Por Machado de Assis (1873)
Machado de Assis (1839–1908) é autor do conto “Decadência de dois grandes homens”, narrativa de tom fantástico e irônico que dialoga com a História romana para refletir sobre loucura, poder, glória e decadência. Publicado no século XIX, o texto combina erudição clássica e humor mordaz, revelando a crítica machadiana às ilusões da grandeza humana.
Os antigos freqüentadores do Café Carceller hão de recordar-se de um velho que ali ia todas as manhãs às oito horas, almoçava, lia os jornais, fumava um charuto, dormia cerca de meia hora e saía. Estando de passagem no Rio de Janeiro, aonde viera para tratar questões políticas com os ministros, atirei-me ao prazer de estudar todos os originais que encontrava, e não tenho dúvida em confessar que até então só tinha encontrado cópias. O velho apareceu a tempo; tratei de analisar o tipo.
Era meu costume — costume das montanhas mineiras — acordar cedo e almoçar cedo. Ia fazê-lo ao Carceller, justamente à hora do velho, dos empregados públicos e dos escreventes de cartório. Sentava-me à mesa que enfrentava com a do velho, e que era a penúltima do lado esquerdo contando do fundo para a rua. Era ele homem de seus cinqüenta anos, barbas brancas, olhos encovados, cor amarela, algum abdome, mãos ossudas e compridas. Comia vagarosamente algumas fatias de pão-de-ló e uma chávena de chocolate. Durante o almoço não lia; mas apenas acabado o chocolate, acendia um charuto que tirava do bolso, que era sempre do mesmo tamanho, e que no fim de certo tempo tinha a virtude de o fazer adormecer e deixar cair das mãos o jornal que estivesse lendo. Encostava então a cabeça à parede, e dormia plácido e risonho como se algum sonho agradável lhe estivesse dançando no espírito; às vezes abria os olhos, contemplava o vácuo, e continuava a dormir tranqüilamente.
Indaguei do caixeiro quem era aquele freguês.
— Não sei, respondeu; almoça aqui há quatro anos, todos os dias, à mesma hora. — Tem ele por aqui algum conhecido?
— Nenhum; aparece só e retira-se só.
Aguçava-me a curiosidade. Ninguém conhecia o velho; era mais uma razão para conhecê-lo eu. Procurei travar conversa com o desconhecido, e aproveitei uma ocasião em que ele acabava de engolir o chocolate e procurava com os olhos algum jornal. — Aqui está este, disse-lhe eu, indo levar-lhe.
— Obrigado, respondeu-me o homem sem levantar os olhos e abrindo a folha. Não obtendo mais nada, quis travar conversa por outro modo.
— Traz hoje um magnífico artigo sobre a guerra.
— Ah! disse o velho com indiferença.
Nada mais.
Voltei ao meu lugar disposto a esperar que o velho lesse, dormisse e acordasse. Paciência de curioso, que ninguém a tem maior, nem mais fria. Ao cabo do tempo do costume tinha o homem lido, fumado e dormido. Acordou, pagou o almoço e saiu. Acompanhei-o imediatamente; mas o homem tendo chegado à esquina, voltou e foi até à outra esquina, aonde se demorou, seguiu por uma rua, tomou a parar e a voltar, a ponto que eu desisti de saber onde iria ele ter, tanto mais que nesse dia devia entender-me com um dos membros do governo, e não podia perder a ocasião.
Quando no dia seguinte, eram 15 de março, voltei ao Carceller, encontrei lá com o meu homem, assentado no lugar do costume; estava acabando de almoçar, almocei também; mas desta vez guardou-me o misterioso velho uma surpresa; em vez de pedir um jornal e fumar um charuto, encostou a cara nas mãos e começou a olhar para mim. — Bom, disse eu; está amansado. Naturalmente vai dizer-me alguma coisa. Mas o homem nada disse e continuou a olhar para mim. A expressão dos olhos, que de ordinário era morta e triste, nessa ocasião tinha um quê de terror. Supondo que ele quisesse dizer me alguma coisa, fui o primeiro a dirigir-lhe a palavra.
— Não lê hoje os jornais?
— Não, respondeu-me ele com voz sombria; estou pensando...
— Em quê?
O velho fez um movimento nervoso com a cabeça e disse:
— São chegados os idos de março!
Estremeci ouvindo esta singular resposta, e o velho, como se não visse o movimento, continuou:
— Compreende, não? É hoje um tristíssimo aniversário.
— A morte de César? perguntei eu rindo.
— Sim, respondeu o velho com voz cavernosa.
Não tinha que ver; era algum homem maníaco; mas que haveria de comum entre ele e o vencedor das Gálias? A curiosidade cresceu; e aproveitei a disposição em que o velho estava de travar conhecimento. Levantei-me e fui sentar-me à mesa dele. — Mas que tem o senhor com a morte de César?
— O que tenho com a morte daquele grande homem? Tudo.
— Como assim?
O velho abriu a boca e ia responder, mas a palavra ficou-lhe no ar e o homem voltou à taciturnidade habitual. Ocupei esse tempo em contemplá-lo mais detidamente e de perto. Olhava ele para a mesa, com as mãos postas debaixo das orelhas; os músculos do rosto estremeciam de quando em quando, e os olhos rolavam dentro das órbitas como favas nadando em prato de molho. No fim de algum tempo olhou para mim, e eu aproveitei a ocasião para dizer-lhe:
— Quer um charuto?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Decadência de dois grandes homens. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1873.