Por Machado de Assis (1872)
O orador: Nada valho, mas sinto em mim que posso ajudar o edifício da grandeza nacional, não como o arquiteto que traça o plano, mas como o servente que carrega a pedra (Aplausos). Para construir esse edifício, senhores, que tem feito o governo? Onde estão os seus planos? Que materiais possui? Com que operários conta? Não aparece nada disto.
Agarrados às pastas, os nobres ministros só apreciam o poder pelos prazeres que ele dá, prazeres frívolos e indignos de cidadãos de um grande país, em vez de se consagrarem todos, e a todas as horas, e com todas as forças, ao desenvolvimento da herança que receberam, senhores, e que deverão passar aos nossos filhos!!
Aqui houve uma tal explosão de protestos e aplausos, que o orador foi obrigado a calar-se algum tempo, e o presidente, a agitar a campainha, verdadeira inutilidade no parlamento, porque, quando todos gritam, a campainha tem pouca força moral para acalmar a tempestade.
Serenada aquela, depois de trocados alguns ditos mais ou menos enérgicos, continuou o nosso orador, e daí em diante não houve cena igual, porque a eloquência de Rui de Leão arrebatava amigos e adversários, e todos estavam pendentes dos lábios do novo Demóstenes.
Não resisto à tentação de transcrever das memórias secretas (porque os anais não trazem os discursos de Rui), a peroração do famoso discurso. Ei-la:
Tenho vivido muito, senhores, e conheço profundamente os homens e as cousas. A ciência dos Estados não é uma vã palavra; estudei-as nas obras dos homens públicos e no estudo pessoal dos acontecimentos. Aquele grande e imortal
Catão é para mim o tipo da probidade política, o modelo dos partidários, a consolação das causas vencidas, a lição dos povos, o espantalho dos déspotas, o espelho dos cidadãos (bravo!), a glória da humanidade, o emblema do passado que desmoronou, a esperança do futuro que se levanta! (Aplausos.)
Dir-me-eis, talvez, senhores, que eu devia imitar aquele grande homem recorrendo à morte? (Não! Não!) Não o faço, não poderia fazê-lo! Demais, a causa da verdade estará assim perdida? Eu vejo sentados nas cadeiras ministeriais homens que traem os seus deveres e são capazes de vender a consciência por um prato de lentilhas (Sussurros!); mas, senhores, não nos iludamos; por ser Catão, é preciso resistir ao despotismo de César, e onde está César? Alguém conhece entre os seus adversários um César? (Ouçam! Ouçam!) Descansemos, pois; não recorramos a um exemplo que seria funesto, porque a causa da verdade está salva, desde que houver, entre nós e a oposição, a força e a união necessárias para vencer estes carregadores de pastas!
(Aplausos)
Senhores, vou concluir.
Os hebreus atravessaram o deserto guiados por uma coluna de fogo. Somos os hebreus da política; a coluna de fogo é a verdade; ali nas cadeiras ministeriais, está a terra de promissão. Emboquemos as trombetas da franqueza, avancemos com as tropas da vontade, empunhemos a espada da decisão, e aqueles cairão; aqueles homens serão cadáveres políticos porque, senhores, pouco dista de um moribundo a um cadáver.
Esta monumental peroração, que os professores deviam dar aos seus alunos de retórica, causou imensa impressão na Câmara.
Os ministros quiseram responder; mas era impossível. Só havia atenção para o vulto impudente do nosso Rui, que, sendo cumprimentado por grande número de senhores deputados, recebeu no dia seguinte convite para um jantar que lhe deu a Câmara, sem distinção de partidos.
- Que discurso! - dizia um.
- Um monumento!
- É Mirabeau!
- É Cícero!
- Nunca ouvimos tal...
- É o Demóstenes moderno.
- Está fundada a eloquência brasileira.
Tais eram as conversações do povo e da Câmara acerca do discurso de Rui de Leão.
Ainda no jantar que lhe deram, o ilustre orador teve ocasião de assombrar a todos com um soberbíssimo speech, no qual, aludindo à circunstância de estarem ali amigos e adversários, proferiu esta frase tão imortal como o autor: "Estou aqui como os mortos no cemitério: a terra e o jantar nivelam as condições e as opiniões: o estômago é eclético."
Seria longo enumerar os prodígios de eloquência do nosso Rui e dizer que serviços importantes prestou ele à causa do partido. Bastará mencionar que dentro de pouco foi ele constituído chefe do partido e aclamado o primeiro homem do parlamento.
Mas cedo se aborreceu da posição e da vida política. Tendo concluído a legislatura, o nosso homem declarou que se retirava à vida privada.
Gastaram-se muitas ferraduras e pedras das ruas em visitas à casa de Rui, a fim de ver se alcançaria que ele desistisse do intento. Impossível.
Rui persistiu na intenção de deixar a vida pública.
- Mas nós!...
- Não desisto do meu plano.
- Por quem é...
- Impossível.
Retirou-se para o Norte, e lá se escondeu arrastando uma vida que lhe era odiosa.
Um belo dia cai a notícia de que rompera a guerra com o ditador López.
Rui alistou-se como capitão de voluntários e partiu para o Sul. Fez proezas incríveis, colocou-se à frente das balas, queria a morte a todo custo. Impossível.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Rui de Leão. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, jan./mar. 1872.