Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

A freira: ralo, roda e grade

Por Gregório de Matos (1696)

O texto, produzido por Gregório de Matos na Bahia do século XVII (período colonial), integra sua lírica satírica e amorosa. Trata-se de uma coletânea de poemas direcionados a freiras do Convento do Desterro, em Salvador, e a frequentadores do local. O autor relata suas tentativas de galanteio, rivalidades amorosas com frades, trocas de presentes e intrigas cotidianas da vida conventual baiana, retratando o erotismo e o humor cáustico característicos do barroco brasileiro.

No dia em que o Poeta emprendeo galantear uma Freyra
no mesmo convento se lhe pegou o fogo na cama.
Manuel Pereira Rabelo, licenciado

Alto: vou-me meter Frade
na ordem de Fr. Tomás,
serei perpétuo lambaz
do ralo, da roda, e grade:
mamarei paternidade,
Deo gratias se me dará,
e apenas se me ouvirá
o estrondo do meu tamanco,
quando a Freira sobre o banco
no ralo me aguardará.

ÀS RELIGIOSAS QUE EM HUMA FESTIVIDADE, QUE CELEBRÁRAM, LANÇÁRAM A VOAR VARlOS PASSARINHOS.

Meninas, pois é verdade,
não falando por brinquinhos,
que hoje aos vossos passarinhos
se concede liberdade:
fazei-me nisto a vontade
de um passarinho me dar,
e não o deveis negar,
que espero não concedais,
pois é dia, em que deitais
passarinhos a voar.

A D. MARTHA DE CHRISTO PRIMEYRA ABBADEÇA DO DESTERRO GALANTEA O POETA OBSEQUIOSAMENTE.

Ilustríssima Abadessa,
generosa Dona Marta,
que inda que nunca vos vi,
vos conheço pela fama.

Um ludíbrio da fortuna,
epílogo de desgraças
se oferece a vossos pés,
para beijar-vos as plantas.

E bem, que a tão breve pé
sobra uma boca tamanha,
que mal me estará fazer-vos
as adorações sobradas.

Que dissera eu, se vos vira
a beleza dessa cara,
dos corações doce enleio,
suave encanto das almas?

Mas já que nunca vos vi,
por não ter dita tão alta,
a informação, que tirei,
para desejar-vos basta.

Vós sois, Senhora Abadessa,
fruto de tão nobre planta,
que se não nascêreis vós,
mal pudera outro imitá-la.

O que vos peço, é querer-vos
ou que me désseis palavra
de consentir, que vos queira,
que é dom, que não custa nada.

Eu sou um conimbricense
nascido nestas montanhas,
e sobre um ovo chocado
entre gemas, e entre clara.

Servi a Amor muitos anos,
e como sempre mal paga,
tenho a alma sabichona
já de muito escarmentada.

Não tenho medo de vós,
que não sois das namoradas,
dadas a mui pertendidas
pelo meio de falsárias.

Sois uma Freira mui linda,
bem nascida, e bem criada.
e o gabo não vos assuste,
que ninguém gorda vos chama.

A este pobre fradulário
dai qualquer favor por carta,
porque no tardar do prêmio
não perigue a esperança.

CELEBRA O POETA O CASO, QUE SUCCEDEU A HUA FREYRA DO MESMO CONVENTO A QUEM OUTRAS FREYRAS TRAVESSAS LHE MOLHARAM O TOUCADO, COM QUE PERTENDIA FALLAR À SUA AMANTE.

1
Pelo toucador, clamais,
e em confusão me meteis,
porque se enxuto o quereis
como sobre ele chorais?
quanto mais suspiros dais,
novos extremos fazendo,
vai vosso dano crescendo,
e é mui mal esperdiçado
sobre a perda do toucado
andar pérolas perdendo:

2
Mas um peito lastimado,
que tem em pouco essas sobras,
dirá, pois chora por dobras,
que o deixem chorar dobrado:
ditoso o vosso toucado
nas lágrimas, que chorastes,
pois tão bem desempenhastes
as vezes, que vos ornou,
que se até aqui vos toucou,
de pérolas o toucastes.

3
Porventura, Nise, achais,
que mais bela a touca estava
ao tempo, que vos toucava,
do que agora a toucais?
não vedes, não reparais,
que aqueles vãos ornamentos
umedecidos, e lentos
de aljôfares derretidos,
o que estão de mui caídos,
isso têm de mais alentos?

4
Chorais com razão tão pouca,
que estão todos murmurando,
que andais as toucas lançando
não mais que por uma touca
se por Sílvio ides louca,
porque arnante vos anele,
e mais por vós se desvele,
vinde à grade destoucada,
e verá, que de empenhada
botais as toucas por ele.

5
Inundais as escarlatas
à guisa da bela aurora,
como se mui novo fora,
que nágua se banhem patas:
se as Professas, ou Donatas,
que as patas vos mergulhararn
tanto a peça celebraram,
zombai das suas invejas,
não se gabem malfazejas,
que de patas nos viraram.

A D. CATHERINA PRELADA, QUE FOY NO MOSTEYRO DE ODIVELLAS, E AGORA PORTEYRA PEDE O POETA HUMA GRADE.

Parabém seja à vossa Senhoria
Ser da Chave dourada dessa glória,
Que há de dar-nos sem obra meritória
Por graça só da sua fidalguia.

Se, quando o céu monástico regia,
Deixou de seu juízo tal memória,
Quanto mais, que o reger, dará vã glória
Estar abrindo a glória cada dia.

Qualquer alma, que à glória se avizinha,
Contente aceita, alegre se acomoda
Com toda glória não: cuma casinha.

Não dê Vossenhoria a glória toda,
Mas bem vê, que à crueldade se encaminha,
Que, sendo Caterina, dê a roda.

REPETIO O POETA A MESMA ROGATIVA DEPOIS DE ALGUM TEMPO.

Minha Senhora Dona Caterina,
Posto que montam pouco os meus engodos,
Agora os junto, e os engrazo todos,
Chamando a minha Mãe minha Menina.

Já sabeis, que me faz fome canina
Lise, de cujos agradáveis modos
Não são para servir de seus apodos
Os astros dessa esfera cristalina.

Tratai de me fartar esta vontade
em uma grade, como em uma boda,
Que é pouco em cada mês uma só grade.

Pois toda a Mãe seus Filhos acomoda,
Adverti, que parece crueldade,
Que sendo Caterina deis a roda.

NO DIA EM QUE O POETA EMPRENDEO GALANTEAR HUA FREYRA DO MESMO CONVENTO SE LHE PEGOU O FOGO NA CAMA, E INDO APAGAR-LO, QUEYMOU UMA MÃO.

(continua...)

12345
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →