A Capital EçA DE QUEIRóS (1925) A Capital acompanha a trajetória de um jovem que deixa a vida no interior em busca de sucesso e reconhecimento na cidade grande. Ao enfrentar ilusões, ambições e decepções, a narrativa constrói uma crítica à sociedade, ao meio intelectual e às aparências, revelando os desafios de quem tenta encontrar seu lugar em um ambiente marcado por interesses e vaidades. INTRODUCÇAO Os ULTIMOS INEDITOS D'EçA DB QUEIROZ Não foi, devo dizel-o, sem hesitações, sem consultar, sem ter ouvido a opinião d'alguns homens superiores, que tomei a resolução definitiva de lançar a publico esta coisa extraordinaria: sete volumes ineditos d'Eça de Queiroz — sete volumes que dormiram durante mais de vinte e cinco annos no fundo d'uma mala, desconhecidos, insuspeitados, e que só agora apparecem, fazendo reviver o auctor dos Maias, trazendo-nos, depois de um de seculo de silencio, um echo d'além-tumulo da sua ironia, do seu espirito, da sua elegancia, n'uma palavra, da sua arte I A muitos se afigurará de certo milagroso o apparecimento tão tardio d'estes sete volumes; a outros parecerá talvez inexplicavel a existencia d'uma obra tao larga e tão diversa, desconhecida d'aquelles mesmos mais teem estudado e commentado a obra d'Eça de Queiroz ; a ainda poderá parecer suspeita a publicaç&o de tantos ineditos, volvidos tantos annos sobre o desapparecimento do seu auctor. Foi por todas estas considerações, de que uma critica antecipada já me trouxe, aqui e além, os primeiros echos, que eu considerei necessario este pequeno estudo previo, que não tem a pretenoao de sor um prologo, muito menos um prefacio, mas apenu uma imples nota do tacto sensacional, e, tanto quanto posslvel, a historia dos manuscriptos e das obras cuja publicação começa com o presente volume. Eu sei que o grande publico não vae lêr a minha nota e que os proprios enthusiastas de meu Pae, saltarão por cima d'estas linhas com um gesto de tedio, quasi irritado, para correr ao primeiro capitulo e começar com um ah ! de satisfaçáo: g A estação d'Ovar, no caminho de ferro do Norte . . Julgo, porém, que desde que assumi a responsabilidade de publicar ste volume e os seis que se lhe devem seguir, era do meu dever vir dizer ao publico por que o fiz e como o fiz. Assim, esta nota ficará apenas como a explicação do facto inesperado, como a authenticaçào dos manuscriptos apparecidos, como um documento para o estudo da obra posthuma dc meu Pae, e, finalmente, como um aviso aos leitores e á critica da indole muito especial d'estas publicações. Ha cerca de um anno, procurando um autographo inedito que me tinha pedido, abri o pequeno cofre ou mala de ferro, onde, ha vinte e cinco annos, ainda em Paris, tinham sido guardados todos os papeis que se encontravam no escriptorio de meu Pae. D'aquella mala já tinham sahido publicacoes preciosas: A Cidade e as Senas, os tres Santos, varios artigos. Ali, ha•aa aiada os de diversas obras Já conhecidas, e grande quantidade de papelada, em desordem, espalhada no fundo da mala pelos baldões de numerosas viagens, papelada da qual diziamos muitas vezes: —- qualquer dia temos que lêr aquillo tudo e vêr ao certo o que é». Foi o que agora se fez : leu-se aquato tudo, e viu-se o que era Porque se náo fez mais cedo A difficuldade da letra, cerrada, nervosa, vertiginosa, a confusão das folhas em desordem e sem numeração, a convicção de que aquillo tudo já fôra visto por, Ramalho Ortigao, quando tomara conta da revisao da Cidade e as Serras e de que nada haveria alli de realmente notavel ou novo, tudo isso o poderia explicar até certo ponto, e até certo ponto concorreu para o longo silencio. Porém a razão principal foi a ausencia dos filhos d'Eça de Queiroz, exilados depois de 1910, vivendo longos annos no estrangeiro, ora n'uma terra, ora n'outra, sem residencia fixa nem installaçáo definitiva, levando uma vida instavel que nunca lhes permit tiu o estudo e a organisaçao de todos aquelles manuscriptos desconhecidos. Foi portanto em principios de 1924, que, ao abrir a mala dos cÑiginaes para procurar um autographo, resolvi, com meu irmão Alberto, lançar hombros á tarefa monumental de coordenar, numerar, lêr— poderia dizer decifrar nhecidas, e grande quantidade de papelada, em desordem, espalhada no fundo da mala pelos baldóes de numerosas viagens, papelada da qual diziamos muitas vezes: -— qualquer dia temos que lêr aquillo tudo, . , e vêr ao certo o que é». Foi o que agora se fez : a leu-se aquillo tudo, e viu-se o que era. Porque se núo fez mais cedo A difficuldade da letra, cerrada, nervosa, vertiginosa, a confusão das folhas em desordem e sem numeração, a convicção de que aquillo tudo já fora visto por Ramalho Ortigao, quando tomara conta da revisao da Cidade e as Serras e de que nada haveria alli de realmente notavel ou novo, tudo isso o poderia explicar até certo ponto, e até certo ponto concorreu para o longo silencio. Porém a razao principal foi a ausencia dos filhos d' Eça de Queiroz, exilados depois de 1910, vivendo longos annos no estrangeiro, ora n'uma terra, ora n'outra, sem residencia fixa nem installaçáo definitiva, levando uma vida instavel que nunca lhes permit tiu o estudo e a organisaçao de todos aquelles manuscriptos desconhecidos. Foi portanto em principios de 1924, que, ao abrir a mala dos originaes para procurar um autographo, resolvi, com meu irmão Alberto, lançar hombros á tarefa monumental de ordenar, coordenar, numerar, lêr— poderia dizer decifrar. VIII as duas mn e tantas paginas mahugorlptas da obra posthuma que agora damos a publico. Porém outra surpreza nos esperava ainda : do Rio de Janeiro chegava-me um dia, datada de de Julho de 1924, uma carta extremamente interessante do Snr. José Vasco Ramalho Ortigão, em que o filho do grande escriptor me dizia : a Entre a enorme quantidade de papeis que recebi de Lisboa com a li- vraria de meu Pae, encontro varies manuscriptos d'Eqa de Queiroz, algumas cartas de Fradique e provas corrigidas e ori ginaes da Gapital. Estas ultimas muito difficeis de organisar...' E com effeito, pouco tempo depois, chegava-me do Brasil um volumoso pacote de manuscriptos que vinha augmentar milagrosamente o valor da minha descoberta. Era de facto uma segunda fórma da Capital, com cerca de cem paginas impressas, corrigidas, refundidas, augmentadas, com longas tiras colladas ás paginas, cobertas de emendas e accrescentos a lapis ; eram ainda cinco cartas de Fradique, ineditas. e finalmente esse curiosissin» Conde d' Abranhos, o mais estranho dos manus criptos de meu Pae, todo escripto d'um folego, de fio a pavio, quasi sem uma emenda, n'uma letra vertiginosa de rascunho, completo, perfeito, e a lapis. Muitos mezes nos levou a decitraçho e a copia dos manuscrfptos. Fof um trabalho benedlotino, exhaustivo, ao mesmo tempo cheio de surprezas, de de desanimos, d'enthusiasmos, em que caminhavamos de descoberta em descoberta, atravez d'um mundo novo, reconstituindo lentamente vidas inteiras, personagens, aventuras, dra.mas, desesperos, desillusóes. Era o melancolico Arthur Corvello que se esboçava ; era a Genoveva que resplandecia, aureolada do prestigio das civilisações superiores que atravessara ; era Camillo Serrão que se agitava febrilmente na sua arte esteril, o astuto Abranhos subindo á força d'habilidades na politica, e o triste Godofredo, resignado, reorganisando a sua pobre vida : toda uma população que nos era intensamente viva, movendo-se n'um mundo intensamente real, com os seus sentimentos, os seus defeitos, as silag qualidades, os amo- res, as suas ambiçõee e os seua ridiculos ! Assim, onde esperavamu encontrar rascunhos, notas soltas, esboços, descobriamos romancea, nove}lag, contos, reminiscencias de viagens, toda uma obra, lançada ao papel no primeiro Jacto da inspiração, mas completa na sua estructura definitiva na sua intenção. Porque tinharn sido abandonados trabalhos ? Ê proverbial a ancia de peçfeiçáo de meu Pae, artista sempre insatisfeito, desejando sempre melhor, criticando os seus proprios livros, achando-os sempre incompletos, imperfeitos, inferiores ao seu desejo. Da sua immensa obra, que, depois de publicados os sete livros d'esta ultima série, attíngírá vinte e quatro volumes, apenas cinco romances tinham sido dados a publico durante a sua vida. São de certo esses cinco livros as cinco joias maximas da sua obra; porém, a desproporção entre o muito que escreveu e o pouco que publicou é caracteristica. O seu feitio Indifferente ao lucro, indifferente á popularidade, a sua natureza toda d'enthusiasmos rapidos, que o fazia por de parte, desinteressar-se de repente da idéa da vespera para se entregar inteiramente á nova idéa, fazem comprehender até certo ponto que elle deixasse na gaveta tantos trabalhos por completar. Mas é sobretudo ás cartas ao seu editor, Ernesto Chardron, que vamos buscar os dados mais seguros para o estudo da sua maneira de trabalhar e para a historia dos originaes d'estes ultimos sete volumes. Que elles eram destinados á publicidade é incontestavel. Com effeito, tanto A Capital, como A Tragedia da Rua das Flores, e talvez mesmo O Conde d'Abranhos, faziam parte d'um iargo plano que infelizmente nunca chegou a ser executado. A idéa d'esta gérfe de publicações — que faz pensar n'uma pequena Comédie Humatne, reduzida ás proporções mais modestas de «Comedia Portugueza» —apparece pela primeira vez n'uma carta para o editor, datada de Newcastle, em 5 de Outubro de 1877, e d'onde destaco os seguintes trechos: . . . Eu tenho uma idéa, que penso daria excelente resultado. uma collecçao de pequenos romances, não excedendo de 180 ca 200 paginas, que fosse a pintura da vida contemporanea em Portugal: Lisboa, Porto, provincias, politicos, negocian tes, fidalgos, jogadores, advogados, medicos, todas as clas ses, todos os costumes, entrariam n'esta galeria. c A coisa poderia chamar-se Scenas da Vida Real, ou qualquer outro titulo generico mais pittoresco. Cada novella teria depois o seu titulo proprio. Como comprehende, estas novellas devem ser curtas, condensadas, todas d'effeito, e não devem exceder 12 volumes. Os personagenq d'uma appa- receriam nas outras, de sorte que a collecção formaria um todo c Eu Já tenho o assumpto de tres novellas, e uma quasi completa. N'uma d'ellas pintarei o jogo e os Jogadores, n'outra a prostituição, a ultima é um drama d'incesto do mestico. O encanto d'estas novenas — que sio mais difficeis de fazer do que um romance—é que não há digressões, nem declamação, nem philosophia : tudo é interesse e drae ma, e rapidamente contado lê-se n'uma noite e fica-se com a impressao para uma semana. Eis a idéa em geral a A mim esta idéa das novellas encanta-me Em todo o caso uma das novenas está quasi prompta — «é só copial-a : chama-se O Desastra da Traoessa do Caldas e ou talvez, núo sei ainda, O caso atroz da Genoveva. Trata-se a d'um incesto involuntario. Alguns amigos a quem communi quei a idéa d'ella e parte da execução, ficaram impressionaa dos, ainda que um pouco escandalisados. — Nao quer dizer a que seja immoral. cruel . . Estava lançada a primeira idéa d'aquelle plano litterario que durante muito tempo interessou meu Paes e Já aqui encontramos uma referencia á Tragedia da Rua das Flores, embora sob um titulo diverso, mas mo explicito mie náo nos pôde deixar duvidas sobre a sua identidade. Vemos que começou por ser, em projecto, uma pequena novella de 200 paginas, o foi crescendo até se transformar no grosso volume da Tragedia da Rua das Flores, que, Vor sua vez, refundida, acrescentada, elevada ás proporções d'um estudo critico da vida lisboeta, conservando apenas da novena primitiva e do romance que se lhe seguiu o episodio sentimental qne serve de pretexto a esse estudo, se transformou finalmente nos dois volumes magisfraes dos Maias. De resto, esta tendencia para augmentar, desenvolver indefinidamente os seus assumptos, é uma das caracteristicas do processo litterario de meu Pae, e vemos o mesme succeder-lhe mais tarde com A Capital, a que elle se refere n'estes termos, em carta a Chardron, de 13 de Junho de 78 : a Espero remetter por estes dias A Capital : es tou porém muito contrariado porque não sei o que hei-de esa crever de manuscriptG para fazer as 200 paginas convencio nadas. A Capital creio que dá 400 1 Isto a V. Ex.a não lhe faz differença, porque poe o que quizer, não é verda de ? — De certo, se um dos episodios o pedir, nho hesitarei a em escrever 600 — mas fazel-o por equivoco — é duro I . , . ) Em 12 de Agosto do mesmo anno, insistia : c . . . . Emquan to á Capital : segundo os calculos da imprensa o volume deve ter de 400 a 420 vaginas E n'outra carta, de 20 d'outubro de 79, 'á o livro tomou proporções maiores ainda : Da Capital nem tallemos : vendi-lhe um livro de 200 paginas e estou a fazer um volume de 600 • Entretanto o plano das Scenas da Vida Real, apenes esboçado na primeira carta que citei, ia tomando corpo. Vae-se desenvolvendo a idéa inicial, organizam-se, definem-se os detalhes. O titulo generico muda para Chronicas da Vida Sentimental, depois aproveitado nos Maias, modificado para Episodios da Vida Romantica. É interessantissima a carta para o editor, de 3 de Novembro de 77 : Tenho pensado no nosso negocio das Chronicas e eis o que julgo poder pro pôr-lhe de melhor : «As Chrontcas da Vida Sentimental (titulo provisorio) « constam de doze volumes. Cada um dos romances tem a sua acção propria e desenlace proprio ; mas sendo estudos dos a factos mais caracteristicos da nossa sociedade, formam no seu todo um quadro geral da vida contemporanea. A obra cé uma especie de galeria de Portugal no seculo XIX. c Para produzir porém um alto grau d'interesse — é ne cessario dar-lhes diversidade. Assim, alguns pintarão costuc mes geraes da nossa sociedade : O Predio N. 0 16, será o jogo ; c A Linda Augusta, a prostituição ; O Bacharel Sarmento, 8 a educação e as escolas, etc. Outros, serão o estudo d'alguma c paixão ou drama excepcional : assim A Genoveva é o incesto , c Soror Margarida, a monomania religiosa ; teremos ainda O Milagre do Valle de Reriz, para mostrar o fanatismo das aldeias ; O Bom Salomao dir-nos-ha a agiotagem, etc. e O prfmeiro volume está multo adcantado ; hesito : tal vez O Desastre da nua das Flores, talvez Os .4mores d'uma I.,inda Moça. Em todo o caso é o incesto «O Primo Bazílio é mais para o publico litterario, mas este é uma verdadeira bomba litteraria e moral ! A 21 do mesmo mez escrevia ainda sobre o mesmo assumpto : a O primeiro n. 0 está quasi concluido : é, creio, o romance melhor e mais interessante que tenho escl'ipto até a hoje. A este segue-se na ordem dos trabalhos, se Deus qui zer, O Milagre do Valle de Reriz Pouco depois, porém, parece que o plano inicial torna a soffrer modificações: o titulo generico muda de novo para Scenas da Vida Portugueza. Da Tragedia da nua das Flores, nem uma palavra. Sobre esse romance, ao melhor e mais interessante que tenho escripto até hoje % não encontro mais referencias nas cartas que poude consultar. Perdemol-o de vista, cae na gaveta e no esquecimento, desapparece totalmente, para só resurgir, volvidos annos, remodelado, transformado, sob a forma definitiva dos Maias. É provavel que já n'essa cpocha o manuscripto fosse attingindo o seu tamanho actual e que meu Pae decidisse retirar da serie de chronicas de 200 paginas um volume que ene sentia nao poder apertar dentro. d'esse limite. Supponho mesmo, dado o valor que elle dava a esse trabalho, que desde então resolvesse fazer d'elle um romance Isolado, como o Primo Bazílio ou o Crime do Padre Amaro. Por isso A Tragedia da Rua das Flores desapparece das Chrontcas, e em seu logar encontramos Os Maias, que prova velmente se destinavam a. ser a simples pintura d'uma farnilia fidalga. Vê-se que depois os dois assumptos se condensaram Numa obra unica, em que, AO quadro aristocratico dos Malas, foi enxertado o episodio dramatico da Tragedta da Rua das Flores. Tudo isto deduzo dos seguintes trechos d'uma carta de 28 Oe Junho de '8, datada ainda de Newcastle : , Pu•a evitar óaacordos posteriores, peço que me diga c se lhe é inconveniente que alguns contos tenham 250 paginas. Realmente alguns 40s novos assumptos, ao que c eu vejo, demandam um espaço maior que o convenciona , do , • E mais longe, voltando ao saa plano : Não acho titulo melhor do que Scengs Perturuezas. Podía tam bem ser Senas da Vida Portuotuzg. Se tiver occasiáo d'es c crever ao Ramalho, consulte-o sobre isto. Julgo conveniente ce desejo que só annuncie em preparaçao os tres primeiros contos: o primeiro deve ser A Capital. Eis os titulos dos contos, se Deus quizer que tudo corra bem: — A Capital. c 11 — O Milagre do Valle de Reriz a 111 — A Linda Augusta — O Rabecão — O bom Salomao —A casa n.0 16 CVII — O Gorjão, primeira dama VIII— A Illustre Famata Estarreja — A Assanbleta da Foz — O Conspirador Mathias , Historia d'um Graue Homem XII — Os Maias. Seria ridiculo annunciar mais de trc ; O primeiro em todo o caso é A Capital, que está arranJada ' Esta carta é extremamente curiosa e sobretudo elucidativa. Pela primeira vez ouvimos fanar na Capta, e o que é mais extraordinario, na Capital, Já arranjada. t Surge ainda, com o desapparecimento da Tragedia da Rua das Flora, a primeira menção dos Matas. Por outro lado, parece-me reconhecer no titulo do 8.0 conto, a id6a de que devia sahir, to mais tarde, A Il&ugtre Gasa de Ramires. E será Já Historia d'um grande Homem o primeiro pensamento da bio. graphia do Conde d'Abranhos ? Parece-me isso provavel, embora nao possua dados alguns que o comprovem, pois que, ge idéa da biographia tinha germinado n'esta epocha, é todavia certo que só depois de 1879 teve realisaçáo, como mostram as cartas que cito mais adiante, Porém, a novella que mais se coaduna com a indole d'egta serie de contos, ou chronicas, é incontestavelmente aquella a que eu puz — falta d'outro — o titulo de Aloes & C.B. Pela sua pouca extensho, cerca de 200 paginas: pelo assumpto, leve quadro de costumes da pequena burguezia lisboeta, pela sua mesma estructura, em que não ha c digressões, nem declama. cão, nem philosophia e a tudo é interesse e drama, e rapidQN mente contado % parece com effeito uma novella especialmente escripta para as Scenas da Vida Portugueza, taes como meu Pac as planeara. Não tenho porém sobre esse manuscripto a menor nota que nos possa elucidar : nem uma referencia, nem uma data, nem sequer uma menção de titulo. Apenas a letra e o formato do papel me fazem crer que não erro muito da. tando a novella d'esta epoch& de espantosa producção. Por algum tempo parece ter continuado a idéa primitiva das doze novenas, mas já em d'Agosto de 78, meu Pae, seu abandonar ainda a idéa, concentra o seu trabalho mais especialmente na Capital; . . . Emquanto ás Scenas, trabalho n'ellas. Tem-me tomado tempo pôr em linhas geraes este trac balho, que é vasto e mais importante e interessante do que ao principio pensei. Depois, 'á escrevi A Capital, cuja co pia vai muito adeantada e que lhe remetterei breve, se Deus quizer . . • E mais longe : Estou bastante contente com A Capital — ainda que receio que se repitam as accu saçOes d'escandalo. d'esta vez mais serias, porque não se trata de mulheres, nem d'amores, mas sho pinturas um pou co crueis da vida litteraria em Lisboa (Jornalistas, artistas, etc.). Deus queira que ninguem tenha a tolice de se julgar ferido. No emtanto, todo este trabalho um pouco incoherente, tumultuario, em que se sente o borbulnar do talento, das idéas, a força productiva em todo o seu vigor, era levado parallelamente com a revisão da segunda edição do Grime do Padre Amaro e das provas do Primo Bazilio, e o auctor, em 12 de Outubro de 78, confessa com bom humor não poder levar por tantos trabalhos simultaneos : a Mas que havemos de fazer com A Capital? Eu tenho o manuscripto prompto c até ultima linha, mas preciso revel-o com minuciosidade a —e se revelo o Padre Amaro nao posso occupar-me da Caa pitai. Eu não sou um homem como Cesar, para escrever duas cartas — ou dois livros —a um tempo. Parece-me pois que o melhor, o mais prudente, o mais habil, será fazer a toda a força sobre o Padre Amaro, e deixar A Capital para o tim do anno. necessarfo núo fatigar o publico com os meus livros. Se lhe atirarmos tres ao mesmo tempo, eu per. co, come escriptor, a grande qualidade da novidade e da raria da". Um auctor que escreve muito é como uma mulher bo nita que se mostra por toda a parte : o publico termina por nao se impressionar t Temos agora O Primo Bazado. Bem. Depois d'uma pausa, para os fins de Novembro, lançamos o Pa&e Amaro. Fazemos entSo outra pausa, maior, como quando se quer produzir uma sensação e atiramos-lhe com A Capital. Núo lhe parece Isto mais razoavel ? As fo lhas da Capaal impressas, podem ficar por algum tempo armazenadas, esperando. Como vemos, A Capital começara a imprimir-se, e meu Pae pensa em a por de lado para acabar o Padre Amaro. é todavia abandonada completamente, porque, no mez seguinte, a de Novembro, meu Pae escreve a Ernesto Chardron : . Em quanto ás provas da Gapttal. é outro caso, Eu mesmo ao revêr as primeiras provas direi se quero ou ndo c segundas, e espero poder quasi sempre dispensar as segun das. A pressa que V. Ex.a tem — e que eu agora tenho tama bem não é todavia tão urgente que me leve a arriscar os a meus creditos pela apresentação d'um trabalho incorrecto. V. Ex.a sabe como é o meu estylo : não sendo revisto com escrupulo, é trapalhada. Esta apreciação do seu proprio estylo não deixa de ser inesperada. Essa trapalhada parece-me que existe exclusivamente na letra, que, oom effeito, é por vezes bieroglifica. Todas estes manuscriptos me passaram pela mão : decifrei-os, li-os, copiei-os, apresento-os hoje ao publico, textualmente, com pouco mais do que uma leve revisão de pontos e virgulast alguma repetição eliminada, um ou outro córte, aqui e além, e fiquei com a impressão de ser uma trapalhada singularmente limpida. Entretanto, talvez por exigencia do editor, A Capital continuava a imprimir-se e mou Pae revia-lhe as provas, juntamente com as do Padre Amaro e as do Primo Bazilio ; e é no meio d'esta complexidade de assumptos e de trabalhosa que surge subitamente a idéa d'um novo livro que, infelizmente, supponho nunca ter sido escripto c A Batalha do Gaia. Encontro este livro mencionado na seguinte carta de 23 de Dezembro de 78: Rogo que me mandem as folhas impressas do Amaro e Capital: sem elaas é-me quasi impossivel fazer a a revisão do restante. Aguardo com impaciencia, de Lisboa, uma resposta sobre A Batalha do Caia . . . . . . . . . . . . . . Todo o meu empenho é desembaraçar-me do Amaro e da Capdtal o mais depressa possivel, e se a cousa se resolver bem, dedicar-me à Batalha. Isso é que é livro l» Possuo sobre esta Batalha do Caia, um curioso documento : o plano inicial do livro. Devia ser um extraordinario romance de grande alcance pafriotico, em que Portugal, invadido, vencido, batido: ia encontrar nas humilhações da derrota e da occupaqáo estrangeira, o renascimento da fé e das energias perdidas, que um dia provocariam o nosso resurgimento nacional. Não foi porém de todo inutil a idéa d'este grande livro, porque d'ella nasceu mais tarde um conto estranho, por vezes quasi prophetico, A Catastrophe. É-me impossivel datar o conto, simples folheto escripto a lapis, sem menção de data e mesmo de titulo. Pela letra, porém, e pela similitude do papel, inclino-me a que fosse escripto pela mesma epocha do Conde d'Abranhos, que nos apparece agora, à falta da Batalha do Caia! Este Conde d'Abranhos, que assim nos surge inesperadamente, é um curioso original. totalmente escripto — poderia dizer rabiscado —a lapis, e que dá a impressão de ter sido composto d'um folego, em meia duzia de dias. Em 8 de Junho de 79, meu Pae escreve ao editor, de Dinan (COtes du-Nord) : Vou fazer-lhe uma surpreza : responda-me pela volta do correio se póde, ou quer, publicar immediatamente um livro meu de 200 a '250 paginas. Isto não impede que se continue com o Amaro, vivamente, e com A Capitai, mais devagar. Mas o livro a que me refiro é para já : julgo que a deve produzir uma certa sensaçáo. E logo dias depois, a 23 do mesmo mez, diz mais explicitamente: a Em presença da sua resposta, passo a dar-lhe algumas Informações sobre o meu novo livro — para o seu esclarecimento proprio, e para poder fazer os annuncios e reclames necessarios ; e peço que os faça generosamente, ahi e no Brasil. O livro intitula-se e Como vê, é uma blographi8 : a biographia d'um indivi duo imaginario, escripta por um su4eito imaginario. O Conde d'Abranhos é um estadista, orador, ministro, a presidente do Conselho, etc. etc., que, sob esta apparen eia grandiosa, é um pattfe, um pedante e um burro. O livro é, além d'uma critica dos nossos costumes politicos, a a exposição das pequenezes, estupidezes, maroteirazinhas e pieguices que se occultam sob um homem que um paiz inteiro proclama grande. O Zagallo, secretario, é tão tolo como o mi nistro, e o piquant do livro é que, querendo fazer a apologia do seu amo e protector: o idiota Zagallo apresenta-nos na sua crua realidade a nullidade do personagem. Mas para se a avaliar este elemento comico, é necessario a cousa. c Sendo uma biographia, o livro é implicitamente um ro mance, porque o Conde d'Abranhos, como homem, tem paixões, casa, é enganado, bate-se em duello, atravessa epi sodios grotescos ou dramaticos, etc. etc. De tal sorte que o livro é verdadeiramente um pequeno romance, apresentado sob uma fórma nova, que, creio, não tem precedentes em litteratura. Tal é o livro Parece, porém, que a fdéa núo agradou muito a Ernesto Chardron, e o volumezinho, admiravel de verve e humorismo, é logo posto de parte, um mez depois de ter nascido, com o mesmo bom humor e a mesma vivacidade com que fôra concebido, escripto e offerecido ao editor. A carta que o condemna é datada ainda de Dinan, a {O de Julho de 79 : Não comprehendo o que me diz. Fanando do Conde d'Abranhos, exprime surpreza de que etle nao appareça c@m ao meu nome I Um livro meu sem o meu nome ! I Que quer a v. Ex.a dizer? Pois eu creio que havia n'elle mais ele mentos de successo ruidoso que em nenhum outro dos livros «meus —ou alheios, Em todo o caso, n'en parlons pluslt E todavia eu creio bem qu'on en parlera encore, et Ionotemps! Logo desinteressado d'este pobre Gonde d'Abranhos, vêmos por uma carta de IO de Agosto de 79, que meu Pae volta a dedicar-se à Capital : Logo que acabe o Amaro, come« çarei com A Capital. Núo creio que isso me leve mais de 15 dias Pouco depois, porém, surge, entre o auctor e o editor, um desentendimento de ordem puramente material. Havia de certo entre enes algum contracto para a publicação da Capttal, pequena novena de 200 paginas, que, como vimos, a gira já 600 ! Chardron, bom negociante, reclamava o livro; e meu Pae, defendendo o seu trabalho, escrevia-lhe em 20 de Outubro de 79 : e . . . o nosso ultimo accordo, proposto em carta de V. Ex.a , era que se publicasse o Amaro em fins de Outubro ou começos de Novembro, e A Capital em principios do anno, É a este accordo que eu me cinjo, e para o cum prir trabalho noite e dia ! Da Capital nem fallemos ; vendi-lhe um livro de 200 paginas por 20 libras e estou a fa zer um volume de 600 V. Ex.a, se quizer, publicar A Capital, ou os capitulos que ahi tem da Capital. Eu não tea nho poder para lh'O impedir. São apenas tres capjtulos que não significam nada e que, publicados, pareceriam uma misa tificaçào, pois a acção do Romance não apparece n'elles e apenas se apresentam os personagens. Se o fizer, eu declaro pela imprensa que isso é apenas o começo d'um romance que tem mais de 600 paginas e que o publico deve portanto esperar que o romance seja publicado inteiro. Parece no emtanto que chegaram rapidamente a um accordo. Qual foi esse accordo é difficil dizel-o. Não me foi possivel obter mais elementos sobre este periodo tão interessante, em que o Primo Baztlio acaba de sahir do prelo, em que a segunda edição do Padre Amaro, completamente refundida, está em vesperas de ser lançada a publico e se discute Já a publicação da Capital. Faltam completamente as cartas relativas a esta epocha de actividade extraordinaria. Da Capital, comtudo, voltamos a ter noticias em {5 de Novembro do mesmo anno: c . . . . Vão provas e áma nhã original. Querendo Deus, espero ter por estas semanas o Amaro prompto. Faltam apenas duas folhas. Em seguida, atiro-me á Capital com toda a Peço, pois, mande pela volta do correio as folhas da Capital que ahi tem de impressão inutilisada, para eu fazer algumas emendas. Diga-me tam bem em que formato a vae imprimir . . • • Ora esta carta em que se falla de impressão inutilisadas faz-me crer que o verdadeiro motivo de desentendimento entre meu Pae e o seu editor, foi esta inutilisaçúo» de algumas folhas da Gapital. O livro entrara no prelo definitivamente e tinha já, de facto, cerca de 80 paginas impressas. Porém, meu Pae, descontente com a obra, resolvera refundil-a, inutilisando assim umas semanas de trabalho e umas resmas de papel. Mas, como disse, faltam-me informações exactas e deduzo isto apenas da círcumstancia de existirem na minha mão 80 paginas de impressão definitiva, completamente inutilisadas, refundidas, acrescentadas : longas tiras de papel colladas methodicamente iversidade dás pagfnas cobertas d'uma letra miuda, cerrada, a lapis, mas muito clara, transformam essas 80 paginas em cerca de 2001 A apresentação dos personagens toma maior desenvolvimento, introduzem-se novos episodios, outros aperfeiçoam-se ; limam-se arestas, durezas; um personagem é completamente modificado e outro, totalmente novo, surge inesperadamente. É uma figura tocante de rapariga da provincia, Christina: que vem pôr no todo um pouco amargo do romance, uma nota fresca de simplicidade e de doçura enternecida. Sentimos logo, só com o apparecimento do seu sorriso bondoso e um pouco triste, que ella vinha alterar totalmente a curva primitiva do romance. Quem estudou a obra de meu Pae e conhece a sua arte de fazer romances, sabe que todos os seus personagens são uteis ; nenhum que appareça casualmente, sem um fim, sem um motivo definido ; nenhum que não tenha o seu grau d'influenciat maior ou menor, no desenvolvimento da acção. A influencia d'esta figura de pequena provinciana, apenas entrevista n'um dos primeiros capitulos, devia seguramente ser decisiva. Ella seria, no fim do volume, a consoladora, o refugio moral, a unica doçura na vida do triste heroe d'este livro. Infelizmente, porém, com a ultima das paginas emendadas, esta doce figura desappare,e subitamente e a acçúo do romance toma á sua dureza primitiva. Por isso, para conservar quanto possivel á obra o seu todo harmonico, decidime. núo sem melancolia, a eliminar a figura encantadora e incompleta do novo personagem. Entretanto, segundo vimos, tendo chegado a um accordo com o editor, meu Pae retomara a revisão das provas da Capital. Em Dezembro de 79, escreve de Bristol : metti provas da Capital, e peço todas as suas habilidades de reclame para este romance. Merece bem, creio, que se faça alguma cousa por elle. Mais bem escripto até aqui que p Pri mo Bazilio, contendo no meio o que o publico talvez chame um escandalo politico, e no fim o que póde parecer um escanc dalo de moral — é natural que excite a curiosidade. Espe remos que assim seja. Eu, naturalmente, não tive intenção de o fazer escandaloso. O publico é que na sua teima de vêr em tudo escan$lo o póde considerar tal. Que a revisto seja bem feita, é o que recommendo. Esta carta é extremamente interessante, mas necessita uma explicação. A Capital, conforme vem publicada no presente volume, consta de duas partes: a primeira é formada d'aquellas 80 paginas impressas, elevadas pelas emendas a cerca de 200. A segunda parte é de novo a fórma primitiva, mas recopiada — e, para meu Pae, copiar é já emendar, modificar, refundir I Esta carta é por isso incomprehensivel para quem não conheça 8 primeira fórma do romance. Mais curta, mais aspera, d'uma critica mais aguda, mais mordente, differente por vezes da copia que publicamos, tem com effeito no meio o que o publico talvez chamasse um escandalo politicot e no fim que poderia parecer um escandalo de morali — pelo menos n'esses tempos pacatos em que os livros de meu Pae foram Julgados audaciosos. Na copta, esses dois escandalos foram. eliminados, Ê esta uma das caracteristicas do processo de trabalho de meu Pae. Feito o plano, escreve logo o livro, d'um jacto, vertiginosamente, até á ultima linha. Os personagens ficam de pé, a obra inteiramente construída ; porém o assumpto é tratado apenas nas suas linhas geraes, nes suas características mais salientes, duramente, quasi com crueldade. Os caracteres, os defeitos, os viciO% apparecem-nos um pouco deformados, excessivos ; ha quasi um exagero de veia humoristica ; a critica parece feita atravez d'um vidro d'augmento. Depois, o manuscripto é inteiramente recopiado ; e durante a cópia meu Pae começa a moderar esses excessos da sua critica supprime os quadros mais audaciosos, abranda os episodios mais crueis, equilibra os caracteres, adoça as feiçÕes moraes dos seus personagens. Foi isto que se deu com A Capital; é por identico processo que a Tragedia da Rua das Flores, a que elle proprio chamava um livro cruel» , adoçada, abrandada, se transformou nos Maias. O mesmo se deu com a segunda edição do Padre Amaro ; o mesmo de certo se teria dado com os restantes ineditos que publicamos, se meu Pae os tivesse levado em vida até ao prelo, atravez da longa tortura adoçante das copias, das emendas e das interminaveis correcções. D'esta cópia da Capital falla-nos a se='uinte carta de 7 de Fevereiro de 1880 : Emquanto á Capital, t não me zanga a sua impaciencia, porque a minha é ainda maior : mas V. Ex.a não me comprehendeu. Não houve íausse alerte. Como lhe disse, a segunda parte está prompta, e não a mando porque estou a copdat-a. Comprenez-cous maintenant ? D'este modo evito as segundas provas. Imagina que estou a copial-a por meu prazer e divertimento ? Não ! Ê para apressar o trabalko. Mas se ainda assim não acreditar na minha ardente vontade de o livro na rua em dois me zes — então vou d'aqui por deante mandar-lhe o original, como elle sae, crivado d'emendas —e na typographia que se avenham. que faço tudo o que é possivel para dar A Capitai para meados d'Abril, ou antes, q.lerendo «Deus Vemos que n'esta epocha, meu Pac continuava a tra' balhar activamente na Capital. Mas temos aqui nova lacuna documental. Sahiu a segunda edição* refundida, do Padre Amaro, e, por uma coincidencia infeliz, torna a faltar a correspondencia entre o auctor e o editor. Assim não se explica bem que em d'Agosto de 80, meu Pae annuncie a Ernesto Chardron : Logo que termine os Matas, que estão por c dias, estou livre para me entregar todo á conclusão da Capi tal, que irá depressa, querendo Deus ' Ficára então A Capital preterida em beneficio dos Matas ? De resto o editor devia saber o que para meu Pae significa. vam estas palavras: apor diass, tratando-se de revisão litteraria. E effectivamente Os Maias cresciam % como crescera a sua antecessora, A Tragedia da Rua das Flores, e como crescera A Capital. Em 80, os Maias pareciam estar por dias: levaram oito annos a chegar até ao publico. Como tomou o editor este preterimento da Capital? Ha aqui, infelizmente, outra lacuna na correspondencia que não me permitte dizel-o. SO um anno depois, em {6 de Janeiro de 81, tomamos a ouvir fallar no livro, mas sem grande interesse : meu Pae trabalha ainda na Capital a aqui e além, mas trabalho casual>. Todo o seu enthusiasmo vae para os Malas. A nova obra absorve-o, toma-lhe o tempo todo : . . . Tem razão, mil vezes razão a proposito da Capitai I Mas que quer ? Metti-me n'esta empreza dos Maias, que deviam ser ape« nas uma novena e se tornaram um verdadeiro romance I E tenho posto todo o meu tempo a trabalhar n'elle. Nao creia que náo tenha trabalhado tambem n'ella (na Caepitat), aqui e além, mas trabalho casual que pouco adianta. Os Matas absorveram-me . .. • Sente-se no tom carta, apezar das vagas promessas, que a Capital está condemnada. Cansaço do assumpto ? Aborrecimento pelas discussões com o editor que o livro suscitára Quem o poderá dizer ? Trabalhara n'ella durante mais de dois annos, escrevera-a, recopiara-a, refundira-a em parte, emendara-lhe pelo menos metade dos capitulos ; depois, outros trabalhos intervieram, c outros estudos, outros livros o chamaram. t Isto estava na natureza do artista, e a historia devia repetir-se, como sempre se repete a historia : annos depois, a proposito de S. Frei Gil* que elle deixara estendido na relva, á beira d'um rio daro•, meu Pae dizia a Silva Pinto : continuara ene jámafs a sua Jornada para Toledo ? Não sei. Outros esc tudos, outros livros me teem chamado — e até outros santos que me reteem pela sua santidade mais dôce e mais simples. E assim o manuscripto do S. Frei GII, esquecido, ia fazer com. panhia ao esquecido manuscripto da Capital. Com effeito, passam-se mezes, annos até, sem nada sabermos do romance. A correspondencia com o editor parece ter cessado — ou desappareceu — até que, a {6 de Março de 83, perante as reclamações de Chardron, meu Pae limita-se a responder friamente : cv. Ex.a tem razão em tudo o que diz a c respeito do seu direito d'editar a Capital. Esse direito adqui riu-o de facto, tendo começado a impressão d'uma especie de novella que tinha esse titulo e que originou o romance Comtudo, é intenção minha que, querendo Deus, seja ainda c V. Ex. a , que edite A Capital. Tudo está em nos entenderC mos . . . .D Entenderam-se ? Sobre A Capital, certamente que não, -pois que não tornamos mais a ouvir fallar no livro. Comtudo nao se separam ; faltam porém no archivo da Casa Chardron as cartas que poderiam dizer a que accordo definitivo chegaram o auctor e o editor. Sabe,se apenas que em 85, dous annos depois, Ernesto Chardron adquire Os Maias, vindo a falecer d'ahf a pouco. Succedem-lhe na casa Editora os Srs. Lugan 9 Genelioux : trocam-se cartas, renovam-se contractos, mas da Capital nunca mais ee falla. Depois, publica-se o Mandarim, imprimem-se Os Maias, lança-se a Revista de Portugal, apparecem as primeiras cartas de Fradique. Estavarn• definitivamente postos de parte todos estes trabalhos de mocidade: A Tragedia da Rua das Flores, A Capital, O Alves, o Conde d'Abranhos; e todo esse mundo que um mo. mento vivera tão intensamente no espirito do artista, mergulha melancolicamente no esquecimento, e começa o seu longo somno de quarenta annos, no fundo d'uma gaveta, sob a capa de poeira dos manuscriptos desprezados. Encontrados os manuscriptos, decifrados, conhecida a sua historiai era grande ainda a minha hesitação. Seria legitima a publicação d'esses originaes que meu Pae deixara na gaveta da sua mesa de trabalho, que a sua penna núo retocara, que, na sua necessidade de perfeição, de certo consideraria como pastelões informes, elle que, escre vendo a Oliveira Martins, chamava aos Maias € um cartapacio extenso e sobrecarregado % e fallava da Reliquia a Luiz de Magalhães como d'um livreco defeituoso? E, por outro lado, podiamos guardar para nós, egoistamente, a descobcrta maravilhosa, todo esse mundo 'que nos fôra desvendado, creado por meu Pae corn o seu sentimento da realidade, a sua arte de composição, a sua visão dos homens e das cousas, o seu espirito critico, a sua ironia, a sua origina[idade ? E seria razoavel sepultar no fundo d'uma gaveta todos esses pedaços de vida palpitante, pela simples razão de serem apenas primeiras fórmas, escriptas ao correr da penna, sem preocupações de estylo, sem a absoluta perfeição de fórma da ou do Mandarim ? Eu creio que a obra d'arte nho está exclusivamente na fórma, e que, pelo contrario, o seu maior valor reside na solidez da estructura d'um romance, na originalidade do assumpto, na agudeza da observação, na segurança da psychologia. O facto mesmo de A Capital e A Tragedia da Rua das Flores terem sido mais tarde condensados nos dois volumes dos Maias, não me parece ainda razão sufficiente para condemnar aquelles dois romances a não verem a luz do sol, da critica e da publicidade. E se, na Tragedia da nua das Flo• res, o episodio sentimental em torno do qual gira toda a acção tem parentesco com o drama de Maria Eduarda e de Carlos da Maia, se, na Capital, ha tambem uma critica de Lisboa e das suas sociedades, os meios sociaes que estes livros descrevem, os caracteres novos que apresentam, a fórma diversa porque o mesmo assumpto foi tratado, afastam toda a idéa de rep€tição. Os Maias não são assim reeditados sob outras fórmas e outros titulos, mas, pelo contrario, completados com novos elementos, augmentada a galeria dos seus personagens, ficando nós conhecendo mais completamente tudo quanto a meu Pae suggeriu a Lisboa dos ultimos annos do seculo XIX. Todas estas considerações as pesei demoradamente, A obra em si nunca me deixou duvidas sobre o seu valor intrinseco. Considerei-a logo, desde a primeira leitura, magistral, formidavel mesmo, na sua diversidade, que nos leva offegantes da charge mais caricatural á emoção mais tragica. Em toda ella apparece, resplandecente, profundamente mar• cada, indelevelt Ia griffe du mattre. Apenas a fórma me fazia hesitar, essa fórma imperfeita do primeiro 'acto, ainda por polir, a que não foram limadas as arestas, a que falta o ultimo toque do artista. E quando eu assim ainda hesitava, cahiume entre as maos um dos mclhores livros d'Henri Bordeaux, e, debaixo dos olhos: o seguinte trecho M. Abel Hermant, je crois, observait que te travait du style ne modifle pas le style essentielten¿ent : on períectionne, mais déjà l'on écrtt bien ou mal du premier jct, et tes premiers textes de Chateaubrtand et de Flaubert, sont, comme les demiers: du Chateaubriand et du Flaubert. » E como se esta opinião de peso não bastasse e a Providencia, voando em meu soccorro, quizesse accumular em volta de mim os argumentos decisivos, n'essa noite, ao folhear os Echos de Paris, deparei corn este periodo, pelo qual o meu Pae parecia responder ás minhas hesitações : Victor Hugo publicou este mez mais um volume — Toule ta Lure. Como o Cid, que airvüa vencia batalhas depois de morto, Hugo cada anno atira de dentro do seu sepulchro um radiante e victorioso poema. A proposito d'este, de novo se discutiu se estas publicações posthumas de versos: que elle em vida atirava para o canto, augmentam realmente a gloria poetica de Hugo. Discussão ociosa. De certo não au gmentam a sua gloria. Essa já está estabelecida e fixa no seu maximo esplendor, com as Contemplations, a Legende des Stêcles e os Chattments. Mas augmentam o nosso conhe cimento do poeta, revelando novos pensamentos, novas emo çÕes, ou fórmas differentes no exprimir as emoções e.os pensa mentos que lhe eram habituaes. Victor Hugo era um grande espirito que sentia e pensava em verso. Cada verso novo a que nos é desvendado constitue pois um documento novo a sobre o poeta — sobre a sua visão espiritual ou sobre o seu verbo lyrico. Ora quantos mais documentos se reunem sobre c um homem de genio como Hugo, mais completa se torna ' o trabalho critico sobre a sua individualidade e sobre a sua « obra. Para alargar e completar o conhecimento dos grandes homens, publicam-se-lhes as cartas, todos os papeis intimos — até as contas do alfaiate. Assim se tem feito para Lamar tine, para Balzac, etc. Cessava toda a duvida ; e assim, com a auctorisação, quasi por conselho do seu proprio auctor, ficou decidida a publicação, senão das contas do alfaiate, pelo menos dos romances, das novenas, dos artigos, das notas, que elle em vida atirava para o canto» e que veem augmentar o nosso conhecimento do artista revelando-nos novos pensamentos, novas emoções, ou fórmas differentes no exprimir as emoções e os pensamentos que lhe eram habituaes. Além d'estes manuscriptos de que tentei esboçar a historia, resolvemos publicar n'esta ultima serie d'ineditos, tudo quanto entre os papeis de meu Pae nos pareceu ter, pela fór,• ma, pelo assumpto ou pela originalidade, um interesse ver„ dadeiro. Assim se Juntaram n'um volume de Paginas Esquecida% trechos ineditos de Prosas Barbaras, Cartas d' Inglaterra, Correspondenc¿as de Fradique, artigos e, finalmente, o começo d'um conto, ou novena, ou romance—- é impossivel esclarecel-o mas que, pelo formato do papel e pela letra larga, clara, serena, pertence seguramente á ultima phase litteraria de meu Pae, á phase admiravel dos Santos, em que o espirito critico tanto se attenua e a fórma attinge o seu maximo esplendor. Este volume, na sua diversidade, apparece-nos assim como um curto resumo de toda uma carreira litteraria, desde os escriptos barbaros da extrema mocidade, até ás paginas de serenidade magnifica dos ultimos annos. N'outro volume reuniram-se as Notas de Viagem, encontradas, rabiscadas a lapis, em tres pequenos cadernos d'algibeira : visões luminosas do Oriente, Impressões apontadas á pressa, notas tomadas sobre o joelho entre as ruinas millenarias d'um templo, deante da doçura d'uma paisagem evangelica, ou em meio da confusúo multicolor d'um bazar do Cairo. E finalmente, depois da intensidade dramatica dos romances, da phantasia humoristica das novellas, da diversidade das Paginas Esquecidas, da espontaneidade das Notas de Viagem, fechando a serie d'estas publicações, o volume da sua Correspondencia, documento flagrante da sua personalidade, vem-nos mostrar Eça de Queiroz entre os seus amigos, conversando como elle sabia conversar ou espalhando pelos quatro cantos do mundo, nas folhas leves das suas cartas, alguma coisa da sua individualidade excepcional, da sua originalidade e da sua arte. A estação d'Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenci.osa, pelas seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto. A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancolicos, a face toda branca da frialdade fina d'Outubro, com uma das mãos mettida no bolso d'um velho paletot côr de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu. De manhã chovera e a tarde ia cahindo com uma suavidade muito pura. Laivos rosados esbatiam-se nas alturas como pinceladas de carmim muito diluido em agua, e longe, sobre o mar, para além da linha escura dos pinheiraes, por traz de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguinea e orladas d'ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos — que o rapaz magro comparava ág flechas ricamente dispostas d'um tropheu luminoso, Na estação, havia apenas um passageiro esperando o comboio : era um mocetão do campo que se conservava immovel, encostado á parede, com as mãos nos bolsos, os olhos duramente cravados no chão ; ao lado, sentadas sobre uma arca nova de pinho, estavam duas mulheres, uma velha e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés, entre ellas, um sacco de chita e um pequeno farnel d'onde sahia o gargalo negro d 'uma garrafa, O chefe da estação, gordo, com o queixo amar rado n'um lenço de sêda preta, o bonet de galão sujo posto muito ao lado, appareceu á porta da sala das bagagens, de charuto nos dentes. O rapaz magro dirigiu-se timidamente para elle : — Creio que o comboio vem atrazado . . , O chefe aftirmou silenciosamente com a cabeça, e depois d'uma fumaça : — Vem sempre atrazado aos sabbados , a demora em Espinho. O rapaz esteve um momento raspando o chão com a bengalinha— e foi andando devagar ao longo da plataforma. Reparava agora no moço do campo: de certo ia a Lisboa, embarcar para o Brasil ; e sensibilisado pela face tão desolada da velha, pensava que o Dmigrante daria um motivo tocante de poesia social, quadras de côr rica — os vastos azues do mar contemplados d'uma amurada de paquete, as noites saudosas, longe, n'uma fazenda do Brasil, quando a lua é muito clara e os engenhos estão calados . . . E aqui, no casebre da aldeia, os paes chorando á lareira e esperando o correio Entrevia mesmo os primeiros versos : Eil-o que deixa o lar, a mãe chorosa, Os verdes campos, o casal risonho . . . Procurava a rima, já interessado, quando um sujeito baixote e bochechudo, de bonet escocez, appareceu na grade da estação, com uma chapeleira de papelão azul, a galhofar com duas raparigas que o seguiam, offerecendo ovos molles ou mexilhões para elle levar para Lisboa. — A ti é que eu te levava, Mariquinhas ; queres tu vir ? —fi já, snr. Joãozinho Vou buscar o snr. Padre Mendes, que nos casa aqui mesmo. Mas o sujeito bochechudo avistou o rapaz magro, de paletot côr de pinhão, e exclamou : Olá, sô Arthur ! Então tambem se vae até Lisboa O snr. Arthur sorriu : Quem déra ! Não ; vim apenas esperar meu padrinho que vae de passagem para lá. O outro puxon as calças para a cinta e disse, rindo : — Homem essa! E vem o amigo d'Oliveira d'Azemeis aqui, para vêr passar seu padrinho no comboio ? . . . — Então Para lhe apertar a mão, desejar-lhe boa viagem — Diabo ! — disse o outro. — Já é ser bom afilhado ! . . . Eu não o fazia nem por meu pae. Pousou a chapeleira, petiscou lume e tirando uma fu maça do cigarro, continuou com satisfação : — Pois eu vou-me até á capital I Desenferrujar Se quizer alguma cousa — Que se divirta ! -— Fica por minha conta ! Ha-de-se encher este ventrezinho ! E então que vamos ter um rico ili verno em Lisboa I Sassi em S. Carlos, cancanistas francezas no Casino . . . Naturalmente fornada nova d'hespanholas . . . Não lhe digo mais nada . . . Deu outro puxão ás calças e foi collocar com prudencia a chapeleira de papelão ao lado d'um gacco de tapete. Arthur seguia-lhe o dorso grosso, curvado sobre a bagagem, os quadris d'obeso sobre que estalava uma calça côr d'avelã ; e pensava com desconsolo, que era aque112 creatura endinheirada que ia para Lisboa, o Joãozinho Mendes, d'Ovar, a quem chamavam em Coimbra o Chouriço e era incapaz de comprehender um livro ou mesmo um dito ! E lembrava a noite em que o Taveira, no Carneiro, muito bebado, improvisava injurias ricas ao Joãozinho Mendes : Lá na eterna Salgadeira, Ensacando d'uma vez, Dentro da tripa da Asneira, Um naco gordo e roliço Do lombo da Estupidez, Fez-nos Deus este Chouriço t O Taveira, com todo o seu genio, era um advogado pobre no fundo de Traz-os-Montes e o Chouriço, proprietario, ia em primeira classe ouvir Meyerbeer . . . Aquelle bochechudo em Lisboa parecia-lhe semelhante a um lagarto de couve pousado sobre o mel d'um calice de madre-silva ; e esta comparação subtil, que o Chouriço nunca poderia ter inventado, consolou-o durante um momento da diversidade amarga da fortuna . . . Mas um silvo penetrante de locomotiva cortou o ar calado e immediatamente o comboio appare. ceu, deslisando sobre os raits, dardejando ao alto jactos direitos de fumo branco. — Pois eu, disse o Chouriço, aproximando-se com jubilo, emquanto o comboio parava — estendo-me agora ao comprido e levo a noite d'uma somneca até Lisboa. Sei-a toda, hein E ámanhã estas horas, na pandega ! Vem pouca gente Caramba, bonita pequena ! Era uma senhora, com um vestido de xadrez, que se debruçára á portinhola d'um wagon de primeira classe ; tinha um livro fechado na mão e o seu chapéu pequenino, feito de pennas, parecia o peito roliço d'uma ave negra. Arthur seguiu ao longo do comboio, procurando o padrinho : não o encontrou. Quiz interrogar o conductor que ao fundo verificava uma descarga de caixotes. Mas o homem não o attendeu, atarantado, de bonet para a nuca, os olhos esgazeados : em volta d'elle, um guarda, o chefe da estação com as mãos atulhadas de papeis, o cocheiro do char-à-bancs da Villa, vociferavam e bracejavam, tão aturdidos em torno dos quatro caixotes, como se os surprehendesse a accumulação inesperada de todas as mercadorias do Universo. Por traz da grade fechada da estagio, as raparigas vozeavam tambem, offerecendo mexilhões e ovos molles d'Aveiro. Arthur, desconsolado, voltou ainda a olhar pelas portinholas até á terceira classe, onde soldados que conduziam um desertor beberricavam d'uma garrafa. Ahi, o rapaz do campo accommodava devagar, debaixo do assento, o seu sacco de chita e o farnel ; passou depois o lenço pela testa como para limpar o suor, e, muito pallido, com os beiços a tremer : — Adeus, mãe ! — disse. A velha abraçou-se-lhe dezesperadamente ao pescoço : — Meu filho ! meu rico filho, que não te torno a vêr ! Oh I meu filho, oh I Senhor ! que não o torno a vêr I — Adeus, mãe ! Adeus, Joaquina ! Tem de ser, tem de ser! Beijou violentamente a velha na face, apertou nos braços a rapariga, saltou para o wagon e ficou com a cabeça enterrada nos punhos, aos soluços. Arthur commoveu-se, Pensou ainda na tristeza dos que emigram, nos pobres, nas existencias traba. lhosas em que o pão é um cuidado amargo. Quando viria á terra uma revolução de paz e de justiça dar a cada um um campo proprio a lavrar, uma lareira farta na velhice Veio andando devagar junto ao comboio. O Chouriço já se installara n'uma primeira classe, de gabão pelos hombros, charuto nos dentes. — então o padrinho perguntou galhofando. — Não veio. O Chouriço esfregou as mãos, divertido : — É boa ! É muito boa ! vir o.amigo expressamente d'Oliveira d'Azemeis . . . —E depois d'um momento : — A proposito, diga-me uma cousa, como vae o Theodosio — Não o tenho visto. Está p'ra quinta. — E o que fez o amigo por Oliveira P 'ra ló estou. — Ainda se faz seu versinho, hein Arthur sorriu ambiguamente. O Chouriço tirava o relogio, impaciente. O guarda fechava as portinholas. As raparigas, com os taboleiros ó cabeça, recolhiam á Villa ; havia agora um silencio na plataforma d'onde tinha desapparecido o chefe e o conductor. N'aquella estação somnolenta, o comboio parecia ter adormecido, sob a tarde serena ; só uma rapariguita ia dizendo a espagos, n'um tom plangente e fanhoso : agua ! agua ! E sem descontinuar, adiante, a machina resfolgava baixo. — Então nós ficamos aqui toda a vida ?— exclamou uma voz irritada. Era um sujeito gordo, que vinha com a senhora de vestido de xadrez. Arthur então reparou n'ella ; e pareceu-lhe tão linda, que ficou com os olhos pasmados n'um enleio que o invadia, sentindo bater forte o coração : nunca vira aquella delicadeza fina de pelle, nem uma doçura tão tenra da linha oval ; os seus olhos negros de grandes pestanas, um pouco tristes, enterneciam. Estava ainda debruçada á portinhola com o livro amarello na mão ; era pequenina e delicada e o corpete justo do vestido desenhava um seiozinho que devia caber na cova da mão. Ella pareceu notar tambem aquelle rapaz tão admirado ; retirou-se devagar para dentro da carruagem, mas tornou logo a debruçar-se á portinhoIa, compondo ligeiramente o lago fÔfo da gravata de renda — e os olhos d'ambos encontraram-se. — Boa pequena, hein ? — disse o Chouriço. — Eu estive para me metter na mesma carruagem e tinha divertimento p'ra toda a noite. Mas embirrei com a cara do marido. Arthur achou-o tambem odioso— com as suas bochechas balofas e brancas, o chapelinho de casimira sobre o cabello encarapinhado, o beiço sensual de comilão e um enorme pince-nee, com a fita passada por traz da orelha. — Eu parece-me que o conheço de Lisboa, creio até que é Barão — disse o Chouriço. Mas o chefe da estação badalava a campainha e o comboio começou a rolar devagar com estalidos seccos dos freios retesados. — Adeus amigo, saude ! — exclamou o Chouriço. — Até á vista ! Os olhos da senhora de, vestido de xadrez pousaram-se ainda um mo'mento nos d'Arthur. Outras faces passaram deante d'elle, apoiadas aos vidros : os soldados e o desertor gelhofavam de garrafa á bocca e o rapaz do campo, com os olhos vermelhos como carvões, dizia adeus agitando um grande lenço ; a velha ia seguindo o wagon, a gemer, estendendo-lhe ainda desesperadamente as mãos duras e negras. Por fim o trem, com um silvo penetranm te, desapparecou na curva, entre os pinheiraes já escurecidos. Arthur sentia-se triste, Toda a noite, assim, aquelle comboio rolaria, passando as estações illuminadas, as aldeolas adormecidas, levando o Chouriço, feliz, estirado no seu gabão, o pobre emigrante banhado em lagrimas, o desertor para a enxovia, aquella linda mulher para o seu palacete. De madrugada chegariam a Lisboa: a Lisboa que lhe parecia mais desejavel, pensando quo era só lá que uma civilisação superior produzia aquellas bellezas delicadas de perfil patricio, como certas flores preciosas que só nascem em terrenos muito preparados ! Quem seria ella ? O gordo de pince-nez, era de certo o marido ; e sentia alli duas existencias discordantes : elle pesado e material, ella d'uma sentimentalidade subtil . . . Desejaria saber o seu nome e o seu pasgado, os seus gostos, o tom da sua voz e que poeta preferia. Feliz o que escrevera aquelle volume que ia lendo e que a fazia scismar : devia ser talvez um romance de Daudet ou de Sandeau, uma obra delicada e nobre. Em que pensaria ella durante essa noite toda, com cabecinha pallida apoiada ao encosto do wagon, em quanto, defronte, o marido muito prosaicamente resonasse ? Lembrar-se-ia da estação de Ovar ? . . Arthur deu ainda um olhar aos raüs que iam assim, continuamente, parallelos e luzidios, até Lisboa e atravessou para o outro lado da estação onde o esperava o char-à-bancs d'Oliveira d'Azemeis. Estava tão pensativo, que o Manuel cocheiro teve de lhe perguntar duas vezes se o padrinhozinho não apparecera. -— Não veio. Vamos lá, 'vamos lá I Atirou-se para um canto do char-à-bancs, e emquanto o carro rolava surdamente na estrada já escura, Arthur, fitando pela vidraça aberta uma claridade terna de luar que apparecia por cima da linha negra dos pinheiraes, recitava versos d'Hugo, suffocado d'uma melancolia deliciosa : Et j'étais devant toi plein de joie et de flamme Car tu me regardais avec toute ton ame. Arthur tinha então vinte e tres annos, Pertencia a uma familia burgueza, originaria de Lisboa, mas dispersada na provincia desde a guerra civil. Seu bisavô paterno, que ficara na tradição familiar como uma, gloria domestica, pertencera, em Lisboa, ao grupo de poetas parasitas que se enthusiasmavam platonicamente nos botequins por Mirabeau e Robespierre, faziam sonetos aos fidalgos em dias d'annos, desejavam morrer pela liberdade e espancavam a ronda ao sahir dos garaug, onde eram admittidos para recitar elegias ás Malvinas. Já velho, começara e, traduzir em verso as Ruinas, de Volney, e os seus manuscriptos eram propriedade d'uma das suas netas, que casara em Oliveira d'Azemeis e levara para sua companhia as duas irmãs mais no vas, Ricardina e Sabina. Seu avô, esse, fôra, no Porto, tabellião correcto e obscuro. Seu pae, depois de ter, na primeira mocidade, publicado duas Meditações funerarias n'um semanario do Porto, casara com a snr. 8 D. Maria das Neves Alpedrim, senhora pallida e magra, que tocava harpa e fôra comparada n'um folhetim do tempo a uma Virgem d'Ossían ; mais tarde estabelecera-se seriamente em Ovar, onde tinha obtido o logar d'escrivão de Direito. Foi lá que Arthur nasceu, annos depois — e a mãe, encantada, dera-lhe este nome, em memoria dos seus tempos d'harpa e dos cavalleiros de xácara, cujos amores e proezas na Terra Santa tanto a, tinham commovido. O pae, esse, homem excellente e terno que até ahi se desolara eom a esterilidade do seu casamento, adorou logo a creança e com o seu respeito B.lpersticioso pela magistratura, ainda Arthur não fôra baptizado, ja o bom Manuel Corvello decidira economisar com methcdo, para mais tarde o levar a Coimbra e fazer d'elle um bacharel ; mas secretamente esperava que o filho cultivasse as Bellas-Letras, e a sua esperança era que o Arthurzinho, um dia, reunisse em si as qualidades dos dous homens que elle mais admirava em Ovar— o delegado Pimenta, d'argumentação tão capciosa, nutrido de legislação, um Pegas destinado a uma desembargadoria, e o advogado Silveira, d'imagens floridas, celebre na comarca pelos seus folhetins poeticos no Campeão d'Aveiro ! Ás vezes, quando o pequeno Arthur rabujava muito, o pobre pae, alta noite, de chinelas e paletot, embalava-o nos braços pelo quarto, cantaroIa,ndo-lhe n'uma voz roufenha o Gentil Pugem d'ElRei até o adormentar ; e ficava então enlevado a olhar para aquelle rostozinho amarello de lombrigas, ainda com uma lagrimazinha nas pestanas, imaginando-o já na sua beca de desembargador, celebre como Lobão e auctor d'um livro querido como Amor e Melancolial Elle, por esse tempo, coitado, estaria velho: não poderia trabalhar, mas aquelle serzinho que agora a sonhar lhe mamava no dedo, seria então um filho illustre e bom, que pela posição na Magistratura lhe faria a velhice farta e pela gloria nas Letras lhe tornaria o nome classico. Foi grande a sua alegria quando notou que nada calmava as raras perrices do Arthurzinho, como folhear algum veneravel in-folio d'antiga legislação ; e sobretudo, mais tarde, quando viu que o divertimento querido do pequeno, não era rufar em tambores ou cavalgar vassouras, mas, aninhado nas saias da mãe, coser caderninhos de papel, que cobria de capas côr de rosa e de que accumulava collecções com a devoção d'um velho bibliophilo. — Signaes d'intelligencia — dizia muito serio o bom homem. Por isso, bem cedo, Arthur começou a trabalhar o seu Tito-Livio e o seu Telemaco. Mas a mãe, que depois do parto ficara sempre adoentada, affligiase do tamanho das lições, e se o rapaz, com somno, não fazia o thema, mandava ao outro dia secretamente um arratel de chá ou d'assucar ao mestre João Grainha para lhe acalmar a severidade. De verio e d'inverno cobria-o de flanellas, e se o ouvia espirrar, fazia-o beber ao jantar copinhos d'agua quente ; nunca o deixava adormecer sem verificar se elle tinha aos pés a sua botija, á cabeceira, a imagem de Nossa Senhora, e ao lado, a campainha, a lamparina, a chásada, o assucareiro e um ladrilhozinho de marmelada. E o proprio pae o ia buscar á escola, para impedir que os outros pequenos o fizessem correr ou lhe dirigissem chufas. O rapaz, sob este regímen, não se desenvolveu. Tinha a pallidez, a graça nervosa d'uma menina : uma porta que batia de repente fazia-o despedir um grito. A sua sensibilidade era como a corda muito afinada d'uma rabeca : uma historia triste, um não de recusa, punham-lhe logo nas palpebras duas grossas lagrimas. A sua memoria, que retinha longas poesias, fazia o espanto dos amigos da casa, e já quando elle tinha oito ennos era para o pae um grande orgulho ouvil-o, nas noites de partida, entre o semi-circulo enternecido das vizinhas, começar n'uma melopea : noite, o astro saudoso Rompe a custo o plumbeo céu — Deve ir longe — dizia n'um tom profundo o escrivão, acariciando compenetradamente os tres pellos da calva. Mas o verdadeiro espectaculo era ouvil-o recitar ternamente a fabula dos Dois Pom-Deux pigeons s'aimaient d'amour tendre i Já então passava os seus fins de tarde, depois da aula, encostado á janella do quintal, trazendo sempre algum volume da pequena livraria do papá, um tomo de Filinto Elysio ou os Martyres de Chateaubriand, ou, sobretudo, alguma novella da Bibliotheca das Damas. Era de resto, como dizia o advogado Silveira uma gentilissima creança Tinha naturalmente as maneiras d'um homemzinho, e a mãe babava-se toda quando o via, na sala, precipitar-se a recolher das mãos d'uma senhora a chicara vazia, ou quando elle dava um shake-hand8 ao delegado Pimenta, com os pés muito juntos, todo curvado, como na Oôrte. Ernfim, um dia, o pae, comrnovido, surprehendeu os seus primeiros versos, copiados a limpo, n'uma bonita letra cursiva : Junto a um ribeirinho serpeante Um chorão se debruça, E eu, terno amante . Foi ao outro dia, no tribunal, com os olhos humid0B, mostr•al-os ao advogado Silveira, a maior auctoridade litteraria d'Ovar. Silveira elogiou-os largamente — sobretudo o final, d'uma cadencia lyriea tão rica que o surprehendeu : Celebrarei na minha frauta amena Teus olhos, morena — Os versos estão todos certos— disse Silveira — e ha duas imagons opulentas ! Gentilissimo rapaz ! .E tomou mesmo tanta affeição a Arthur, que o presenteou com um Durico, e propoz ao pac quo nos dias feriados o deixasse ir para o seu escriptorio, onde lhe franquearia a sua livraria, «um verdadeiro banquete d'intelligencia. » E assim, aos domingos, emquanto o Silveira á banca, de charuto nos dentes, ia entulhando d'imagens floridas o seu folhetim semanal, Arthur, a um canto, encolhido n'uma velha poltrona, devorava novellas e versos de Delille, de Garrett, de Volney e de Lamartine . . . Voltava sempre para casa exaltado. Fechava-se no quarto a trabalhar no seu Poema, de que já tinha quinze oitavas, e que se passava todo n'um jardim, entre elle, anjos e cavalleiros. Andava perdidamente namorado pela Joanninha das Viagens na Minha Terra, mas d'um amor vasto, complexo, que a abrangia a ella, á cazinha branca, ao rouxinol e a todo o valle de Santarem ! Era então um rapazola quieto e triste, d'olhos bonitos e cabello corredio. O crepusculo, o sino das Ave-Marias, o fado á guitarra, afogavam-no em melancolia. Pensava muito no amor e ás vezes na morte. Tinha gostos delicados, um pudor ingenuo. A cozinheira, uma forte mocetona d'Estarreja d'olhos d'azeviche, roçava-se constantemente por elle, tentada por aquella pelle macia de pagem tenro, e uma noite que os paes tinham ido para a soirée dos Cunhas, e Arthur, constipado, ficara só em casa, de cama — a Luiza entrou-lhe no quarto, sentou-se-lhe ao lado, chamando-lhe a brincar « seu filhinho b, e de repente, toda abrazada, collou-lhe os beiços ao pescoço. O rapaz repelliu-a, escarlate como uma Ophelia insultada e fechando os punhos de colera: — Se tornas a ter d'esses atrevimentos, digo ao papá, que te corre pela porta tóra : Era de temperamento lymphatico e calmo — e por esse tempo, tendo já esquecido Joanninha, amava idealmente a mais velha das sete irmãs Telles, senhora alta e vaporosa, sempre coberta de tulles esvoaçantes, que clle celebrava mysteriosamente sob o nome de Laura de Castella. O advogado Silveira aconselhara Manuel Corvello, logo que Arthur fez o seu bello exame de rhetorica, a que o mandasse estudar para Coimbra os ultimos preparatorios de Geometria e Introduccão : —- «Assim acostuma-se a Coimbra e á vida academica e quando entrar p'ra Universidade, já não vae como o recruta bisonho, mas bem como o soldado aguerrido » — tinha elle dito com uma das suas formosas e vagas imagens. E no Outubro seguinte, por uma fusca manhã de chuva que as lagrimas da mãe fizeram parecer a Arthur ainda mais triste, foi o pae leval-o a Coimbra, preciosamente. Com muita economia, installou-o na casa das Barbosas, da rua da Mathematica, e deixou-o recommendado ao filho d'um seu velho amigo, o Theodosio Margarido, valentão de grandes bigodes, terrivel aos caloiros, grande matador de gatos, que usava uma móca enorme e frequentava o terceiro anuo de Direito. Todo aquelle primeiro anno em Coimbra foi triste, tomado pelo estudo da Geometria, de formuIas positivas que lhe eram antipathicas, dominado pelo pavor incessante de troças e de graus. Ao toque da cabra, recolhia pontualmente aos seus compendios, obedecendo áquella sineta melancolica como quem obedece a um dictame de moral ; as unicas horas felizes d'essa epocha, passou-as extasiando-se com os luares do Penedo da Saudade, onde ia ás vezes sob a protecção de Theodosio, armado da sua temerosa clava, ou, sobretudo, nas vesperas de feriado, no Trony, á sombra sempre de Theodosio, onde admirava os bilharistas famosos da Academia, fazendo sob a luz dura do gaz effeitos de carambolas. Mas depois do seu exame, voltou a Ovar, vaidoso da sua batina e de pertencer á Briosa, com penetrado da importancia social da Academia, dos seus privilegios e do seu Hymno, odiando já o futrica, tremendo deante do lente, sonhando futuros artigos na Idéa ou no Instituto e já preso a Coimbra por uma affeição sentimental, que abrangia a paisagem elegiaca do Mondego, o cavaco, a batina e a independencia alegre da vida escolastica. Trazia além d'isso um drama quasi concluido, o Conde d'Além-Mar, cujo segundo acto, que julgava subli me, era uma festa á moda da Renascença florentina, passada n'um vago palacio junto ao Tejo, onde se bebia vinho de Syracusa, havia sicarios mascarados e no rio, ao fundo, passavam gondolas, em que o contralto das mulheres se casava ao gemido dos oboés, No anno seguinte, Theodosio que se affeiçoara á natureza obediente d'Arthur e queria « ter o seu caloiro á mão arranjou-lhe um quarto na casa em que vivia, na Couraça, Foi uma aventura, um enthusiasmo para Arthur, que conhecia de tradicão e admirava de longe os companheiros de casa de Theodosio — rapazes extremamente litterarios, redactores ardentes do jornalzinho o Pensamento. Esta pequena Revista semanal fôra origin.ariamente fundada n'um alto espirito de fraternidade moça, para crear recursos ao Taveira, rapaz extremamente pobre e o grande Iyrico do grupo, Ultimamente era dirigida porém pelo Damião, o illustre Damião, que, tendo levado um R, repetia alegremente o seu quarto anno ; e apenas o Pensamento ganhara credito n'aquella geração, tinham-se precipitado para elle, como espiritos suffocados pelo anonymato para um respiradouro de publicidade, não só todos os amigos de Damião, que se nutriam de Michelet e de Quinet, mas tambem aquelles que ainda admiravam Pelletan, e até o grupo do Cesario, que, n'um progresso revolucionario e scientifico, já devorava Proudhon, Comte, Littré, Stuart Mill e Spencer — sem contar os temperamentos puramente artistas, que tendo horror á abstracção philosophica e aos enthusiasmos da Paixão, se retardavam na admiração de Hugo, de Musset, de Vigny e de Byron. A esta vaga associação de fanatismos, chamavam, em Coimbra, os Philosophos, ou tambem os Atheus. Elles mesmos se denominavam o Cenacub. E ainda que não havia sessões regularmente organisadas, quasi. todas as noites se jun.tavam no largo quarto do na Couraça. E Arthur sentiu os olhos humedecerem-se-lhe d'enthusiasmo quando pela primeira vez, na fumarada dos cigarros, onde os tres bicos do candieiro de latão punham tres luzinhas sedentarias, ouviu vozes fanaticas discutirem, em estylo d'ode, a Arte, as Religiões, o Pantheismo, o Positivismo, a estupidez dos lentes, o Ser, o Ramayana, o Messianismo germanico, a Revolução de 89, Mozart e o Absoluto. N 'aquella « cavaqueira philosophica I), só o forte Theodosio se conservava mudo, assombrado das idéas, como deante das portas augustas e inaccessiveis d'um sanctuario. Mas a sua presença athletica era querida de todo o Cenaculo : além de excellente rapaz, sempre com dez tostões no bolso para partilhar com um condiscipulo pobre, elle tinha urna admiração servil por todos aquelles « geIlios Ao lado de taes espiritos, exclusivamente occupados da Idéa, elle punha a protecção formidavel dos seus musculos e da sua móca. Uma noite que o Ccnacuto discutia furiosamente Luthero e a Reforma, sentiram-se ao fundo da escada os gritos do filho da servente, espancado por futricas. Todos se ergueram para acudir. Então Theodosio trovejou, alçando a mãe : Ninguem se mexa ! Continue-se a bella discussão ! Aqui na casa, para a bordoada, só eu ! Desceu com a immensa móca e d'ahi a pouco, na rua, era uma debandada afflicta de futricas desbaratados. Desde então, tacitamente, entre os membros do Cenaculo, que se consideravam uma aristocracia da Intelligencia, semi-Deuses muito acima da obscura humanidade academica, no cimo d'um Olympo — Theodosio, com os seus bigodes, os seus punhos que erguiam arrobas, e sobretudo a sua tremenda maça, foi o Hercules, o Alcides pagão, o subjugador dos rebeldes — e, ao lado dos Sacerdotes da Idéa, a personificação da Força. Mas isto não bastava a Theodosio e na sua dedicação pelos genios com quem vivia, para partilhar mais directamente dos seus interesses espirituaes, servir utilmente o Cenaculo, collaborar no culto da Idéa, não podendo fornecer theorias e phrases — encarregava-se pouco a pouco de ir comprando os livros. Filho de proprietarios ricos, com uma mesada abundante, era elle que fornecia a Bibliotheca do Cenaculo, o todas as semanas, seguindo as instrucções de Damião ou de Cesario, apparecia trazendo em triumpho um volume de Michelet, de Renan, de Taine, ou de Heine, a que cortava as folhas reverentemente, dizendo com ar finorio : — Ora vamos a vêr o que diz cá o patrão ! depois de ter, por um momento, esgazeado os olhos para o livro, concluia gravemente : — Já vejo que é obra curiosa e para leitura demorada. Hei-de saboreava na cama. Abandonava o volume a algum do Cenacuto e subia para o quarto a estudar a sua lição de viola franceza. Mas conquistara assim o direito de ser um dos Philosophos. Contribuia tambem largamente para as despezas do Pensamento — o que o habilitava, se alguem lhe era antipathico, a formular parallelamente estas duas ameaças medonhas : o peso da sua móca e uma desanda no jornal Mas o que o satisfazia mais, era poder pronunciar phrases notaveis que recolhia no Cenacuto : assim, quando sahia com os amigos a matar gatos á móca, nunca deixava de exclamar, mostrando o céu estrellado : — Isto, rapazes, não é lá qualquer coisa. É a lepra luminosa da face de Deus ! Foi d'este modo que Arthur se achou, por acaso, no meio que devia desenvolver as tendencias do seu temperamento, Ao principio, naturalmente, admirou sobretudo os individuos, as personalidades, a phraseologia nova, as excentricidades estranhas ; tremeu d'enthusiasmo, vendo, n'uma noite de tro. voada, na Feira, o proprio Damião tirar o relogio do bolso, um cebolão de prata, e n'uma attitude de Satan rebelde, dar cinco minutos a Deus para que o fulminasse, e, passados os cinco minutos n'um grande silencio do céu, atirar desdenhosamente o cebolño para a algibeira, dizendo com tedio : está superabundantemente provado que não ha nada lá no céu e accrescentar, olhando para as estrellas : a não ser algum pó luminoso de Deuses mortos ! » Extasiou-se deante do illustre Fonseca, que, no seu horror pelas expressões vulgares, pedia um bife no Carneiro, exclamando : Traga-me uma lasca do velho Apis, preparado segundo as formulas do progresso ! Palpitou de sympathia com o humanitario Vilhena, ouvindo-o responder a quem lhe estranhára a tristeza : Como querem vocês que o homem ria, quando a Polonia soffre ? » Mas ninguem o im- pressionou como o grande Marçal, com a sua bella face classica, a sua cabeleira, e a impassibilidade marmorea d'um Deus da Attica. Teve a gloria de o acompanhar uma noite que o Marçal ia vêr a sua amante, esposa d'um professor do lyceu. Na rua estreita, ao chegar debaixo da janella, onde se debrugava um vulto claro, o Marçal, soberbamente sereno, erguendo o rico metal de sua voz, perguntou para cima : — O veado já sahiu Do vulto alvo veio como um sopro subtil : — Foi agora mesmo para o Club. E então, desdenhoso da presença de Arthur e d'um•a familia que passava, no mesmo tom sonoro e cheio : Deita-me então a escada de Romeu, Que eu suba a ir beiJar-te os peitos brancos. Estas audacias, estas palavras, pareciam a Arthur prodigiosas, d'uma raça d'homens superiores aos mortaes e anciava por poder imital-as. O que o exaltava, porém, acima de tudo, era o cavaco — aquelle faiscante cavaco do Cenaculo, em que todas as noites se formavam, fumando cigarros, novas concepções do Universo, se decidia em quatro palavras d'uma nova Ordem para a Humanidade, com uma pilheria se aniquilava a gloria d'um heroe, e em que argumentações temerarias iam abalar, no fundo dos céus, os Deuses mais poderosos. Fallavam de todas as- mulheres com o esplendoi do Cantico dos Canticos ; todo o sonho era bemvindo — e a propria realidade do mundo tangivel parecia esvaecer-se quando o Taveira, arrastando pelo quarto a capa esfarrapada, exclamava, atirando com um grande gesto lyrico os braços para o céu : A galope, a galope, oh, Phantasia i Plantemos uma tenda em cada estrella , , Então, para egualar estes genios, poder ter uma phrase n'estas discussões, Arthur começou a devorar todos os livros de Theodosio, com uma sofreguidão confusa, indo de Petrarca á Historia da Revolução Franceza, de Soto Agostinho a Balzac, começando mesmo Hegel e precipitando•se logo para as Orientaes e para a legião dos Romanticos. E assim, pouco a pouco, perdendo o culto exclusivo pela personalidade do Cenaculo, elevou-se na admiração mais vaga de personagens da Arte ou da Historia, d'epochas da Humanidade, de ciVilisações e d 'idéas. Enthusiasmou-o a Meia-Edade, as suas cathedraes e os seus mosteiros, e o Rheno gothico, com os seus castellos de Burgraves heroicos sobre pincaros de rochas ; encantou-o o Oriente e as suas cidades erriçadas de minaretes, onde pousam cegonhas — as caravanas no Deserto, os jardins dos serralhos onde suspira, ao murmurio da agua, a paixão musulmana ; depois, attrahiu-o a Renascença italiana, os seus decamerons galantes e as galas dos Papas ; um livro d'Arsbne Houssaye deu-lhe por algum tempo a admiração exclusiva do seculo XVIII ; depois, adorou a Bohemia de Murger e de Gerard de Nerval... E tinha outros enthusiasmos vagos por paisagens, heroismos, theorias e attitudes— os rios sagrados da India, os corsarios patriotas do Archipelago grego, a regeneração das prostitutas, S., Bernardo em Clairvaux e Danton na Convenção. Torturava-o então o desejo permanente de peproduzir as imagens de que estes enthusiasmos e as suas leituras lhe enchiam vagamente o cerebro : mas não sabia ainda que Arte empregaria. Ás vezes os seus ideaes eram tão indefinidos, que lhe parecia que só arias e melodias os poderiam exprimir ; pensava então em estudar musica e nenhum genio humano lhe parecia superior a Mozart ou a Beethoven, que nunca ouvira ; ambicionava compôr symphonias sobre assumptos que amava e para os quaes a poesia lhe parecia insufficiente, como a Morte no Calvario ou o cavalleiro Sir Galaad procurando pela terra e pe10s mares o vaso do S, Graal. Outras vezes, era a côr, a belleza das linhas que o interessava : desejava então ser pintor, lançar na tela o rico esplendor dos estofos, as decorações luminosas d'um céu d'Oriente, scenas de Shakespeare ou episodios grandiosos da Historia e nenhum destino humano lhe parecia egual ao d'um Miguel Angelo, compondo o Julgamento Final, vivendo de pão e d'agua e, nos intervallos de repouso, escrevendo um soneto ímmortal. Já os seus compendios de Direito Natural e Romano lhe pareciam odiosos e passava as noites a escrever versos. Estes versos só os mostrava a um companheiro que vivia no quarto vizinho, mas que não pertencia ao Conaculo. Este moço, ainda parrente do Taveira e como elle de Bragança, sendo extremamente gordo e fallando com frequencia do Pote das Almas, como da rnaior impressão que trouxera de Lisboa, era conhecido no Cenaculo pelo nome de Pote-sem-Alma. Amava loucamente uma prima, que o abandonara por um morgado dos arredores de Bragança, e desde então, a occupação do Pote-sem-Atma era decorar pontualmente a sua sebenta e chorar aquelle amor perdido. Era porém sempre no calor da cama que aquella saudade o pungia ; e todas as noites, regularmente, a voz de baixo do Pote atroava a casa, bramando d'entre os lençoes : — Ai, que rico bocado de pequena ! Ai, quem m'a dera aqui ! Este berro lubrico e doloroso escandalisava o gosto delicado dos artistas do Cenacuto. E um dia, ao jantar, Damião, muito severo, voltou-se para o Pote•sem-Àlma : — Pote, você todas as noites lamenta a perda da sua prima Felicia, d'um modo que nos é insupportavel. Você, como homem e como pote, ó livre, e não podemos prohibir-lhe o queixume. Mas temos direito ao menos a que dê á sua saudade uma ex• pressão litteraria e nobre. E já que Deus, para. usar este termo obsoleto e convencional, lhe deu em gordura o que lhe recusou em idéa, aqui o amigo Taveira encarrega-se de lhe formular em duas ou tres estrophes correctas um grito de desespero decente. E o Pote ha-de ter a bondade d'usar, d'ora em dian.te, esta formula, sempre que o dilacere a dór d'essa paixão infeliz. A « formula» composta por Taveira era uma imitação d'algumas estrophes de Dolcsley Hall, a pathetica elegia de Tennyson, em que o poeta revisita.ndo os prados e os areaes, onde outr'ora, com sua prima Amy, dera os passeios sentimentaes do amor harmonico, solta o grito tão celebre na tradição romantica : Oh, my cousin shallow hearted I Oh my Amy, mine no more Oh, the dreary, dreary moorland I Oh the barren, barren shore ! E a composição de Taveira, depois de fallar com amargura dos prados e areaes de Bragança, onde Felicia e Pote se tinham amado, na humidade da relva, junto ás espumas do mar, terminava com a mesma apostrophe dilacerante : Oh t minha prima Felicia I Nem minha, nem nunca mais I Desertos: desertos prados I Tristes, tristes areaes I Agora todas as noites, o Pote-sem-AZma, depois de ter arranjado a cama, com o gabão aos pés, a capa por cima, deitava-se, entalava a roupa nos hombros, dava um ah ! regalado de gozo e com o nariz fóra dos lengoeg, soltando toda a voz, bramava no silencio : Oh I minha prima Felicia I Nem minha, nem nunca mais i Desertos, desertos prados I Tristes, tristes areaes I Ao principio, este mugido lyrico assombrou Arthur ; depois, a proximidade do quarto trouxe-lhe a intimidade do Pote ; ouviu-lhe a historia da prima e os elogios das « pernas da pequena» e n'estas confidencias, no cavaco da noite, acabou por lhe lêr alguns versos — e sobretudo uma elegia intitulada Ophelia, que elle ambicionava publicar no Pensa- mento. O Pote levou a poesia ao Taveira — e como era a semana d'Entrudo, em que faltou original para o Pensamento, Ophetia appareceu em folhetim. Que surpreza para Arthur ! Que hora deliciosa ! Era a entrada n'uma grande carreira poetica. Sentia-se já egual ao Taveira e mais tarde, celebre como Musset, seria o confidente querido das almas ternas. N 'esse dia, ao jantar, o Damião disse-lhe protectoramente : — Você tem a fibra e a fórma, caloiro ; trabalhe, trabalhe! É necessario ter a idéa. Procure a idéa ! Arthur remetteu logo para Ovar varios exem- plares do Pensamento. Não duvidou do seu genio e começou a procurar a Idéa, Enthusiasmou-se então pelo Pantheismo. Decidiu ser o grande poeta pantheista de Portugal ; sonhou uma alma nas coisas e parcellas de divindade nas folhas dos salgueiraes. Esboçou immediatamente o plano d'um poema dramatico, que seria a explicação do Universo, e em que estrellas, monfies, rochas e arvores eram personagens e tinham as paixões, os caprichos e as tristezas d'uma humanidade inerte e muda. Esta idéa, porém, era muito vasta para a sua debilidade d'anemico e apenas produziu a primeira estrophe, o Côro dos Montes, monologando ao luar, no silencio d'um céu de verão : NÓS somos os montes. E a fronte de neve Coroamos á noite d'estrellas brilhantes. Nós somos os montes, gigantes severos Scismando ao sussurro das aguas cantantes , , Por esse tempo, namorou-se d'uma senhora casadar, da Calçada, cujos olhos arabes e graça de palmeira nova já tinham sido cantados pelos lyricos da outra geração academica ; passou então as noites, rolando pensamentos á Romeu, contemplando a janella do quarto, onde ella, de camisola de flanella e os pés sobre a botija, resonava ao pé do marido. Não ambicionava mais que pousar-lhe um beijo de leve sobre a testa, por um céu de luar ; só no seu quarto, apertava convulsivamente as mãos contra o peito, murmurando n'um delirio vago, oh, adoro-te» ! Esqueceu o seu poema philosophico, cahiu no lyrismo, prodigalisado em quadras, em que ella era successivamente Julieta, a bella Andaluza, ou a Esposa dos Cantares. Julgou que na vida nada valia senão a paixão ; comprehendeu, admirou René, Wherter, Rolla, Manfredo, Lara, outros peores ! E como a felicidade desejada, o beijo ao luar, não chegava — para seguir a tradição dos de sesperos romanticos, começou a embebedar-se. Eram então, com o Taveira, noitadas d'exaltação plato nica, regadas com meios-quartilhos, na tia Poncia e no Arsenio. Vinha depois aos bordos para o quarto do Pote, declamar og seus desesperos. B o Pote, n'uma saudade que ge lhe communicava, mas obe diente ao Cenaculo, mugia logo d'entre os lengoes : Oh I minha prima Felicia I •Nem minha, nem nunca mais I Desertos, desertos prados I Tristes, tristes areaes I E mais baixo, torcendo-se e roncando de concupiscencia : — Oh, menino, que se a pilhasse aqui ! Emfim, veio o Acto — e Arthur levou um R. Uma tão grande injustiça deu-lhe o odio a toda a auctoridade : odiou os tyrannos, desde Jehovah até aos lentes, desde o Czar até ao bedel da Faculdade ; ambicionou uma Republica governada por poetas e por genios ; pensou mesmo em abandonar a TJniversidade, o paiz que desconhecia assim os seus talentos; partir, ir combater pela Polonia ; serlhe-ia grato morrer n'uma batalha pela -liberdade, entre canticos patrioticos, pensando n'ella ! Seu pae teve um grande desgosto com o R. Arthur porém, n'uma carta poetica, provou-lhe que fóra victlma da inveja suscitada por um genio nascente, e mandava-lhe uma lista de todos os grandes homens que tinham sido mal apreciados pela Universidade e que, mais tarde, ministros, poetas, sabios, glorias nacionaes, conservavam no seu passado camadas de RI? injustos ! Foi n'essas ferias que sua mãe, doente desde o inverno, morreu d'uma tisica de garganta. O pae, muito affectado, teve os primeiros symptomas d'uma doença de coração. Foi um verão desgraçado para o pobre Arthur, n'aquella casa triste, em que lhe parecia sempre ouvir as martelladas sobre o caixão da mãe e sentir ainda o cheiro das tochas de cera e os suspiros cerimoniosos de pezames. As ultimas semanas, sobre tudo, foram as mais melancolicas, deante d'aquelle pae carregado de luto, com os olhos inflammados das lagrimas e que agora, tomado tambem de presentimentos de morte, lhe fallava constantemente do futuro, da necessidade de trabalhar, da dÔr de o deixar sem recursos. Nem ao menos tinha o seu velho amigo Silveira para desabafar : contára deslumbral-o com as historias do Cenacuto e os enthusiasmos lá adquiridos, mas o Silveira estava a banhos em Espinho, onde fazia palpitar o coração das senhoras com o seu bigode fatal, as suas ima geng, o seu cão da Terra-Nova e a sua capa á hespanhola. A volta para Coimbra foi para Arthur um allivio. Tinha esquecido inteiramente a senhora da Calgada. Vinha então com idéas mais definidas de carreira e resoluções d'estudar. A publicação feliz do D. Jayme déra-lhe a ambição de compor, durante a formatura, um poema historico ; iria depois estabelecer-se em Lisboa, advogar e lançar a sua epopeia. Andava procurando um assumpto, quando a leitura da Vida de Jesus, de Renan, o enthusiasmou pela Judéa e pela legenda Messianica. Veio-lhe a idéa, que julgou grandiosa, de refazer o Evangelho, pintar n'um poema social um Jesus pallido e louro, errando pelos valles nazarenos e junto dos lagos syrios, amado das mulheres e das creanças, ensinando a Democracia ás almas ternas. Mas o Damião, consultado, escarneceu a idéa. No progresso da sua evolução intellectual, lançara-se, com o grupo do Cesario, no culto exclusivo de Proudhon, Stuart Mill e Augusto Comte, e não comprehendia realmente o que vinham fazer Jesus, Magdalena e os sycomoros da Bethauia, em pleno seculo XIX, á hora do Positivismo e do Socialismo ! Que o cara Arthur cantaase a Revolução, o povo e o seu an• tigo opprobrio ! Que fosse Virgilio fazendo a epo• peia synthetica d'um novo mundo, ou Juvenal lancando a satyra d'um mundo decrepito . . . Mas que deixasse os lyrismos evangelicos ás duquezas chloroticas do Faubourg St. Germain ! . . . Arthur não foi Virgilio, nem Juvenal, mas desistiu do poema sobre Christo, como abandonara o poema historico sobre D. Sebastião. Cahiu então, de repente, sem motivo, n'uma desconsolação vaga da vida, tomado do tedio de todas as realidades, a alma cheia de ambições ennevoadas de felicidades indefinidas. De novo odiou os compendios ; sentia-se vazio d'imagens e de rimas : uma quadra custava-lhe os esforços dolorosos d'uma epopeia. De tarde, lá seguia pela Sophia, murcho, encolhido dentro da capa, com o gorro enterrado até ao cachaço, arrastando-se para o Choupal, a saturar-se de melancolia ; de noite, ou ia para o Penedo da Saudade, olhar para a lua, no valle, ou ficava no quarto do Damião, no fogo das conversas do Cenaculo, sem achar uma phrase, um dito, mais triste por aquella esterilidade. — Este Arthur é prodigioso — dizia o Cesario; Está aos dezanove annos como Byron aos trinta. Com esta precocidade de sentimentos, ha-de vir a ser um grande idiota ! Foi por este tempo que Theodosio o levou, uma noite, a casa da Anninhas Serrana, ao tempo a meretriz mais cara de Coimbra, o sonho ardente de toda a academia pobre, a quem o Taveira, n'uma poesia delirante, chamara estrophe de carne e Venus christã b. A Anninhas tinha na janella cortinas de reps amarello, usava um roupão côr de fogo e lia a Dama dag Cameliag ; contava-se como uma legenda singular que tomava banho e era certo que o Salgado se tinha envenenado por ella. Tanto romantismo fascinou Arthur ; dedicou-lhe tercetos no Pensamento e a Anninhas, conquistada, concebeu por elle um capricho, gratis. Na madrugada em que elle sahiu do seu leito, extenuado de amor, sentiu que toda a melancolia d'aquelles mezes passados se lhe dissipara como uma nevoa ao sol quente de Maio ; a sua vida tinha agora um centro e uma significação : queria ser o Armand Duval d'aquelle anjo, regeneral-o pelo amor e immortalisal-o n'um poema, como o Intermezzo. Duas uemanas depois, a Anninhas abandonou-o por um caixeiro da Sophia. Chorou de dôr. Na megma pagina do Pensamento em que a celebrara, insultou-a agora, com estrophes amargas á Mulher de Marmore ; e no baile de terça-feira d' Entrudo, no theatro D. Luiz, exaltado de genebra, vendo-a pular vestida d'odalisca, n'uma polka frenetica, exclamou com tremendo escandalo : — Folga, vil Messalina . . . És podridão e em podridão te tornarás ! Perneia, prostituta ! Oh, Serrana, oh, magana, restitue-me as piugas que te deixei no prostibulo . . . O par d'Anninhas, um quartanista desempenado, grande gymnasta, esbofeteou-o immediatamente. Foi um episodio temeroso. Arthur queria esperal-o á sahida para o apunhalar. Enfrascou-se de cognac até se tornar feroz . . . E os companheiros tiveram de o arrastar para casa, idiota d'alcool, abraçando-se a todos os candieiros, regando-os de lagrirnas, e gemendo : — Mulher, teu nome é vileza ! Ao outro dia, quiz mandar á Anninhas umat placa de cinco tostões — escrevendo-lhe, como ou tr'ora Armando : ahi cae o preço do teu amor e do, meu insulto. Mas receiou os musculos formidaveis do gymnasta, e, furioso, descreu das mulheres. — Só a Alte não trahe, Arthur — disse-lhe um dia Taveira. E Arthur lançou-se desesperadamente na Arte. Considerou-se cynico á Musset e á Byron e quiz, como elles, dar á sua vida uru delirio romantico : recomeçou a embebedar-se. E uma manhã que recolhia ainda estremunhado d'um lupanar,—como convinha a um irmão de Rolla encontrou em casa uma carta do Silveira : na vespera, em quanto elle, no Garrano, com Taveira, brindava á Morte e á Orgia, seu pae, de repente, ao entrar na Assembleia, tinha cahido morto para o lado, murmurando apenas : Oh, meu filho ! O pobre moço que amava o pae, desmaiou, e depois das primeiras lagrimas, ficou aterrado. Alli estava, só na vida, sem recursos para continuar a formatura, tendo de deixar Coimbra, o Cenaculo, a vida poetica . . . Por conselho do Silveira, foi a Ovar vender em leilão a mobilia, algumas pratas da casa. Passou alli uma semana amarga, na hospedaria, coberto de luto, oom os olhos vermelhos como carvões, fuman do cigarros, fazendo e desmanchando planos, ou, com o nariz contra a vidraça, vendo cahir a chuva miudinha de Margo. Uma noite, emfim, o delegado Pimenta, que muito sollicitamente dirigira o leilão, veio trazer-lhe quarenta e cinco libras em ouro. Ao vêr aquella riqueza, rebrilhando sobre o panno verde da mega, uma esperança desordenada levantoulhe a alma. Com uma economia sagaz, poderia viver dous annos em Coimbra ; durante esse tempo, lec cionando, fundando uma Revista, crearia recursos regulares . , . E apesar de chorar ainda ao olhar para o daguerreotypo do pae, começou a gozar instinctiva,mente da idéa da sua liberdade — sem familia que lhe tragasse auctoritariamente um destino e com dous fortes cartuchos de dinheiro na maleta. Voltou para Coimbra — e d'ahi a duas semanas pagava aos lyricos do Cenaculo uma orgia na tia Poncia ; depois, comprou todas as obras de Victor Hugo e um revólver ; fez um fato, guitarreou, jogou a batota, alugou caleches para ir a Condeixa jantar no Castello com o Taveira. No acto seguinte, levou outro R. E pelas ferias, quando Coimbra começava a ficar deserta, achouse com oito mil réis no bolso. Foi então que se lembrou das tias, que nunca vira e que viviam em Oliveira d'Azemeis. Eram duas, Ricardina e Sabina ; a mais velha, a tia Lóló' morrera tisica, um anno depois do marido. Escreveu-lhes uma carta pathetica, com phrases á Musset, pedindo ás duas velhas que o ajudassem n'esta grande batalha da vida, em que elle se sentia fraquejar, porque era d'esta geração nervosa e pallida, que necessita o amparo d'uma ternura de anjo . . . » Como a resposta tardasse — partiu desesperado para Ovar, para a mesma hospedaria, como se esperasse vêr outra vez scintillar sobre o panno da mesa, o ouro d'outro punhado de libras. Alli, o seu velho amigo, o advogado Silveira, que rompera com o Campeão e ia casar com uma viuva rica que fascinara em Espinho, irritou-o com conselhos praticos, solidamente burguezes : « a vida não era poesia, era necessario tratar do pão ! » Mas on de ? Como ? Ir rabiscar papel para casa d'um tabellião ? Ir vender cheviotes a um balcão do Porto — Era imbecilisar-me para sempre, annullar as minhas faculdades, Silveira ! Uma manhã, por fim, chegou a carta das tias. Era breve, n'uma letra bonita de mulher : Meu querido sobrinho. « Cá recebemos a tua carta, que mostra que tens « muito talento e nos fez chorar a todos, que até o Albuquerquezinho pareceu muito affectado. eu « não teria felicidade maior que poder ajudar-te « para a tua formatura, pois se vê que tens voca ção para Doutor e haverias de fazer boa figura. « Mas, infelizmente, como tu não ignoras, pois o « mano Manuel estava bem ao facto de tudo, nós « pouco temos, apenas o bastante para alguma de- « cencia. nu porém és do nosso sangue e por isso te « posso dizer que n'esta casa has-de encontrar bom « agasalho porque até temos um quarto com alguma « mobilia e podia servir para ti e mesmo a mana « Sabina já lá anda a escarolar, pois esperamos que « acceites este offerecimento, que é feito do cora- « cão, tanto mais que o snr. Vasco diz que agora são « ferias em Coimbra. Escreve annunciando o dia em que vens e recebe um apertado abraço da tua tia muito amiga do coração Ricardina. » O advogado Silveira a quem elle correra a mostrar a carta, disse-lhe logo, traçando a perna, com uma das suas imagens floridas : — Ahi tens tu ! Eras a barca batida da tempestade : abre-se-te o porto hospitaleiro ! Arthur, passeando cabisbaixo pelo escriptorio, iliaginava por aquelle estylo da carta da tia Ricardina a existencia em Oliveira d'Azemeis, entre as duas senhoras cheirando a rapé, fazendo á noite uma meia somn.olenta, depois do terço rezado com a creada, deante da commoda armada em oratorio. — Quem será este Albuquerquezinho ? — Algum velho amigo da familia . . . Jogador de gamão, naturalmente — disse o eloqu'ente Sil veira, — Emfim,—exclamou Arthur, — vamos lá para Oliveira d'Azemeis. Atea jacta est I Partiu d'Ovar, ao fim d'um dia torrido d'Agosto — e quando entrou, com o mogo que lhe levava o ballú, no pateo triste do casarão das tias, a torre de S. Francisco, ao lado, badalava as nove horas, sobre a Villa silenciosa, As senhoras, carregadas de luto, vieram ao topo da escada receber o sobrinho, de braços abertos : — Oh, menino, pois tu vens a esta hora . — exclamou a tia Ricardina— e sem prevenir ! Jesus, que desproposito ! Ai, mana Sabina, que é o retrato do mano Manuel ! Ai, dá cá um abraço, filho ! Arthur, muito embaraçado, POUSOU no chão a chapeleira, o paletot, o guarda-sol, para receber o beijo da Ricardina, que o esperava com uma lagrima ao comprido do seu grande nariz de cavallete ; depois, foi para os braços da Sabina, toda pequenina, toda enternecida, d'uma brancura de marfim sob a sua touca negra. — Ai, filho, — repetia a tia Ricardina, levando-o para a sala — és o retrato do teu pae ! Olha, iamos agora mesmo tomar chá. Sobre a mesa estava o taboleiro com as chavenas, e ao lado, á luz d'um candieiro de abat-jour transparente, que representava scenas de neve n'uma paisagem da Noruega, um sujeito nutrido e calvo fazia uma paciencia, muito tranquillamente. — Albuquerquezin,ho, aqui está o Arthurzinho. É o retrato do mano Manuel O homem pousou devagar o baralho, voltou-se na cadeira e com as pernas muito abertas, as mãos espalmadas sobre os joelhos, examinou longamente Arthur, que torcia o buço, todo acanhado : — Ora viva o meu amigo ! — exclamou subitamente, erguendo-se e ar:ebatando-lhe a mão, que conservou muito tempo, sacudindo-lh'a compassadamente — Ora viva o meu amigo ! Ora viva o meu amigo ! Sentou-se e depois de ter acamado com methodo, d'um e d'outro lado da calva, os tres pellos grigalhos, retomou gravemente o seu baralho. Mas o moço esperava á porta, e Arthur, remexendo no bolso, estendeu-lhe dois tostões. — Credo ! — exclamou Ricardina — Tu estás doido, menino ! Olha o desproposito ! Vae muito bem com quatro vintens. Vá, Joanna, ajude-o a levar o bahú para cima. Espera, eu tambem lá vou. Sempre é melhor que eu lá vá. E tu deves vir a cahir de fraqueza, filho. Veja lá se Ih 'arranja já alguma cousa, mana Sabina. Vá, não fique ahi pasmada ! Sabina apressou-se a ir para a cozinha emquanto o Albuquerquezinho, muito serio, ia baralhando socegadamente as suas cartas. — Boa viagem ? — perguntou, fixando Arthur. — Muito agradecido a V. Ex.a, fiz muito boa jornada — O mar picado ? — O mar ? — murmurou .Arthur, assombrado. — Eu venho d'Ovar — rosnou Albuquerquezinho, com desprozo. Na diligencia ! Nelson, o grande Nelson não andava em diligencia . . . Nelson era um almirante e eu — Chut ! — fez imperiosamente o Albuquerquezinho, que, tendo disposto um quadrilatero de cartas, ia agora voltando uma a uma as que restavam no baralho : — az ! terno ! valete ! duque ! Arthur examinava com espanto a sua cabeça grave de tabellião, a calva polida e lustrosa como madre-perola, com quatro pellos brancos sobre cada orelha, a face rubra e bem nutrida, o beicinho luzidio, as duas suissas pequenas, grisalhas e o magestoso collet,e branco onde serpenteava um grilhão. Mas o que o maravilhava, eram tres galões d 'ouro, de general, que elle trazia cosidos no canhão da manga. — V. Ex. a é amador de, paciencias ? — perguntou Arthur para quebrar o silencio. Um chut ! despedido com colera emmudeceu-o. Arthur ergueu-se, offendido ; uma das janellas estava aberta á noite calida de Agosto : defronte, vermelhavam os dous bocaes escarlates na vidraça da botica, e em redor, sob o céu negro, todas as casas, a praça, pareciam adormecidas no ar pesado, com uma ou outra janella aberta, mortiça..D)erzte aluminda. Devia ser aquelle o fim da Villa, porque se ouvia no grande silencio, a distancia, paxa além da massa escura da capella, um coaxar triste de rãs. Arthur accendeu um cigarro e alli ficou, pensando nas noites de verão em Coimbra, nos luares sobre, o Mondego elegiaco. . . Via-se na ponte, com os olhogl postos na lua, redonda e branca — que áquella hora, contemplavam tambem o pastor na montanha, deitado sobre uma pedra, o marinheiro nos mares calmos, sobre o tombadilho —e ao lado, a voz extactica do Taveira, murmurando : Lua, hostia do Infinito ! » A sala, dentro, parecia continuar a melancolia da praça e da Villa, com o seu alto armario de pau preto, a mezinha de pés torneados, coberta d'uma colcha de setim, sustentando preciosamente um vaso com flores de cera, e um recanto d'alcova, com um velho divan cavado pelo uso, onde de certo, de dia, as senhoras caturravam fazendo meia. E a voz grossa do Albuquerquezinho, uma voz de major enrouquecida nas manobras, continuava : quadra, dama, az, terno. Mas Ricardina appareceu emfim azafamada : — Desculpa, que se te andou a arranjar o quarto. Vires sem prevenir, que desproposito ! Calou-se, cheirando em redor : — Oh, menino ! pois tu fumas Ai, que peste ! Ai, que peste ! Agarrou um guardanapo, bateu o ar violentamente : — Ai, deves perder o habito, que o Vasco diz que arrasa a saude e dá más idéas. Puz-te o bahú ao pé da cama. Olha, ahi vem a tia Sabina. Vae com ella, que te vae mostrar o quarto, que eu vou me aqui repimpar e estar um bocado caladinha . , . Mas não se calou, contando logo os seus acha ques, o mal que a secca esteva fazendo ás terras, os bonitos passeios para os lados do Côvo, a maraVilha da fabrica de vidro — Fez a paciencia, Albuquerquezinho — Duas, menina, — disse o velho que baralhava as cartas — duas imperiaes. — Logo se marca, que a Sabininha tem de lá ir acima . . . Ai, que balburdia, credo ! Pois olha, até estou com dôres de cabeça. do fumo do tabaco. E tambem de sahir dos meus habitos . . . — Chut ! — bradou o Albuquerquezinho que re começava o quadrilatero. E Ricardina baixando a voz : — Vá, mana Sabina, vá-lhe mostrar o quart já que tem pernas. — Por aqui, menino, por aqui — disse logo bina, levantando-se. Arthur, atarantado, seguiu-a pela escada ing me, mas quando chegou ao corredor, parou pantado, vendo a uma porta, postado, d'arma hombro, um soldado de papel em tamanho n ral, collado a uma taboa que fôra recortada contornos da figura. — Que é isto —É o quarto do Albuquerquezinho, é a nella disse Sabininha com um sorriso en eido. — Quem é aquelle sujeito — perguntou Arthur. — Ai, é um santo ! Nãc deves fazer caso . . tem a cabecinha desarranjada, não pensa senão em navios e cousas do mar. — Foi official de marinha Oh, não ! O Albuquerquezinho era um amigo do mano ; depois de viuvo começou a tresloucar. E como não tinha parentes e não estava doudo declarado para ir para Rilhafoles, trouxemol-o a viver cá para casa ; que o Albuquerquezinho é rico, tem uma fazenda muito boa, ao pé de Santa Euphrasia. Fallava enternecida, com o seu castiçal na mão, ao lado da enorme sentinella de képi e farda azul, de bigodes napoleonicos. Fôra ella que lhe pnzera na manga os galões d'almirante. Era ella que cosia as velas dos seus navios. — Ai, coitadinho, é um santo ! só aquella mania das embarcações, que em tudo o mais tem juizo. Mostrou-lhe então o quarto, pegado ao do Albuquerquezinho. Sobre a commoda tinham posto um grande ramo de rosas e os lengoes da cama eram bordados. — Tens aqui agua quente , . . E a vista é linda. Arthur deitou um olhar á janella, mag só viu uma vaga negrura, onde fórraas d'arvores, outra torre distante, punham sombras mais densas, e das quaes subia o mesmo coaxar triste d.ag Mas Sabininha, ao retirar-se, hesitou um momento e quasi com uma supplicagão na voz : — Não te rias, menino, queria pedir-te uma cousa. Sempre que fallares ao Albuquerquezinho, chama-lhe « snr. almirante b. Quando Arthur desceu, o chá estava na mesa e Sabina, muito commovida, arranjava sobre o guardanapo a ceia do «menino Elle teve então de contar dos seus estudos de Coimbra, como recebera a noticia da morte do pae, o que tinha rendido o leilão . . . Mas de repente o Albuquerquezinho arremes sou a torrada que tomara do prato e empertigado na cadeira, fazendo estalar os nós dos dedos, olhou successivamente as duas velhas com rancor. Exigia as torradas quentes, louras, a escorrer de manteiga e encontrando uma secca, rosnou com azedume : — Se sabem que me faz mal ! Se sabem que me faz muito mal ! E não é uma, são todas que estão seccas. Já é desleixo ! Foi um desgosto para as senhoras. Tinha sido a atrapalhação. Fôra com a chegada do menino ! O Albuquerquezinho havia de perdoar ! — É por culpa minha, — disse Sabina que as deixei fazer pela Joanna. — Está claro, — exclamou Ricardina — é culpa sua ! Eu bem lhe tinha dito que deixasse os ovos ó Joanna e fizesse a menina as torradas. Mas não, quer-se sempre regular pela sua cabeça ! Veja onde a levou a sue cabeça ! e aflautando a voz, muito tesa, : olhe o desgosto que soffreu ! A Sabininha, encolhida, sorvia a sua pitada. E Albuquerque, voltando-se para Arthur, com a testa franzida : É que o amigo, que vem de Coimbra, comprehende, ou são torradas ou é pão secco ! Arthur respondeu, lhuito serio : — Tem V. Ex.a muita razão, snr. Almirante. Subitnmente o velho calmou-se, passando com satisfação as mãos espalmadas sobre os quatro pel10s da calva. As faces das senhoras illuminaram-se n'um reconhecimento Commovido, e a Sabininha, sem se conter, passou Os dedos magros pelo rosto de Arthur, dizendo enternecida : — Ai. não podes negar que és filho do mano Manuel. É o mesmo COra.g?ao d'anjo. E durante um momento -Arthur sentiu-se bem entre aquelles corações antiquados, tão faceis de alegrar, n'aquella casa normecida, a um canto de Villa triste, onde errava Por entre os moveis, a que o longo uso dera quasi uma expressão humana, um cheiro pacato d'alfazenla. E mesmo o Albuquerquezinhc lhe pareceu tocante, quando, estendenao sobre a mesa o seu braço agaloado d'ouro, lhe declarou com amizade : — Hei-de leval-o ázmaaua a bordo. — uma grande honra— respondeu sorrindo. Mas tinham dado as dez e meia e as senhoras ergueram-se para ir, com as duas creadas, rezar o terço ao oratorio. Arthur, acanhado, ficou só na sala triste, defronte do Albuquerquezinho, que de mãos cruzadas sobre o ventre, cahira n'uma somnolencia, que lhe vinha geralmente depois do chá. Quando as tias voltaram, cabeceando, d'aquelle terço monotono no oratorio, o Albuquerquezinho acordou, compoz as repas da calva e erguendo-se, disse com satisfação : — Pois, senhoras, passou-se o bocadito da noite. Deram então um castiçal a Arthur, com recomhnendagõeg infinitas : que apagasse a luz antes de adormecer, que não deixasse os phosphoros espalhados por causa dos ratos . — Eu estou lá ao pé, eu estou lá ao pé — disse o Albuquerque. Eu lá vigiarei. E se o amigo quizer alguma cousa é bater na parede ! Vamos, boas noites ! subiram para o corredor, o Albuquerquezinho adiante, devagar, bocejando, puxando-se pelo corrimão. — Pois amigo,— disse — não ha nada melhor do que uma somnecazinha depois das torradas. Que ellas hoje estavam más : mas emfim foi dia de hospede. O que o amigo deve vir, 6 caneado. Tres horas de diligencia . . . Ouça lá, as conveniencias são ao fundo do corredor. E Arthur pasmava de o vêr tão 'sensato, quando o Albuquerquezinho, parando á porta do seu quarto, fez a continencia ao soldado de papel e deu este santo e senha, para entrar a bordo : — Nelson e Sabininha ! Só no seu quarto, Arthur, sentado na cama, começava a fumar o seu cigarro, quando de fóra a voz de Ricardina fallou pela fechadura : — Pois tu estás ainda a pé, menino ? Ai, apaga a luz, apaga a luz . . . Dize se estás a fumar ? — Não, tia Ricardina. — Ai, filho, pelas chagas de Christo, tem cuidado com o fogo. Deitou-se desesperado, pensando no que faria para fugir 'bem depressa d'aquella caga embrutecedora, onde nem poderia lêr de noite na cama ou trabalhar, sem que uma das velhas viesse, na sua ronda, fazer-lhe soprar a luz e as imaginações. Ao outro dia, ao erguer-se, foi abrir a janella. Era uma manhã resplandecente. Em baixo, estendia-se toda uma verdura de pomares e hortas, com tanques aqui e além, onde espelhava a agua ; brancuras de roupa a seccar, casas caiadas, faiscavam ao sol. O quintal das tias, d'onde se subia por tres degraus de pedra para o pateo da creação, era certado d'um muro baixo erriçado de fundos de gar52 rafas. Estava plantado de couves, alfaces, feijões ; pés de roseiras e dhglias faziam um jardinete ao canto ; no fundo, debaixo d'arvores, era o poço, e sobre o seu pedestal, uma estatueta de gesso da Fortuna, com o pé no ar, a cornucopia alta, bran quejava na luz forte. E Arthur, debruçado, fumava, quando da janella ao lado, sahiu um braço agaloado d'ouro e immediatamente uma voz formidavel retumbou : — Orça a barlavento ! Senhor segundo tenente, abra as escotilhas da proa . f — e uma trombeta soou : traiará, traiará, rá, rá, á . . , E então, d'um porta-voz, que appareceu fóra da janella, sahiu um vozeirão : — Cerre os traquetes ! Fogo ! Boum ! Boum ! Boum ! Traiará, traiará, rá, rá, á , . . Era Albuquerquezinho, de chapéu armado, com mandando do peitoril da janella, a sua fragata de guerra ! Começou então para Arthur uma vida desgracada, em que os dias se seguiam como as paginas brancas d'um livro que se vae tristemente folheando. Toda a manhã, as duas senhoras faziam a sua meia na sala, com as janellas cerradas, o soalho re gado, n'um silencio em que errava a sussurragão das moscas. Ás vezes, para o distrahir, Sabina levava-o ao quintal, vêr a creação : mostrava-lhe os coelhos novos pulando sobre as camadas de couves molhadas, de nariz franzido, as orelhas direitas, fitando os olhinhos vermelhos como rubis ou negros como vidrilhos nas côdeas que ella trazia ; e em torno d'ella era um correr de pintainhos, redondos como bolas de pennugem, um koé-koé de patos, um despedir de bufos dos dous perús entufados. Mas o cheiro da capoeira, da coelheira, o bafo morno e acre dos pellos e das pennas enjoavam Arthur ; detestava os bacorinhos, com a pelle côr de rosa, a suar de gordura, fossando até aos olhos, grunhindo de gozo, na lavagem das gamellas. Só não desgostava do velho gallo, o Pimpão, de cauda flammante e passadas pomposas : muito atrevido, o Pimpão plantava-se deante d'elle, erguendo a crista sanguinolenta, fitando-o de lado com o seu olho rutilante, e de repente, batendo as azas, estendendo o pescoço onde corriam reflexos d'esmaltes vermelhos e azues, lançava o seu toque de clarim ; gallos n'outros quintaes respondiam ; e as gallinhas iam dando em redor, no matto estradado, picadellas subtis e vorazes. Mas Arthur declarava que não lhe agradavam senão pombas e pavões —e subia para casa, bocejando, emquanto a tia Sabina, magoada d'aquella indifferença, ficava a olhar desconsoladamente a gua bicharada Depois do jantar, dadas as graças, era a sesta : tudo parecia adormecer n'uma lassidão entorpecida, até os moveis e as moscas. E Arthur, estirado sobre a cama, olhava vagamente as taboas do tecto, ruminando pensamentos saudosos d'amor, de celebridade, ouvindo fóra, nas suas gaiolas de vime, arrulharem as rolas. Ao fim da tarde, as senhoras iam tomar o fresco para o fundo do quintal, ao pé da estatueta da Forfima„ emquanto o Albuquerquezinho fazia navegar no tanque do poço o seu bote cheio de soldados de chumbo ; e n'aquelle repouso das folhagens, cangadas da ardencia do dia, ouviase a agua de rega murmurar ao lado, no pomar do Freitas. E alli ficavam até tarde, esquecidas, até que alguma estrellinha tremeluzia no alto e os morcegos esvoaçavam em torno da Fortuna. A essa hora, Arthur entrava do seu passeio triste pela estrada d'Ovar ou do Côvo e o serão começava, com as janellas, por onde entravam borboletinhas brancas, abertas á escuridão tepida do Era aquella a hora peor. As meias das duas senhoras, as paciencias do Albuquerquezinho, os quartos que eahiam plangentemente da torre de S. Francisco, davam-lhe um tedio teciturno. As tias imaginavam que eram saudades do papá : — Não maluques n'isso, — diziam — quem lá está, lá está. Arthur detestava-as, por não comprehenderem a elevação espiritual da sua melancolia. Depois, o Albuquerquezinho tomara affeição a Arthur e queria mostrar-lhe a sua esquadra. Eram dous grossos cadernos de papel em que elle collava em fila os navios e paquetes recortados nos annuncios dos jornaes, com os nomes escriptos a tinta vermelha: Valoroso, Relampago, Fragata Sabina, Nelson . . . Havia as esquadras de todos os paizes da Europa, e, como não cessava de recortar, tinha agora esquadras de terras exoticas : a frota da Laponia, a frota da Cafraria, a frota da Arabia . . . — Hein, meu amigo ! Qu'esquadra . . . E tudo ás minhas ordens ! — dizia, mostrando os galões da manga. — Dá-me muito que fazer . . . — De certo, snr. Alinirante, de certo ! Ao fim do serão, subindo para o seu quarto, erguia os braços para o céu n'uma accusação muda ! Quando acabaria aquella vida ? Quando voltariam noites como as do CenacuZo ? Pela janella aberta entrava a paz escura da Villa adormecida, Olhava então as casas apagadas, os telhados fazendo na sombra sombras mais densas : áquella hora, toda uma burguezia dormia, roncando de barriga para o ar ; nenhum d'aqueles seres lêra Alfred de Musset ou comprehenderia os sonhos que lhe revoavam na alma como bandos d'aves captivas ; a obtusidade d'aquelle montão de logistas e de pro- prietarios sem ideal e sem emoção, ignorando os poetas, occupados com o preço da carne e o adubo das terras, exasperava-o, dando-lhe desejos vagos de uma Revolução, em que o poder, o dinheiro, pertencessem aos genios e ás almas delicadas. Occupava-se então, para não perder a communicagão intellectual @om o Cenaculo, em compor para o Pensamento uma longa elegia, intitulada A Morte e dedicada á memoria do pae. Mas Damião, que passava o verão em Coimbra, devolveu lhe o manuseripto, com uma carta, dizendo que o CenacuZo decidira não publicar o Pensamento durante as ferias ; talvez mesmo, no anuo seguinte, agora que o Taveira estava formado, o Pensamento se tornasse uma Revista puramente philosophica e scientifica, d'onde os poetas lyrieos, como na Republica de Platão, seriam excluidos, «a não ser que, deixando a preoccupação estreita da dôr individual, se lançassem na sympathia mais larga da humanidade martyrisada . . . » Censurava-lhe a poesia cheia de lamentações cahoticas e lamartinianas » ; acon.selhava-lhe um livro forte e democratico : a morte — dizia — é uma transformação banal da substancia, e não comporta adjectivos tão espantados, verbos tão plangentes e essas fileiras d'interjeigões, que parecem renques de cyprestes. Só a vida é interessante porque é phenomeno unico. Escreva paginas vivas t Aquelle fim do Pensamento, cortando a sua ultima communicação com a vida intellectual, desolou-o. Assim se completava o isolamento da sua alma. De resto, sentia-se vazio d'idéas, d'imagens, de rimas. Attribuia aquella esterilidade ao meio dormente, á ausencia de conversas, d'excitação inspiradora. A falta de livros amargurava-o. Os que tivera, vendera-os em Coimbra quando vira o fim das libras do leilão, e não podia obter outros, porque os proprios cigarros que fumava no quintal, longe da tia Ricardina, tão avessa ao tabaco, comprava-os com alguma placa que lhe dava a boa Sabininha. O seu tedio era tão grande que se puzera a desejar, como um acontecimento, a apparição aos serões, do Vasco e de D. Galathea, que então convalescia do seu ultimo parto. Sabininha fallara-lhe de D. Galathea como d'uma « verdadeira belleza » e, por aquelle nome litterario, pelo que ouvira do seu amor dos romances, do seu talento no piano, viera a conceber uma mulher d'olhos tristes e alma impressionavel, soffrendo da existencia mesquinha da aldeia e sonhando amores elevados. Mas foi uma desillusão quando elles vieram um domingo. D. GaIathea era quasi uma quarentona, grossa e branca, de buço forte, com uns seios, umas ancas, que sob o vestido leve de cassa clara, lhe davam a apparencia flacida d'urn odre mal cheio. Atravessara o largo em chinelos, com fitas verdes no cabello, um cartucho de rebuçados na mão —e a sua conversa sobre o leite da ama e os cuidados em que estava com o sarampo do Pedrinho, e a canastra de marmelos que comprara n'essa tarde, revoltou Arthur, que fez d'ella esta definição irreverente : uma vacca ! O Vasco, esse, pareceu-lhe odioso. Pouca gente lhe tinha visto o rosto todo : com a testa e os olhos sempre cobertos pela pala enorme do bonet de panno, o queixo e a bocca constantemente abafados n 'um cache-nez roxo, mostrava apenas a Oliveira d'Azemeis um nariz bicudo e lustroso. Vivia n'uma irritação permanente. E todo o dia era pela botica um passeiar furioso, fungando, fazendo estalar violentamente os nós dos dedos, com sacudidelas deses peradas da cabeça, como a fugir ao ferrão d'um moscardo invisivel, mastigando em secco, dentro do cache-nez, como se a vida lhe soubesse mal, Ninguem explicava na Villa aquelle azedume hypocondriaco. Os serões das Corvellos, porém, pareciam calmal-o : mostrava então as repas grisalhas que lhe córiam o craneo estreito e o cache-nez, alargado, descobria um queixo molle, que lhe fugia para as cordoveias do pescoço. a cabeça, emergindo-lhe assim dos agasalhos, com aquella longa saliencia do nariz agudo, lembrava a d'um passaro pelado. Arthur comprehendeu immediatamente que o Vasco era um ciumento : via-o mudo, de queixo rilhado, os olhinhos de chlorotica amarellada cravados anciosamente, ora n'elle, ora na grossa Galathea ; e quando esta, requebrando-se, o interrocrava sobre os seus passeios aos arredores, a sua visita á fabrica de vidro do Côvo, o Vasco, retido a distancia pela tagarellice da Ricardina, sondava de olhos faiscantes a escuridão debaixo da mesa, no terror de que já houvesse um terno roçar de joelhos. Emfim, quando trouxeram o chá, veio bruscamente plantar-se entre ambos, como um aspero muro erriçado de pregos. Então Arthur indignou-se, Ser suspeitado, elle, com a delicadeza fina dos seus gostos idealistas, de desejar aquela matrona de carnes molles ! . . . E para evidenciar bem o seu desdem pela Galathea, pelas palestras caturras, por toda a Villa — subiu para o seu quarto, foi estirar-se na cama, gemendo interiormente da solidão do seu coração. D'ahi a pouco, a voz da tia Sabina dizia de fóra : — Tu estás incommodado Vai-se fazer um quino. Elle veio abrir : — Não, tia Sabina. Não estou para aturar os Vascos. Diga que estou a escrever p'ra Coimbra. Não jogo o quino, Em baixo, o nariz de Ricardina, a esta explicacão, alongou-se : — Podia escolher outra hora para escrevc I — Rapazes ! — disse o Vasco satisfeito — Deixou o coração em Coimbra. E o loto começou em torno da mesa, emquanto, deante do album aberto das esquadras universaes, o Albuquerquezinho fazia a sua somneca. Já o Vasco, para gahir, recolhera a face d'ave triste ao bonet e ao cache-nez, quando Arthur desceu. O pharmaceutico tomou-lhe a mão com affecto : —- Estimei conhecel-o Aquella casa está ás ordens . . . Eu tinha lido a carta que escreveu ás titias . . . É de muito talento. Eu admiro o talento ! Pobre Vasco ! D. Galathea, ainda depois de dez annos de casada, lhe dava ardores immoderados e zelos pungentes, Outr'ora, interceptara um bilhete do seu praticante, em que o moço a tratava por tu e fallava dos « celestes gozos da outra noite » ; mais tarde, surprehendera-a positivamente nos joelhos do sobrinho do Carneiro, moço imberbe que estudava geometria. Perdoara, mas desde então a desconfiança, a paixão tenaz, junto á hypocondria d'uma doença de figado, dera-lhe aquelle azedume taciturno. A virtude d'Arthur, que experimentou n'outros serões, tornou-lh'o querido. Depois, tendo conversado com elle sobre assumptos que o interessavam, como a Electricidade, o Magnetismo animal, deslumbrado por algumas recordações dos compendios de Introducção que Arthur bordava de phrases do Cenaculo, concebeu uma consideração illimitada pelo talento e pela sciencia do Corvello sobrinho D. Mas não se abandonou imprudentemente a esta sympathia, quiz sondar-lhe os principios e o caracter, e um dia que Arthur entrara na botica a buscar o xarope da Sabininha, o Vasco fechou a porta, para fazer uma solidão propicia, e cruzando formidavelmente os braços, atirou-lhe esta interrogação : — Quaes são as suas idéas a respeito da familia ? Arthur, interdicto, balbuciou : — Eu, parece-me que é uma instituição respeitavel. — De modo que um peralvilho que attenta contra a paz do lar, é um canalha — Parece-me que é um canalha ! — Muito bem, E se o snr. Corvello fosse legislador, que penalidade lhe infligiria ? Arthur passou os dedos pela testa, confuso, procurando penalidades : — Eu, parece-me que o castigo actual do Codigo é sufficiente . , . Tres ou quatro annos de ca deia — Muitissimo bem . — exclamou o Vasco apertando-lhe a mão. — Estimo que se não afaste d'esses principiog respeitaveis , . . E n'urn reconhecimento ás Corvellos por possui rem um sobrinho de tanta virtude domestica, pesou um quarto de rebuçados, encartuchou-os e exclamou : — P'r'as senhoras suas tias, da minha parte. Comprehendo o gosto que fazem em V. Ex. a . Foi por esse tempo que o Vasco, desgostoso com todos os praticantes moços que tivera, e que invariavelmente tramavam contra a sua honra, obrigado ultimamente a despedir o habil Alfredo, por ser « atiradico 9, concebeu um plano — que d'alli a dias foi muito gravemente communicar ás Corvellos. Era tomar Arthur como seu praticante : oh, elle bem sa bia que um moço de taes talentos, com dons annos de Coimbra, merecia uma posição mais elevada na Sociedade. Mas emfim, o snr. Arthur estava alli na Villa, inactivo, comendo o pão das titis O seu desejo de o possuir era tão forte, que lhe offerecia sete mil e quinhentos por mez ! De resto, a pharmacia era uma Sciencia. Elle estava velho, minado do figado, avido de repouso, e se o snr. Arthur reve lasse talentos verdadeiramente pharmaceuticos, po deria mais tarde passar-lhe a botica, a melhor em todo o districto. De mais a mais, não seria difficil, em alguns mezes, com os estudos que elle tinha, inicial-o na manipulação dos elementos chimicos «que é de tanta responsabilidade, minhas boas senhoras. Foi uma alegria violenta para as tias. Ainda o Vasco ia no pateo, jó ellas estavam batendo á porta do quarto d'Arthur, que se aferrolhara por dentro na composição ardente de quadras enthusiastas : Eu quero uma existencia fulgurante I Mover-me livre sob o livre céu I Quero a gloria épica do Dante E os amores sublimes de Romeu . Ficou petrificado, quando Ricardina, enternecida, lhe annunciou a proposta do Vasco, d'aquelle santo ! Praticante de pharmacia ! Parecia parvo, de penna na mão e os cabellos esguedelhados, rolando assim dos céus poeticos onde pairava até aos almofarizes da botica do Vasco ! —É uma occupação p'ra ti — dizia Ricardina. — Tens ao menos para o teu fumo e para as tuas extravagancias — ajuntou Sabina. — Que nós, mesada, não te podemos dar. E quando se te acabar o luto, nem tens para mandar fazer um casaco . . . E são sete mil e quinhentos Não podia recusar-se a trabalhar : balbuciou lugubre,mente que sim ». Mas a desconsolação que lhe murchara a face magra foi tão visivel que commoveu a tia Sabina : —É para o teu bem — murmurou. — Que se fossemos ricas , . . Mas emfim se te custa muito . . . — Que ha-de custar Que ha-de custar ? —— exclamou Ricardina — Ahi vem a mana com as suas cousas ! Olhe o desproposito. Se a deixassem regular-se pela sua cabeça, não iam n'esta casa senão desgraças. Veja onde a levou a sua cabeça . . . Veja o desgosto que soffreu ! Vai muito bem, é uma fortuna para elle. — Sim, tia Ricardina, obrigado. Até estimo Quando ellas sahiram despedaçou os versos. E até ao jantar, movendo-se pelo quarto, tomado de desespero, pensou em fugir d'Oliveira d'Azemeis. Tinha a certeza de que o seu genio, na frequentação do Vasco, entre os unguentos e os bocaes, pereceria como um lirio desfolhando-se n'urna caverna. Porque não iria para Paris, ser operario, amar uma Mimi republicana do Faubourg St. Antoine e cons pirar contra o Imperio ? Pensou em ir para Lisboa, fazer-se escudeiro n'uma casa fidalga, onde a sua figura e as suas replicas profundas lhe dariam bem depressa o amor da senhora condessa ou da mulher do banqueiro . , Mas tinha as desesperações superficiaes — e d'ahi a dias, com o casaco de laboratorio que pertencera ao habil Alfredo, preparava resignadamente, sob o olhar paternal do Vasco, a sua primeira garrafada de mistura salina, Consolava-se achando na sua sorte similitudes com biographias illustres : pensava em Michelet impressor, em Proudhon conduzindo pelo Rhodano carregações de madeira ; lembreva-se da phrase de Damião : o homem moderno deve trabalhar com as suas mãog e philosophar com o seu cerebro. » Depois, eram sete mil e quinhentos por mez . , , Do resto o trabalho era breve. O principal negocio do Vasco consistia n'umas Pastilhas peitoraes que inventara e de que fornecia todo o dist,ricto. Á noite, dispensava Arthur : a essa hora D. Galathea descia á botica e o Vasco, apesar d'A sua confiança na virtude heroica do novo praticante, não queria, por systema, depois do lusco-fusco, corações de vinte annos na botica Temia sobretudo a noite como mais propicia ás fraquezas ternas e á passagem de bilhetinhos subrepticiog, destruidores da sua honra. Depois, veio-lhe outra felicidade. Uma manhã, que estava só na botica, a porta abriu-se, como arrombada, e appareceu o collosso do Theodosio. Viera á Villa. de passagem : vinha buscar pastilhas do Vasco para uma « pequena que se lhe encatar rhoara» ; fez estalar os ossos do caloiro com um abra co, chalaceou sobre a botica, convidou-o a ir á quinta, e, ouvindo-o queixar-se do aborrecimento da Villa, da falta de livros, exclamou divertido : — Ah, caloiro, é isso que te falta Caramba, está a calhar ! Eu trouxe dous caixotes atulhados de livraria, mas lá na quinta não me servem de nada. . . Se queres, mando„te para cá um caixote . . , Ou ambos ! Tem cuidado com encadernações, que lá n'isso faço gosto. Dás-me a vida, Theodosio ! — Pois valeu, caloiro I A chegada dos douB caixotes, uma tarde, foi um alvoroço na casa dag Corvellcs, Arthur precipitara-se em cabello da pharmacia. E Ricardina que subira ao quarto a vêr-lh'os destapar, aterrou-se deante d'aquelles montões de volumes amarellos em que de certo se deviam tramar cousas contra a Religião : — Tu vaes tresler, menino Olha não te faça mal ! Depois do chá, aferrolhou-se no quarto, atirouse ao seu thesouro, sofregamente, como se tivesse achado no quintal uma panella de dinheiro. Eram romances, poemas, criticas: dramas, philo,sophi'1R Mas só os poetas o attrahiam e ia atravez dos volumes espalhados na cama, lendo uma pagina ou uma estrophe, logo passando a outra, avido de versos sonoros, de dialogob'> de adjectivos ricos, e cada livro lhe renovava aquella, exaltação especial do tempo de Coimbra, acordando-lhe na alma antigos enthusiasmos do Cenacuto, Com Victor Hugo, sentiu-se outra vez pantheista, confundiu-se na alma Universal do Ser, declamou : Arbres, rochas, roseaux, tout vit I Tout est plein d'êmes I Todo o platonismo dos mezes em que amaro idealmente, lhe voltou, com languidezes elegñeaa que lhe passavam na alma, relendo em Lamartine : Un soir, t'en souviens tu, nous voguions en silence I E os lambes de Barbier fizeram-lhe bater o coração de novo, com as aspirações d'uma democracia lyrica : La liherté n'est pas une comtesse Du nol)le faubourg St. Germain, Que le son d'un fusil fait tomber en faiblesse, Qui met du rouge et du carmin. C'est une forte fille, aux puissantes mamelles, Aux mains rouges et teintes de sang I Leu toda a noite, sentado aos pés da cama, respirando a largas golfadas, com a delicia de quem sahe d'um carcere, a atmosphera que o envolvia, feita das emanações d'ldeal exhaladas d'aquelles volumes romanticog. E era, entre aquellas paredes do seu ,quarto, como uma região luminosa, acima da terra, onàe não havia tias nem pharmacias, onde o sopro das paixões grandiosas se casava á musica dos rythmos novos e em que elle se movia arrebatadamente por entre as creações da Arte. Alli, palpitavam no ether as azag d' Eloá ; a um canto de taverna romantica, vibrava o riso lugubre de Rolla ; além, a cotovia cantava no jardim dos Capuletos ; não havia uma carruagem que não levasse uma pallida Dama das Camelias ; todos os animaes eram poeticos como a cabrinha d'Esmeralda e nos cemiterios, Hamlet meditava, fazendo rolar sobre um chão tragico a caveira d'Yorick. Quando a vela de sebo se derreteu no castiçal de latão, ficou desesperado. Queria prolongar aquelIa noitada romantiea : então sahiu pé ante pé, esguedelhado, raspando phosphoros. No seu quarto, sob a protecção da sentinella, Albuquerquezinho resonava ; no corredor, os olhos do gato fixaram-no, phosphorescentes e aterrados. Não encontrou candieiro, nem vela . . . Foi ao oratorio. Em cima d'uma antiga commoda com fecharia de metal, erguia-se um alto crucifixo ennegrecido dos annos, e em redor apinhava-se toda uma Côrte celeste, de barro, de massa e de madeira . . . Uma lamparina ardia perpetuamente aos pés do crucifixo, e n'aquelIa alcova abafada, o reflexo da torcida punha uma vaga claridade mystica em redor, na aureola pallida d'uma santa, no dourado livido d'um Menino Jesus, na brancura d'uma renda de toalha, na encadernação canonica d'um velho in-folio. Errava um cheiro adocicado de junquilhos seccos, de cera e de maçã camoeza . . . Arthur arrebatou' a lamparina, deixou os santos nas trevas, e todo o resto da noite, aquelle pavio devoto, habituado a erguer a adoraCão da sua luzinha para as chagas de Jesus ou o burel de Santo Antonio, alumiou paginas profanas, cheias dos gritos da Paixão e das rebelliões da Duvida. Adormeceu quando a madrugada apparecia nas frinchas da janella, e sonhava que ia remando n'um barco, com o Taveira, por um rio de legenda, seguindo o corpo d'Ophelia que a corrente levava . . . quando acordou estremunhado, aos gritos da tia Ricardina que abrira a janella e apertava as mãos na cabeça, attonita, deante da lamparina secca : — Tu queres-me matar com desgostos, menino ! — gritava suffocada. — Pois tu tiraste a luz do oratorio Arthur explicou que fôra uma dôr de barriga. — Se elle se achou doentinho . . . — murmurou logo a tia Sabina, que entrara atraz d'ella, assustada. — Não ha doenças ! Que chamasse ! -É um desacato ! -É um desgosto que me ha-de levar á cova. É a primeira vez, em quarenta annos. Como póde alguem esperar a ajuda de Nosso Senhor, se até se lhe tira o bocadinho de luz ! Não me venha com as suas, mana Sabina ! A sua cabeça bem a conheço. Olhe o que ella lhe custou. Veja o desgosto que soffreu ! E sahiu aos ais pelo corredor. Cercado de livros de versos, Arthur julgou ter- lhe voltado de novo a veia sobretudo, talvez. —Ah, menino ! menino ! da tua edade, filho, é da tua edade ! Mas Ricardina, essa, desapprovou com espalhafato o despauterio do menino E era para isso, para fazer versos, que assim arrasava a saude, deltando-se de madrugada e trazendo aquella cara osverdeada ! Que visse onde os versos tinham levado o tio Theotonio ! E era um talentão, esse, intimo de fidalgos, conhecido na Côrte ! Pois por lá morrera, n'uma enxerga de hospedaria, com uma camisa na mala e um montão de papelada ! . . . E no seu horror á Poesia, que ella considerava a origem fatal da fome e do vicio, pediu ao Vasco que trouxesse o menino a idéas mais serias, mais praticas, de carreira e de futuro. O botica,rio fel-o em phrases muito graves, muito meditadas : se o snr. Corvello gostava de empregar os seus vagares, como era justo na sua edade, porque não unia o util ao agradavel ? Porque não estudava a bella physiea, a bella chimica, que lhe seriam de tanto auxilio no seu futuro pharmaceutico ? E accrescentou com bondade : Eu não digo, quando se tem já uma posição na sociedade e alguns vintens de lado, que não seja bonito poder produzir um bom acrostico, ou, sem malicia, um engraçado epigramma *l. . Mas fazer da poesia a principal occupação, não ! Desculpeme o gnr. Corvello, mas é uma grave imprudencia e ha-de concorrer para o desviar dos seus deveres ! Arthur empallidecia de raiva. Só na tia Sabina encontrava sympathia. Essa, desde a descoberta do caderno dos Esmaltes e Joias, parecia estimal-o mais, como se a habilidade poetica fosse uma evidencia da ternura da alma. Um dia, mesmo, quando ella estava arranjando o seu gavetão, a doce velha tirou d'entre um livro d'oragões um papel amarellado, de dobras muito gastas e com mysterio pediu-lhe que o lesse : mas baixinho ! Eram versos, versos á tia Sabina, versos datados do Porto, de 1841 ! Eis chegado o momento de partir, Dôr e luto se apossam do meu sêr ; Longe dc ti, ó anjo feiticeiro, A vida é treva, não posso viver E hav{a doze quadras n'este estylo, trabalhadas ao gosto do tempo, mistürando fanatismos d'amor e palpites de morte ás melaneolias do outomno e ás tristezas da separação. Arthur disse, sorrindo, n'uma complacencia de mestre amavel : — São bonitos, tia Sabina, estão bem feitos . . . A velha dobrou silenciosamente o papel : E eram verdade n'esse tempo, filho. — murmurou por fim. — Quando a gente é nova ! Arthur teve vontade de a abraçar ! O seu acanhamento reteve-o. Mas estimou-a mais desde então : quasi desejava contar-lhe as suas melancolias e as suas ambições ; mas vendo-a depois, á noite, cabecear com somno sobre a mesa, ou, na sombra do Oratorio, enfiando Salvé-Rainhas, sentia que a pobre velha não o comprehenderia. Agora, incessantemente, anciava por alguem com quem desabafar ! Desejaria lêr os seus versos, aquecer-se a uma admiração amiga, fallar dos seus poetas