Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Possível e Impossível

Por Machado de Assis (1867)

Machado de Assis (1839–1908), expoente do realismo, aborda neste conto os limites entre ideal e realidade no amor e na vida intelectual. Publicado originalmente em 1867, no periódico Jornal das Famílias, no Rio de Janeiro, o texto retrata a juventude sonhadora e suas desilusões, convidando à reflexão sobre o “possível” e o “impossível” nas escolhas afetivas.

É um lugar-comum em quase todos os poetas novéis maldizer do destino e tecer elogios ao desânimo aos vinte anos de idade.

Resulta daqui que as verdadeiras dores, caindo no descrédito comum, não podem achar indulgência da parte de ninguém; e quando um poeta, na aurora da vida e nos primeiros movimentos da inspiração, lembra-se de traduzir, em um hino de sua lira, uma dor que o consome ou um desânimo que o abate, a multidão recebe o hino e o poeta com o mesmo sorriso de incredulidade reservado para todos.

Será entretanto impossível esta situação? A mocidade é o tempo das ilusões; a mocidade dos poetas ainda mais. A imaginação mais viva dá maior corpo e maior luz aos sonhos e às quimeras. Tanto mais vivas são, tanto maior é a dor de os ver desvanecidos. Ora, figure-se um coração ardente, uma imaginação exaltada, um espírito veemente, abrindo os olhos ao mundo fantástico das quimeras e dos sonhos. Figure-se tudo isto, e veja-se se, ao primeiro desencanto, ao primeiro obstáculo, esta criatura sensível não deve manifestar as suas dores e os seus desprazeres na linguagem veemente e franca que Deus lhe deu.

É certo que são comuns os poetas desiludidos aos vinte anos; mas entre uns e outros há a diferença do falso ao verdadeiro. Há nas dores sinceras um tom de verdade singela e pura ingenuidade que se não confunde com os arrebiques mal aplicados da poesia chorona por convenção.

Tinha vinte e dois anos o herói desta narrativa. Era poeta desde os dezesseis. Era-o mesmo desde antes. Aos doze anos, estando a passear, com a família, em uma campina junto à cidade em que nascera, foi surpreendido pelo espetáculo que oferecia o lugar na hora do pôr-do-sol. Era uma estrofe de poesia rústica, uma lauda das Geórgicas. O meu poeta, deixando a família e os rapazes com quem ia, parou extático a contemplar o espetáculo. Só muito adiante a família reparou na ausência do pequeno; voltaram buscá lo. Daí em diante o pequeno caminhou maquinalmente.

Isto foi aos doze anos. Aos dezesseis metrificou a sua primeira inspiração. Eram umas quadras singelas tomando por assunto uma cena da natureza: duas rolas que se beijavam à margem de um riacho que atravessava o fundo da chácara em que morava. À noite leu a sua obra à família; mas ninguém lha entendeu, à exceção de um tio padre que sabia entremear as orações do breviário com os cantos de Virgílio e Petrarca. O jovem poeta, descontente com o mau efeito da obra, quis rasgá-la; mas o tio padre interveio a tempo e convidou o rapaz, não só a conservar as suas primeiras estrofes, como ainda a metrificar outras, quando lhe fosse de vez a inspiração.

Teófilo chamava-se o nosso poeta. Era filho de uma das províncias do Sul. O pai, major reformado, vivia da pensão que o Estado lhe dava e de alguns haveres que lhe deixara um parente. Era quanto bastava para sustentar modicamente a família. Esta era numerosa; constava da mulher, um filho, das duas filhas, um irmão cego, dois sobrinhos órfãos e uma agregada. O irmão padre era pobre e mal concorria com o estritamente necessário para a sua subsistência.

A educação que Teófilo recebeu foi proporcionada aos meios de seus pais. Aprendeu primeiras letras, rudimentos de latim e de francês. O latim e o francês aprendeu-os do tio padre. Findo isto, o pai entrou a cogitar em que havia de empregar o rapaz e não achou. Então como que se arrependeu do que lhe havia feito aprender. O talento natural de Teófilo, desenvolvido pelos primeiros estudos, impunha-lhe a obrigação de destiná-lo a alguma carreira em que pudesse ser aproveitado, estando na esfera que lhe competia. O bom do velho nada encontrava neste sentido.

No caso de morte do pai, quem sustentaria a família? Esta era a questão capital no espírito do pai de Teófilo.

Entretanto, Teófilo, que tomara gosto às letras, ia aproveitando as lições do padre e aumentava o cabedal da instrução. Desenvolveu-se no latim e no francês; estudou o inglês e o italiano. Quis conhecer a história e disse-o ao tio.

— Aprende primeiro geografia, respondeu-lhe o padre.

— É preciso, não?

— Sem dúvida. Como hás de tu saber do que houve na casa, sem conhecer antes das disposições da casa?

— É verdade.

E o rapaz atirou-se ao estudo da geografia, e depois ao de história, e depois ao de filosofia.

Não convém à nossa história acompanhar os passos da vida de Teófilo, nem os de sua família. Basta saber que na época em que esta narração começa Teófilo conta vinte e dois anos; está sem pai; as irmãs e os primos estão casados; o tio padre alcançou uma vigararia no Norte; resta-lhe a velha mãe e a agregada, moça de dezoito anos. Vivem no Rio de Janeiro.

Teófilo ensina história e geografia em alguns colégios particulares: é a sua fonte de renda. Nas horas vagas faz versos que ninguém lê, porque ele os guarda cuidadosamente no fundo da gaveta.

Quando à mesa do almoço D. Teresa (é o nome da mãe do poeta) pergunta a seu filho que trabalho leva a fazer às vezes alta noite, Teófilo responde sorrindo:

— Estou fazendo um ponto de admiração.

(continua...)

12345678
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →