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#Anedotas#Literatura Brasileira

Qual dos dois

Por Machado de Assis (1872)

Daniel dizia todas estas palavras com uma graça tão respeitosa que desarmava a moça; e no entanto já tinha o direito de deixá-la à janela e voltar à sala.

Quando ele lhe falou nos olhos do capricho, Augusta olhou espantada para ele; depois, respondeu:

— Os olhos do meu capricho podem ser maus; em todo caso, porém, não usarei dos óculos do seu despeito.

A alusão era clara; Daniel não contava com esta carga de baioneta.

— O meu despeito? disse ele; já sei ao que alude. Eu poderia calar-me, mas acaso é digno de nós deixar sem resposta uma alusão tão graciosamente feita? D. Augusta, eu repito o que lhe disse; amo-a, quisera recebê-la em casamento; mas a sua recusa é para mim tão sagrada que eu nem quero discuti-la; e inspira-me o mesmo sentimento que inspiraria a Virgem Maria se eu lhe pedisse uma graça e ela ma negasse; resigno-me sem pensar mais nisto.

Foi uma felicidade que entrassem neste momento Valadares e a mulher. Augusta foi abraçar Amélia, enquanto Daniel adiantou-se para ir apertar a mão a Valadares.

XII

Protestos de resignação em amor são como sentenças escritas na areia; desfazem-se ao primeiro vento. Daniel, que era o tipo da indiferença, começava a sentir a dolorosa convicção de que lhe seria difícil viver sem aquela mulher. Quando chegou a casa, recordou todos os episódios da noite, repetiu entre si as palavras trocadas com Augusta, arrependeu-se das que proferira; por um instante, teve idéia de ir-lhe pedir perdão. O tiro da peça ainda o achou acordado.

Se durante esse tempo, Daniel pudesse estar no quarto de Augusta, veria a luz da vela confundir-se com os raios da manhã. A moça dormiu apenas duas horas e ainda o seu sono foi sobressaltado. Seriam as mesmas impressões? Eu poderia, no interesse do romance, deixar em claro este ponto; mas prefiro dizer francamente aos leitores os sentimentos dos meus personagens.

Augusta não velara pelo mesmo motivo que Daniel. Era despeito. A orgulhosa Augusta sentia-se envergonhada com a cena que se passara durante a noite. Humilhara-se com a fácil resignação de Daniel; era a sua primeira derrota.

O seu primeiro pensamento foi um pensamento vulgar; lembrou-se de vingar-se do moço, vendo-o a seus pés. Mas, para alcançá-lo, não seria preciso conceder-lhe esperanças, e estas não exprimiam a confissão de um triunfo, que lhe parecia odioso? Cálculos inúteis, dirá o leitor de boa fé, os desta moça provinciana, que fazia do amor um jogo de xadrez. Que importa? eu narro a verdade. Confesso que era mais bonito, mais juvenil, mais digno, resolver simplesmente pelo coração, amar ou dar de tábua ao pretendente, conforme lhe falasse o sentimento. Mas, se assim fosse, o romance acabaria e seria outra coisa que não a história que estou relatando.

Quando Augusta se levantou tinha os olhos pesados; a vigília deixara-lhe impressos os seus vestígios. E eram belos os seus olhos, não sei até se mais poéticos, com a languidez do cansaço, do que com a viveza natural. Direi mais: aquele aspecto tornara-a mais mulher, porque Augusta tem no olhar e nas feições um quê de enérgico e severo, que indicava antes um caráter masculino.

Passaram-se dias sem que os dois se encontrassem: nem Daniel foi à casa de Augusta, nem esta se mostrou à janela.

Numa segunda-feira, apareceu Valadares em casa de Daniel.

Convidou-o para um passeio à Tijuca, em companhia de várias famílias.

— A Augusta vai, disse ele,

— Que tenho eu com isso? perguntou Daniel.

Valadares sorriu.

— Que tens com isto? cuidei que tinhas alguma coisa...Não se amam?

— Ela tem-me ódio.

— É caminho para o amor, ouvi dizer; e tu?

— Desprezo.

— Dizem que também é um atalho que vai ter à grande cidade do conjugo vobis.

— Para a tua cidade! disse Daniel, sorrindo maliciosamente.

Valadares suspirou.

— Para a minha cidade, tens razão! Mas antes não fosse!

— A coisa vai mal?

— Vai o pior possível.

— Hão de acomodar-se... Tu tratarás de ver uma compensação fora das fronteiras conjugais; e ela contentar-se-á com as modas novas... Escusas de franzir a testa; é esta a tua convicção e a minha. O casamento, meu caro Valadares, é uma loteria; o teu bilhete saiu branco. É dinheiro perdido, ou antes dinheiro ganho, porque ainda que percas tudo, ainda te fica o dinheiro...

Valadares engoliu dificilmente a observação de Daniel, falou outra vez no passeio à Tijuca e assentou-se que Daniel iria.

O passeio fez-se daí a oito dias.

Entre outras pessoas, achavam-se lá Augusta e Luís.

Daniel ignorava os sentimentos de Luís em relação a Augusta; demais, conhecia-o pouco. Na primeira ocasião que pôde alcançar, Daniel perguntou a Augusta se estava com a mesma resolução em relação a ele.

— A mesma, respondeu Augusta.

Daniel inclinou-se e começou a falar da beleza do sítio em que se achava. Augusta ouviu-o não sem espanto.

— Tem grande amor à natureza? perguntou ela.

— Imenso. A natureza não fala.

— Os poetas dizem o contrário, retorquiu a moça sorrindo.

(continua...)

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