queridos, d'enthusiasmosj d'aspiragões revolucionarias. Mas ó casa das tias só vinham os Vascos, e a botica era frequentada apenas por um velhote caturra e obsoleto, o Sequeira, e por um proprietario, o Abreu, que todas as tardes, apoiado ao castao da bengala, murmurava sombriamente as mesmas palavras : Então que ha de politica As cousas vão mal, as cousas vão mal . . . » Na Villa, havia, na verdade, dous moços bachareis, mas Arthur não os conhecia : eram da Assembleia, das famosas soirées das Carneiros, que todos os sabbados faziam brilhar na praga escura as tres sacadas nobreg da sua casa, Muitas vezes, passando por lá, considerava-as com azedume, pensando como lhe seria facil captivar alh as senhoras, secitando, tendo ditos poeticos. Mas excluiam-n'o d'aquella sociedade brilhante a obscuridade das tias e a sua posição subalterna na pharmacia ; consolava-se então, pensando que seria aquelle um mundo burguez, occupado das intrigas da Villa, indifferente á arte e incapaz de sentir em concordancia com elle. Mais valia a sua solidão d'alma incomprehendida. Porém, nas noites em que se sentia sem veia D, quando odiava os livros como se a sua esterilidade lhe tornasse antipathica a abundancia dos eloquentes — aquelle isolamento completo amargurava-o como um desterro n'uma rocha deserta. A nostalgia de Coimbra, das cavaqueiras poeticas do Cenaculo, d'aquella vida intensa que lhe parecia agora sublime, voltava-lhe mais pungente; e avido de poetas e de pililosophos, tinha de vir sentar-se entre as tias, fazendo as suas meias somnolentas, e o Albuquerquezinho, compenetrado, elaborando paciencias ou revistando o album das esquadras. Se ao menos tivesse uma irmã intelligente e poetica ! Fazia-o suspirar, cerrar os olhos, a idéa d'uma mulher d'alma romantica, que o amasse, recenesse, reconhecida, a revelação das suas sensibilidades e para o acalmar lhe soubesse tocar ao piano melodias de Weber ou arias de Mozart ! Foi esta necessidade de convivencia litteraria que o levou, de certo, a ligar-se com um sujeito da Villa, apesar d'haver entre ambos um contraste radical de temperamento, de gostos e de comprehensão da Aida. Chamavam-lhe em Oliveira d'Azemeis o Ra8 becaz. Era um homemzarrão, de carão audaz e vermelho, fortes bigodes de mosqueteiro, muito teso no seu casaco d'alamares debruado d'astrakan ; @om o seu chapéu ao lado, a ponta do lenço muito de fóra, o grande bengalão de canna da India, parecia a Arthur -— quando o via passar na praça, revirando para as creadas que iam á fonte os olhos avermelhados de genebra —um d'estes mestres d'armas, capitães a meio soldo, azedados e turbulentos, dos romances d'Eugbne Sue. Era empregado da administração e ninguem sabia como se achava alli havia dez annos. Porque era de Lisboa, amaldigoava Oliveira d'Azemeis ; mal sabia redigir um officio e trovejava livremente contra os governos. Era um bilharista famoso na Villa, grande homem do botequim da Corcovada, onde ficava, das quatro da tarde até á meia noite, carambolando, atirando para as fauces copinhos de genebra e fallando com auctoridade de politica e de mulheres. Foi alli que se encontraram, uma noite em que Arthur, ao passar, se refugiara d'uma pancada d'agua no bilhar quasi deserto. O Rabecaz, que batia melancolicamente carambolas solitarias, propoz a Arthur uma partida ás vinte e cinco. — Que V. Ex. a , como frequentou Coimbra, deve ser da confraria do taco. — Jogo mal. Mas acceitou, com uma curiosidade d'aquella fi- gura que tinha em Oliveira um relevo pittoresco. n, carambolando, conversaram. O Rabecaz, immediatamente, injuriou o governo — e a sympathia nasceu de se reconhecerem ambos republicanos. No emtanto divergiam : Arthur queria os Estados-Unidos da Europa, governados pelos gandes genios : Victor Hugo devia presidir á Franga, Castellar, á Hespanha ; não haveria exercitos e os povos federados sentar-se-iam fraternalmente em banquetes symbolicos, cantando a Marsetheza. Rabecaz exigia um Robespierre, um Cromwell, para guilhotinar os fidalgos, confiscar os bens dos capitalistas e escavacar os padres ! — Nem barões, nem sotainas ! — berrou, brandindo o taco, — Pelo que vejo — disse Arthur -— V. Ex.a é da escola de Proudhon. — Eu não sou da escola de ninguem, meu caro senhor. Eu sou uma fera ! Quando penso no estado a que chegou este paiz, sou uma fera ! Trovejou então contra o clero • . — mas não con• cordavam tambem sobre questões religiosas. Arthur entendia que se devia adorar a Natureza, nos campos, deante do céu, templo eterno, e admirava Jesus, philosopho e democrata! Rabecaz não admittia Jesus, — porque, uma de duas, meu caro senhor, ou era um Dens e então tinha o poder de se não deixar matar, ou não era um Deus, e então não podia ter resuscitado : porque deixar-se matar, para ter o prazer de se fazer resuscitar, parecia-lhe uma trica politica, impropria d'um ente divino ! E pousando o taco, convidou Arthur a cear. A Corcovada tinha ao fundo, para os intimos, entre a cozinha e a estrebaria, um cubiculo com uma mesa de pinho e mochos de palhinha. D'uma paredo pendia o retrato de Pio IX, de mão erguida n'uma benção ; defronte, n'uma lithographia colo• rida, uma odalisca semi-nua enfiava perolas. Ouviase ao lado rabujar os netos da Corcovada, estalar na lareira a lenha verde e as mulas dos almocreves, puxando a argola das mangedouras, baterem o chão lageado. Rabecaz encommendou á Mariquitas, sobrinha da Corcovada, « a bella fritada d'ovos e chouriço e dous meios litros reaes E indicando, @om um piscar d'olhos, a rapariga sardenta e roliça : — Boa perna ! Escarrou para o lado, e, installando-se á mesa, quiz saber a opinião d'Arthur « sobre o gado D. — Que gado — O gado, o femeaço A expressão brutal escandalisou as delicadezae d'Arthur e o seu desprezo por Rabecaz foi com• pleto quando o ouviu declarar, com o olho lubrico, que o que apreciava no gado eram «as boas car• nes 9. — O amigo nunca esteve em Lisboa — Não disse Arthur. O Rabecaz deu uma palmada na : — Então, meu caro senhor, não sabe o que é gado ! Não faz Idéa do que é um pé catita ! — E com uma punhada na mesa : — Então, não sabe o que é a pandega ! Fallou immediatamente de si. Tinha vivido em Lisboa, elle, com cavallos, com cadeira em S. Car10s, com carruagem ! Fôra um principe ! No tempo em que Madame Ortza era uma belleza e o Marrare um céu aberto ! Que batidas para as Portas d'Algés ! Que orgias com a Contadini ! Comi tudo, mas regalei-me ! — disse, dando um puxão ao bigode, Arthur considerava-o agora com interesse, como uma ruina romanesca. — O snr. Rabecaz então devia conhecer bem Lisboa. — Lisboa Bebeu um trago areal» e passando pelos beiços as costas da mio cabelluda : — Meu caro senhor, conheço Lisboa desde o mais alto—e o seu gesto no ar parecia designar doceis de thronos — até ao mais baixo ! AO mais baixo ! — agitava a mão sob a mesa, como revolvendo lamaa. Rabecaz adquiriu logo para Arthur uma auct:odade imprevieoa por aquella experiencia tão com- plexa da grande cidade, das suas glorias, dos seus mysterios. Naturalmente tinha convivido com escriptores, com artistas . . . — Grande rapaziada ! — exclamou Rabecaz — Conheço-os a todos, de tu ! Bellos pandegos ! Citou nomes. O José Estevão ! O Garrett ! A Sociedade do Delirio ! Uma troça real ! Mas voltou com fogo ás mulheres : — Não ha como Lisboa para se apanhar do bom, do alto ! Tudo sêdas e velludos ! — E repoltreavase, retorcendo as guias, significando qüe se rolara no leito de condessas. — F, as hespanholas, ó amigo, hein E as hespanholas O olho chammejava-lhe. Para elle, não havia como uma rica andaluza, cheia de salero e de chic, de cinta d'annel, pézinho catita Oh ! menino ! Deu um puxão ás calças, bufou de concupiscencia. — Agora aqui é chupar no dedo ! — concluiu sombriamente, — Que choldra de vida ! Até um homem aqui ganha mofo . . , A mim, paraJysam-se-me as faculdades , , . — E eu estou a perder a tacada . . . Estes gostos baixos, as locuções incultas de Rabecaz, revelaram a Arthur um brutal que o dinheiro, a petulancia, ti.nham misturado casualmente ás existencias desordenadas das almas ardentes. E, preoceapado só do mundo da Arte e da Litteratura, interrogou-o ainda sobre os theatros, as dançarinas. Devia ser uma vida deliciosa nos bastidores . . . ceias com os jornalistas — Um delirio, meu caro senhor ! De tremer ! De vir tudo abaixo ! Arthur entrevia orgias sonoras, o estalar do Champagne, can-cang, em que cabellos soltos perfu- mam o ar calido . . . — E vive a gente aqui ! — suspirou. — Na estrumeira ! — echoou Rabecaz. E azedados á idéa das felicidades i.naccessiveis, uniam-se n'nma sympathia nascente. A Arthur, o que lhe valia eram os livros. Recolhia cedo para casa, tomava o seu Victor Hugo Rabeoaz arregalou os olhos. — Victor Hugo . — rosnou com uma voz cava — Um mundo ! Aquella admiração, precisada n'u-ma palavra profunda, enthusiasmou Arthur. -E com a pupüla accesa, os cotovellos na mesa : — Pois não é verdade ? 48 Contemplações ! 08 Miseraveis! E Lamartine ? O Rabecaz alargou os braços, como para designar um seio de proporções mais que humanas e soltou : -— Lamartine ? Um mundo ! — O typo d'Elvi:a, hein ? E o typo divino de Graziella ? Mas Alfred de Musset ? Oh ! Alfred de O Rabecaz reflectiu, com um vinco na testa : — D'esse não estou ao facto Mas Guizot ! Um mundo ! De tremer tudo ! Mais dous quartilhos, belia Maria Eram onze horas quando sahiram da Corcovada. Ao passar deante da egreja de S, José, Rabecaz, excitado, insultou os padres, disse pilherias sobre os dogmas. — P 'ra que serve isto, este covil ? —E brandia o bengalão para a fachada da egreja negra e muda. — Deviam ser convertidas em escolas — disse Arthur. O Rabecaz, indifferente á instrucgão, encolheu os hombros : — Devia ser tudo arrasado ! Depois, a casa do Carneiro, o rico logista de pannos, coberta d'azulejos, com as suas tres varandas de sacada, exasperou-o. — Grandissimo burro ! Se nós lh'apanhassemos o dinheiro, hein ? Era logo comboio p'ra Lisboa, e bater p'ro Dafun.do, com um par de pequenas. Enterrou as mãos nos bolsos e tornou-se sombrio. A chuva cessara : um vento frio ia rolando espessuras de nuvens, espaços azues estrellavam-se. — Pois tivemos uma bella cavaqueira — disse o Rabecaz quando Arthur parou á porta de casa. — Eu gosto de conversar com quem me entenda e cá o amigo é dos meus. Appareça pela Corcovada. Não se passa mal. E avistando um gato, atirou-lhe uma bengalada. Aquella brutalidade escandalisou Arthur. Deitou-se; convencido que o Rabecaz era um grosseiro, sem educação litteraria, d'uma lubricidade de bode. Mas vivera em Lisboa, bebera o Champagne das orgias litterarias ; sobretudo, era republicano— e, d'ahi a dias, Arthur voltou á Corcovada, com o pretexto de pagar a ceia ao Rabecaz — realmente para lhe mostrar a sua Ode á Liberdade. O Rabecaz enthusiasmou-se logo, sobretudo qüando Althur, afogueado, soltava este final da sua estrophe amada : A hora Já soou, a Aurora vem a Baqueia a realeza : E 'á se ouve na cidade além, Rugir a Marselheza Rabecaz atirou uma punhada á mesa: — Caramba! Isso é d'artista ! Você o que deve é ir para Lisboa, que em Lisboa desbanca-os a todos ! Arthur não o duvidava— e essa palavra cimen- ton a intimidade entre ambos. Aquelle applauso tornou-se-lhe então necessario. Rabecaz era o seu publico; julgava-o intelligente, de gosto muito certo, desde que elle admirava os seus versos ; leu-lhe successivamente todas as poesias dos Esmaltes e Joias e para o lisonjear nas suas antipathias clericaes — espirito effeminado, já adulava servilmente os instinctos do seu publico—compôz uma satyra contra os padres, a quem chamava «negros serventes d'um esterü dogma O seu cerebro pareceu degelar ao sopro quente d'aquella admiração grosseira; f.ez sonetos; e o que escrevia agora era sob a preoccupagão «do que diria o Rabecaz todavia era sempre a mesma a formula critica do Rabecaz : escutava com os braços cruzados, nobilitando a sua attitude na presença das rimas: se a poesia era lyrica e amorosa, tinha um riso mudo que lhe enchia a face de rugas, lhe mostrava a dentuça negra, e arrastando a. voz com deleite : — Está catita ! Se era « uma peça philosophica», arregalava o olho, o nariz alongava-se-lhe, erriçava-se-lhe o bigode e rosnava cavamente : — Está d'arromba ! E terminava por exclamap, com uma palmada no joelho : — Caramba, Arthur, você deve ir p'ra Lisboa ! Você vae a ministro I Arthur suspirava. A certeza que o Rabecaz lhe dava da celebridade em Lisboa — elle que a conhecia tão completamente — inflammara-lhe o desejo de lá. viver e ser uma das suas personalidades essenciaes. Lisboa era agora a sua necessidade, o seu ideal, a sua mania. Pensava que lá, na Capital, as suas faculdades se desenvolveriam prodigiosamente, como certas plantas raras que só medram em terrenos ricos ; ahj_ encontraria de certo as glorias do coração em amores aristocraticos, e, discutido nos folhetins, recitado nos theatros, muito alto na hierarchia das letras, poderia tafrez extrahil' uma fortuna dos cofres dos editores ! Tudo o que o cercava e o retinha, a casa das tias, a pharmacia do Vasco, lhe parecia então mais odioso ; tud.o na Villa lhe dava uma sensação de obscuridade que o abafava —as ruas que se lhe afiguravam estreitas como as idéas, as fachadas que eram inexpressivas como os rostos ; detestava aquella gente que nunca leria os seus versos, e que de certo o desprezava: o fiel de feitos que ao meio-dia passava na praça, com o seu saeco de lustrina cheio d'autos e o Carneiro (Ilie, de robc-dechambre, a face prospera e farta, fumava o seu cha- ruto á varanda , E trabalhava n'um ardor contínuo, forçando a imaginação diffieil, avido da terminação dos Esmaltes e Joias, como se elles fossem o fim de todas as suas desesperanças. As tias, o Vasco, achavamlhe uma c cara de desenterrado» e as pessoas que moravam na praga, olhavam quasi com compaixão aquelle moço triste, que passava de manhã e á tarde, d'olhos baixos, cabello muito comprido, encolhido no seu paletot côr de pinhão. Andava, n'um desabafo, compondo uma Epistola em quadras, dedicada ao poeta que disse : Eu nunca vi Lisboa e tenho pena Arthur, sem o conhecer, tratando-o de tu, n'uma familiaridade de Parnaso, commungava na mesma ambição. E nas manhãs em que não havia trabalho na pharmaeia, era pelo seu quarto um passear desordenado, declamando : Tambem eu nunca vi Lisboa, amigo, Profunda Babylonia junto ao mar I Oh t que me fosse dado ir iá comtigo E ao lado, do peitoril da janella, estendendo o braço agaloado d'ouro, o Albuquerquezinho berrava n'um accesso : — Orça a barlavento ! Cerra os traquetes da gavea ! Fogo ! Um sopro de loucura parecia correr n'aquelle andar da casa, emquanto em baixo, na sala, as tias faziam a sua meia e o gato branco dormia, n'uma restea pallida do sol de Novembro. Foi por esse tempo que Arthur recebeu do Porto, do seu padrinho, o rico Guedes Craveiro, uma carta estranha, em que lamentava, ainda depois de dous annos, a morte fatal do meu nunca de mais chorado amigo Manuel Corvello fanava mysteriosamente d'um desgosto cruel com que a Providencia o visitara o mez passado » e prodigalisava phrases devotas, pedindo a Arthur que o não esquecesse nas suas orações. Em post-scriptum, dizia que passaria em Ovar no sabbado, em viagem para Lisboa e seria uma alegria para o seu coração, poder apertn nos bracos e conhecer seu estremecido afilhado Foi um espanto para Arthur. Nunca vira o padrinho Guedes. Lembrava-se que em casa, em Ovar, lhe chamavam o carola ; mais tarde, durante umas ferias, seu pae, voltando do Porto, fallara dos escandalos que dava n'esse momento o Guedes . . . Era uma historia triste : o pobre carola, n'uma d'essas paixões brutaes que fazem irrupção, por vezes, n'uma existencia devota. anaixonara-se furiosamente por uma Lola, comparsa de zarzuella do Baquet, e teria de certo acabado por casar com ella, se Lola não tivesse já um marido, um bandido, que se installara na quinta do Guedes, lhe bebia o vinho, lhe vestia a roupa branca e lhe arrancava dinheiro com ameaças de suicidio. Desde então, não soubera mais do padrinho, o carola, o amante de Lola ! O que significaria esta ternura inesperada, esse desgosto tantas declamações lúgubres Ricardina decidiu logo que o menino devia ir á estação d'Ora.r no cha•r-à-banas da carreira. Sabina lembrou que Arthurzinho lhe leva,sse um frango frio «para o homemzinho cear na jornada ». O homemzinho menina ? — exelarnou Ricardina. —O «homemzinho » ? Boa ! É um dos cavalheiros mais ricos do Porto ! Tem trens, tem tudo ! E o Rabecaz, informado, concluiu com auctoridade : — Deve ir a Ovar. E fazer-lhe tagatés. Se o sujeito tem uma pequena hespanhola, é homem de gosto, é cá dos nossos. E ouça cá, se a pequena vier com elle, não se me faga acanhado. É grande cortezia e dizer-lhe : Salero ! Viva Ia gracia ! Eu conheço as hespanholas, gastei d'isso t Quando o char-à-bancs parou á porta de casa, de volta da estação, Ricardina, toda curiosa, estava no alto da escada : — Então ? Não, o padrinho não viera, Foi um assombro para as senhoras. Tinha elle procurado bem no comboio — Fui vêr até á terceira classe ! Nem signaes ! — Viu no porão — perguntou Albuquerquezinho, interessado. — Vi no porão, snr. Almirante. Ninguem ! — Jesus ! -— disse Sabininha — coitadinho, succedeu-lhe alguma — Ai, não me parece bem ! Não me parece bem ! — exclamou a Ricardina. — Depois de ter preveni- do, d'obrigar á jornada e á despeza É um desproposito ! — Serviu-me de passeio — disse Arthur, accendendo o seu castiçal. —E a noite está linda, Galgou os degraus, na impaciencia de recordar as sensações da tarde, de pensar n'aquella figurinha de vestido de xadrez, que já começava a ser : Elta. Foi logo ao espelho olhar-se, como para se certificar de que o seu rosto pallido e fino merecia aquella ternura curiosa d'urna senhora, vivendo em Lisboa, na maior elegancia. Nunca vira n'uma mulher um encanto tão captivante.• Adorava sobretudo o seu corpo, pequenino, de Venuszinha de jaspe, que cabia toda n*um abraço, podia trazer-se ao collo ; todos os seus movimentos tinham uma harmonia rythmica ; havia no seu seio uma graça virginal, como que urna provocação sábia, ingenua e coquette. Mas eram os seus olhos negros que acima de tudo o perturbavam : desejaria beijal-os, muito tempo, sentindo entre os labios as pestanas arqueadas e fortes. Certo porém da sua sympathia, revelada nos dous olhares que lhe lançara, foi á Corcovada interrog•ar o Rabecaz, que talvez a reconhecesse pela descripção que d'ella lhe faria. Mas quando o viu, de cachimbo na bocca, taco ao hombro, veio-lhe um pudor, uma repugna:ncia de fallar n:Falta, alli, n>aquelle cheiro fetido de petroleo, sob o halito de genebra do Rabecaz. Então viu-os ? Que tal é a pequena — exclamou logo o outro, brandindo o giz. vi, não vieram — disse Arthur. Quando voltou para casa, fechou-se no quarto e escreveU ao Damião, que então vivia em Lisboa, urna carta em que depois de fallar, n'um lyrismo da tenebrosa solidão da sua alma », e das aspirações incessantes para um ideal maior pedia que averiguasse quem era a senhora de ve,$tido de xadrez, de quem fazin, uma deseripção mhnuciosa: queria saber onde morava, quaes as relações, os seus habitos, emfim faça-me soella um estudo á Balzac ». E começou a espe a resposta — pensando n'Ella. Era um estado muito novo para elle, muito doce. Sob a influencia permanente da excitação poe o seu coração fôra até ahi como um altar vazio, em que tudo está preparado para a, adoração, toChfteiros, incenso, flores, e a que só falta a santa. A tita viera emfim, bem vestida, aristocratica. tod,has as suas ternuras, os seus desejos, as ambições até alli erravam no vago, como aves inquietas dos ninhos, acharam um centro, ordenaram-se, perpetuamente em torno d'aquella imagem a sti'sussurração d'um culto. Idealisava-ay como quem cobre um idolo de ca das d'ouro, tornando-a cada dia mais digna da sua poesia, extrahindo das menores cousas certezas da sua perfeição : o seu chapelinho de pennas provava a fina originalidade do seu gosto ; o livro quo levava, Lamartine ou Musset, confirmava o requinte da sua intelligencia ; a promptidão em so interessar por elle era a garantia da sua constituição amorosa e dag impaciencias da sua alma ardente. Mas era apenas um sentimento poetico e vago, e, como uma agua isolada e perdida que é absorvida ou se evapora, aquelle grande amor tendia por ve zes a sumir-se ; rotinha-o então anciosamente, para manter na sua vida mesquinha um interesse ideal, gozar as melancolias felizes d'aquella occupação elevada, possuir tambem a sua Beatriz. Fazia-lhe versos, tinha com ella longos dialogos imaginados, uma perpetua convivencia com a sua imagem invocada ; e com effeito — como quem acaba por adorar um Deus que inventou — não tardou a ter por aquella senhora, entrevista de tarde, n'um comboio, um sentimento real, formado de vaidade, de desejo, da esperança de a encontrar em Lisboa e das suas necessidades de insatisfeita ternura. Um soneto que produzira então, trabalhado á maneira de João de Deus com toques de idealismo camoneano, e que era a melhor obra da sua curta carreira poetica, dava a explicação da sua alma ; A vida, em que os meus annos se passavam, Era como um terreno abandonado Que nunca produziu, nem foi arado, E que as aguas do céu nunca molhavam. Alli jámais abelhas sussurravam, Nem d'ave se escutou meigo trinado Um ermo escuro sob um céu nublado, Onde só duros cardos negrejavam. Mas tu vieste I Assim, por traz dos montes, Se ergue o divino sol no fresco ar . . . E eu senti logo — oh claros horizontes Tudo em minh'alma reflorir, brotar, Aves cantarem, murmurarem fontes, Cearas de desejos a ondular I Emfim, veio a resposta do Damião : Caro Arthur — A não ser que a Biographia da « sua dama vestida de xadrez se encontre na Dncy- « clopedia do Seculo XIX do bom P. Larousse, eu « não estou habilitado a dar-lhe essas informa ções á Balzac que a sua pobre alma reclama Acho curioso que, n'um assumpto tão mundano que é quasi official, se dirija a mim : se a pessoa « pertence ás classes dirigentes e é bisneta d'um dos « brutos que tinham outr'ora o nome de cavallei« ros — porque não escreve directamente ao Mo narcha E se é simplesmente uma Magdalena ou, a como diziam os nossos honrados avós do terceiro estado, uma barregã — porque tudo 6 possivel no « mundo faceto das baronezas constitucionaes — di rija-se a qualquer das repartições publicas — onde obterá informaçao abundante e pittoresca. Eu, caro poeta, vivo muito longe da sociedade esta belecida : habito estes quintos andares das cida des modernas, que são para a Democracia o que « foram as catacumbas para o Christianismo . . , « Tomei devida nota dos seus desesperos roman ticos. Acho-os patuscos — ainda que inteiramente adequados á tradição lamartineanat Console-se fa zendo um volumezinho de versos— já que as cir« cumvoluções do seu cerebro o levam fatalmente ao verso — não sobre as estrellas e os lirios — deve « deixar essas parcellas de substancia aos astrono- « mos e aos jardineiros —, mas sobre o Homem, que « é a verdadeira materia poetica moderna. E sobre« tudo venha para cá, A capital é, no fim de tudo, o unico ponto vivo d'esta fetida lesma morta que « se espapa á beira do velho Atlantico, sob o nome « desacreditado de Portugal. Venha para cá « terá uma chance de encontrar, amar, cantar a sua senhora vestida de xadrez, já que um resto do velho espirito theolegico quer que todo o « Tasso tenha a sua Leonor, e todo o Dante a sua « Beatriz : sem que isto seja fazer-lhe a injuria de o » comparar ao Tasso, esse pobre rimador em oita vas dos decretos do Concilio de Trento, nem ao Dante, esse sorumbatico pamphletario gibelino. Se vir a besta immunda e felpuda, que tem na terra o nome jocoso de Theodosio, advirta-o com severidade, de que me levou, entre os livros d'elle, o meu Darwin, Origem das Especies. Repu gna-me saber o grande naturalista entre os bar « baros servindo talvez de peanha, sobre uma « corQmoda de cerejeira, ao busto de Rodrigo da Fonseca Magalhães ou outro qualquer dos idiotas classicos do Constitucionalismo. Vale, como dizia « esse odioso burguez, Cicero. Damião. Esta carta cahiu na sua exaltação como alcool n'uma fogueira ! Todo o seu antigo desejo de Lisboa flammejou. Via-se, n'um relance, lá no quinto andar do Damião, essa catacumba moderna D, palpitando todo nos interesses da Arte e da Demo cracia, compondo em silencio um poema, e sahindo, alta noite, para a encontrar, a ella, n'um boudoir de rendas e sêdas ! E foi então, durante semanas, um suspirar quasi hysterico por Lisboa, — agora para elle duplamente maravilhosa : um paraizo da intelligencia e um paraizo da paixão — um anhelo permanente que o tomava sob as fórmas mais pueris —a ponto d'olhar com saudade as nuvens que o vento ia levando para o sul, para os lados de Lisboa, e d'invejar o recoveiro que todos os quinze dias vinha receber ordens á pharmacia e partia, choutando na sua egua, a tomar o comboio em Ovar. Ás vezes, sentia-se ridicu l o, ria ; mas o seu desejo não tardava a pungil-o de novo com uma persistencia morbida. Lisboa ! — Concebia a vida que a enchia, violenta e grandiosa, como o mundo da Comedia Humana, de Balzac. Era de resto pelos romances francezes que reconstruia a sociedade de Lisboa: e não tinha uma idéa menos desproporcionada da sua edificação, imaginando-a de ruas enormes, sonora de trens e flammejante de gaz, assentando a sua pompa movimentada sobre a larga bahia azul, onde esquadras manobravam e salvavam as torres d'outros seculos ! Mas era sobretudo a existencia nocturna dc Lisboa que o fascinava : imaginava sentir, nos cafés, entre o ouro dos espelhos, balançar-se a sussurração das conversas litterarias ; via, á porta dos theatros, apinhar-se uma multidão sofrega d'arte, e em redor, nas pragas todas alumiadas, grupos discutirem com subtileza a esthetica dos poetas e a politica dos oradores, Depois, parecia-lhe avistar janellas embaciadas de restaurantes, onde artistas e cortezãs celebravam c:gias, poeticas como galas ; mais longe, distinguia os balcões dos salões aristo„ craticos, d'onde sahia uma claridade discreta tamisada pela sêda das bambinellas: ahi, idealisava a vida d'um mundo superior, em que as faces são pallidas da emoção contida dos sentimentos romanescos; a.hi, diplomatas, cujos sorrisos tinham a frieza da razão d'Estado trocavam ditos á Talleyrand; ahi, sentadas em moveis de velludo e setim, ideaes figuras de belleza patricia respiravam ramos de violetas, com olhares onde brilhava, sob um fluido, o ardor dos adulterios; ahi, vivia DIIa, a senhora. do vestido de xadrez . . . E em redor, no mysterio da vasta cidade, imaginava a existencia das personalidades atormentadas do romance ou do theatro — os Rastignacs, pungidos d'ambição, os Vautrins, fazendo temerosamente a caça aos mihões, os Camors scepticos, os Giboyers sublimes e os visionarios, que, n'um quinto andar, planeiam a destruição da sociedade, Mas n'esta phantasmagoria, enthusiasmava-o sobretudo o mundo dos jornalistas : era um ruido incessante de machinas de impressão, salas de redacção resplandecentes de gaz, pennas que correm sobre o papel, derrubando ministerios ou edificando glorias, e ditos de folhetinistas, que têm a profundidade d'uma philosophia, na precisão d'um aphorismo ! Via-se lá, revendo provas, lendo o seu nome em cada joraal, fazendo civilisação ! Ás vezes, opprimido por estas imaginações, ia ao acaso, de noite, pela Villa, e aquellas ruas apagadas, onde só se sentia um chorar triste de creança nas casas terreas ou um som retardado de tamancos, mandava-lhe mais vivamente o pensamento para Lisboa, onde, áquella hora, os estribos dos trens se desdobravam no perystilo illuminado dos theatros, e nas salas as rabecas davam as primeiras arcadas Imaginava-se então n'uma 80irée, já ilustre. Fallava baixo, n'um vão de boudoir assetinado, á senhora do vestido de xadrez, que sorria, fanatizada pela doçura dos seus conceitos ; pediamlhe depois para recitar ; elle erguia-se devagar, pensativo; em redor murmurava-se : « é o Corve1105 ó um genio ! » E levado na illusão, declamava alto, na rua : Emquanto dormes no atoan de sêda, Olho-te o mimo d'esse lindo rosto Assim as aves dormem n'alameda, Dormem as aguas ao luar d'Agosto A sua voz fazia estacar, sobresaltado, algum burguez que vinha da Assembleia, embrulhado no seu chale-manta . . . E Arthur recolhia, triste e fatigado como de)ois d'um excesso, desejando entrar poeticamente n'um convento, ou viver em Lisboa com um emprego d'um conto de réis ! Encontrava em casa o dormente serão em torno da mesa. — D 'onde vens, menino ? Vens da cavaqueirinha do Vasco ? —- Não . — exclamava elle, irritado de que lhe suspeitassem qualqu_er interesse pela,' palestras da botica. Toda a face de Ricardina, então, com o seu longo nariz sobre a mesa, se cobria de severidade carrancuda : sabia que o menino frequentava a Corcovada, c a convivencia do Rabecaz, o bilhar, o tabaco, pareciam-lhe habitos funestos que lhe trariam a ruina da saude e a desconsideração da Villa. — Nem sei que gosto se possa ter em semelhantes noitadas . — rosnava. — Chut . — exclamava Albuquerquezinho, todo acceso com a sua paciencia. Então, em torno da mesa, fazia-se uma mudez amiga. Cá está ! exclamava elle em triumpho, —É a Imperial. Marque lá, Sabininha. Sabina tomava•o caderno das paciencias felizes, fazia um traço a lapis. — Quantas imperiaes, este mez, menina Quatorze, Albuquerquezinho. Bom mez . , . Ella folheava o caderno, muito interessada : O mez passado foi melhor. Vinte e quatro Mas faltam nove dias para acabar o mez, é preciso contar com isso. — Chut . —fazia Albuquerque, que recomeçava a dispor o seu quadrilatero de cartas. Arthur, muito infeliz, subia para o quarto e alli ficava, desesperando-se contra aquella existencia' lançando a sua alma para Lisboa, para — até que sentia no corredor a voz do commando d'Albuquorquezinho, lançar, ao entrar para bordo, o santo e senha ó sentinella. Emfim, uma noite, foi á Corcovada declarar ao Rabecaz que estava decidido a partir para Lisboa, Iria em terceira classe e o Darni50 de certo lá lhe arranjaria um emprego na redacção d'um jornal ou no serviço d'um editor. Em ultimo caso, com a sua pratica, podia collocar•se n'uma pharmacia. — Despauterio — exclamou com impeto o Rabecaz. Se elle queria ir p'ra Lisboa era p'ra gozar, não é verdade ? Portanto era necessario ter chêta. P 'ra ir viver n'um quinto andar, jantar por quatro vin- tens na taverna do Fumaça ou ir p'ra outra botica — então, mais valia ficar em Oliveira, com a vacca e o cozido das senhoras suas tias e a amizade do Vasco Em Lisboa era necessario estar sempre a levar a ao bolso Por exemplo, o amigo está n'um café com a rapaziada : arranja-se uma troça ao Dáfundo, com boas pequenas . , É preciso fazer saltar, pelo menos, seus tres ou quatro mil réis, p'ra tipoia, pinguinha de Collares, etc . . . — Mas não é isso — disse Arthur impaciente. — Eu não vou para o deboche ! É para estudar} para trabalhar. Rabecaz cruzou formidavelmente os braços, bera rou do alto da sua experiencia : — Trabalhar ! Mas em que quer o senhor trabalhar ? Nas redacções está tudo atulhado. A maior paxte escreve de graça . . . Fazer vintem pela ver• salhada, isso até faz rir os mortos ! E o tunigo não sabe fazer mais nada. Eu conheço Lisboa, homem. Se você escrevesse dramas — Com um drama, hein — Isso sim, isso é melhor que ser director geral ! Explicou-lhe o systema de direitos d'auctor. Elle fazia uma pega ou uma magicazinha catita, em cinco actos : em dia d'enchente, com o tanto por cento, eram cinco ou seis libras na algibeirinha ! — E depois, menino, estando-se de dentro com as actrizes, com as pequenas dos coros, apanha-se do bom, e gratis 1— Não me tinha lembrado murmurou Arthur impressionado. r— Pois pense n'isso — disse Rabecaz muito sério. — É de chupeta ! Foi como a apparição d'uma luz salvadora ! Um drama ! O theatro ! A idéa attrahia-o por todos os seus resultados provaveis: era a gloria directa, mais palpavelmente gozada, recebida na face em palmas e bouquets; cra a celebridade rapida, pene. trando todas ag classes, ou letradas ou apenas impressionaveis ; era o dinheiro, cobrado todas as manhãs, na caixa, a contado ! . E viria vêr o seu drama ; elle diria tu ás actrizes, como um ca,marada. O Rabecaz tinha razão — devia escrever para o theatro Foi para casa no delirio d'esta esperança. Mas que escreveria ? Uma comedia á Sardou ? Um drama ú Hugo ? Pensou durante uma semana, sem achar. Entrevia titulos, lances, decorações ; ouvia as rabecas gemerem nos finaes dos actos ; via-se curvado, agradecendo Sentia as palmas — mas não tinha a idéa ! O seu temperamento attrahia-o para o drama historico em verso, ornado d'architecturas curiosas e de chapéus de plumas. Mas que facto, que paixão dramatisaria Conhecia tão pouco a historia de iPortugal ! Emprehendera outr'ora lêl-a : mas desde as primeiras paginas, o estudo das raças iberas, godas, visigodas, gallo-romanas, lusitanas, todo aquelle mundo barbaro e defunto, sem episodios e sem personalidades, enfastiara-o prodigiosamente. Desistiu : e todo o passado da sua patria era para elle como uma vasta treva, onde destacava, aqui e além, n'um debil relevo gasto do tempo — Egas Moniz com a sua corda ao pescoço, Ignez de Castro, morta n'um throno, um facto vago, que era a revolução de 1640, outro libertino, que era o processo de D. Affonso VI, o marquez de Pombal e o terramoto , . . Maq nenhum d'estes factos, d'estes personagens mal entrevistos, continha para elle a idéa d'um drama ! Decidiu-se pelo moderno. E tendo facilmente encontrado um titulo — AMORES DE POETA — deduziu d 5 elle uma acção. O poeta Alvaro — que era elle mesmo, Arthur, -— pobre e sublime, fanatisava e possuia a linda, a doce duqueza de S. Romualdo — que era Ella, a senhora do vestido de xadrez. O duque, um caçador obtuso e brutal, com avós até aos visigodos — a que o valente Theodosio servira de modelo —t insultava o poeta, arremessando-lhe a luva branca n'um sarau de m.ascaras. Batiam-se de madrugada n'um cemi terio, depois d'um monologo, em que, á maneira de Hamlet, Alvaro, tomando craneos nas mãos, meditava sobre a Morte ; ferido, o Poeta ia morrer no regaço da duqueza, que corria, vestida de branco, d'entre os renques de cyprestes. O drama passava-se, ora n'um castelo junto a Cintra, ora n'um vago palacio, nas proximidades da rua do Ouro! Em torno da acção moviam-se numerosos personagens subalternos, uns, fidalgos vis e embrutecidos, outros, plebeus invariavel mente nobres e eloquentes. Todo o drama era assim um desabafo amoroso e uma propaganda revolucionaria ; elle sentia-o e parecia-lhe habil e profundo pôr na sua obra todos os lyrismos da sua paixão por DIZa e lançar ao povo, ao mesmo tempo, os amantes d'uma Marselheza. Ella choraria, comprehenderia quanto um ardente peito democratico ama melhor que um resequido coração de barão. Por outro lado, o grande Damião approvaria o drama. Servindo o seu amor, serviria a democracia ! E enthusiasmado pela sua idéa, começou ardentemente a trabalhar. Foi um periodo muito exaltado, de certo o mais feliz da sua vida. Compunha o papel d'Alvaro do tudo o que sentia em si de mais sentimental, quando pensava n'Ella e de mais revoltado, quando pisava linhaça no almofariz da pharmacia ; deu á duqueza todas as graças, todas as dedicações, encheu-a de reminiscencias de Julieta, de Carlota, de Lelia, da Dama dag Camelias ; accumulou no duque o pro saismo, materialidades que o indignavam nos burguezes d'Oliveira : um dos seus fidalgos era o Vasco, para quem a poesia consistia na habilidade em fazer acrosticos ! E pulava pelo quarto, esfregando as mãos, radioso, quando achava réplicas eloquentes para algum dos seus plebeus. Não duvidava então de que o seu drama faria um escandalo social I Relia-o, extasiado ; e ia olhar-se ao espelho, como admirando na expressão das suas feições o egplendor das suas faculdades ! Isolou-se. Não appareceu durante muito tempo na Corcovada — onde ag tacadas, o cheiro do petroleo, as pilherias libertinas do Rabecaz lhe papeciam odiosas, depois da frequentação ideal dos seus personagens e da pompa dos seus dialogos. Da Pharmacia corria para casa, sentindo-se prodigiosamente feliz apenas penetrava n'aquolla atmosphera especial do quarto, onde lhe parecia errar, como ether, todo o ideal que se exhalava das folhas do seu man uscripto. As tias queixavam-se agora do menino, que passava todas as suas horas aferrolhado em cima : —E eu que pensava que nos havia de servir de companhia ! — dizia a Ricardina com azedume. —É como se não houvesse um homem em casa. Ás vezes mandava a Sabina acima, escutar no corredor « se sentia o menino Ella voltava desconsolada, dizendo que andava aos pulos pelo quarto, fa]lando só. —É como o Padre Manuel Fernandes, quando andava a decorar o sermão. Que desproposito ! Que desproposito ! — respondia Ricardina. E muito chocada, com um carão sombrio, ia picando vivamente a meia com as longas agulhas. Parecia-lhes, a ambas, que o menino não tinha amizade á familia» ; sentiam por instincto que elle procurava nos livros e nos papeis distracções melhores do que aquelles serões pacatos ; e isto augmentava a antiga desconsolação de o verem tão indifferente aos interesses da casa e da fazenda. —F, como um estranho, é como ter um hospede dizia Ricardina. Elle descia sempre tarde para o almoço, tendo velado toda a noite sobre o manuscripto. — Ai ! estás hoje amarello como um desenterrado Isto até te faz mal . . . Pois não era m.elhor passares as tuas noites a dormir muito regaladamente . . . — Era melhor, era, Mas então ? Sio gostos — dizia elle rindo. — Moço concentradissimo — affirmou o Vasco, ao domingo, quando o viu abalar depois d'engulir as torradas. — Na pharmacia não dá palavra. ilacs faz o seu serviço com intelligencia Que eu não o perco d'olho, — Macambusio, macambusio — disse Ricardina indignada. Sabina, essa, achava-o apenas triste b. — Porquê ? porquê ? Não lhe falta nada — res pondia Ricardin.a. — Pois não é verdade, D. Galathea ? É um mono. Ao jantar não se lhe ouve a voz ! Depois do chá : é boa-nüite e lá abala para o buraco . . . — Ai, eu não gosto de gente assim — dizia D. Galathea com tedio, — Mas moço de bem, moço de bem — costumava resumir o Vasco. Emfim, um dia, Arthur terminou a copia do seu quinto acto e foi um momento delicioso, aquelle em que escreveu, tode commovido, na primeira pagina branca : AMORES DE POETA DRAMA EM CINCO ACTOS POR ARTHUR CORVELLO Alli estava, acabado ! Mas então, nos dias seguintes, tomou-o uma lassidão, como que a saudade d'um mundo superior perdido, de gloriosas intimidades para gunpre cor tadas. Mesmo no seu amor pela desconhecida da Estação d'Ovar, sentia agora uma diminuição, como se durante o seu trabalho ella se tivesse pouco a pouco esvaído da sua alma, n'aquelles longos fluxos de lyrismo. A Lisboa real já não o fascinava tanto. Era como uma visão que empallidecia — desde que pintara uma Lisboa dramatica, com cores tão intensas. Relia a todo o momento o manuscripto, mas as as scenas melhores, agora, pareciam-lhe frias, e foi sem fé que escreveu ao Damião, contando-lhe o enredo, pedindo-lhe como um serviço, a elle e á « Idéa democratica que lhe alcançasse a representação dos Amores de Poeta, em D. Maria ou no Gymnasio. E para elle fazer idéa da fórma do estylo, remettia-lhe copia da grande scena entre Alvaro e a Duqueza, n'um parque, em Cintra. Semanas passaram e a resposta do Damião não veio. Enfastiava-o então ter al]i o manuscripto sobre a mesa, sem tirar d'elle um proveito directo em applausog ou dinheiro. Uma noite, não se conteve : correu á Corcovada com o seu drama debaixo do paletot, a procurar o Rabecaz. Installaram-se no cubiculo, com uma garrafa de genebra. Ás primeiras scenas amorosas, lyricas como um duetto d'opera, o Rabecaz, oscillando a cabeça, d'olho cerrado, murmurou apenas : — Está catita, está catita. Mas o insulto no sarau de mascaras, a apostroPhe do duque : Quem ousar erguer 08 olhos sequer para a duqueza de S. Romualdo, póde enconunendar a mortalha ! o duello no cemiterio, as declamações da agonia, levantaram o Rabecaz. Atirou um murro á mesa : — Com mil diabos r isso é a Oousa de mais effcito que tem apparecido em Lisboa ! Vem a casa abaixo. Irra, que está d'arromba ! É arranjar empreza.rio ! Parabens, seu diabo ! Você tem o diabo no corpc ! Approvou com furor que Arthur tivesse escripto ao Damião. —- Que isso, mal se souber em Lisboa, todos os emprezarios é mais a mim, mais a mim ! Está d'arromba ! Irra ! Arthur, commovido, pagou a ceia. E Rabccaz fez planos tremendos : apenas o amigo Arthur recebesse a. primeira chêta, mandava-lhe um vale do correio e elle ia a Lisboa. E ainda tinha amigos em Lisboa, elle, e haviam de lhe offerecer uma coroa ! Irra ! Que havia de aquelle Matta vir abaixo, com uma ceia formidavel ! Chainpagne e pequenas ! Irra ! Arthur entrou em casa, n'uma excitação absurda ; agora, aquecido por aquella admiração do Rabecaz, o seu drama apparecia-lhe com um esplendor imprevisto e não duvidava do « successo Pediria dinheiro adiantado ao emprezario, iria elle mesmo dirigir os ensaios ! . . . Áquella idéa, o coração batia-lhe, no delirio d'uma esperança. Via-se já entrando no palco, ves tido de preto, muito olhado pelas actrizes ; de certo alguma se namoraria d'elle: seria um parenthesis carnal no seu grande amor á Petrarca . . . Até que uma noite, deante d'uma multidão immobilisada no santo respeito da Arte, ás ultimas arcadas da or chestra, erguer-se-ia devagar o panno ; Ella lá estava n'um camarote, com diamantes no collo nú, e choraria . . a dÔce creatura choraria, vendo o poeta morrer ! — Mas não, tontinha, eu aqui estou, vivo, amante, captivo ! E toda esta gloria é como um tapete que to estendo, para pousares em cima os pézinhos subtis e breves que te hão-de levar aos rendez-vous do divino peccado na plateia, n'um estridor de ovações, sob o brilho do gaz, a cidade acclamava-o ! Lenços de renda, pelos camarotes, en- xugavam rostos mimosos ! . . . Onde se encontraria depois com Ella ? N 'um recanto contemplativo ? Na frescura das ramagens molhadas onde os frousfrous das azas se misturam ao gotejar das nascentes E toda a gua vida lhe apparecia assim, ideal e vibrante, com doçuras d'egloga e brilhos de triumpho : os Esmaltes e Joias, publicados, tornarse-iam as estrop.hes amadas das almas ternas ; a sua Ode á Liberdade faria empallidecer os conservadores e preoccuparia o governo ; poderia talvez chegar a uma alta situação no Estado ; vi veria gloriosamente, discutido nos jornaes, n a um primeiro andar d 'hotel caro, com um robe-de-chambre de velludo, tendo aos pés um cão de S. Bernardo. E aquillo passava-se longe, n'um lugar que devia ser Lisboa, n'uma seintillação d'apotheose ! Abafava : abriu a janella. Uma esplendida noite de Julho enchia o espaço ; estrellas sem fim rebrilhavam ; os quintaes, as hortas, dormiam : d'aquella natureza estendida em baixo, parecia sahir a respiração d'um ser consciente, adormecido ; um cheiro morno subia das telhas escaldadas e nas folhagens muito saturadas de sol, no bafo espesso, cheio da ardencia do dia torrido, a evaporação dos tanques fazia passar halitos frescos ; peios pomares, ao lado, a agua das regas murmurava na sombra, dôcemente ; errava um aroma de clematites e das flores dos feijoaes, — Que bella noite ! — disse alto. Ergueu os olhos, esquecido dos seus desejos, en- levado, para aquelle céu rico de verão : era como uma forte poeirada de luz, suspensa e immovel, muito alta no espaço, com pontos mais grossos que faiscavam n'uma pulsação febril, outros fixos, n'um brilho de serenidade eterna. Desejou saber o nome de certas estrellas, desejou habital-as, e ia seguindo commovido a Via Lactea, que se estendia como uma nevoa luminosa, com tons de prata antiga, feita de atomos de soes, Então, deante d 'aquellas profundidadeg, enterneceu-se religiosamente ; sentiu-se muito puro, muito elevado ; necessidades de fé e de sacrificio passaram-lhe na alma ; pensou em Deus, n'um amor santo e immortal, em livros vagos que escreveria, consolando os infelizes, derramando a paz . . . Foi a hora mais nobre da sua vida. Com que palpitação abriu d'ahi a dias, emfim, a resposta do Damião ! Eram duas laudas da sua letra torcida, que tinha similitudes com o seu estylo. Dizia-lhe que, pela descripção da peça — Alvaro, lyrico de profissão, vadio e cheio de chammas illegitimas b, lhe parecia inteiramente digno da policia correccional, a duqueza idem, e todo o drama, uma succursal do Limoeiro. Emquanto «á intenção democratica da obra afffrmava-lhe que essa democracia lyrica, exhalada em suspiros, com melancolias humanitanas — era odiosa, Não era uma idéa, era uma sensibilidade. Se elle, Damião, chefiasse um dia uma dictadara á Robespierre, esse democrata, não o guilhotinaria, para não deshonrar o cutelo d'aço que cortou a cabeça a Danton — derreal-o-ia á paulada «Pelo que respeita a emprezarios — accrescentava — dizem que os ha, mas parece que vivem em castellos inaccessiveis d'onde fazem fogo, e com razão, sobre os poetas romanti cos. Se o amigo tivesse uma opereta ou uma farça em calembours, não seria difficil encontrar um thea tro benigno: mas para fazer representar um drama romantico, é necessario ser ministro ou conselheiro d'Estado Accumulava outras pilherias, e ajun taga : O Arthur tem talento e vae por um cami nho florido — mas errado. Seja um homem, que diabo ! Atire para os estrumes de Oliveira esse ro mantismo-femea, morbido e esteril. Faça uma obra moderna — e leia Proudhon. Não lhe escrevo mais, porque o meu vizinho brasileiro começou agora, como todas as noites, a harpejar na guitarra o hymno da Carta: a execução, na bandurra, d'este trecho vil—corta-me pela raiz a critica e a prosa.» dizia ainda n'um P. S. : « Devolvo a gcena que me mandou para apreciar o estylo do drama: francamente parece-me escripto como um libretto d'opera : ha periodos que precisam urgentemente acompanhamento de flautim. Essas florescencias de linguagem (que Shakespeare elevou ao sublime, que eram n'elle a exhuberancia d'um genio bar- baro desprezando as regras, e que são historicamente explicaveis n'outros poetas mais calmos e mais conscientes da Renascença) são hoje de um mau gosto deploravel e de um ridiculo desopilante, Eu sei, sim, que é n'esse estylo que escrevem os genios que gingam pelo Chiado , Mas os genios do Chiado têm por missão historica e social fazer rir — rir d'um riso consolador e sereno : são a nossa melhor pilheria, sobretudo quando são tristes, e consbituem a unica alegria que um Destino inimigo nos mede escassamente, gota a gota : sem elles, Portugal scria o legendario Solar do Tedio. Amigo ! Avaros, poetas lyricos, duquezas sentimentaes, cemiterios, interjeições, suspiros ao luar — tudo isso é doentio. Cure-se. A peninsula iberica parece que herdou uma nevrose — que em Hespanha se tornou em genio raiado de loucura, e em Portugal degenerou em imbecilidade misturada de velhacaria. Junte a isso (para Portugal) as influencias hereditarias d'uma avaria generica, e explica muita cousa do paiz, Perdoe as observações retro sobre a sua litteratura : ellas têm o doloroso e o salutar da cirurgia, Sabe o que lhe aconselho que faça ao seu drama Como tratamento interno, xarope de Gihert ; como tratamento externo, cauterio de nitrato de prata. Amigo inalteravel, malgré touta Damão. Pedante Arthur, amarrotando a carta com desesperação. — E agora Não conhecia ninguem mais em Lisboa, e sentia-se como um homem no fundo d'uma cova, que olha para os altos onde se respira e se vive, sem vêr uma corda, uma escada, um braço, que se lhe estenda compassivamente ! Não o magoavam as ironias de Damião. Era a inveja ! Um pouco tambem o desprezo philogophico que elle sempre tivera, o pedante, pela poesia e pelQ estylo ! Era um theorico, enterrado em systemas abstractos, sem comprehender a paixão O que mais o enfurecia era que Damião, um camarada do Cenaculo, um democrata, que Rabia que aquelle drama era para elle o amor, o pão, a carreira, em logar de se precipitar por Lisboa, impellindo influencias amigas a abrir-lhe as portas d'um theatro — se não movesse da sua catacumba escrevendo com egoismo : Emprezarios, dizem que os ha . . . Descreu da amizade, do Cenaculo, da Democracia. N'essa noite, na Corcovada, com o Rabecaz, foi excessivo : declamou contra os ricos, o governo, os poetas publicados, e, como todo o plebeu obscuro e litterario, tornando a Monarchia, a sociedade Officiai, culpadas da sua obscuridade e da sua litteratura inedita, desejou uma Revclugão sanguinaria . . . Mas a Democracia, tal como a concebia Damião, tão seccamente positiva, occupada de Direito, ignorando o sentimento, hostil aos poetas, parecia-lhe odiosa. — Não ha nada — exclamava com desalento. Todo o esforço é inutil n'cste desgraçado paiz ! O Rabecaz oscillava a cabeça, com os braços soturnamente cruzados : o Governo Civil do Porto, por esses dias, recusara-lhe uma gratificação, e o Rabecaz tambem atravessava um periodo especial de rancor á sociedade. — Uma choldra, — rosnou — uma choldra ! Arthur deu um repellão ao copo de genebra. Alli estava, por falta de dinheiro, d'amizades sociaes, encarcerado no anonymato ; e as cousas for tes sobre que desejaria apoiar-se na vida, e d'onde quereria tirar a sua propria força, tornavam-se-lhe agora inaccessiveis. — Dá-me vontade de queimar tudo o que tenho escripto O Rabecaz estendeu com auctoridade a mão cabelluda : — Escute ! — disse. E arrancando, uma a uma, as palavras do peito azedado : — Escute Isto ama choldra ! Mas eu ainda tenho amigos Lisboa ! . Apesar de te deixado Lisboa ha doze annos, caramba, ainda se lá sabe quem eu sou ! . , vou escrever ao Melchior, 0 Melchior da Opinião. O Melchior é catita t Arthur, pallido, vendia-lhe dos labios espessos, d'onde lhe parecia vêr correr um mel consolador. O Melchior, hein O Melchior ! gajo ! O Melchior arranja um theatro ! Ó Rabecaz, você salva-me ! O Rabecaz atirou d'um golpe para as tauces 0 calice de genebra, deu um ronco, e disse com segurança : — Ainda se tem influencia na rapaziada ! . . . Ainda se 6 gajo ! E alli mesmo collaboraram n'uma carta ao Melchior da Opinião, em que, aos lyrismos dictados por Arthur, se misturava, como bicho entre flores, o calño do Rabecaz, Um fim de periodo dima : este pois o esplendido drama d'urna alma de poeta, em que fervem as aspirações sociaes mais nobres d'este seculo de Democracia e o Rabecaz seguia . . . e agora não se me faça você gajo, e bata essa Baixa para arranjar um theatrote que leve a cousa e largue a cheta » Arthur então sentiu a esperança voltar-lhe mais viva. Releu os Amores de Poeta, e com o seu antigo respeito pelo Damião, apesar de o odiar agora, esbateu o que havia no papel d'Alvaro d'excessivamente lyrico, introduziu duas scenas de comedia para quebrar a uniformidade lugubre, e recomeçou os seus sonhos, Mas as semanas passaram e não veio resposta do Melchior da Opinião. É que escreve n'outro jornal, — dizia o Rabecaz — não lhe chegou a cartQ á mão. O Melchior é catita ! Escreveu então a um sobrinho, o snr. Venancio Guedes, empregado no Ministerio do Reino, pedindo-lhe informações sobre Melchior Cordeiro « que eu preciso cá para umas cousas theatraes ». Dizia •lhe ainda que averiguasse se em D. Maria poderiam levar uma bella peça chamada Amores de Poeta, obra rica por que ou me responsabiliso , D'ahi a dias, na Corcovada, Rabecaz, furioso, mostrava a Arthur a resposta do sobrinho, escri pta em papel official: «Não sei onde mora esse Melchior», dizia o sm. Venancio Guedes, « ignoro quem seja, e não frequento litteratos. Emquanto a theat1'03 e emprezarios, as minhas occupações não me permittem que malbarate o tempo n'essas pesquizas . . . » — Que malcreado ! — rugiu o Rabecaz, — Um traste a quem eu empreguei! Fui eu que o emp reguei, áquella besta! É onde se encontram as peo tes viboras, é no nosso proprio sangue —É a minha sorte — declarou sombriamel ite Arthur. Atirou os manuscriptos com rancor para o fundo do bahú e recahiu n'uma vida inerte. Agra que da Litteratura não podia tirar a celebridade ou uma posição em Lisboa, abandonava os livr« Pouco a pouco o seu espirito, como uma ag 1a isolada e presa n'uma baixa, que se vai enlodando, morrendo, foi perdendo a transparencia viva que reflectia os azues e as nuvens, e Arthur, com uma lassidão quasi satisfeita, lia agora na pharmacia o Almanach de Lembrançag. Por vezes uma mulher entrava, estendia a receita, e sentava-se esperando ; algum labrego, de voz entaramelada, vinha pedir um unguento para uma ferida; Arthur erguia-se, aviava-os melancolicamente; e quando, n'um trote cangado, com os tirantes lassos, passava na rua o char-à-bancg da carreira, todos se voltavam n'uma pasmaceira triste. Todas as noites, regularmente, marchava para a Corcovada. Lá, começava a encontrar considerações. Sob a direcção do Rabecaz ia-se tornando um dos bons tacos da Villa e já os frequentadores, pelos bancos, em roda do bilhar, fumando e cuspilhando para o chão, lhe admiravam as carambolas. Até ah.i, vendo-o modesto, julgavam-o nullo; mas quando elle, aquecido por aquella sympathia ambiente, começou a parolar, torcendo o buço, deante do seu calice de genebra, foi escutado com admiração, e considerado « rapaz de talento —É profundote — dizia o Villela, que, sendo o correspondente da Villa para a Verdade, jornal do Porto, era uma auctoridade na Corcovada. Arthur, pouco a pouco, habituara-se ós physionomias que achava agora menos alvares, e ás conversas que já lhe pareciam menos caturras ; ria mesmo com as graçolas muito applaudidas do João Valente. Ligou-se com o Villela; e tornara-se uma personalidade eminente do botequim quando veio a guerra Franco-Prussiana e se proclamou a Republica em França. Um sopro heroico revolveu subitamente o seu rdmantismo adormecido : — queria ir bater-se pela França como voluntario de Garibaldi ; lia de pé a proclamação de Victor Hugo ; achava sublime que, deante da força desproporcionada da invasão, Gambetta, com os seus exercitos destroçados, com toda a França vencida, se refugiasse, para morrer, no antigo campo entrincheirado das Gallias . — Grande talento, grande talento . — rosnava-se em redor, com vozes sensibilisadas. Mas o violento Villela, muito allemão por patriotismo, berrava : —É bem feito ! Abaixo a França ! É para lhes ensinar a pregarem-nos outra como a do Charles et Georges . . . Arthur, exaltado, fallava do messianismo da 1 França, dos direitos do homem, dos boulevards, de Victor Hugo ; injuriava os allemães, os barbaros . . . — Mas são muito profundos, são muito profundos — gritava o Villela, batendo o pé. — Qual profundos ! a França é que é catita ! — rugia o Rabecaz. — Para um bocado de can-can, não ha como a bella franceza. 'Podos riam, cada um remexia o seu café ou dava um sorvo á genebra, e Althur, passando as mãos pelo cabellos, declarava que, dentro em dous amos, todo a Europa seria republicana. forrnava-se excessivo ; e mesmo, quando veio a Communa, impressionado pelo lado dramatico da insu rreição, disse-se internacionalista, fallou em Protidhon, exaltou o operario. Uma noite, e acompanhado pelo Rabecaz que achava a Communa d'arromba entoou a Marselhez:t. O Villela pateou, fez alarido ; a grossa Corcov: da que gostava da animação dos freguezes, correu da cozinha, cercada dos pequenos, escancarando a bocca n'uma satisfação hilare ; e na rua, onde chovia forte, pessoas agachadas sob os guarda-chuvas paravam a olhar pela porta envidragad b. — Belia orgia ! — disse Rabecaz, ao sahir com Art hur. Bella orgia ! O Vasco soube-o — e aconselhou Arthur com bor dade : não lhe censurava as distracções ; podia ir ao botequim tomar o seu café, jogar a sua partida de bilhar; mas pôr-se com descantes e troças, e fallar em republicas c internacionaes ! Isso devia evital — por si, para não perder o bom nome na Villa, em respeito ás senhoras suas tias, e emfim por elle, Vasco, pelos creditos da pharmacia , . . Arthur considerou sua liberdade de pensamen• to indignamente violada por esta exigencia do patrão, e então, com odio á obtusidade conservadora do Vasco, que personificava toda uma sociedade, as suas opiniões foram um momento sanguinarias. Desejou o communismo em Oliveira d'Azemeis ; e as senhoras em casa, ao vêl-o assucarar melancolicamente o seu chá, mal imaginavam que, sob aquella testa pallida, apoiada á mão, rolavam idéas de incendios vingadores e de exterminações de classes. Mas estas imaginações ferozes bem depressa se dissiparam. Por esse tempo, o Villela, por complicações de demandas e de penhoras, tinha-se achado imprevistamente possuidor d'um prelo, e viera-lhe a idéa de fundar um jornal em Oliveira. Fallou a Arthur que flammejou logo n'um enthusiasmo desordenado, Viu-se immediatamente, do banco da redacção, dominando Oliveira, temido na Assembleia, sendo uma força no districto, citado em Lisboa. Achou um titulo : A Nova Era; e foram, durante semanas, entre elles, umas conferencias deliciosas sobre o formato, o papel, a casa da redacção, a politica e a litteratura do jornal. Arthur queria publicar os Esmaltes e Joias em folhetins e defender os principios da Revolução Franceza. Villela queria deitar abaixo o administrador do concelho. Foi Arthur que redigiu 0 Prospecto : fallava da Humanidade, de Victor da Justiça e de Mozart. O Rabecaz declarou-a & d'arromba ! » e Arthur pensava já em se despedir da pharmacia e passar os seus dias na redacção, onde elle queria pôr cortinas de reps vermelho e um sofá. Mas os prospectos recolheram poucas assignaturas. Dos dous jornaes que havia em Oliveira, um, chamava-se O Oliveirense, o outro, O Echo de Olireira, e aquelle titulo A Nova Era, considerado muito « philosophico representando interesses humanitarios estranhos á localidade, não attrahiu a adhesão da Villa. De facto, a auctoridade assustada conspirava activamente contra a creaqão da Bra : dizia-se que o snr. administrador fôra de loja em loja, pedindo que se não animasse « uma opposição facciosa que queria lançar sizania na Villa A Assembleia, hostil ao botequim da Corcovada, recambiou o prospecto. O João Valente que promettera generQsamente duzentos mil réis para as despezas iniciaes -— exigiu depois fiador e uma letra do Villela, a tres mezeg. O Villela, offendido, injuriou-o na Corcovada. Romperam. —E a Era morreu, como um facho humido de sarmento, que depois de fumegar um minuto se extingue, sem accender a pilha de lenha sobreponta. Foi um desgosto para Arthlü'. Mas ficára muito impressionado por esta idéa d'influencia local. Lisboa parecia-lhe agora inaccessivel ; o seu grande amor pela linda desconhecida d'Ovar, que o atbrahia para lá, sumira-se insensivelmente como agua que a areia absorve. Sem protecção, vivendo n'aquelle recanto de provincia, nunca lá poderia fazer representar os Amores de Poeta. A sua carreira estava limitada á Villa e á pharmacia . . . Pois bem ! Porque não applicaria o seu talento, as suas maneiras, a fazer a conquista d'Oliveira d'Azemeis Os seus dous annos em Coimbra, o nome respeitado das tias, habilitavam-no a conhecer o Carneiro, as Guedes ; poderia ir-lhes ás soirées. Ahi, estava certo, faria sensação pela sua conversa, pe 10s seus versos, recitados ao piano ; lançaria a idéa duma « representação de curiosos b. Poderia propôr os Amores de Poeta ; talvez fosse o meio de fazeri um casamento rico . . . Começou logo a frequentar a missa das dez, de chapéu novo e luvas pretas : collocava-se junto ao altar-mór, muito grave, mostrando a sua devoção. Ao fim da missa, cumprimentava respeitosamente os cavalheiros ao lado, o bacharel Pimenta, o admi nistrador. Evitava mesmo passear com o Rabecaz. Porém, segundo dizia o Villela, que o admirava e que era o confidente d'estas ambições, para se « furar em Oliveira » era indispensavel pertencer á Assembleia : Elle mesmo, cheio de solicitude, se encarregou de sondar o Carneiro, n'esse anno presidente da direcção. Ás primeiras palavras, porém, o Carneiro recusou ; esgazeou os olhos e exclamou : —O que Ora essa ! Se deixarmos entrar o ajudante da pharmacia, temos cá ámanhã o marcador do bilhar ! — Escute, homem ! É o sobrinho das manas Corvellos. São pessoas respeitaveis. — Parente pobre ! Têm-no em casa por esmola. Nada de maltas ! Nada de maltas ! Socios ricaços, como o Castro e o Boavida, informados da pretenção d'Axthur, tinham mesmo rosnado : — Ora o garoto ! Um repellão tão injustificavel enfurecou Arthur, e, na vibração do desespero, rimou um soneto terrivel contra a Assembleia e o Carneiro, de quem exclamava : Eil-o repoltreado na íanella, Remexendo os cordões do ró-de-chambre, Tendo na pança a fórma da panella, No nariz o vermelho do fiambre . . , E no ultimo terceto declarava que só quizera ir da pharmacia ó Assembleia : Munido do meu pó insecticida Para matar, no nojo da minh'alma, Os percevejos — Castro e Boavida r O soneto foi furiosamente applaudido, á noite na Corcovada, e, na manhã seguinte, appareceu affixado, em pasquins, em letras colossaes, á porta da Assembleia e á esquina da casa do Carneiro. Que celeuma ! Socios da Assembleia, aterrados como n.'um perigo publico, cercavam o administrador, reclamando que se puzesse « a gente de bem ao abrigo da canalha ! » S. S. a , torcendo a pêra, affectado, rosnou palavras graves sobre « providencias . . . medidas energicas , . , » Na praça havia grupos : dizia-se que o auctor era o Arthur das Corvellos, e tendo-se visto, ao anoitecer, o Carneiro entrar impetuosamente na pharmacia, gente correu, a espreitar por entre os bocaes escarlates, na certeza de « que ia haver bordoada à. Maq Arthur a essa hora triumphava na Corco vada. Na manhã seguinte, porém, ao entrar na botica, encontrou sobre o balcão uma carta sobrescripta da para elle, com a letra de Vasco — que, no seu canto, parecia abysmado no Commercio do Porto. A carta dizió: « Snr. Arthur ! «O digno proprietario e logista de pannos, o « Ill.mo Snr. Carneiro, veio a este estabelecimento sem respeito pela pharmaeia que goza d'an- tigos creditos, arrojou ás faces do digno Snr. Car« neiro e d'outros membros respeitaveis da sociedade Oliveirense. E não contente com isto, o Snr. ga ba•se, no alludido soneto, de usar dos productos d'este respeitavel estabelecimento para fins repre« hensiveis e criminosos. Ora pois ! Espero que tal facto se não repita para honra d'esta casa. em consideração aos seus estudos e ao seu comporta mento virtuoso até hoje, bem como ás suas respei« taveis tias a quem não desejo dar este golpe, que consinto, por esta vez, em cerrar olhos ao mons truoso delicto. Mas aqui o aviso solemnemente, « de que qualquer outra peça lyrica, espalhada em desabono do nobre proprietario Carneiro, ou d'ou• tro qualquer cavalheiro Oliveirense, me obrigará a tomar a severa medida de livrar esta honrada a pharmacia d'um inimigo do socego publico. Que a minha vontade seja respeitada, é o que exige 0 chefe do estabelecimento Pharmaceutieo de I.a classe Vasco da Conceição Pedroso. » Arthur, pallido, adeantou-se para elle com a carta aberta — mas o Vasco ergueu-se impetuosamente e n'uma voz sibilante, agitando os braços : — O que está escripto, está escripto ! O que esprevi, escrevi ! Tanta imbecilidade indignou Arthur : — Então, quero as minhas contas ! — Que contas, senhor, que contas Contas me deve o senhor a mim, que lhe dei uma libra adeantada do mez, e estamos a sete ! O senhor foi uma vibora que eu aqueci no meu seio . . . Um homem a quem eu queria como a um filho . . . Longe da minha vista, ingrato ! Longe d'esta botica de bem, serpente ! Arthur abalou furioso para casa ; muito pallido contou, d'um folego, a scena com o Vasco D. As tias ficaram aterradas. Julgavam-se desacreditadas em Oliveira. Ricardina já imaginava que por vingança, o Carneiro, a auctoridade, lhes augmentaliam as decimas ! — Ai que desgraça ! Ai que desgraça ! — exclamava pela sala, com as mãos na cabeça: Então, vendo-as chorar tão afflictas, o Albuquerquezinho, que desde a vespera estava agitado, começou a baloiçar-se sobre as pernas, de punhos fechados, o olho vago, murmurando : Olá Olá ! E de repente, largou pelo corredor, galgou os degraus, gritando : — Ferra o traquete da gavea ! Abordagem ! Abordagem ! Fogo ! Poum ! Tararará ! Hei-de vingal-as ! Orça a barlavento ! Arthur, aturdido, gahiu, e topou na escada com o Vasco, que galgava os degraus, resfolgando furiosamente. Vinha dar ás senhoras uma explicação de cavalheiro ! Leu-lhes o soneto. Citou-lhes as palavras commovidas do Carneiro : « tenho eincoenta e cinco annos honrados, e é a primeira vez que sou insultado publicamente ! » Declarou Arthur um perverso : — E quando eu, na minha bondade, ia perdoar, ia esquecer . . . rompe contra mim, como uma fera Ricardina soluçava. —- Quer-me matar de desgostos ! Quer-me matar de vergonha ! Pois que se vá, que se vá, que nos deixe no nosso socego ! • , • — Não foi de mim, minha senhora —- dizia o Vasco, commovido — não foi de mim que veio o golpe. Foi d'elle, foi do ingrato . . . Mas agora é per omnia secula secutorum . . . Que eu tambem tenho o meu brio ! Sou Vasco da Conceição Pedroso ! . -— Olhou para uma e para outra, e repetiu com magestade : — Eu tambem tenho o meu brio. E sahiu, muito digno. O jantar foi lugubre. Até ao cozido, Ricardina não tirou de cima do prato o carão reprehensivo. Sabina, muito pallida na sua touca negra, parecia mais pequenina, encolhida na cadeira, limpando a furto os olhos vermelhos. E o Albuquerquezinho, socegado agora, de guardanapo ao pescoço, devorava : de vez em quando, Ipousava o talher, piscava a olho para Arthur : — Boa batalha ! Metti-lhe dons balazios no costado ! . . . Mau pirata ! Mau pirata ! . . Mas Sabina, muito triste, tinha recusado o arroz. E Ricardina muito secca : — Ai, não come, mana Sabina ? Não vale a pena ninguem affligir-se por quem não o merece . . . Arthur, furioso, deu um repellão ao prato, levantou-se, foi fechar-se no quarto. Mas logo um som de dedos bateu na porta timidamente. Era a tia Sabina : vinha fazer-lhe companhia, vinha conso lal-o . . . A tia Ricardina tinha aquelle genio, mas passava-lhe : era tudo pena de lhe vêr perder o em prego . . . Que ellas não eram ricas ! Mal sabia elle o que lhes custava a viver ! , Ai ! devia ir pedil desculpa ao Vasco ! — Antes atoirar ! . . . Antes morrer de fome Rebuscou furiosamente na algibeira, mostrou á tia um punhado de cobre : — Olhe, é tudo o que tenho n'este mundo ! Sete vintens. Não me importa ! Estou farto de soffrer ! Acabou-se . . , — Jesus, menino, o orgulho é que perde os 110 4 mens ! Mas que queria elle agora fazer ? — Eu verei, tia Sabina, eu verei — disse ellej passeando pelo quarto, mordendo os beiços, con] duas grossas lagrimas nas palpebras. Lembrou-se entio do padrinho e resolveu es• crever-lhe, pedindo-lhe um emprego, qualquer collocação . . . Se nada conseguisse, soldado, ia trabalhar d 'enxada ! E á noite foi á Corcovada, desabafar com o Rabecaz. Mas o Rabecaz, a quem o administrador censurara n'essa manhã severamente as suas relações com o poeta, affectou um interesse absorvente pela partida que jogava com o marcador, e fez-lhe apenas, com dous dedos, um aceno secco. O João Valente abysmou a face entre ag mãos, com o nariz sobre o Commercio do Porto. Pelas mesas estavam outros frequentadores e Arthur sentiu logo, nas boas noites muito seccas, nas faces reservadas, uma hostilidade ambiente. O Villela, por fim, disse-lhe, embaragado : — Homem, isto é o diabo . . . A cousa fez barulho de mais ! Sempre foi insultar as pessoas principaes da Villa. Você comprehende . . . n 'uma terra pequena . . . todos temos ag nossas relações, as nossas dependencias . . . Veja você, lá perdeu o arranjo na botica . . . Que tolice ! Deve vêr se se torna a pôr de bem com todo o mundo. necessario n'esta vida um bocado de sevandijismo . . . E enterrando as mãos nos bolsos, foi examinar, de pernas abertas, o jogo do Rabecaz. Arthur empallideceu. O botequim renegava-o ! Sahiu, atirando com a porta — e andou pelas ruas, furioso, até tarde, planeando cousas vagas que faria para mostrar o seu genio, vingar-se, humilhar Oliveira. Derreado, entrou no seu quarto, pensando no suicidio. A porta, então, rangeu devagarinho. Era a tia Sabina, de saiote pelos hombros, que vinha trazer lhe um pires de marmelada e pão, porque o vira comer tão pouco ao jantar. Aquella bondade commoveu-o e desatou a cho rar irreprimivelmente. A velha apertou-o nos bra-i cos, beijou-lhe o cabello, calada. E tirando d'umal algibeira um embrulho de papel, com placas de cinco tostões : —É para as tuas despezas, meu filho, agora que' não tens outra cousa. São as minhas economias . . . São tres mil e quinhentos , . . Era para te comprar panno para camisas — para ti era D'ahi a duas semanas, um domingo, Arthur, voltando cedo do correio, entrou na Corcovada. Escrevera ao padrinho uma carta imploradora e desolada ; a resposta tardava, e agora, quasi todas as manhãs, depois do velho carteiro passar pela praça, coxeando, elle punha o chapéu e lá marchava, a perguntar ao Gomes do correio se por acaso não houvera engano, se não teria vindo uma carta nue elle esperava — Não lh'a levaram a casa, não ? — resmungava o Gomes, puxando es oculos para a testa. — En tão . O botequim áquella hora estava deserto. Uma faixa de sol tepido de Novembro atravessava a saleta, fazendo parecer mais triste o soalho ennegrecido, o papel de ramagens azues riscado de phosphoros, a cortina de panninho vermelho sobre a porta envidraçada da cozinha. Um dos pequenos rabujava, e o mestre da phylarmonica, que morava por cima, ensaiava-se no clarinete. Arthur ficou um momento a fazer no bilhar carambolas melancolicas, depois, a olhar para o João barbeiro, que, defronte, na sua porta, sob a bacia lustrosa de latão, esperava os freguezes com o pente espetado na grenha. Por fim, veio sentar-se defronte do Jornal do Commercio, com a cabeça entre os punhos. Uma local attrahiu-o casualmente : era a longa descripção d'u-ma soirée, em Lisboa . . . Logo interessado, devorou-a. Fallava-se « da esplendida decoração da sala de baile, das toilettes, das joias duas horas tinha-se aberto um delicioso buffet ; o amavel secretario da Embaixada d'Hespanha dirigira o cotillon com o seu costumado entrain ; e depois, era um desfilar de convidados, condes, dons, deputados, conselheiros, diplomatas, e o poeta applaudldo dos Idyllios e Devaneios Uma tristeza invadiu-o. E relia a local, demo- rando-se em certas phrases, vendo atravez d'ellas — a uma luz vaga, que vinha* em parte, da scintillacão dos lustres, em parte, do raio pallido de sol que atravessava o botequim — a sala com dourados, nudezes de collos, os peitilhos lustrosos das camisas, as casacas negras, e os dous olhos tristes que se tinham fixado n'elle na estação d'Ovar, brilhando agora mais alegres . . . Ella de certo lá estaria . . . E subitamente o antigo amor reappareceu, enternecendo todo o seu ser : era como n'uma noite escura um erguer de lua grave e triste. E alli ficou muito tempo, com os cotovellos sobre a mesa suja, pensando n'ella ; mas não distinguia já bem as suas feições : pareciam perder-se, dissipar-se no luxo que a cercava, na musica da goirée, nas luzes, em tudo o que elle proprio desejava : as ruas de Lisboa, as plateias dos theatros, as redacções dos jornaes ; isso mesmo se esbatia em longes multo vagos, e luzia a uma distancia que lhe era inaccessivel, rolando n'um rumor de trens ricos, de operas, de beijos adulteros e de poemas applaudidos . Suspirou, muito triste, e levantando a cabeça, viu defronte, pela porta aberta do João barbeiro, um freguez que esperava de pescoço inclinado, a toalha ao pescoço, os queixos brancos de sabão. Sahiu, foi andando para casa. Ia pensando no poeta dos Idytlios e Decaneios. Os seus versos pareciam-lhe bem banaes — como a sua physionomia que elle conhecia de retratos — o cabello apartado ao meio, o grande pince-nez sobre o nariz grosso : e estava na soirée, apertava a mão dos embaixadores e os jornaes festejavam o seu dia d'annos t Com algumas poesias mediocres imposera-se á Sociedade ! E isto apparecia-lhe como o resultado d'enredos subtis, d'influencias femininas porque a Sociedade, que só conhecia atravez dos romances, afigurava-se-lhe, como o mundo de Balzac; governada pelos caprichos da Belleza e pelo genio dos Intrigantes. Acreditava na influencia que póde ter, n'uma existencia, o aperto de mão d'um duque, e, como no caso de Vautrin, a protecção secreta d'um forçado. A Fortuna era a presa dos fortes — e então, n'aquella hora de resoluções grandiosas que atravessam todas as almas debeis — decidiu violentamente ser elle tambem um forte, sacudir aquellas sentimentalidades estereis em que se gastava, demolir os obstaculos com o impeto d'um Alcides, apoderar-se á forca da Celebridade, d'um logar na Civilisação e d'um sofá no boudoir d'Etla. Até ahi, o seu desejo carpira — agora, ia luctar . . . E trilhava a rua, levado por estes impetos, a grandes passadas, como se fosse anoderar-se do mundo. O charà-bancs que batia a galope para a estação d'Ovar obrigou-o a refugiar-se n'um portal : teve um momento a tentação de se atirar para dentro, ir tomar o comboio para Lisboa, começar a batalha — mas tinha na algibeira tres tostões ! E a esta picada mesquinha da realidade, aquella amplificação da vontade engelhou-se-lhe subitamente, como um baIão furado. Quando entrou em casa, a Joanna correu da cozinha, dizendo que o snr. Coutinho, o tabellião, tinha vindo para lhe fallar, e depois man.dara uma carta pelo creado . . . Estava em cima da mesa. Arthur, surprehendido, correu á sala, abriu vivamente a carta : « lii. mo Snr. «O meu collega, correspondente do Porto, o « Snr. Fernandes Gouveia, da rua do Loureiro, en- « carrega-me da dolorosa missão de lhe participar « que seu honrado padrinho, Snr. Guedes Craveiro, « falleceu no dia 25 do corrente, pelas cinco horas « da manhã — e ao mesmo tempo da grata incum- « bencia de lhe annunciar que por codicilo ao seu « testamento de 18 de Abril do corrente anuo, lhe « lega . — Oh ! Santo Deus ! . . . lhe lega, para completar a gua educação, co mo melhor entender, a quantia de dous contos de a réis . Tremia todo, gritou para a porta : — Joanna ! Joanna ! A velha acudiu, assustada. —O padrinho deixa-me um dinheirão ! Dous contos ! ! — Oh ! meu menino, oh ! meu menino ! Ai ! as senhoras que estão na missa. Vou chamal-as ! Vou a correr . . . Mas ellas n'esse momento entravam. Ricardina, no pateo, ralhava com o moço da q uinta. Arthur correu ao alto da escada, de braços no ar : — Tia Sabina ! Tia Sabina, o padrinho deixoume um dinheirão ! Dous contos ! — Foram as minhas orações ! — exclamou a velha agarrando-se ao corrimão, quasi desmaiada. — Oh ! meu filho ! Oh ! meu filho ! — Que estás tu a dizer — gritava Ricardina aos tropeções pela escada. Entraram na sala, a Joanna atraz, e quando Arthur lhes acabou de ler a carta, em que o tabellião dizia que o legado se compunha de dous contos, depositados no Banco de Portugal —e que, no dia seguinte, elle receberia uma ordem sobre o snr. Carneiro, logista de pannos, para receber, á vista, quinhentos mil réis, ouro ou papel, para as primeiras despezas do luto — as tres senhoras e a creada, muito tremulas, romperam a chorar ! — Oh! caramba ! oh ! caramba ! dizia Arthur, andando pela sala, com todo o sangue na face, tropeçando contra os moveis. E pensava com uma alegria tumultuosa no insulto que faria ao Vasco, que presente daria ás tias, por que comboio partiria para Lisboa, Já se lá via, assistindo aos ensaios do seu drama, encontrando a senhora do vestido de xadrez . . , — Vou a casa do Coutinho — exclamou de repente — vou vêr como é isso da ordem de {manhã — Almoça primeiro, menino — disse Ricardina. Mas elle, sem a escutar, abalara. Ricardina, então, pôz os oculos, releu a carta, baixo, impressionada com aquellas palavras, « ordem á vista deposito no Banco», tomada inesperadamente d'um novo respeito pelo menino. — O Arthur agora ha-de querer voltar para Coimbra — disse por fim a Sabininha, que, sentada á beira da cadeira, com o seu mantelete de sêda bordado a vidrilhos e o livro de missa no regaço, ainda limpava uma ou outra lagrimaa — P 'ra Coimbra, credo ! — exclamou Ricardina — um rapagão de vinte e cinco annos ! Já não está para mestres . . . O que deve fazer é tomar a Pharmacia ao . . . que elle está morto por a passar ! —E depok d'urn momento : — Pois olhem, até se me embrulhou o estomago. Uma cousa assim de repente . . . E a mana não se fique agora com as suag lamurias . . . e vá accender outra lamparina no oratorio, ande, que ge deve o agradecimento ao Senhor . . . Arthur não encontrara o Coutinho : tinha ido para a fazenda, Quando atravessava a praça, sahia-se da missa das onze. Então, lembrou-se de Deus—e na humildade do seu reconhecimento, murmurou alli mesmo um Padre-Nosso. O Rabecaz, que apesar do seu atheismo frequentava a missa para não offender as opiniões catholicas do snr. administrador, appareceu, magestoso, no seu casa cão dos domingos, calçando as luvas pretas. Arthur correu para elle n'uma ancia de desabafar, e com um riso nervoso : —O padrinho morreu, deixou-me um dinhei- — Com mil diabos ! —Ú verdade, é verdade — disse Arthur com os olhos humidos, esfregando parvamente as mãos. — Dons contos de réis ! —E então Agora p'ra Lisboai? — Pudera ! — exclamou Arthur com fervor. — Ladrão ! Travou-lhe do braço com paixão, trouxe-o a caga fazendo logo o plano de se ir encontrar com elle em Lisboa, na primavera. Viveriam ambos juntos, e com a cheta em commum, havia de vir Lisboa abaixo, Arthur resentia-se d'aquella participação que o Rabecaz se arregava na sua fortuna ; disse muito serio : — Eu vou passar uma vida retirada , , . traba- lhar O Rabecaz bateu firmemente com a bengala no lagedo : — Não me venha com pieguices. Mande a litteratura ao diabo. Isso é bom para os pelintras. Você agora tem cheta, é gosar, é refocilar . . . E a primeira cousa gue você ha-de fazer é mandar. me uma boquilha d'egpuma . . . Ao almoço, a tia Ricardina discutiu o emprego do dinheiro do menino. Tinha agora a sua fortuna certa. O Vasco queria passar a pharmacia, e, com aquelle dinheiro . . . Arthur, indignado, pulou na cadeira : — Ora essa ! comprar a pharmacia ! Enterrarme em Oliveira! — E declarou, dando uma punhada na mesa, que ao outro dia partia para Lisboa. As velhas estavam assustadas da estridencia da sua voz, da insensatez das guas resoluções. — Tu endoideceste, menino — Endoidecia se aqui ficasse ! E n'uma exaltação, pela sala, fallou do seu talento, das altas posições que dto as letras, da influencia da imprensa, d'uma cadeira em S. Bento e da posteridade. — Mae nunca has„de ser um Nelson — exclamou o Albuquerqaezinho, fixando-o. — Mas posso vir a ser Ministro da Marinha, sn.r. Almirante — disse Arthur muito serio. De tarde, espalhara-se na Villa a noticia da herança : uns diziam vinte contos, outros cem ; alguns affirmavam que ia haver demanda. O Vasco veio á noite, commovido, com D. Galathea, para abraçar o: herdeiro. Mas, a essa hora, Arthur estava na Corcovada, ingtallado deante dos licores do esta belecimento, com uma caixa de charutos ao lado ; e o Rabecaz, a cada freguez que apparecia, exclamava mostrando Arthur, com um largo gesto á Ecce Homo : — Eil-o ! Está miliionario ! E ás interrogações anciosas, respondia vagamente, agitando as mãos : — Um fortunão ! De vir tudo abaixo . . , Vae bater carruagem em Lisboa. E eu estou aqui, estou lá cahido ! Arthu.r voltou para casa tarde, pesado de genebra. A tia Sabina veio-lhe em pontas de pés ao quarto, fallar ainda na pharmacia. O Vasco dissera-lhe que a cedia barata, @om pagamento a tres mezes. Depois, ellas estavam tão velhas . . . nao tinham mais ninguem no mundo Era necessario um homem na casa -— Por cousa nenhuma fico aqui vinte e quatro horas mais, tia Sabina . , . .É inutil. Irra I Sabina desceu a chorar. Parecia-lhe que o menino estava embriagado. deante do leito de Ricardina, já deitada, ia murmurando muito infeliz : — O maldito dinheiro ! O maldito dinheiro ! Ao outro dia, Arthur entrava na loja do Carneiro com a letra, muito inquieto, no receio de que, por vingança, o logista fizesse difficuldades » . . . — Sei. ao que vem, recebi o aviso — disse seccamente o Carneiro. — Ouro ou notas Então, n'um reconhecimento, Arthur balbuciou : — Ambas as cousas . , . Eu realmente, snr. Carneiro, tenho a pedir-lhe desculpa foi uma rapaziada Áquelle cavalheirismo da parte d'um herdeiro, d'um capitalista, o Carneiro enterneceu-se e estendendo-lhe as mãos ambas n'uma effusão : —O que lá vae, lá vae Nio me fez damno. Os meus parabeng. É gosar ! É gosar ! Fez-lhe recontar as notas, verificou o peso das libras. Á vista d'aquella fortuna alli amontoada, scintillando sobre o balcão, Arthur reprimia uma vontade de rir nervosa, e, quando sahiu, abotoando com amor o casaco sobre o dinheiro, sentiu o mundo a seus pés. As tias, quando elle estendeu sobre a mesa o dinheiro para lh'O guardarem, ficaram aterradas. O quê ! Pois elle queria levar para Lisboa aquella ri. queza Até lhes parecia peccado, e olhavam o oiro, o papel, com pavor, pensando que ia ser devorado na Babylonia, como so vissem reluzir nas libras olhos de sereias e nas notas negrejarem programmas de bachanaes. E não o queriam guardar ! Não queriam responsabilidades . . . — Oh, tia, mas eu não hei-de andar com esso dinheirão na algibeira. O meu bahú tem a fechadura quebrada. Vou até comprar uma mala. Por fim, ellas cederam, e fecharam o thesouro no gavetão da commoda que servia de altar, no oratorio, pondo-o sob a protecção vigilante dos santos amados. N'essa noite, por despedida, Arthur ceou com Rabecaz, que tinha preparado uma carta de recommendação para o pandego do Melchior 9. — O amigo indaga onde elle vive, entrega-lhe a carta, e elle ha-do-o fazer gosar ! Onde conta o famigo hospedar-se Arthur tencionava ir viver com Damião. Afinal era o unico amigo que tinha em Lisboa. Além d'isso, um Damião, um genio, devia estar relacionado na litteratura, na imprensa . . . e, emfim, elle queria sobretudo viver no meio intellectual . . . O Rabecaz oscillava a cabeça, desapprovando : — Ferre-se n'um bom hotel, ferre-se no Universal, no Chiado. Tem as cantoras á mão . . . Bella mesa redonda . . . tudo do fino, tudo do catita. Vó pom o que lhe digo, ferre-se no Universal. Mas Arthur, nos primeiros tempos, não queria afrontar o laxo desproporcionado d'um hotel no Chiado. Mais tarde, sim, quando tivesse feito fato, roupa branca . . . — Então, ferre-se no HespanhoZ, na rua da Prata. Tem boa pandega tambem Vá para o Hespanhol. E até á porta de casa, foi-lhe fazendo recommendações : que visse Cintra, que fosse ao João da Mouraria, para gosar o verdadeiro fadinho que não deixasse d'ir ás hespanholas. E que lhe escrevosse ! Arthur, pesado da ceia, escutava-o vagamente, de mãos nos bolsos, charuto caro nos dentes, e, no fundo escuro da noite, parecia-lhe vêr a sua vida em Lisboa erguer-se, muito alta, como um tropheu muito ornado, onde, de cima abaixo, felicidades vagas e deliciosas scintillassem. Quando bateu á porta, ficou surprehendido de ouvir uma voz grave que não conhecia, perguntar com desconfiança : — Quem é Houve um ruido de trancas, de ferrolho corrido, e o forte portão abriu-se devagar. Um rapazote, de espingarda aperrada, esperava no meio do pateo, e a tia Sabina, de saiote pelos hombros, alumiava do patamar. Com tanto dinheiro em casa, não tinham querido ficar sós. O Vasco approvára, e ti- nham mandado vir da quinta o moço com a espingarda. No dia seguinte, a despedida foi triste. Desde manhã, Sabina chorava pela casa. Ricardina, para disfarçar a sua desconsolação, ralhava, muito nervoga, Até o Albuquerquezinho parecia impressionado : toda a manhã passeara pela sala de jantar, de testa franzida, as mios atraz das costas, rosnando : — Ingrato ingrato ! Mau pirata, mau pirata ! O dia estava escuro e ventoso. Ao lado, na Egreja, tocava a finados pela mulher do Dr. Marques, e aquelle negrume d'inverno, o dobre do sino, pareciam augmentar a melancolia da separação. Arthur, commovido, repetia a cada momento que era só por dois mezes : — Mal comece o calor da primavera, cá estou de volta. E era sincero, tomado d'uma saudade por aquelIas affeições simples que deixava, pelo seu quarto, que durante esses longos annos elle povoára de sonhos e d'imaginações queridas. Ás duas horas, o moço do char-à-bancs veio buscar o bahú e Rabecaz appareceu. Ia acompanhar Arthur á estação, e conservava-se á porta da gala, de chapéu na mão, erecto, muito digno na presenga das senhoras, — Adeus, tias, adeus ! Então, n'um romper de soluços, Arthur foi dos braços de Ricardina para os de Sabina. — É por pouco tempo, é por pouco tempo — balbuciava. — E vae bem rocommendado, exoellentissimas senhoras — disse Rabecaz, curvando-se. E Arthur sahiu com os olhos arrazados de lagrimas. No pateo, encontrou o Albuquerquezinho, de braços abertos : — Boa viagem, Arthurzinho. Fique deseangado, eu cá vigiarei. Ha-de haver ordem a bor do No meio da estrada, um tirante que se quebrou atrazou o carro. Um vento triste gemia entre os pinheiraes ; já começavam a cahir gotas de chuva. Arthur ie calado, ainda commovido, e o Rabecaz fumava sombriamente, com a chapeleira d'Arthur entre os joelhos. Mas á vista da estação, da machina que já so prava, voltada para Lisboa, uma alegria tumultuosa invadiu Arthur: já no wagon, ria, de nervoso, sentindo a molleza do assento, estofado de casimira suja, ceder confortavelmente, como um antegozo da vida em que se ia installar agora. à portinhola, Rabecaz continuava os seus conselhos : que fosse ás hespanholas ! Que gozasse ! de vez em quando, contemplando-o oom amargura : — Seu felizão . — rosnava. A locomotiva silvou — o comboio rolou. — Não se esqueça da boquilha ! — gritou-lhe ainda o Rabecaz, No Entroncamento, depois de cear, Arthur embrulhou regaladamente os joelhos na manta e accendeu o seu charuto com uma felicidade immensa, O comboio de Madrid, atrazado, acabava de chegar : o trem ia partir. Fóra, chovia, ventava forte, e Arthur seguia com os olhos uma lanterna avermelhada que errava, do lado dos raiZg, na noite tenebrosa, quando a porta se abriu vivamente, e um sujeito esbaforido apparecen, atirando para o assento uma maleta envernizada, um rolo de plaids, outro de bengalinhas, um cesto atado com fitas de sêda azul e uma almofada de folhos. Vinha abafado n'uma pelliça, e a alta gola erguida, o gorro de pelles sobre os olhos, apenas deixavam vêr uma face rosada c nutrida e uma bella barba alourada. Arthur suppol-o logo estrangeiro — mas o in- dividuo, depois de ge installar, cumprimentou cortezmente, dizendo : — Que terrivel noite ! — Terrivel — concordou Arthur. Julgou-o então um diplomata, vindo de Madrid ou de Paris. Examinava-lhe a rica pelliça, a charuteira com uma coroa de prata em relevo, d'onde escolhia um breca, as luvas muito grossas, d'uma pelle aspera e branca, e pensava, fascinado, que aquella figura digna atravessara salões reaes, rogara personagens historicos. — P'ra Lisboa, creio eu ? — perguntou-lhe o sujeito. — Sim, vou p'ra Lisboa — disse Arthur. — Que tal S. Carlos este anno Arthur cuspilhou uma pellicula de tabaco e córando um pouco : — Este anno . . . Este anno, muito bom. — Valha-nos isso — disse o individuo. E ficou immovel, com as palpebrag cerradas, fumando com beatitude. Arthur receou logo outras perguntas sobre Lisboa, familias fidalgas, musicos, e não querendo revelar ignorancia plebeia, ia affectar uma somnolencia fatigada, repoltreando-se no seu canto — quando viu o sujeito desapertar as fitas do cesto e tirar para o regaço um cãozinho amarello, que lhe pareceu semelhante a um sapo, de focinho negro e achatado, vincado de duas rugas velhas, e olhos redondos e estupidos. — Tem tido uma jornada trabalhosa — disse o sujeito. — Tem vindo no cesto — Desde Paris, pobre John ! Levou-o aos labios como uma cousa preciosa e santa, e deu-lhe sobre o ventre macio e liso beijinhos chilreados. Chamou-lhe ainda perda, anjo. Acalentou-o gob a pelliça, contra o coração. E exclamava compenetrado para Arthur : —É um amor ! — E depois d'uma fumaça : —É para a Snr. a Marqueza de Folhes. . . Conhece talvez Arthur disse baixo : — Sim , . . — Ah, conhece — exclamou o individuo, com a face clareada de riso. Inquieto, Arthur acudia : — De nome ! — Ah ! . . . Excellente senhora. Accommodou maternalmente John no cesto, sobre o seu leito d'algodão, e estirando discretamente os braços: declarou que o que tinham a fazer era dormir até Lisboa. S. Ex. a dava licença que corresse 0 transparente da lampada, não Perfeitamente. Arranjou o travesseiro, estirou-se com um ah de gozo, cruzou as mãos sobre a pelliça, e cantarolou com melancolia, como uma oração da noite : Si tu n'avais rien à me dire Pourquoi venir anpres de moi ? Bocejou enormemente e d'ahi a pouco resonava com dignidade. Axthur, fatigado, foi cerrando os olhos, no seu canto, na penumbra do wagon Parecia-lhe estar n'um sala, toda d'ouro e velludo, onde a senhora Marqueza de Folhes conversava com a tia Sabina, fallando d'elle . . . mas não as ouvia bem por causa d'um estrondo de ferragens que rolavam surdamente. De repente, fazia-se um silencio e acordava: luzes mortiças, ao lado, alumiavam uma estação ; vultos abafados, fóra, na noite, passavam com lanternas. Chovia sempre ; havia um silencio infinito na negrura dos campos adormecidos, e adeante, na sombra, sem descontinuar, a machina resfolgava baixo. Depois o comboio rolava de novo, e o seu sonho retomava-o atravez d'uma sensação de frialdade nos pés : reconhecia que era um lago muito azul, batido de luar ; o Rabecaz e elle remavam n'um bote, com o Almirante ao leme. Então, junto d'elle, na escuridão, uma voz de timbre andaluz suspirava o seu nomo ; voltava-se, via dous olhos arabes, scintillando sob uma mantilha hespanhola : ia beijal-os, mas a mantilha, escorregando, descobria uma caveira ! Acordou com um estremeção Uma voz ia dizendo ao comprido do comboio parado : — Alhandra ! Alhandra ! Um ar livido de madrugada clareava atravez da neblina chuvosa. Saloios de varapaus, encolhidos nas mantas listradas, passavam ; na plataforma, descarregavam-se caixotes ; um comboio de mercadorias rolou ao lado, com wagons carregados de pipas, e outros, gradeados, d'onde sahiam cornos de bois. Depois, um creado de farda passou, correndo, com um ramo de flores na mão. O coração d'Arthur bateu, invadido da alegria d'aquella proximidade de Lisboa. O comboio partiu de novo. Pareceu-lhe, atravez da nevoa, avistar uma superficie de rio côr d'aço ; depois um campo d'oliveirag correu ao lado ; e os seus olhos, fixos nos vidros embaciados, foram-se cerrando, na fadiga d'aquella madrugada fria . . . — Povoa ! Povoa ! Despertou. O sujeito de pelliça, sentado, espreguiçava-se. — Ora emfim ! Nous coità ! Ergueu-se, ageitou a pelliça, poz um chapéu de casimira, e entreabrindo o cesto do pug : — Amor, estamos no fim dos nossos trabalhos. Como tem dormido o amigo John, hein ? Chegámos, percebeu? . . . Aqui está na patria de Luiz de Camões! Voltou-se para Arthur, rindo do seu gracejo : Não é má, hein ? — e repetiu ao pug que gaInia : -—- Aqui estamos na patria de Camões. A machina silvava. E Arthur, excitado, via agora, á esquerda, estender-se o rio largo e baço, agitado sob o vento. Os montes da outra-banda confundiamse com o empastamento das nuvens. Uma falua, de vela cheia, cortava a espuma, á bolina, na manhã aspera. Arthur devorava com os olhos aquellas vizinhanças de Lisboa : uma fachada suja de casa que passava, uma pilha de madeira, altas chaminés de tijolo. Nos Olivaes, o sujeito da pelliça, julgando vêr um amigo entre a gente na plataforma, precipitou-se para a portinhola, gritando : — Oh, visconde ! oh, visconde ! Mas o comboio partiu. Antigos wagons desmantelados, um alpendre com fardos, correram ao lado —e um empregado, todo molhado, abrindo vivamente a portinhola, recolheu á pressa os bilhetes. Arthur palpitava todo. Lisboa ! Era emfim Lisboa ! Abaixara a vidraça e o ar parecia-lhe cheio d'uma vida mais intensa, todo penetrado da respiração larga da cidade que ainda dormia na manhã humida. Com um grande estrondo o comboio entrou na estação. A plataforma ficou logo cheia de gente, que ia, arrebatada, com embrulhos, chapeleiras, acotovelando-se. Saloios com os passos pesados das suas solas pregueadas, apressavam-se ; havia nas faces um ar estremunhado e pasmado ; uxna creanga chorava desesperadamente, e, quando á porta de sahida o empregado lhe quiz vêr as malas, Arthur, empúrrado, atarantado, envergonhado, não encontrava as chaves. As mãos tremiam-lhe, sentia-se timido, quasi tinha saudades da casa das tias, da pequenez d'Oliveira d'Azemeis. E depois, @om o seu bilhete de bagagem, muito embaraçado, quasi affli Oto, errava pela grande sala d'espera, dando aqui e além um olhar aos annuncios, onde se lia em grandes letras nomes de cidades — Sevilha, Cor dova, Madrid, Paris — que lhe representavam ci vilisagões magnificas e lhe davam um acanhamento Emfim, um carregador, que parecia occupado por deleite proprio em resmungar blasphemias, leVou-lhe com um ar soturno o bahú a uma caleche, o cocheiro bateu para o HespanhoJ. Á beira do assento, com as mãos nos joelhos, -Arthur, atravez dos vidros embaciados, ia olhando ávidamente as fachadas das casas, os cartazes nas esquinas, a prolongação das ruas. Gallegos curvados sob o barril chapinhavam na lama, gente passava encolhida sob os guarda-chuvas. Teve um espanto ao Vêr de repente os arcos do Terreiro do Paço, o rio, Ü1astreagões de esquadras ! Pela rua da Prata, ia lendo ávidamente as taboletas. Quem viveria n'aquellas altas casas, cerradas ainda ? Áquella hora, de certo, os jornalistas, as duquezas, dormiam, de dag agitações intellectuaes e amorosas da noite , . . — uma felicidade exuberante encheu-lhe subitamente o peito. A caleche parou. Da escada do Hespanhol, sombria, sahia um cheiro enjoativo de amoniaco. Um oreado, de suiças e cabelleira esguedelhada, que o tratou por usted, levou-o para um quarto pequeno, forrado de papel verde. A janella abria para um saguão melancolico e a agua que cahia da goteira cantava em baixo n'um balde de zinco. D'ahi a pouco, encolhido nos lençoes, Arthur dormia profundamente, Acordou ao ruido da porta : o creado, em mangas de camiga, com um par de bota8 na mão, dizia reprehendendo-o : — Então usted não vae comer São horas. Já usted vê ! La comida é ás cinco. Cinco horas já ! Arthur sentia os rins doridos ; o tom crepuscular do quarto, ruido de pratos que ouvia ao lado, o rabujar d'uma creanga, deramlhe uma vaga tristeza. O oreado, então, revirou as botas na mão, considerou um momento com melancolia o elastico esfiado e o tacão tombado, e rosnou : — Estão na ultima . . . Arthur fez-se vermelho. — Pois quando usted quizer eomer, é lá em bai• xo — accrescentou o homem. E antes de sahir, arrastando os sapatos achinelados, repetiu ainda, indicando com tristeza as botas : — Estão na uktima ! Já ugted vê ! Servia-se a sopa, quando Arthur se veio sentar timidamente á mesa. Defronte d'elle, dous hespanhoes, de barbas d'azeviche e faces cavadas, comiam, soturnos, com as capas ao hombro ; na outra extremidade estava uma rapariga gordita e baixa' bonita, de robe-de-chambre escarlate e penteado alto ; ao pé d'ella um individuo calvo, de cachaço fradesco, muita côr nas faces rechonchudas, um bigodito grisalho, via-a jantar, com uns olhinhos de ternura babosa, fazendo entre os dedos bolinhas de pão. Arthur admirou um momento as altas fachadas fronteiras, tão nobres » ! Depois, escutou os hespa• nhoes, que devoravam e fallavam baixo, desconfiados ; e tendo distinguido os nomes de Castellar, Py y Margall, Contreras, concebeu logo uma immensa admiração por elles. Eram republicanos perseguidos ; de certo se tinham batido em barricadas, conspiravam ; e como um d'elles estendia o braço para as azeitonas, Arthur apressou-se a chegar-lhe o prato respeito Qnente. O individuo disse, com gravidade, gracias, cabattero b e Arthur, muito lisonjeado, pensou que mais tarde poderia conhecel-os, ouvir-lhes episodios historicos, ligarem-se em sympathias revolucionarias ! . . . Que boa idéa vir para o Hespanhol ! Tudo alli lhe agradava — o aparador envernisado, o espelho com o caixilho resguardado por uma gaze côr de rosa, e o retrato de Prim, n'um cavallo empinado, agitando um estandarte. E foi quasi com orgulho que, depois do café, accendeu o seu charuto e se foi encostar á varanda : a tarde limpára, as ruas seccavam sob o norte frio ; uma carruagem que passou, com dous creados de casacos brancos, fel-o pensar que talvez fosse Ella, a sua desconhecida do vestido de xadrez : quando se agachou para espreitar, entreviu um homem gordo de lunetas ! Mas todos os seus desejos d'amores, de luxo, de celebridade, tinham-se posto a chalrar como passaros acordados. Examinava ávidamente as toitettes dos homens ; achou adoraveis duas senhoras que atravessavam a calcada, com os vestidos apanhados, mostrando as saias brancas que lhes batiam o tornozelo. Nunca imaginára Lisboa tão vasta, tão apparatosa, e parecia-lhe que as idéas deviam ter de certo a amplidão das ruas, e os sentimentos a elegancia dos vestuarios. A rapariga de robe-de-chambre escarlate veio então debruçar-se á varanda proxima : erguia o rosto, olhava o céu e o tempo. Arthur achou-a deliciosa, com o seu pescoço muito branco, as fórmas copiosas, toda roliça e calida. — Quem é esta senhora ?