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#Contos#Literatura Brasileira

Diana

Por Machado de Assis (1866)

Machado de Assis (1839–1908) publicou o conto “Diana” no Jornal das Famílias, em 1866, no Rio de Janeiro. A narrativa, construída em grande parte por cartas, explora a oposição entre aparência e essência, o autoengano amoroso e a ironia moral. Com humor crítico, o texto antecipa temas centrais da obra machadiana, convidando o leitor a desconfiar das ilusões.

Em certo dia do mês de março do ano da graça de 1868 encontravam-se na Rua do Ouvidor, cidade do Rio de Janeiro, dois rapazes, ambos acompanhados de um criado carregando as respectivas malas. 

— Luís! 

— Alberto! 

— Que é isso? 

— A que horas chegas! 

— Não pôde ser mais cedo. Venho do caminho de ferro neste momento. Mas tu, chegas também de Minas, ou partes para lá? 

— Não chego nem vou para la. Vou para o Rio Grande. Está a sair o vapor. — Que volta tão repentina é essa? 

— Assim é preciso. 

— Isto só pelo diabo. Se eu soubesse de semelhante coisa tinha vindo mais cedo. — De lá te escreverei. Adeus! 

— Adeus! 

E os dois amigos, depois de se abraçarem, separaram-se, tomando um para a hospedaria, outro para a Praia dos Mineiros. 

Alberto foi fazendo consigo as reflexões seguintes: 

— Que diabo leva o Luís ao Rio Grande tão repentinamente? este rapaz tem o juízo a arder... 

Tempos depois Alberto recebia a seguinte carta de Porto Alegre, escrita pelo amigo Luís. Luís a Alberto. — Prezado amigo. — Só agora te escrevo porque só agora me é dado dispensar alguns minutos. 

Se fosses alguma destas susceptibilidades que tantas vezes encontrei, dava-te outra razão, mentirosa de certo, mas suficiente para acalmar-te o espírito e consolar-te o coração. 

Mas prefiro a verdade. Eu te conheço, tu me conheces, nós nos conhecemos. Queres então saber que motivo me trouxe ao Rio Grande tão repentinamente? Um motivo simples: receber um legado. Tive notícia de que meu padrinho morrera e me deixara em testamento certa quantia assaz avultada para colocar-me acima das atribulações da vida. Que tal? É ou não uma tigela de maná que me veio do céu? Eu bem te dizia muitas vezes que tinha fé na minha estrela, e que estava certo de que não havia de ganhar fortuna pela simples posição de advogado provinciano. 

Mas já te ouço dizer contigo mesmo: Que tivesse um legado, concebe-se; mas que fosse ele próprio arrecadá-lo, isto é que eu acho esquisito. 

Respondo à tua reflexão: 

Podia dar procuração a alguém e ficar comodamente na corte à espera que lá me fosse ter às mãos a quantia legada por aquele chorado padrinho. Se não fiz isto foi por virtude de uma cláusula que o meu referido padrinho incluiu no testamento. 

Esta cláusula é a seguinte: 

Este legado só será entregue ao meu afilhado Luís depois que ele tiver, por virtude dos próprios esforços, descoberto em certo lugar, situado na casa tal, em Pelotas, um segredo que lá conservo. 

Deves compreender que eu não podia, estando na corte, descobrir o segredo de Pelotas.

Por isso embarquei apenas recebi a notícia. 

Muitas vezes te falei neste padrinho como o mais singular e extravagante dos padrinhos. Sobre a condição que ele punha tinha eu a curiosidade de saber qual era esta nova excentricidade do velho. 

E parti. 

Ainda não fui a Pelotas, mas tratei de indagar que casa era aquela e quem residia lá. Disseram-me que a casa era propriedade de meu padrinho e estava vazia há cinco anos. Isto aguçou a minha curiosidade. 

Decididamente temos um mistério neste negócio. 

O que sobretudo me causa ainda maior assombro é não haver na cláusula a designação em que lugar da casa se acha o segredo. Será nas salas, nas alcovas, no terreiro, no teto ou no chão? Não sei. Mas o legado vale a pena, e eu tenho forças e tenacidade para levar a obra ao cabo. 

Disponho-me a partir dentro de alguns dias, munido de instrumentos e acompanhado do meu guasca. 

De tudo o que ocorrer dar-te-ei conta. 

Adeus. Não sejas preguiçoso. Escreve-me. 

Alberto leu e releu esta carta. Sorriu à idéia de que Luís se achava envolvido em um mistério de romance. Ele sabia que o padrinho do advogado era um homem excêntrico, desta longa família que se ramifica por todas as raças e todos os países. Direi em duas palavras quem eram os dois amigos. 

Luís, advogado provinciano, como ele próprio diz, tinha tomado grau na faculdade de S. Paulo e tinha vindo advogar na corte. Fazia um ano que se achava aí sem ter conseguido nome nem fortuna. Alguma coisa que trouxera ia-se já gastando e o legado do padrinho veio na melhor ocasião. 

Alberto, natural do Rio de Janeiro, era advogado, como ele, sem nome e sem fortuna, como ele filho da academia de S. Paulo, havendo em tanta harmonia e identidade uma única diferença: era o legado do padrinho de Luís. 

A viagem a Minas feita por Alberto era por motivo de ir colher informações minuciosas para servir em processo. 

O encontro de ambos já o leitor teve notícia no começo destas linhas. 

* * * 

(continua...)

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