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#Poemas em verso#Literatura Portuguesa

Agora que sinto amor

Por Fernando Pessoa (1930)

Este poema integra a obra “O Pastor Amoroso”, escrita entre 1914 e 1930. Embora alguns poemas avulsos tenham aparecido em revistas literárias, a reunião definitiva só foi publicada em livro em 1946.

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por maneira.
Mas agora sei com a respiração da parte de traz da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações,
Não sei o que hei de ser sozinho.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

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