Por Machado de Assis (1864)
Em “Epitáfio do México" Machado de Assis condena a intervenção estrangeira e a opressão contra o povo mexicano. O autor manifesta sua sensibilidade política, clamando por justiça e prevendo que a liberdade é um ideal que ressurgirá, apesar das derrotas momentâneas. O poema compõe “Crisálidas” (1864), coletânea de poemas que marca a estreia poética de Machado de Assis (1839–1908). O volume reflete a transição entre o Romantismo da época e a agudeza psicológica que se tornaria sua marca registrada.
DOBRA o joelho: — é um túmulo.
Embaixo amortalhado
Jaz o cadáver tépido
De um povo aniquilado;
A prece melancólica
Reza-lhe em torno à cruz.
Ante o universo atônito
Abriu-se a estranha liça
Travou-se a luta férvida
Da força e da justiça;
Contra a justiça, ó século,
Venceu a espada e o obus.
Venceu a força indômita;
Mas a infeliz vencida
A mágoa, a dor, o ódio,
Na face envilecida
Cuspiu-lhe. E a eterna mácula
Seus louros murchará.
E quando a voz fatídica
Da santa liberdade
Vier em dias prósperos
Clamar à humanidade
Então revivo o México
Da campa surgirá
ASSIS, Machado de. Epitáfio do México. In: ASSIS, Machado de. Crisálidas. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1864.