Por Machado de Assis (1897)
— Não me ama! bradei desesperado. Nunca esta criatura gostou de mim!Nem uma palavra de consolação ou de explicação! Bailes? Que são bailes? E fui por aí adiante, com tal desvario, que falava às paredes, aos ares, e falaria ao diabo, se ali me aparecesse; ao menos, ele seria pessoa viva. As paredes ficaram surdas; os ares apenas repercutiram as minhas vozes.Entretanto, copiei os versos, pus-lhe algumas palavras de louvor, e levei-os ao Correio Mercantil, onde um amigo me fez o favor de os publicar na parte editorial. Foi um dos elementos da minha desgraça.
Os versos entraram por S. Paulo, com os elogios do Correio Mercantil.Todos os leram, as pessoas das relações de Estela ficaram admirando esta moça que merecia tanto da imprensa da Corte. Era um grande talento, um gênio; um dos poetas da Faculdade de Direito chamou-lhe Safo. E ela subiu às nuvens, talvez acima.
Escasseando as cartas, resolvi ir a S. Paulo; mas então o pai escreveu-me dizendo que iriam a Sorocaba e outros lugares, e só daí a dous ou três meses poderiam estar de volta. Estela escreveu-me um bilhetinho de três linhas, com um soneto, para o Correio Mercantil. Posto me não falasse em juízo algum da folha, e o meu desejo fosse estrangulá-la, não deixei de escrever quatro palavras de "louvor ao grande talento da nossa ilustre patrícia". Agradeceu-me com um bilhetinho, fiquei sem mais cartas. Onde estariam? Na casa comercial do pai é que me iam informando do itinerário da família,pelas cartas que recebiam dele.
Um dia, anunciaram-me ali que o Guimarães vinha à Corte, mas só.
— Só!
— É o que ele diz.
— Mas a família... ?
— A família parece que fica.
Veio só. Corri a vê-lo, recebeu-me com polidez, mas frio e triste, vexado, penalizado. Não me disse nada nos primeiros dias, mas uma notícia grave e um acontecimento certo e próximo não são cousas que se guardem por muito tempo: Estela ia casar. Casava em Sorocaba...
Não ouvi o resto. A noite, o mar, as ruas é que ouviram as minhas imprecações e lamentações, não sei quanto tempo. Assim pois, uma por outra, vim trocando as mulheres possíveis e perdendo-as sucessivamente. Aquela com que afinal me casei é que não substituiu nenhuma Sílvia, Margarida ou Estela; é uma senhora do Crato, meiga e amiga, robusta apesar de magra, é mãe de dous filhos que vou mandar para o Recife, um dia destes.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma por outra. A Estação, Rio de Janeiro, 15 set. a 15 dez. 1897.