Por Machado de Assis (1864)
Maria Luísa amava realmente Eduardo. Desiludida, sofreu muito, e só deveu ao orgulho e à energia do seu coração não ter, como Sara, sucumbido ao desespero. Mas os grandes sentimentos do seu coração não eram só o do amor e o do ciúme. O ato que ia praticar era de uma alma nobre, educada no culto do dever e do sacrifício. Naquele instante, ela via diante de si uma pobre menina que sofria, e morria por aquele mesmo que a fizera sofrer. Compreendia bem a medida desse sofrimento. A viúva procurou sondar o espírito da enferma:
— Ora, dize-me, se visses Eduardo, o que farias ?
— Se o visse? É impossível.
— Impossível, por quê?
— É impossível.
— Ora, não digas isso. Mas se o visses, se ele viesse agora, hoje, e te dissesse: Vive?
— Não vem e não diz...
— Por quê?
— Por que não me ama.
— Quem sabe?
— Oh! Nem me ama, nem te ama.
— Só por isso?
— E também porque nós o amamos.
— Eu não.
— Não?
— Não.
A moça abanou a cabeça murmurando: inútil.
Maria Luísa procurou meio de escrever a Eduardo; e conseguiu traçar à pressa, em um quarto de papel, as seguintes palavras:
Quer o perdão que me pede? Sara está às portas da morte; venha, diga-lhe que a ama, peça-a e case daqui a um mês. Está perdoado.
Maria Luísa.
O portador que levou este bilhete encontrou Eduardo na ponte das barcas da corte. Eduardo, ao ler o bilhete da viúva, sentiu-se humilhado. Enganara duas mulheres; uma morria de pesar, outra pedia-lhe que a salvasse, sacrificando-se; entre aquelas nobres almas, a alma de Eduardo sentia-se abatida. Não se deteve mais; tomou a barca, que partiu dali a cinco minutos.
Logo depois de partir o portador do bilhete, entrou o médico na casa da doente. Achou-a muito pior, e disse-o francamente à família.
Que fazer? Tudo o que foi preciso, fez-se. Maria Luísa, ajoelhada diante de um oratório, pedia a Deus duas coisas: que prolongasse a vida de Sara por algumas horas e apressasse a chegada de Eduardo.
Foi inútil. Sobreveio uma crise à enferma, e após a crise o médico desesperou. Entretanto, Sara, com o sorriso nos lábios e o olhar sereno, dizia alguma palavra em voz já muito fraca, mas com a segurança de quem está certa de ir para uma morada melhor. Maria Luísa pedia-lhe que vivesse; dizia-lhe que Eduardo não tardaria; o pai a um canto não tinha forças para ver, para pedir, nem chorar; estava atônito.
— Não, dizia ela, ele não vem. E que venha, sei que não me ama, e sem me amar não o quero.
O médico fez vir o sacerdote.
Quando este chegou, Sara, com os olhos fitos, como que vendo já abrir-se-lhe o céu, pediu a Maria Luísa que lhe desse a rosa seca que estava sobre a mesa. Maria Luísa deu-lha.
— Desejo esta flor, porque me lembra o amor que eu supunha ter achado; é o homem de ontem que eu choro! é por ele que morro; o de hoje não é senão a sepultura do de outrora, que morreu.
Houve um silêncio.
Almeida chegou-se à filha, a fim de prepará-la para a confissão.
Sara estremeceu.
Depois, voltando-se para Almeida, disse:
— Meu pai, abençoe-me. E tu também minha irmã.
Depois, estava no céu.
VIII
Meia hora depois entrava Eduardo à porta de Almeida. Viu tudo fechado; correu-lhe um calafrio por todo o corpo. Será tarde? perguntava ele. Vacilou; entraria ou não? Se entrasse e achasse tudo perdido? Enfim, fazendo um esforço, Eduardo passou o portão que se achava perto. Atravessou a alameda das roseiras, onde pela primeira vez falara de amor à pobre Sara. O remorso começou então a aguilhoá-lo. Aquele silêncio, aquele ar fúnebre, que a casa e o jardim respiravam, incutiam-lhe certo terror. Chegou à porta e bateu.
Veio abri-la o pai de Sara.
— Sara? perguntou ele.
— Sara morreu!
O moço tornou-se lívido. Sentiu uma vertigem; os olhos se lhe escureceram, ia cair. Segurou-se a uma cadeira.
O pai de Sara olhava fixo para Eduardo. Este não podia suportar-lhe o olhar, e baixava os olhos. Naquele momento, o pai de Sara era o remorso vivo.
Depois de um pequeno silêncio, Almeida falou:
— Era inútil tê-la salvado do mar há quatro meses, para matá-la agora. Se tal devia ser o desenlace destas coisas, melhor fora que a minha pobre filha tivesse sucumbido à primeira vez; iria assim para o outro mundo sem conhecer as misérias deste...
— Oh! basta! interrompeu Eduardo. Sei quanto sou culpado, não aumente a minha angústia com as suas exprobrações, aliás justas.
O velho sorriu-se tristemente, como quem ouvia duvidoso as palavras do outro. Depois:
— Vem dar-me os pêsames, não é? continuou ele; muito obrigado.
E foi sentar se no sofá, derramando silenciosas lágrimas.
Eduardo esteve alguns momentos contemplando aquela dor muda e respeitável. Depois, dirigiu os olhos para a porta do quarto mortuário. Ouviu que partiam de dentro soluços abafados. Dirigiu-se para a porta.
Maria Luísa ajoelhada aos pés da cama, contemplava, chorando, o cadáver de Sara. A morta parecia sorrir ainda: dissera-se que sonhava um sonho cor-de-rosa. Eduardo sentiu rebentarem-lhe dos olhos as lágrimas. Ajoelhou-se silenciosamente ao pé da porta e olhou para Maria Luísa.
Não lhe viu o rosto, mas conheceu-a.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Questão de vaidade. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1864.