Por Bernardo Guimarães (1883)
Rozaura, a enjeitada narra a história de uma jovem marcada pelo abandono desde o nascimento, enfrentando preconceitos e dificuldades sociais. A trama acompanha seus sofrimentos, amores e desafios, explorando temas como identidade, honra e destino. Ambientada no Brasil do século XIX, a obra combina drama e crítica social ao retratar desigualdades e valores da época.
CAPITULO PRIMEIRO
Doze annos depois.
Erão passados doze annos depois dos acontecimentos, que acabámos de narrar. Em uma sala mobiliada com bastante luxo, si bem quc não com muito gosto, em um sobrado da rua de S. Bento na cidade de S. Paulo, uma linda menina de dez annos estava sentada ao piano dedilhando com volubilidade c bem pouca attenção as lições de Iliinten. A' direita, ao pé delia achava—se t,ambem sentada cm uma cadeira, com a mão na facc c acotovelada sobre a mesa do piano, uma senhora, que poderia ter quando muito trinta annos, e que parecia observar com certo orgulho e complacencia o estudo da gentil menina. Era uma senhora morena, de physionomia regular e sympathica, de grandes olhos negros e languidos e que tinha bem conservada ainda uma belleza, que no viço dos annos devia ter sido das mais encantadoras. Pelo primoroso cuidado com que se trajava, pelas maneiras e ademanes um tanto affectados, via-se que ainda predominava nella esse fundo de vaidade inseparavel das moças formosas, mesmo quando essa formosura já vae declinando para o occaso. A desta porém ainda não declinava; nem cans, nem rugas, nem macilencia denunciavão nella a epoca da decadencia. Não era já a tenra e mal aberta flór, brilhante de viço e frescura, e ainda rociada das perolas da aurora ; mas sim a flór, que alardeia desabrochadas em toda a sua plenitude as petalas formosas ao fulgor de um bello sol de estio.
Brincavão tambem em torno della pela sala entrando e sahindo mais tres creanças de mais tenra idade, interrompendo a cada passo com suas travessuras o estudo da pianista, que em vão zangava-se e ralhava com ellas.
Estella, — disse a moça com voz suave estendendo a mão e fazendo parar de chofre os roseos dedinhos da menina, que esvoaçavão ligeiros como borboletas sobre o teclado, estás hoje muito rudesinha; disseste muito mal esse ultimo compasso; repete ainda uma voz; não quero que a mestra venha ralhar comtigo.
— Ora, mamãe! — replicou a menina dando um muchocho, — estes meninos estão a toda a hora me atrapalhando... Tambem não sei porque é que papae hoje está tardando tanto.
Ah! logo vi ; teus dedos estão correndo pelas teclas, emquanto teu sentido mesmo anda bem longe, tontinha !
— Não, mamãe; estou esperando papae para jantar ; estou com saudade delle, e tambem com fome. Olha, mamãe, — accrescentou apontando para um lindo pendulo, que estava sobre um aparador: — jâ são quasi quatro horas.
— Qual saudade, nem fome! . . . estás com sentido é na mulatinha, que teu pae foi com— prar para ti, e que prometteo trazer hoje. Socega esse coraçãosinho, que ella ha de vir ; sinão por hoje, ha de ser amanhã, porque já está comprada e paga.
— Ah! já faz hoje mais de oito dias, que papae está comprando essa mulatinha, e nunca mais ella vem.
É porque ainda não tinha encontrado uma que servisse; mais agora já achou, já comprou, e ha de vir.
— Bravo! bravo! mamãe, — exclamou Estella saltando do tamborctinho, e indo envolver com os braços o collo da mãe encarando-a tão de perto, que quasi a beijava ; — ella é bonitinha? já é grande? . . . como se chama? eu queria que ella fosse do meu tamanho. Mamãe ha de dar a ella um vestido bem bonito para ella andar commigo na rua, não ha de, mamãe?
— Hei de, hei de, sim, minha filha. Arrc lá ! suffocas-me com tantas perguntas.
Neste ponto da conversação ouvio-se rumor de gente, que vinha subindo a escada.
— Escuta, — continuou a senhora, ha do ser teu pae, que chega.
Estella e seus irmãosinhos correrão logo para o topo da escada; a mãe deixou-se ficar sentada em seu logar. Dahi a instantes entrou na sala um homem dc bella presença e elegantemcnt,e trajado.
— Entra, Rozaura; é aqui que está tua senhora, — dizia clie, voltando-se para traz.
Entrou logo após elle, acompanhada pelas creanças, uma linda creatura, em cuja descripção é mistér determo—nos um pouco.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.