardo, inteiramente outro do homem que fora antes, pôde desligar-se da companhia do amigo Pedro Elói sem perigo para si.
De oito em oito dias fazia uma peregrinação ao cemitério de Maruí, onde repousavam os restos daquela que o amara até à morte.
Impôs-se esta visita, não só como dever, mas até para ter sempre à memória a tragédia doméstica em que fora protagonista.
De quando em quando, os dois amigos visitavam-se, mas comunicavam-se sempre por cartas, em que um mostrava toda a sua satisfação em ter convertido um homem e o outro a maior saudade do bem que pudera ter e a esperança de que a sua conversão teria em paga na eternidade a vista eterna da alma bem-aventurada de Sara.
CONCLUSÃO
Depois de contar esta história, o leitor e eu tomamos a nossa última gota de chá ou café, e deitamos ao ar a nossa última fumaça do charuto.
Vem rompendo a aurora e esta vista desfaz as idéias, porventura melancólicas, que a minha narrativa tenha feito nascer.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Questão de vaidade. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1864.