Por Gregório de Matos (1696)
6
Nestes dias festivais
com suma gala, e grandeza
assistiu toda a nobreza
dos homens mais principais:
Ministros, e Oficiais
de guerra e Damas mui belas,
que em palanques, e janelas
mostravam com arrebol,
que estando ali posto o sol,
bem podiam ser estrelas.
7
Posto o sol ali se via
porém com notável gosto,
quando vi, que era o sol posto,
mais o Terreiro luzia:
dois sóis postos na Bahia
vi com diferença atroz,
um Saturno, que se pôs
outro posto na janela,
Sol de luz mais clara, e bela,
que hoje nasce para nós.
8
Desterrando sombras mil
de um sol, que causou desmaios,
nasce com benignos raios
este Sol para o Brasil:
oh quem tivera a sutil
de Apolo Lira discreta,
da Fama aguda Trombeta,
para que pudesse ousado
sem temor, nem perturbado
descrever este Planeta.
9
Mas é fraco o meu engenho,
para de um Sol sem desmaios
querer ventilar os raios,
quando olhos d'águia não tenho;
e se a tão sublime empenho,
(onde o mais sábio delira)
meu pensamento subira,
logo dessa esfera clara
como Faetonte rodara,
ou como Ícaro caíra.
10
Quando o Planeta maior
à vista humana se expõe,
é, que a seus raios se opõe,
atrevido algum vapor:
e se neste sol melhor
nenhuns eclipses se vêem,
não se atreverá ninguém
(sem ter de néscio desmaios)
querer contemplar os raios
esclarecidos, que tem.
11
Quando da estéril Mulher
nasceu o maior do mundo,
admirações, e profundo
pasmo veio a gente ter:
e se com João nascer
houve tanta admiração:
à Bahia outro João
sol de claro nascimento
nasce com merecimento
pare a mesma suspensão.
12
E como não pasmarei
eu, e este Povo também
de ter por General, quem
cetro merece de Rei?
pois a ventura, e a lei
divina dispôs, Senhor,
o seres Governador,
contudo sabemos nós,
que um foi dos vossos Avós
de Pedro progenitor.
13
Daquele em tudo primeiro
João, em nada segundo
sois, e bem conhece o mundo,
descendente verdadeiro:
também da casa de Aveiro
muita nobreza alcançais:
Alencastre vos chamais
de Duarte Inglês potente
claríssimo descendente,
Silva sois, e nada mais.
14
Com branca, e encarnada pluma
galã vestido de verde,
que inda a esperança não perde
do neto da clara espuma:
Capitão de graça suma
André Cavalo saiu:
logo o Povo se sentiu,
porque de incidente novo
os olhos levou do Povo,
quando no Terreiro o viu.
15
Num branco bruto corria
mais ligeiro do que o vento,
tanto que co pensamento
correr parelhas podia:
veloz desaparecia
das pernas ao leve abalo,
e não podia julgá-lo
o Povo, que ali se achava,
se era vento, que levava
pelos ares o Cavalo.
16
Pôs André com bizarria
todas as lanças mui bem,
e inda assim não faltou, quem
murmurasse todavia:
soube ele da zombaria,
que se fez, e persentiu,
quem fora, o que ali se riu,
e no outro dia com brio
um cartel de desafio
pôs, mas ninguém lhe saiu.
17
No cartel, que pôs, mostrava,
que a qualquer que julgassem
três lanças, que se tirassem,
mil cruzados ofertava:
o delinqüente aceitava
o desafio esta vez,
porém que sem interês
com gosto perder queria
nesta contenda, e porfia
não só mil cruzados, três.
18
Pede licença, ao Senhor,
que no nome a graça traz:
mas ele como sagaz
o aconselha com primor:
diz-lhe, que fora melhor
esta contenda escusar;
porém o Mancebo alvar
fiado em ser cavaleiro,
e fiado em ter dinheiro
não quis o pacto aceitar.
19
Porque se não vence não
(dizia o Moço Magnata)
nem por ouro, nem por prata
o seu sangue de Aragão:
e vendo o Senhor D. João,
que se a licença negava,
a André Cavalo ultrajava,
pois podiam presumir,
se ao campo o não vissem ir,
que o dinheiro lhe faltava:
20
Lhe disse, que não só três
(se corressem) mil cruzados,
senão que depositados
tinha André Cavalo dez:
mas o moço Aragonês
vendo esta resolução,
por temer a perdição,
a que punha o seu dinheiro,
toma conselho primeiro
co reverendo Frisão.
21
O Padre, que sem estudo
as Leis entende civis,
e com manhosos ardis
obra mal, e sabe tudo:
lhe diria mui sisudo
com aspecto venerando,
rindo-se de quando em quando,
que assim seus enganos lavra,
não se lhe dê da palavra,
diga, que estava zombando.
22
Assim foi, que o desafio
veio a parar em burrada,
que a palavra não val nada,
se na ocasião falta o brio:
e para que com desvio
não fossem mais inimigos,
evitando alguns perigos
em boa paz os chamou
o General, e tratou,
de que fossem muito amigos.
23
Depois das pazes enfim
lhes pediu, que cavalgassem,
e um par de lanças tirassem
cada qual em seu rocim:
ele lhe disse, que sim,
e de improviso avisou
ao Irmão, que não tardou
em trazer-lhe bons arreios,
cavalos, selas, e freios,
e com eles se embarcou.
24
Num dia dos derradeiros
ao Terreiro os dous chegaram,
e ambos se separaram,
logo dos mais cavaleiros:
cuidam, que são os primeiros
Fidalgos, que a terra tem,
e néscios não antevêem,
que diz o Povo, e não erra,
se são Fidalgos da terra,
na terra há outros também.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Pança farta e pé dormente. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.