Por Machado de Assis (1872)
Enfim, caiu o pano; e a viúva, que já no fim do ato parecera ter voltado à sua anterior preocupação, levantou-se, dizendo que se ia embora.
Viana pediu-lhe para ficar até o fim da peça; ela insistiu, e era forçoso ceder. Félix acompanhou-os até o carro.
— Até quando? perguntou Lívia, aceitando a mão que Félix lhe oferecia.
— Até breve.
Seria acaso ou ilusão? Félix sentiu uma forte pressão dos dedos da moça, enquanto esta subia rapidamente para o carro, e ia responder com um aperto ainda mais forte- mas era tarde; a moça já estava sentada, e Viana punha o pé no estribo para subir. Ilusão era decerto - ilusão ou casualidade. Mas o médico não o percebeu logo, e foi um primeiro erro na maneira de julgar a viúva.
Poucos dias depois do encontro no teatro, dirigiu-se Félix a Catumbi onde eles moravam. Não os achou. Quando Lívia voltou para casa soube da visita de Félix pelo cartão que a mucama lhe deu. Tão apressadamente descalçou as luvas que as rasgou; e como o irmão fizesse um reparo a este respeito, a moça respondeu com azedume. Viana estava acostumado às asperezas da irmã, levantou os ombros e saiu.
Félix encontrou-a dous dias depois na Rua do Ouvidor, fazendo compras para a viagem.
— Se adivinhasse a sua visita, não teria saído de casa, disse a viúva. Félix inclinou-se.
— Por outro lado, estimo ter estado fora; morando eu tão longe, não teria o prazer de recebê-lo segunda vez, e nesse caso antes nada.
— O tílburi encurta as distancias, observou Félix; procurarei desempenhar-me da obrigação em que estou.
— Da obrigação já se desempenhou; agora...
— Perdão; o seu cumprimento constitui uma obrigação nova.
Despediram -se.
Meneses, que estava na calçada oposta, durante as poucas palavras trocadas entre Félix e a viúva, atravessou a rua e veio ter com o amigo.
— Quem é aquela moça?
— É a irmã do Viana.
— Bravo! é lindíssima.
— É realmente bonita, o que lhe merece a admiração geral. Vê como todos lhe estão com os olhos em cima...
— Se não há indiscrição, disse Meneses depois de a ver entrar em uma loja, queimas os teus perfumes naquele altar?
— Não. Para quê?
— Talvez algum casamento incubado...
— Casar?... disse Félix rindo. A pergunta é tão original que merece um sorvete. Vem ao Carceler.
No Carceler contou-lhe Meneses que andava incomodado e triste. Vivia ele maritalmente com uma pérola que pouco antes encontrara no lodo. Na véspera descobrira em casa vestígios de outro amador de pedras finas. Estava certo da infidelidade da amante pedia lhe conselho.
— Não te dou conselho nenhum, respondeu o médico; resolve tu mesmo.
— Mas, se eu pudesse resolver alguma cousa no estado em que estou, não viria falar a um amigo..
— Lisonjeia-me a escolha; mas não passa disso. Imita-me, se podes; mas não me peças reflexões.
— Mas, no meu caso, que farias tu?
— Cousa nenhuma; pegava no chapéu e saía.
— E se o não pudesses fazer sem dor?
— Hipótese absurda.
— Para ti.
— Naturalmente.
Houve uma pausa.
— Dou-te enfim um conselho, disse Félix.
Meneses levantou os olhos com ansiedade.
— Qualquer que seja a resolução que tomares, continuou Félix, não recues um passo.
— Onde acharei esta resolução?
— Aqui, disse Félix pondo-lhe o dedo na testa.
— Oh! não! suspirou Meneses; a cabeça nada tem com isso; todo o mal está no coração.
— Recorre à cirurgia: corta o mal pela raiz.
— Como?
— Suprime o coração.
CAPÍTULO V / FICO
DOUS DIAS depois, estando Félix a vestir-se para ir a Catumbi, entrou-lhe Meneses por casa. Vinha pálido e abatido, olhos vermelhos, passo trêmulo. Não se sentou, deixou-se cair numa cadeira.
— Que é isso? perguntou Félix.
— Está tudo acabado, respondeu ele: romperam-se os vínculos fatais. Custou-me muito, mas era necessário; foi agora há pouco; corri para cá; precisava de alguém com quem desabafasse. Isto é ridículo, bem sei; mas que queres? Eu sofro... tenho um coração miserável, e deixo-me levar por ele...
Félix pareceu condoer-se da situação do rapaz, e disse-lhe algumas palavras de animação, que ele ouviu com reconhecimento.
— Eu já desconfiava, disse Meneses, de que era traído; só tive a certeza ontem. O que mais me dói em tudo isso, continuou ele depois de alguns instantes de silencio, é que, para servir ao homem que me traiu, desfazia-me eu em obséquios, e até, confesso te aqui, era seu credor.
— É por isso que eu não empresto dinheiro a ninguém, respondeu Félix, penteando as suíças.
— Mas quem pode adivinhar o mal, quando nos apresentam uma fisionomia risonha? Eu confiava em ambos.
Félix encolheu os ombros.
— Toma um charuto, disse.
— Não quero fumar.
— Fuma; eu já observei que o fumo impede as lágrimas, e ao mesmo tempo leva ao cérebro uma espécie de nevoeiro salutar.
— Vais sair? perguntou Meneses, vendo que o outro punha o chapéu na cabeça.
— Vou à casa do Viana. Queres vir?
— Não posso.
— Devias vir comigo; apresentava-te à irmã dele, e passávamos algumas horas em companhia amável. Esquecerias depressa as tuas penas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.