Por Machado de Assis (1891)
Machado de Assis (1839–1908), principal nome do realismo no Brasil, publicou Pobre Finoca! em 1891, no periódico A Estação, no Rio de Janeiro. O conto retrata, com ironia, jogos de interesse, vaidade e ilusões amorosas na sociedade urbana, expondo a instabilidade dos sentimentos e a crítica aos costumes burgueses.
Que é isso? Você parece assustada. Ou é namoro novo?
— Que novo? é o mesmo, Alberta; é o mesmo aborrecido que me persegue; viu-me agora passar com mamãe, na esquina da Rua da Quitanda, e, em vez de seguir o seu caminho, veio atrás de nós. Queria ver se ele já passou.
— O melhor é não olhar para a porta; conversa comigo.
Toda a gente, por menos que adivinhe, sabe logo que esta conversação tem por teatro um armarinho da Rua do Ouvidor. Finoca (o nome é Josefina) entrou agora mesmo com a velha mãe e foram sentar-se ao balcão, onde esperam agulhas; Alberta, que está ali com a irmã casada, também aguarda alguma coisa, parece que uma peça de cadarço. Condição mediana, de ambas as moças. Ambas bonitas. Os empregados trazem caixas, elas escolhem.
— Mas você não terá animado a perseguição, com os olhos? perguntou Alberta, baixinho. Finoca respondeu que não. A princípio olhou para ele; curiosa, naturalmente; uma moça olha sempre uma ou duas vezes, explicava a triste vítima; mas daí em diante, não se importou com ele. O idiota, porém (é o próprio termo empregado por ela), cuidou que estava aceito e toca a andar, a passar pela porta, a esperá-la nos pontos dos bondes; até parece que adivinha quando ela vai ao teatro, porque sempre o acha à porta, ao pé do bilheteiro.
— Não será fiscal do teatro? aventou Alberta rindo.
— Talvez, admitiu Finoca.
Pediram mais cadarços e mais agulhas, que o empregado foi buscar, e olharam para a rua, de onde entravam várias senhoras, umas conhecidas, outras não. Cumprimentos, beijos, notícias, perguntas e respostas, troca de impressões de um baile, de um passeio ou de uma corrida de cavalos. Grande rumor no armarinho; falam todas, algumas sussurram apenas, outras riem; as crianças pedem isto ou aquilo, e os empregados curvados atendem risonhos à freguesia, explicam-se, defendem-se.
— Perdão, minha senhora; o metim era desta largura.
— Qual, sr. Silveira!
— Deixe, que eu lhe trago amanhã os dois metros.
— Sr. Queirós!
— Que manda V. Excia.?
— Dê-me aquela fita encarnada de sábado.
— Da larga?
— Não, da estreita.
E o sr. Queirós vai buscar a caixa das fitas, enquanto a dama, que as espera, examina de esguelha outra dama que entrou agora mesmo, e parou no meio da loja. Todas as cadeiras estão ocupadas. The table is full, como em Macbeth; e, como em Macbeth, há um fantasma, com a diferença que este não está sentado à mesa, entra pela porta; é o idiota, perseguidor de Finoca, o suposto fiscal de teatro, um rapaz que não é bonito nem elegante, mas simpático e veste com asseio. Tem um par de olhos, que valem pela lanterna de Diógenes; procuram a moça e dão com ela; ela dá com ele; movimento contrário de ambos; ele, Macedo, pede a um empregado uma bolsinha de moedas, que viu à porta, no mostrador, e que lhe traga outras à escolha. Disfarça, puxa os bigodes, consulta o relógio, e parece que o mostrador está empoeirado, porque ele tira do bolso um lenço com que o limpa; lenço de seda.
— Olha, Alberta, vê-se mesmo que entrou por minha causa. Vê, está olhando para cá. Alberta verificou disfarçadamente que sim; ao mesmo tempo que o rapaz não tinha má cara nem modos feios.
— Para quem gostasse dele, era boa escolha, disse ela à amiga.
— Pode ser, mas para quem não gosta, é um tormento.
— Isso é verdade.
— Se você não tivesse já o Miranda, podia fazer-me o favor de o entreter, enquanto ele se esquece de mim, e fico livre.
Alberta riu-se.
— Não é má idéia, disse; era assim um modo de tapar-lhe os olhos, enquanto você foge. Mas então ele não tem paixão; quer só namoro, passar o tempo...
— Pode ser isso mesmo. Contra velhaco, velhaca e meia.
— Perdão; duas velhacas, porque somos duas. Você não pensa, porém, em uma coisa; é que era preciso chamá-lo a mim, e não é coisa que se peça a uma amiga séria. Pois eu iria agora fazer-lhe sinais...
— Aqui estão as agulhas que V. Excia....
Interrompeu-se a conversação; trataram das agulhas, enquanto Macedo tratou das bolsinhas, e o resto da freguesia das suas compras. Sussurro geral. Ouviu-se um toque de caixa; era um batalhão que subia a Rua do Ouvidor. Algumas pessoas foram vê-lo passar às portas. A maior parte deixou-se ficar ao balcão, escolhendo, falando, matando o tempo. Finoca não se levantou; mas Alberta, com o pretexto de que Miranda (o namorado) era tenente de infantaria, não pôde resistir ao espetáculo militar. Quando ela voltou para dentro, Macedo, que espiava o batalhão por cima do ombro da moça, deu-lhe galantemente passagem. Saíram e entraram fregueses. Macedo, à força de cotejar bolsinhas, foi obrigado a comprar uma delas, e pagá-las; mas não a pagou com o preço exato, deu nota maior para obrigar ao troco. Entretanto, esperava e olhava para a esquiva Finoca, que estava de costas, tal qual a amiga. Esta ainda olhou disfarçadamente, como quem procura outra coisa ou pessoa, e deu com os olhos dele, que pareciam pedir-lhe misericórdia e auxílio. Alberta disse isto à outra, e chegou a aconselhar-lhe que, sem olhar para ele, voltasse a cabeça.
(continua...)
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