Por Gregório de Matos (1696)
CELEBRA O POETA À HUMA GRACIOSA DONZELLA, E NÃO MENOS FORMOSA DE
MARAPE CHAMADA ANTONIA.
1 Vi-me Antônia, ao vosso espelho,
e com tal raiva fiquei,
que não sei, como julguei
por linda, a quem me faz velho:
mas tomei melhor conselho
de então não enraivecer,
que se do sol ao correr
vai murchando o Girassol,
que muito, que o vosso sol
me fizeste envelhecer.
2 O com que mais me admirais,
é, que com tanto arrebol
para vós não sejais sol,
pois sois flor, e não murchais.
Como os passos naturais
do Sol pela esfera pura
mo legam toda a criatura,
e o sol sempre se remoça,
assim mesmo não faz mossa
em si o sol da formosura.
3 Tantos anos sol sejais,
que com giros soberanos
enchais dos mortais os anos,
e os vossos nunca os enchais:
a todos envelheçais,
como é próprio na oficina
da luz sempre matutina,
sintam do sol as pisadas
as idades mais douradas,
vós sejais sempre menina.
A BRAZIA DO CALVARIO OUTRA MULATA MERETRIZ DE QUEM TAMBEM
FALLAREMOS, QUE ESTANDO EM ACTO VENEREO COM HUM FRADE
FRANCISCANO, LHE DEO UM ACIDENTE A QUE CHAMÃO VULGARMENTE
LUNDUZ, DE QUE O BOM FRADE NÃO FEZ CASO, MAS ANTES FOY
CONTINUANDO NO MESMO EXERCICIO SEM DESENCAVAR, E SOMENTE O FEZ,
QUANDO SENTIO O GRANDE ESTRONDO, QUE O VAZO LHE FAZIA.
1 Brásia: que brabo desar!
vós me cortastes o embigo,
mas inda que vosso amigo,
não vos hei de perdoar:
pusestes-vos a cascar,
e invocastes os Lundus;
Jesus, nome deJesus!
quem vos meteu no miolo,
que se enfeitiçava um tolo
mais que co jogo dos cus?
2 O Fradinho Franciscano
sendo um servo de Jesus,
que Ihe dava dos Lundus,
se é mais que os Lundus magano?
tinha ele limpado o cano
quatro vezes da bisarma,
e como nunca desarma
tão robusta artilharia,
dos lundus que Ihe daria,
se ele estava co'aquela arma?
3 Chegados os tais lundus
os viu no vosso acidente,
que se os vê visivelmente
também Ihe dera o seu truz:
desamarrados os cus,
porque o Frade desentese,
foi-se ele, pese a quem pese,
e vós assombrada toda,
perdestes a quinta foda,
e talvez que fossem treze.
4 O melhor deste desar
é, que o Padre, que fodia,
quando o jogo Ihe acudia,
vos tocava o alvorar:
vos enforcando no ar
esse como a balravento,
então o Frade violento
entrava como um cavalo,
e o cono com tanto abalo
zurrava como um jumento.
5 Eu não vi cousa mais vã,
do que o vosso cono bento,
pois com dous dedos de vento
roncava uma Itapoã,
estava agora louçã,
crendo, que salva seria
toda aquela artilharia,
mas vós o desenganastes,
quando o murrão Ihe apagastes
com chuva, e com ventania.
6 Se achais, que vos aniquilo,
porque mais pede inda o caso,
digo, que há no vosso vaso
as catadupas do Nilo:
e se o vaso vos perfilo
com rio tão hediondo;
crede, que o Nilo redondo
com todas as sete bocas
tem ruído, e vozes poucas
à vista do vosso estrondo.
7 Ninguém se espanta, que vós
venteis com tal trovoada,
porque de mui galicada
tendes no vaso comboz:
é caso aqui entre nós,
que se o membro é uma viga,
em tocando na barriga
uma enche, e outra extravasa,
e vaso, que enche, e vaza,
como de marés se diga.
8 Tantas faltas padeceis
fora do vaso, e no centro,
que nada ganhais por dentro,
por fora tudo perdeis:
já por isso recorreis
ao demo, a quem vos eu dou,
e tanto vos enganou,
que o Frade o demo sentindo,
dele, (e de vós) foi fugindo,
e co demo vos deixou.
9 O demo, que é mui manhoso,
veio então a conjurar-vos,
que à força de espeidorrar-vos
veja o mundo um Frei Potroso:
coitado do religioso
corria com reverência,
nos culhões tendo esquinência
de vossa ventosidade,
mas se a casta tira o Frade,
sei, que há de ter paciência.
A HUMA DAMA QUE POR UM VIDRO DE ÁGUA TIRAVA O SOL DA CABEÇA.
1 Qual encontra na luz pura
a Mariposa desmaios,
tal de Clóri sente a raios
assaltos a formosura:
remédio a seu mal procura,
mas com ser a doença clara,
já eu Iha dificultara,
temendo em tanto arrebol,
que tirar da testa o sol,
lhe custa os olhos da cara.
2 Posto que o sol não resista,
temo, que ali não faleça,
porque se ofende a cabeça,
nunca desalenta a vista:
nesta pois de ardor conquista
vejo a Clóri perigar,
pois querendo porfiar,
das duas uma há de ser,
ou não há de ao sol vencer,
ou sem vista há de ficar.
3 Mas Clóri assim achacada
que está, é cousa sabida,
menos do sol ofendida,
que da lua perturbada:
que esteja Clóri aluada,
é inferência comua,
pois se ao sol da fonte sua
perturbam nuvens de ardores,
quando ao sol sobem vapores,
é nas mudanças da lua.
4 Se Clóri se persuadira,
que só da lua enfermara,
da cabeça não curara,
mas aos pés logo acudira:
se o calor porém Ihe inspira,
que o seu mal todo é calor,
pois o maior ao menor
por razão deve prostrar,
para as do sol sepultar,
procure as chamas do amor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.