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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

A Capital acompanha a trajetória de um jovem que deixa a vida no interior em busca de sucesso e reconhecimento na cidade grande. Ao enfrentar ilusões, ambições e decepções, a narrativa constrói uma crítica à sociedade, ao meio intelectual e às aparências, revelando os desafios de quem tenta encontrar seu lugar em um ambiente marcado por interesses e vaidades.

INTRODUCÇAO

Os ULTIMOS INEDITOS D'EçA DB QUEIROZ

Não foi, devo dizel-o, sem hesitações, sem consultar, sem ter ouvido a opinião d'alguns homens superiores, que tomei a resolução definitiva de lançar a publico esta coisa extraordinaria: sete volumes ineditos d'Eça de Queiroz — sete volumes que dormiram durante mais de vinte e cinco annos no fundo d'uma mala, desconhecidos, insuspeitados, e que só agora apparecem, fazendo reviver o auctor dos Maias, trazendo-nos, depois de um de seculo de silencio, um echo d'além-tumulo da sua ironia, do seu espirito, da sua elegancia, n'uma palavra, da sua arte I

A muitos se afigurará de certo milagroso o apparecimento tão tardio d'estes sete volumes; a outros parecerá talvez inexplicavel a existencia d'uma obra tao larga e tão diversa, desconhecida d'aquelles mesmos mais teem estudado e commentado a obra d'Eça de Queiroz ; a ainda poderá parecer suspeita a publicaç&o de tantos ineditos, volvidos tantos annos sobre o desapparecimento do seu auctor.

Foi por todas estas considerações, de que uma critica antecipada já me trouxe, aqui e além, os primeiros echos, que eu considerei necessario este pequeno estudo previo, que não tem a pretenoao de sor um prologo, muito menos um prefacio, mas apenu uma imples nota do tacto sensacional, e, tanto quanto posslvel, a historia dos manuscriptos e das obras cuja publicação começa com o presente volume.

Eu sei que o grande publico não vae lêr a minha nota e que os proprios enthusiastas de meu Pae, saltarão por cima d'estas linhas com um gesto de tedio, quasi irritado, para correr ao primeiro capitulo e começar com um ah ! de satisfaçáo: g A estação d'Ovar, no caminho de ferro do Norte . .

Julgo, porém, que desde que assumi a responsabilidade de publicar ste volume e os seis que se lhe devem seguir, era do meu dever vir dizer ao publico por que o fiz e como o fiz. Assim, esta nota ficará apenas como a explicação do facto inesperado, como a authenticaçào dos manuscriptos apparecidos, como um documento para o estudo da obra posthuma dc meu Pae, e, finalmente, como um aviso aos leitores e á critica da indole muito especial d'estas publicações.

Ha cerca de um anno, procurando um autographo inedito que me tinha pedido, abri o pequeno cofre ou mala de ferro, onde, ha vinte e cinco annos, ainda em Paris, tinham sido guardados todos os papeis que se encontravam no escriptorio de meu Pae. D'aquella mala já tinham sahido publicacoes preciosas: A Cidade e as Senas, os tres Santos, varios artigos. Ali, ha•aa aiada os de diversas obras Já conhecidas, e grande quantidade de papelada, em desordem, espalhada no fundo da mala pelos baldões de numerosas viagens, papelada da qual diziamos muitas vezes: —- qualquer dia temos que lêr aquillo tudo e vêr ao certo o que é». Foi o que agora se fez : leu-se aquato tudo, e viu-se o que era

Porque se náo fez mais cedo A difficuldade da letra, cerrada, nervosa, vertiginosa, a confusão das folhas em desordem e sem numeração, a convicção de que aquillo tudo já fôra visto por, Ramalho Ortigao, quando tomara conta da revisao da Cidade e as Serras e de que nada haveria alli de realmente notavel ou novo, tudo isso o poderia explicar até certo ponto, e até certo ponto concorreu para o longo silencio. Porém a razão principal foi a ausencia dos filhos d'Eça de Queiroz, exilados depois de 1910, vivendo longos annos no estrangeiro, ora n'uma terra, ora n'outra, sem residencia fixa nem installaçáo definitiva, levando uma vida instavel que nunca lhes permit tiu o estudo e a organisaçao de todos aquelles manuscriptos desconhecidos.

Foi portanto em principios de 1924, que, ao abrir a mala dos cÑiginaes para procurar um autographo, resolvi, com meu irmão Alberto, lançar hombros á tarefa monumental de coordenar, numerar, lêr— poderia dizer decifrar nhecidas, e grande quantidade de papelada, em desordem, espalhada no fundo da mala pelos baldóes de numerosas viagens, papelada da qual diziamos muitas vezes: -— qualquer dia temos que lêr aquillo tudo, . , e vêr ao certo o que é». Foi o que agora se fez : a leu-se aquillo tudo, e viu-se o que era.



(continua...)

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