Por Machado de Assis (1872)
Luís supunha que podia fascinar a moça pela grandeza de posição; algumas circunstâncias lhe davam razão para crer assim; mas eram simples circunstâncias. Quanto a Daniel, um pouco picado em seu amor-próprio, assentou que de uma luta pertinaz poderia resultar ser um bom general em vez de diplomata fino. Afigurava-lhe que a espada de Condé tinha para o caso mais virtude que a pena de Metternich. Com estas impressões saiu da casa de Augusta.
Era a primeira vez que no espírito do moço a vontade anunciava um papel ativo. Não era decerto o amor, senão o amor-próprio que o inspirava assim. Mas neste caso, amor próprio já não era um sintoma do próprio amor? Daniel não percebeu isto; atirou-se à luta. Começou a freqüentar a casa de Augusta na qualidade de amigo e vizinho. A moça foi com ele e com todos os outros atenciosa e polida, mas fria; distribuía a sua atenção com igualdade. Não dava direito a queixas nem esperanças; valia tanto para ela Daniel como Luís.
Luís freqüentava pouco a casa; nem se podia dizer que a freqüentava; ia lá de longe em longe; conversava meia hora e saía logo.
Posto que Daniel não entrasse nunca nas campanhas do namoro, e apenas contasse em toda a vida alguns fáceis triunfos do tempo da academia, todavia houve-se desde princípio como um verdadeiro cabo de guerra.
Foi difícil à moça resistir aos primeiros ímpetos da força arregimentada do rapaz. Aos tiros de artilheria, isto é, os olhares, resistiu ela com facilidade; ninguém tinha maior expressão de desdém do que ela, quando se tratava de repelir os olhares de um cortesão. Mas quando, depois de seus primeiros tiros, Daniel aproveitou uma situação adequada e atirou contra a fortaleza as massas compactas da infanteria, isto é, quando ele fez uma declaração em regra, Augusta não foi tão fácil na defesa, e, se repeliu o inimigo, foi com sensíveis perdas de sua parte.
Daniel acabava de declarar que a amava.
— Não creia, disse ele, que se trata de um amor de poeta. Eu não tenho nada de poeta; nem é coisa que me penalize. O meu amor vem um pouco da razão. Sou um homem temperado. Confesso que as suas graças me impressionaram bastante; mas creia que, se não achasse digna de ser minha mulher, não lhe falava nisso. Estou que o amor duraria,
pouco mais que as rosas de Malherbe. Quer ser minha mulher?
Esta declaração, em que misturava a sinceridade com a insolência, foi dita com volubilidade, sem fogo nem lágrimas na voz, no meio de tudo com certa graça. Augusta, tão fácil em responder, se encontrasse um homem louco de amores, não achou logo uma palavra para opor à pergunta e pedido de Daniel.
A moça tinha encontrado um sapato para o seu pé.
A conversa que estou mencionando dava-se a um canto da sala; as demais pessoas estavam entretidas em grupos distintos.
Augusta desejou que ali chegasse alguém, cuja presença interrompesse a conversação; mas ninguém apareceu.
— Que me responde? perguntou Daniel.
— Respondo, disse Augusta, que não posso aceitar o seu amor, nem o seu pedido.
— Por quê?
Augusta olhou para ele espantada com a pergunta; mas como visse o olhar do moço, sereno e fixo, respondeu sorrindo:
— Formalmente, porque o não amo.
— Isso não é razão muito forte...
— No entanto...
— O amor viria com o tempo; bastava que me tivesse alguma afeição. Não tem?
— Não tenho.
— Que é preciso fazer para vir a tê-la?
— Isso não sei, respondeu Augusta.
Daniel tirou o relógio do bolso e depois de consultá-lo, tornou a guardá-lo silenciosamente. Na indiferença do rapaz, havia um tanto de cálculo, mas um tanto de sincero. Apenas guardou o relógio:
— Pois eu acho, D. Augusta, disse ele, que dificilmente poderia encontrar marido mais conveniente do que eu.
— Tem boa opinião em si, disse a moça sorrindo.
— A melhor opinião deste mundo, acudiu Daniel. Convencido de que os outros homens hão de ter sempre a meu respeito uma péssima opinião, eu compenso esse juízo infundado, pensando a meu respeito as melhores coisas possíveis. Por exemplo, a sua observação quer dizer que me julga fátuo; eu penso justamente o contrário a meu respeito.
— É uma compensação, observou Augusta.
— Então confessa?...
— Confesso, que estou com muito calor, disse Augusta, levantando-se. Daniel mordeu os beiços; mas levantou-se e ofereceu-lhe o braço.
— Vamos para a janela?
Augusta aceitou sem repugnância, nem vontade.
— Com efeito, aqui faz menos calor, disse Daniel apenas chegara à janela. E a noite está bonita.
— Está bonita, repetiu Augusta; mas se lá está calor, aqui está frio.
— Não tanto, não tanto. Estou a ver uma coisa, D. Augusta.
— O que é?
— É que tudo lhe parece exagerado. Nem lá faz tanto calor, nem aqui tanto frio. Por que esta maneira de apreciar as coisas? Não lhe parece que isso há de levá-la muita vez a ser injusta?
— Quando assim seja, disse Augusta, eu creio que a primeira vítima da injustiça serei eu.
— Perdão! nem sempre assim acontece; e é justamente por isso que a justiça me parece uma bela coisa. Queira meditar bem nestas palavras, D. Augusta: não julgue nunca pelos olhos do seu capricho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.