Por Machado de Assis (1867)
Passei uma noite tranqüila. Tive sonhos felizes. Sonhei que estava bom e vivia com minha mãe em uma casa retirada do bulício e da agitação. Voltavam os meus dias de poeta, e eu cantava em estrofes inspiradas a ventura que me dava a paz do coração e da consciência.
Não sei por quê, esta perspectiva de felicidade já me não desgosta, e nem já me causa ressentimento a alegria expansiva e radiante da natureza.
Ao mesmo tempo, a idéia tão poética dessa vida sossegada e feliz é contrariada pela idéia de que perdi Carlota em virtude de um contrato fundado sobre o vício. Esta idéia traz-me à vida real, e eu olho já os sonhos do passado e o desta noite como ilusões sem realidade prática.
A prática é outra coisa. Não transigir com os desvios dos homens, mas viver preparado para eles, tal é a norma regular que se me afigura devem ter todas as consciências honestas e previdentes.
Deixar-me seduzir por novas ilusões e expor-me a novos desenganos e torturas? É o que farei... se ficar bom.
Ficarei?
O doutor me dirá.
O doutor! É seguramente a ele que eu devo esta transformação na minha vida. Foi, sem dúvida, ele quem encaminhou aquela explicação que tão benéfica foi para mim. Farei tudo o que puder para ficar bom.
Oh! minha mãe! minha mãe!
* * *
XVII
EPÍLOGO
Um ano depois, encontravam-se ao pé da estação do Campo, para tomar o caminho de ferro, dois homens, um moço, o outro velho. Olham-se e reconhecem-se. Depois entram, compram bilhetes e tomam lugar em um carro de 1ª classe.
— Para onde vai? pergunta o velho.
— Vou para o Rodeio.
— Também eu.
Acomodaram-se, e, enquanto esperavam a hora, e não vinha mais ninguém para o mesmo compartimento, trataram de conversar sobre coisas de sua vida.
— Que faz agora? perguntou o moço ao velho.
— Sou um ex-médico. Vivo do que ajuntei.
— Eu sou um ex-poeta. Vivo do que aprendi.
— Fortuna por fortuna. Mas há uns bons seis meses que o não vejo. Ora, quem diria que aquele rapaz magro e quase morto se converteria neste rapagão corado, nédio, robusto... Bem lhe dizia eu.
— Devo-lhe tudo.
— A mim, não.
— Devo-lhe, sim.
— É então ex-poeta?
— Sou. Sou hoje o homem-prosa, vivo terra-a-terra, livre das quimeras que me atordoaram e nas quais não encontrei senão dissabores. Quis forçar a ordem das coisas e opor aos sentimentos comuns a idealidade do meus sentimentos. Sofri as conseqüências desta temeridade. Hoje, se não reneguei o culto da poesia, não faço praça dele, de modo que aquele dia em que me viu tão desanimado foi, por assim dizer, o último dia de um poeta.
O doutor olhou para o moço com ar incrédulo.
— Isso é verdade? perguntou.
— Mais que verdade.
— Não pensei que a mudança fosse radical. E D. Carlota?
— Essa vive, coitada, não sei se como eu. Nunca mais a vi. Bem sabe que uma barreira nos separava. Mas eu conservo-a comigo. Perdão, doutor... é a minha ilusão de namorado, de poeta e de rapaz... mas como vê, é inofensiva.
E o moço tirou um medalhão em que estavam as margaridas que durante a febre beijava e adorava.
— E sua mãe?
— Oh! essa é feliz! Vive comigo no Rodeio, onde nada nos perturba a felicidade santa de que gozamos. Pela felicidade que ela sente vendo-me vivo e são é que avalio a dor suprema que sentiria se eu morresse. Fiz bem em não morrer.
— Pois, meu amigo, continue a contar com a minha amizade, que agora é ainda maior. Ame e respeite sua mãe; procure esquecer os sucessos que motivaram a catástrofe de sua vida, e, sem repudiar a missão normal que Deus lhe deu, não confie de um mundo frio e egoísta as santas aspirações da sua jovem inteligência.
— Obrigado, doutor.
Neste momento entrou no carro um casal; o marido, homem de trinta e oito anos, a mulher... não se podia ver através de um véu preto que lhe cobria o rosto. Pouco depois o carro partiu.
A moça, que até então não voltara o rosto, teve necessidade de fazê-lo para responder a uma pergunta do marido. O marido achava-se entre ela e o ex-poeta. A moça deu um pequeno grito. Interrogada por seu marido, respondeu que fora uma dor aguda no coração.
— Há de ser de cansaço, acrescentou ela.
Era Carlota, como já se adivinha.
Durante o resto da viagem nenhum incidente mais ocorreu. A mulher e o marido conversavam sossegadamente; o ex-poeta e o ex-médico conversavam do mesmo modo. Chegando à última estação separaram-se todos. O doutor prometeu ir jantar à casa do rapaz.
Viram-se ainda muitas vezes, mas o encontro do vagão foi o último que houve entre o rapaz e Carlota.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O último dia de um poeta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.