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#Contos#Literatura Brasileira

O programa

Por Machado de Assis (1872)

Fernandes sorriu lisonjeado. Levou-o a jantar, e explicou-lhe que se metera em empresa lucrativa, e fora abençoado pela sorte. Estava bem. Morava fora, no Paraná. Veio à corte ver se podia arranjar uma comenda. Tinha um hábito; mas tanta gente lhe dava o título de comendador, que não havia remédio senão fazer do dito certo.

— Ora o Romualdo!

— Ora o Fernandes!

— Estamos velhos, meu caro.

— Culpa dos anos, respondeu tristemente o Romualdo.

Dias depois o Romualdo voltou à roça, oferecendo a casa ao velho amigo. Este ofereceu-lhe também os seus préstimos em Curitiba. De caminho, o Romualdo recordava, comparava e refletia.

— No entanto, ele não fez programa, dizia amargamente. E depois:

— Foi talvez o programa que me fez mal; se não pretendesse tanto... Mas achou os filhos à porta da casa; viu-os correr a abraçá-lo e à mãe, sentiu os olhos úmidos, e contentou-se com o que lhe coubera. E, então, comparando ainda uma vez os sonhos e a realidade, lembrou-lhe Schiller, que lera vinte e cinco anos antes, e repetiu com ele: “Também eu nasci na Arcádia...” A mulher, não entendendo a frase, perguntou lhe se queria alguma cousa. Ele respondeu-lhe:

— A tua alegria e uma xícara de café

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