— perguntou elle para dentro ao oreado que levantava a mesa, cantarolando. O moço chegou-se, espreitou : —É a Mercedes. — E fitando as botas d'Arthur com um bamboleamento triste de cabeça esguedelhada, repetiu ainda : — Estão na ultima. Já usted Vê ! . Arthur encolheu os hombros, furioso. De resto, observando os homens na rua, já pensara que o seu fato de Oliveira era mal talhado e provinciano : por isso só sahiu á noite, depois d'acceso o gaz. Com que deleite pisou emfim as lages ainda humidas dos passeios, respirou a friagem d'inverno, o ar de Lisboa, que, depois do pesadume das ruasitas de Oliveira, lhe parecia ter a vitalidade oxygenada onde se dilatam as faculdades ! Embasbacava para as vitrines alumiadas das lojas ; estacava, pasmando para os rostinhos pallidos das mulheres que passavam; voltava-se com admiração para seguir as carruagens de criados perfilados ; e da claridade do gaz, da vastidão das ruas, da multidão sussurrante, vinha-lhe como que uma sensação de actividades espalhadas, de paixões, de grandezas vagas que o perturbava : era como se a atmosphera estivesse saturada das emanações d'uma vida rica, sábia, idealisadora e ardente ! Mas sentia-se acanhado : apesar de appetecer prodigiosamente uma gravata azul que viu n'um mostrador, não ougou entrar na loja ; o trotar das parelhas entontccia-o ; o andar desenvolto dos homens, fallando alto, dava-lhe um medo pueril d'aggressões ; tinha vergonha do seu velho pa letot, mais curto que as abas da sobrecasaca que trazia ; sentiu-se mesmo agradecido a um sujeito que lhe pediu lume, cortezmente, como se recebesse d'elle um acto de benevolencia. O homem, depois d'accender o charuto, disse para outro que esperava, assobiando : — P 'ra o Martinho, hein E Arthur foi-os seguindo timidamente, ancioso por Têr o Martinho ! Pareceu-lhe esplendido, com a accumulaçao dos chapéus altos entre os espelhos dourados, sob uma nevoa de fumo de tabaco, no brouhaha continuo das conversas. Não se atreveu a entrar. Á porta um grupo palrava, e Arthur contemplava-o de longe, com devoção, pensando que deviam ser poetas e estadistas . . . Subiu-lhe então de repente ao cerebro um vapor excitante de emanações intellectuaes : teve pressa de entrar n'aquella existencia — relacionar-se, regalar-se das discussões sobre Arte e Ideal, « ser tambem de Lisboa » ! Chamou uma tipoia, e mandou bater para a praga da Alegria, para a casa do Damião! Recomeçára a chover e o lagedo reluzia á luz do gaz. E encostado ao fundo do coupé que trotava ao comprido das grades escuras do Passeio, Arthur ia pensando no fato novo que faria e nos philosophos qne ia de certo encontrar na catacumba » do Damião. Ao toque da campainha, uma mulher de pelle multo branca e fitas vermelhas no cabello fêl-o entrar n'uma sala esteirada, para lhe dizer que o snr. Damião tinha partido para o Algarve. Examinou rapidamente Arthur, e accrescentou logo — que se S. S. a desejava quartos, os do snr. Damião estavam devolutos . . . — Não, obrigado, eu vinha só procural-o. —Ai, póde V. S. a entrar. — E n'uma voz muito cantada, muito lisboeta : —O snr. Damião estava muito contente. É a casa mais socegada do bairro, tudo na maior limpeza. A snr. a D. Ermelinda até me diz sempre : Oh, D. Joanna (é o meu nome, minha mana é Adelaide) oh, D. Joanna, diz-me a snr. a D. Ermelinda, a senhora faz mal em ter tanto cuidado com os hospedes, olhe que não lh'O agradecem! E vae eu, digo-lhe : Oh, D. (damonos muito) digo-lhe eu, olhe que é genio; em não tendo tudo a preceito estou n'um phrenesi. O snr. Damião tinha um quarto só. Tenho tambcm o Faria, ha-de conhecer, o Fariazinho . . . Aquella verbosidade sem motivo entontecia Arthur. Repetia, cumprimentando : Sim, eu hei-de voltar. Ai, póde vir agora. Eu não gou de ceremoAias. Até a D, Ermelinda me diz sempre : Oh, D. Joanna, por quem é, a senhora deve-se pôr no seu lugar. E digo-lhe eu : Oh, D, Ermelinda, que quer, são genios ! E todo o murido me estima. O Fariazinho está em minha casa ha dous annos. Póde-ihe perguntar... — Pois eu hei-de voltar — interrompeu Arthur, atarantado. Deu as boas noites, desceu rapidamente a escada. Aquella ausencia do Damião contrariava-o. Estava muito desconsolado. Contava com o DamFáo para o guiar, lhe mostrar Lisboa, apresental-o a escriptores, escutar o seu drama, e a sua partida para o Algarve parecia alargar em torno d'elle uma solidão inesperada. Felizmente tinha as cartas d'apresentação do Rabecaz. Foi então descendo ao acaso o Moinho de Vento, e ao passar por S. Pedro d'Alcantara, penetrou sob as arvores e foi encostar-se ás grades. A cidade cavava-se em baixo, no valle escuro, picado dos pontos de luz das jarmlas illuminadas, e, na escuridão, os telhados, os edifícios, faziam um empastamento de sombras mais densas. Aquellas luzes, debaixo d'aquelles tectos, que fermentação de vida ! Quantos amores, quantos m.ysterios, crimes talvez ! Alli, jornalistas compunham artigos, oradores preparavam discursos, estadistas conferenciavam, mulheres arigtoeraticas, nas suas salas, fallavam d'amores, e, nos pianos ricos, gemiam as cavatinas apaixonadas. Que grande, Lisboa ! Voltara-lhe a mesma sensação, sempre repetida, d'uma capital vasta, com uma intensa vida social, e olhava, vagamente exaltado, como se todas aquellas existencias accumuladas lhe mandassem ao coração o bafo das paixões que lhes suppunha. Uma aragem fria fel-o encolher-se no seu paletot côr de pinhão. Foi descendo, parando junto ás oitrineg, voltando-se para os rostos pallidos das mulheres, meio escondidos sob mantas de lã ou véus escuros, seguindo com os olhos as lanternas das carruagens ricas, que punham claridades sobre os casacos claros dos lacaios. Descendo sempre, chegou janto do rio. Estava escuro, havia um friozinho cortante, e as lu zes dos mastros tremeluziam na noite. Veio-lhe, sem razão, uma melancolia, um sentimento de solidão. Áquella hora, todos estavam na suas casas bem mobiladas, no brilho das soirées, no conforto das convivencias intimas ; as mulheres recebiam os seus amantes, amigos discutiam, fumando, em volta do punch . . . Como conseguiria fazer conhecimentos, relacionar-se, viver, furar, n'aquella grande cidade rumorosa Agora tudo lhe parecia mais difficil, e as grandes fachadas sombrias das casas espalhavam em torno d'elle uma sensação d'isolamento, d'inaccessibilidade . . . — V. Ex.a quer favorecer um chefe de familia desempregado — disse uma vu lamentosa ao pé d'clle. Arthur aprumou-se e tirou cinco tostões da algibeira, que metteu na mão que lhe estendia um sujeito de chapéu alto e sobrecasaca coçada, a gola presa com um alfinete. Aquella 'miseria entrevista entristeceu-o mais. O Aterro, longo, solitario, com um ventozinho frio, deu-lhe um sentimento de melancolia ; o coração confrangeu-se-lhe, sentiu a necessidade de voltar para o Hotel, vêr luz, estar debaixo d'um tecto, relêr o seu drama, para se fortalecer com a certeza do seu talento, e contar o seu dinheiro, para se animar com a evidencia dos seus recursos. Pôz-se a caminhar depressa pela rua do Arsenal ; mas no Terreiro do Paço perdeu-se : confundia as ruas largas, já um pouco desertas, parallelas, infindaveis. Andou, voltou: tinha vergonha de perguntar pelo Hespanhot. N 'uma rua estreita, vozes, por traz de taboinhas verdes, chamavam-no com psi-psts familiares ; dous bebados assustaram-no, cambaleando, praguejando, — e atarantado, já afflicto, chamou uma tipoia que passava devagar. — P"r'o Hotel Hespanhot ! — disse, subindo para a tipoia. O cocheiro fitou-o um momento, admirado, mas immediatamente bateu a parelha. Axthur sentou-se e acabava de fechar a vidraça quando o carro estacou. CAPH'S.L — Então — Cá estamos, met amo. O H.espanhol é aqui. Arthur sahiu, vexado. — Quanto é ? — perguntou timidamente ao cocheiro. Uma placazinha , Com medo d'uma questão, Arthur pagou. — Muito obrigado a, V. Ex. a, meu fidalgo — disse o homem. No corredor do hotel, d'uma porta vivamente alumiada, sahiam sons de guitarra : uma voz mordente de mulher cantava n'um tom de malagueña : A Ia puerta de mi casa Hay una piedra muy larga, La, ra, lá, lá. E mãos batiam em cadencia, ao repenicar dos bordões. Immovel, com o castiçal na mão, Arthur escutou : vozes hespanholas falla.ram desenvoltamente, rolhas de cerveja estalaram. Pensou que devia ser a rapariga do robe-de-chambre escarlate e os emigrados que recordavam canções das suas provincias, e aquil.lo pareceu-lhe muito poetico ! Uma voz forte d'homem elevou-se então : fazia estalar os dedos, e n'um rythmo de gaita-de-folles, cantarolava : Doces galleguinos aires, Quittadoilinos de penas Houve risadas, a porta fechou-se bruscamente. Arthur foi subindo devagar. Viera-lhe uma recordação de quando era pequeno e estivera um verão no Porto, com seu pai, na estalagem do Leão d'Ouro. Pelas tardes queutes do domingo, cheias de pó, o creado levava-o a uma horta, para os lados da Lapa : comiam t)emogos ao pé d'um faval, onde sussurrava a agua das regas, e iam vêr os galegos dançar debaixo do parreiral, ao som da gaita-defolles que fazia mu-i-ñe-ra ! mu-i-ñe-ra ! Depois a caneca de vinho verde passava em redor ; sentiamse ao lado os pah ! seccos do jogo da bola ; então uma gallega erguia-se, e com as tranças louras cahidas sobre o collete escarlate, os braços abertos, punha-se a girar devagar ao churre-churre dos pandeiros ! — Ha quaü]to isso fôra ! Se seu pae o pudesse vêr a cora, em Lisboa, com dinheiro no bolso, manuscriptos no bâllú ! E reconfortado, estirou-se na cama, murmurando com voluptuosidade : Estou em Lisboa, estou em Lisboa ! Ao outro dia, depois do almoço, por um sol magnifico, Arthur preparou-se para ir visitar, eom a sna carta de recommendação, o sobrinho do Rabe- caz, o gnr. Venancio Guedes. Para se apresentar com chic, comprou, n'uxn armazem de fato feito, um paletot de panno azulado com gola de velludo, que lhe aconselhou um caixeiro d'ar profundamente infeliz ; depois, n'um sapateiro, ornou-se de botas de verniz, e assim equipado, de luvas pretas, n'uma bella caleche, dirigiu-se ao largo do Carmo. Um individuo barrigudo, de fartas suiças côr d'azeviche, abriu-lhe a porta, e com uma voz de trombone, roncou para dentro : — Um sujeito que o procura, snr. Venancio ! — Mande entrar, snr. Ferraz ! O snr. Venancio, á mesa, almoçava. Os gestos miudinhos com que partia os seus ovos quentes, a sua carinha amarellada, de beiços finos, o cabello correctamente acamado, revelavam um individuozinho meticuloso, muito admirador do seu director geral. Abriu a carta do Rabecaz, e começou a lêl-a, puxando os pellos do bigodinho louro, aparados á tesoura. No quarto proximo, por traz d'um reposteiro azul, uma voz cantava aos berros : Acceita o sabre de meu pae I Acceita o sabre: Acceita o sabre' Nas paredes pendiam gravuras violentamente coloridas, onde se distinguiam damas e cavalleiros entre paisagens idyllieas ; um papagaio, no poial de pedra da janella, meneava-se no seu poleiro, e o snr. Ferraz esperava com uma das mãos papudas apoiada á mesa, a outra encostada com chic ao quadril obeso. O snr. Venancio poisou a carta, ageitou nervosamente o robe-de-chambre sobre o peito, e com uma vozinha acre, ás fisgadas : — Mas eu não conheço littcratos ! Eu não conheço litteratos, meu caro senhor ! Quer que o apresente. Mas a quem A quem ? Se eu não conheço ninguem ! Acceita o sabre, o sabre, o sabre, Acceita o sabre do papá, Pan, pa, pa, pa pum t gritava a voz estridente. — Eu vivo muito retirado, meu caro senhor. Vivo para as minhas occupações. Não conheço d'essa gente , . . Arthur, já envergonhado, acudiu : —O tio de V. Ex. a que talvez V. Ex. a soubesse a morada do snr. Melchior Cordeiro . . . Venancio teve um pulinho de contrariedade : — E V. S. a a dar-lhe ! Eu nõ,o conheço ninguem ! O reposteiro azul abriu-se, e um rapaz de grandes bigodes appareceu, exclamando com impeto : — Salta o almocinho ! Papagaio roal I Ferraz amigo, og manjares I — Tu conheces um Melchior Cordeiro ? — disse Venancio, voltando-se para elle, acamando nervosamente o penteado. O outro estacou, baixou levemente a cabeça a Arthur, e retorcendo vivamente o bigode com ambas as mãos : — Melchior Cordeiro, Melchior Cordeiro . . . — murmurava. Arthur olhava-o quasi com anciedade ; na rua, pregões cantavam, e para o lado do quartel soavam cornetas d'exercicio. — É um jornalista lembrou Arthur. — Não conheço ! — E dirigindo-se jovialmente ao papagaio : — Papagaio real ! Viva a Carta Cons titucional ! — Já vê — disse Venancio, com regosijo mal reprimido. — Ninguem conhece semelhante gente. — E poz-se com satisfação a esgaravatar os ouvidos. Arthur, profundamente despeitado, tomou o cha Péu. — E o senhor meu tio ainda se embebeda todas as noites ? — perguntou o Venancio, continuando a partir os seus ovos. Arthur, petrificado, baubuciou : — Não me consta, não me consta . . Mas o sujeito barrigudo abrira a porta, e descendo a escada, furioso, Arthur sentia ainda os gri- tos do papagaio e a voz jubilante do outro cantar desesperadamente : Acceita o sabre, o sabre, o sabre! Acceita o sabre, o sabre do meu papá ! No largo, a manhã resplandecia. Depois dos dias de chuva, aquelle sol delicioso dava á cidade a alegria d'um renascimento : até dous moços que n'um pateo lavavam uma carruagem a baldes d'agua e os gallegos que palravam á beira do chafariz, pareciam tão satisfeitos como os canarios que gorgeavam nas janellas. Mas Arthur estava como que desencanta' do : Damião partira, o famoso Melchior perdia-se no vago, e n'aquella cidade tão cheia sentia a concavidade da solidão ! A sua vontade, que á maneira d'um invalido precisava ser constantemente estimulada e ajudada, recahia desfallecida : a celebridade, as relações, os amores — tudo o que em Oliveira lhe parecera de conquista tão facil, á mão, recuava agora para cimos inaccessiveis : tinha a sensacão de massas do obscuridade, suffocantes como abobadas, que o encarceravam no anonymato. As vitrines das lojas, os altos predios, as carru agens, davam-lhe uma oppressño indefinida ; sentia circular em redor um enorme egoísmo burguez, feito do orgulho do dinheiro e do degprezo das idéas ; o os rostos, como as fachadas, tomavam para elle um aspecto obtuso e duro que alguns pobres versos delica,dns nunca poderiam commover ! O sentimento da sua solidão sensibilisou-o : se adoecesse, pensou ! E, entontecido pelo movimento, abstracto, infeliz, ia descendo o Chiado, com os pés torturados pelo verniz novo aquecido, sentindo-se gebo odiando luisboa, furioso com o sapateiro ! Quando entrou no Hotel, atirou-se para cima da cama, e para se reconfortar com a certeza do seu talento, poz-se a relêr, aqui e além, os Esmaltes e Joias. Mas os versos que em Oliveira lhe pareciam d'um ideal tão nobre, lidos agora alli, em Lisboa, tinham um tom de pieguice pueril, DO meio das vagas grandezas que sentia em redor e dos vastos interesses que suspeitava. Veio-lhe uma desesperação, achou-se « burro b, pensou mesmo em voltar para Oliveira ; retinha-o porém uma curiosidade da Cidade, a esperança de a vêr, a Ella, e o desejo das satisfações que lhe podia dar o dinheiro, — theatros, mulheres . Que diabo ! tinha alli no bahú, em libras, um conto de réis ! E espreguiçou-se sobre o leito com voluptuosidade, como se recebesse de repente de todos os rostos lindos que entrevira, das vozes que na vespera lhe faziam pst, pst, por traz das taboinhas verdes, um effluvie aphrodisiaco. E desceu para o jantar, resolvido « a atirar-se n'essa noite á pandega b. Como na vespera, os dous hespanhoes lá esta- vam, e, soturno, ao pé da Mercedes, o sujeito calvo e baboso. Esperando a sopa, Arthur abriu o Jornql do Commercio que estava sobre a mesa, deu um olhar de lado á hespanhola— e, de repente, lembrouse de que talvez no hotel conhecessem o Melchior, um jornalista ! Perguntou immediatamente ao creado, que entrava com a sopa. — Ah, o Melchiorzjnho ! — disse o moço ; e dirigindo-se ao calvo : — Oh snr. Videira, usted sabe onde está o Melchior — O Melchiorzinho? — respondeu o calvo. — Na redacção do Seculo. P 'ra os lados da rua do Carvalho. — Já vê usted ! — disse o creado com satisfação. Arthur, na sua alegria, indifferente ao jantar, agarrou o chapéu, correu á rua, tomou uma tipoia, foi á redacção do Secuto: o snr. Melchior tinha sahido, podia encontrai-o ao outro dia, á uma hora da tarde. Aquella visita preoccupou Arthur toda a noite. Melchior era um jornalista, um litterato e a conversa rolaria de certo sobre livros, estylos, escolas ; desejava mostrar-se elevado nas criticas, original nas phrases ; preparou mesmo duas definições pittorescas de Lisboa e da Provincia : « Lisboa é a estação central da intelligencia b. «A Provincia é a penitenciaria do espirito D. E ao outro dia, muito commcvido, apeava-se á porta da redacção. Um rapazito de blusa azul fel-o atravessar um pateo sujo, penetrar n'um corredor carunchoso, e abrindo uma porta : Um sujeito, snr. Melchior ! A uma larga mesa coberta d'oleado, dous individuos trabalhavam. Um d'elles, de cabello escovinha, escaveirado e de lunetas defumadas, cortava tiras n'um jornal, com uma tesoura d'alf.aiate; o outro, baixo e grosso, com a cabeça fincada en tre os punhos, parecia absorvido no estudo d'uma folha de papel escrevinhada : ergueu-se bruscamen te, inquieto. Era Melchior. Tinha a calva precoce, chamada do deboche, sobre a qual repuxava um cabello fino como teias d'aranha ; sob o nariz carnudo, arqueava-se um bigode espesso. Abriu a caTta do Rabecaz, de pé. As suas mãos papudas tinham uma ligei-ra tremura habitual, e apenas leu as primeiras linhas : — Ah, perfeitamente ! . . . Tenha a bondade de se sentar, Pois não ! Por quem é, sente-se ! . . . E como vae elle, o maganão ? Hein ? Sempre patusco ? Se V. Ex. a me permitte, eu acabo aqui um pe z queno trabalho e sou todo seu. Tenha a bondade de se sentar. Isto está um pouco desarranjado. Se quer lêr os periodicos . , . Arthur tomou um jornal d sentou-se ao pé da janella. Nas paredes, maços de jornaes desdobrados pendiam de ganchos, resmas de periodicos atulhavam os cantos e um tenue véu de poeira cobria tudo : os papeis, as cadeiras, o velho mappa de Portugal e Hespanha ; a rua, fóra, tinha um silencio pacato ; n'uma janella fronteira, um pintasi]go cantava na gaiola, e as tesouras enormes do sujeito de lunetas iam retalhando os jornaes. — Oh, Esteves, trouxeram as chegadas ? — disse de repente Melchior, D a um Signal affirmativo do outro : — Dictas, fazes favor Esteves procurou. entre a papelada uma tira rabiscada a lapis e começou immediatamente, n'uma voz um pouco rouca, extremamente monotona : « O eonselheiro Abilio de Azevedo, de Villa Nova de Famalicão, hospedado nos Embaixadores » Melch i or escrevia, murmurando alto : — « Chegou o nosso prezado amigo o Ex. mo Snr. Conselheiro Abilio . - . Nova de Famalicão » Com um Z só O outro moveu affirmativamente a cabeça e proseouiu : « O Visconde da Ameixoeira, de Vizeu, e sua respeitavel familia . . O nosso assignante Thadeu Carneiro . . . O illustre proprietario Eustacio Alcoforado » — Não, este partiu, partiu para Bordeus. — Partiu ou chegou, menino ? É que não é a mesma cousa . — exclamou Melchior. Deu uma rigadinha, voltado para Arthur, tomou uma fumaça do charuto e pediu a Esteves que por caridade lhe dictasse os annos h. Esteves, com um gesto lasso, tirou d'uma gaveta. um Almanach, @om folhas brancas intercala das, bocejou profundamente e começou no seu tom soturno : « Dia 14 de Dezembro O commendador Figueiredo . . . grandissima besta ! A Snr. a D. Ernes tina da Conceição Valladares O engraçado actor Maldonado , . . Melchior suspendeu a penna e olhando para Esteves fixamente : — Está lá engraçado ? Isso é de ha dous annos ! Agora elle faz papeis serios. Esteves reflectiu, tirando pelliculas dos beiços : — Põe o esperançoso. O esperançoso ? um homem que representava havia doze aunos ! . . . E olhavam-se embaraçados, na urgencia d'um adjectivo. Então Arthur adentou o rosto, risonho, obsequiador, e disse : — O impressionante, talvez, — Magnifico ! — exclamou Melchior, escreven do regalado. E, um momento, olhou Arthur com respeito. — Que mais, Esteves ? Vá, homem, vá ! « O vereador Fernando Cardoso A mnocente filha da Snr. a D. Elvira Cunha Rego . . . O distincto poeta Augusto Roma, ilustre auctor dos Idyllios e Devaneios . . . » Uma porta lateral abriu-se, e uma face branca e balofa, com lunetas d'ouro e um bigode tão preto que parecia de crepe postiço, mostrou-se, dizendo com voz de papo : — Oh, Melchior, redige ahi uma noticia da chegada do Meirinho, de Paris . . O homem já me fallou n'isso tres vezes. Trouxe-me uma lapizeira, coitado. Sete ou oito linhas catitas. E a porta fechou-se. Melchior tornou-se grave, esfregou as mãos devagar, accendeu reflectidamente outro charuto, e com os cotovellos sobre a mesa, os olhos cerrados, poz-se a coçar lentamente a calva ; depois, escreveu, riscou, releu, recomeçou e por fim recostando-se na cadeira, murmurou exhausto : — Não estou de maré. Hoje não vae . . . N 'esse momento, o sujeito de lunetas d'ouro voltou de dentro, de chapéu na cabeça, calçando as luvas : — Fizeste Melchior qne estaya pesado da cabeça. —- Escreve lá, homem ! — disse o de lunetas d'ouro, encolhendo os hombros com o desdem d'um 'ricaço d'idéas : — [Eemos entre nós o nosso pre- zado amigo João Meirinho, um dos ornamentos mais brilhantes do nosso high-life. S. Ex. a que é egualmente estimado em todas as cap taes da Eliropa . . . » Hesitou, passou os dedos pelas sobrancelhas e com a testa muito franzida, « . . . da Europa, onde as suas qualidades eminentes o tornam o alvo dos respeitos de todas as classes, é sempre bemvindo á formosa cidade do Tejo, onde . . . 9 — Ha dous ondes — advertiu baixo Melchior. — Deixa haver ! Põe . a cuja sociedade elle traz a animação, que é o distinctivo da brilhante » — Ha dous brilhantes — corrigiu Melchior. A observacào, deante d'um estranho, de certo irritou o sujeito, que replicou seccamente : — Mette-te lá com a tua vida ! — Põe : . . . da esplendida capital da França, esse esplen . . . esse resplandecente centro da Arte e das Letras. » — Ora ahi tem o menino, uma noticiazinha chic ! Ia a sahir, mas Melchior erguendo-se ceremo niosamente : — Quero-lhe apresentar o sur. Arthur Corvello, um poeta ; o snr. Saavedra, o nosso director. Saavedra apertou, protectoramente, a mão que Arthur lhe estendeu com servilismo —e pondo o chapéu mais ao lado : — Ah, esquecia-me. O João Carolino, do Ministerio do Reino, deu-me um folhetim para úmanhã... Manda p'ra dentro, elle vem revêr as provas, antes d'atirar o manuscripto sobre a mesa, abriu, leu alto : « Á BEIRA-MAR. —Sentado n'uma penedia, deixo «o pensamento vogar sobre a superficie liquida, « onde os dourados raios do sol poente espargem mil cambiantes de luz. E com a alma arrebatada, « contemplo a pasmosa maravilha da, ereaqão. Oh ! materialistas, escondei o rosto na vergonha de « vossa perversa blasphemia ! Vinde a este penedo, « se quereis ter a certeza da existencia de Deus. « Vinde a este penedo, gigante de granito Está opulento — murmurou. Atirou o manuscripto a Esteves, abaixou a eabeca a Arthur e sahiu trauteando. Melchior ergueu-se logo e com um sorriso : — Estou ás suas ordens, Snr. Corvello ! Oh, Esteves, aqui te deixo as noticias, hein ! —E de pé, ia-lhe passando pequenas tiras de papel, de que lia as primeiras linhas, n'uma verificação rapida : — Foi despachado alumno pensionista, etc Foi approvada a tarifa especial) etc Parece que o snr. Vieira não acceita a nomeação, etc. . . . O conheeido Mesquita faz leilão da sua casa de penhoe res, etc . . FOI acceite pela Camara Municipal de Villa Nova de Famalicão a proposta do marchante Augusto, etc. . . . Ilouve hontem uma desordem no becco do Monete, etc » Ahi tens as duas anecdotas que vinham no jornal hespanhol. A chegada do Meirinho. o que ha. Não vem mau o numero d'ámanhã Foi interrornpido por nós de dedos que batiam á porta, e, quasi immediatamente, dous homens entraram. Pareciam operarios : um d'elles, atarracado, tinha uma face honesta que attrahia, mas foi o outro, franzino e amarello, quem tomou a palavra. Um pouco embaraçado, puxando os pellos do bigodito e batendo com o chapéu na coxa, devagarinho, começou, enchendo a voz : — Nós gomos filhos do trabalho — Hesitou, procurando, na presença dos jornalistas, embellezar as suas phrases : — Somos da fabrica de fiação da Pampulha, e, como V. Ex. a sabe, estamos em grê- ce . . . A commissão entendeu que deveria publicar um communicado, para dar coragem, para levantar os animos . . . — Pareceu consultar o companheiro, accrescentou, córando : — Ainda que haja alguma despeza . . . Que as circumstancias — estendia o manuscripto. Melchior e Esteves entreolharam-se : Não, — disse Melchior — não é nada ; os senhores estão em greve e o Secado está na opposi Sae ámanhã, podem ir descangados. —A justiça é por nós — balbuciou o rapaz. Pareceu querer collocar uma phrase final, hesitou, fez um Signal ao companheiro, e sahiram ambos devagar, gingando levemente. Esteves abrira o communicado e parecia surprehendido. Melchior então, curioso, foi olhar por cima do hombro d'elle, e leu alto : « IRMÃOS DO TRABALHO ! Quando do alto do Golgotha, o Redemptor do genero humano, já « exangue, soltou o grito supremo, foi para procla- « mar uma aurora de paz e d'esperança e arrancar «a cadeia da escravid.ão dos pulsos dos filhos da democracia . . . » E continuava assim, em duas laudas, fallando da gargalheira de ferro dos tyrannos do credo da Ij.berdade da « arca da alliança Explicava a greve da Pampulha, como sendo a « aurora que raia para as victimas do despotismo » ; aconselhava os operarios « a que refrigerassem as frontes fatigadas no puro seio das filhas do povo» ; e depois de novas amplificações sobre o Christo, terminava: « a vossa commissão grita-vos do alto da collina : coragem, heroes do trabalho, coragem ! » — Hem '. fez o Melchior, attonito. — P 'ra ser d'um operario ! Está esplendido ! Manda-o pôr na segunda pagina, caramba ! Tambem Arthur estava surprehendido. Que cidade, Lisboa, em que dos empregados aos tecelões, todos tinham a preoccupagão da eloquencia e a fé na publicidade ! Não se conteve, soltou a sua phrase : — Lisboa é a estagSo central da intelligencia Mas o rapazito de blusa entrou vivamente na redacção : — Está alli outra vez o homem do hotel com a conta ! Melchior atirou-se com um salto para a saleta interior e pela porta entreaberta, com grandes gestos, a voz abafada : — Que não estou, que fui para o campo ! Ouviu-se fóra um vozeirão irritado e o rapazito esoaniçando-se replicar, quisilado ; depois, houve um silencio, e Melchior, com cautela, mostrou a face inquieta : — Foi-se Esteves que assobiava a Somnambula moveu affirmativamente a cabeça. — Pois estou ás suas ordens — disse Melchior subitamente tranquillo. Tirou do bolso a carta do Rabecaz e sentando-se : — Pois aqui está o que me diz o maganão do Rabecaz : « ahi vae o amigo Ar « thur Corvello, com versos muito catitas e um dra ma que é d'arromba. Aquella cabeça é um mun « do ! Quer conhecer a bella rapaziada litterata e « como seu bondoso padrinho lhe deixou grossa ma« quia, ahi o tens que quer florear na Capital e en« cher o ventre da bella pandega Arthur protestou logo : — Não, eu venho sobretudo por causa de drama. — Ha tempo para tudo ! — disse Melchior, com um grande gesto. — E então demora-se — Naturalmente. — Pois eu estou ás ordens, disponha de mim. Com franqueza . . . Quando é que V. Ex.a está em casa Eu vou por lá, almoçamos, conversamos, e vamos por ahi vêr o que ha. Serve-lhe ? Arthur agradeceu, commovido. Melchior foi a um pequeno lavatorio que havia ao canto, lavou as mãos e approximando-se, a puxar as calças para a cinta : — Ámanhã, por exemplo, hein — Perfeitamente. Estou no Hotel Hespanhol. — Oh, Esteves, esses livros que ahi mandaram para annunciar, leva-os ao Salomão, mas não os largues a menos de tres tostões cada um, pelo amor de Deus ! E voltando-se para Arthur : Andiamo ? à porta, porém, lamentou não poder acompanhar Arthur ; tinha um rendez-vous. — Sabe o caminho, não é verdade ? Bem. ímanhã, ás 11, no Hespanhol ! Almocinho simples ! Alt Tight ! Creado de V. Ex.a. Mas não veio na manhã seguinte, nem ao outro dia. E Arthur, já inquieto, e querendo ao mesmo tempo aproveitar a opportunidade de mostrar estyIo, resolvera escrever-lhe um bilhete muito litterario : De certo os altos trabalhos Nesse rochedo de Sisypho, que se chama a imprensa, têm-no absorvido e esqueceu-se de que prometteu vir Partilhar commigo do leite e castanhas, de que fallí) o divino Virgi110 . . . ». Tinha fechado o sobrescripto e limpava com agua de colonia uma nodoa do fraque preto, para sahir, quando a porta se devagar e appareceu Melchior. Ia-lhe justamente mandar carta . — exclamou Arthur. Melchior allegou affazeres, uma pessoa das suas relações que estivera doente . . . — Mas estava a limpar o fatiOh0, pelo amor de Deus, não se interrompa ! — minou o fraque e observou como entendedor : —--jsso, só com benzina. Arthur córou, atirou o fraqoo para uma cadeira e negligentemente : —É um fraque velho— disse—•— tenho de mandar fazer fato .. . . serio : Melchior tomou um ar muita — Com franqueza, aconselha-lh'o. Em Lisboa é necessario andar bem vestido. Que tal lhe parece isto ? — E rodava nos calcannores, devagar, mostrando o fato de cheviote clar0-• — Muito chic, não é verdade ? Pois, aqui p'ra —s, mas não o diga, Por quem é, não o diga . . . Dezzasseis mil réis. No Strauss eram quarenta. Heb Que espiga ! E em conclusão, provou-lhe que devia fazer fato no « seu homem que era o Victorino, o Victorino dos Calafates. — Está decidido, hein Vamos ao Victorino ? Arthur acceitou logo, com reconhecimento — e desceram para o almoço. O creado pareceu revêr com alegria o sô Melchiorzinho. Melchior tambem se regosijou d'encontrar o Manuel ; perguntou-lhe mesmo se ainda estava no hotel o Vicente . . . E a Justina que era tão bem feitinha Ah, o Hespanhol já não era o mesmo ! Era egualmente a opinião do Manuel. E tiveram ambos um bamboleamento saudoso de cabeça, deitando o olhar desanimado pela sala, como na muda contemplação de ruinas. — Uste,d é que sabe, — suspirou o Manuel — usted é que sabe ! O almoço foi longo, copioso, muito saboreado. E, com grande prazer d'ATthur, Melchior fallou longamonte de Lisboa. O que havia de melhor, segundo elle, era a bella rapaziada ! Porque lá isso de soirécs, bailes, — historias ! No fim, para que se estava n'este mundo P 'ra gosar, ter amigos alegres, um bom jantarzinho, uma pandegazinha, umas mulherzinhas de vez em quando. E para isso, não havia como Lisboa ! — O amigo verá ! exclamou, batendo no hombro d'Arthurq Parecia gymplthisar com elle ; ao café, propozlhe mesmo que deixassem as excel!encias ; o melhor era você cá, você lá, e liberdadezinha . • • Elle gostava de liberdade. • — Como todo o homem intelligente e que tem o espirito moderno disse Arthur, que procurava com insistencia elevar o tom do dia,logo. — Não é lá de politica que eu fallo, acudiu Melchior, chupando o fundo do calice de cognac isso são historias! O que eu digo é cá esta liberdadezinha ! Uma cavaqueira com um bom amigo, uma comidazinhan'um hotel conhecido • • • bella rapaziada. O mais é parvoíce ! Arthur que a preoccupação poetica torturava, disse então, um pouco embaraçado, com um sorriso artificial : —A proposito de liberdade . . . Se o meu amigo não acha maçada . . . queria que me desse a sua opinião sobre alguns versos . . . sobretudo uma Ode á Liberdade. Talvez não desgoste Melchior bebeu d'um trago outro calice de cognac e limpando precipitadamente os beiços : — Ás ordens ! E levantaram-se ambos. Arthur, ao subir para o quarto, sentia « colicas Ia emfim mostrar a sua litteratura a um jornalista, a um critico, a um lisboeta. Abriu o manuscripto com uma tremura nas mãos : — Que tal lhe parece o titulo, Esmaltes e Joias ? Melchior, gae se sentara aos pés da cama, pesado do almoço, disse, agradado : — Tem chic. Arthur procurou a folha, cuspilhou, e começou : ODE Á LIBERDADE Eil-a que se ergue na collina santa A Santa Liberdade. Contempla o céu e desgrenhada canta: Acorda, humanidade! E seguia-se, no mesmo desenho estrophico, um longo monologo da Liberdade : amaldiçoava os Reis, bemdizia os povos ; dizia-se « virgem immaculada, visão aerea, pomba da arca e bonina do valle » ; promettia cearas aos humildes, gargalheiras aos grandes ; exaltava a tunica de Christo e as algemas de Spartacus ; e, brandindo no ar da manhã uma espada mystica, terminava clamando : A hora já soou, a Aurora vem . Baqueia a realeza I E já se ouve na cidade além, Rugir a Marselheza I — Que lhe parece ? — perguntou Arthur, ainda offegante de excitação declamatoria. — Está forte, está forte que tem diabo ! —E Melchior, olhando-o quasi com terror, accrescentou : — Safa, o amigo tem idéas muito exaltadas ! Jogo Communa p'ra frente, hein Irra ! — Mas se me dá licença, escapou-lhe ahi uma cacophonia. É quando a Liberdade entra e diz que arrasta o manto . . . Ora leia. Arthur releu, inquieto ; era uma das suas estrophes queridas : Chamaes-me, Cidadãos? Eu aqui estou: Alas á Liberdade: Nunca cauda mais pura se arrastou Nas Iages da cidadel — Ahi está ! — exclamou Melchior. — Cacophonia. Eu digo isto, o amigo desculpe. Mas vê, nunca cauda ca-cau . . . cacau ! Eu pego desculpa, mas ás vezes são cousas que escapam ! E aqui em Lisboa, a critica começa logo a pegar ! É muito severa, é de tremer ! Começam logo a achincalhar ; ca-cau, cacau do Brazil, chocolate É o diabo ! O amigo tenha paciencia. São cousas em que é necessaria muita cautela ! Arthur estava escarlate ; aquella cacophcnia na sua ode envergonhava-o tanto como um piolho que lhe encontrassem na gola do fraque ; riscou logo o verso com rancor. Aquillo naturalmente escaparalhe ao copiar. E para se desforrar — quiz lêr a Rosa ao Valle. Mas Melchior acudiu : — Olhe que já se faz tarde para o Victorino, veja lá ! — E com um tom profundo : — É melhor irmos ao Victorino ! Como lhe devia uma conta e o Victorino se impacientava, Melchior aproveitava com jubilo aquella opportuuidade de «o adoçar» levando-lhe um freguez rico — e ia pela rua, muito chegado a Arthur, aconselhando-lhe despezas : — Faça casaca, deve fazer casaca ! Em Lisboa é essencial . . . é a especialidade do Victorino ! — apertando lhe o braço, muito grave : — sobre casaca É de rigor ! Subiram a um terceiro andar, e n*uma saleta com transparentes côr d'oca na janella e raros cortes de panno n'uma prateleira envidraçada, o Victorino, um magricellas coxo, côr de limão, recebeu-os aos pulinhos sobre a muleta ; havia um vago cheiro a refogado ; n'um quarto proximo ouvia-se o rabujar d'uma creança e o tic-tic-tic d'uma machina de costura — que fez lembrar a Arthur o estabelecimenIto triste do Serrão, o seu alfaiate de Oliveira. De sejaria ter ido a alguma casa com rimas de fazendas no chão, figurinos pelas mesas e altos espelhos nas paredes, mas dominado pela loquacidade do Victorino, pelos conselhos enthusiastas de na vaga inercia molle que lhe dera o almoço e o sol calido da rua, consentiu em encommendar uma casaca, uma sobrecasaca, calças, e um fato de mescla, sem enthusiasmo, muito descontente com as fazendas ; alludiu mesmo, mais por complacencia com o Melchior do que por influencia do seu antigo sonho, a um robe-de-chambre de trabalho, apertado por cordões de borla. — Tambem se lhe faz, tambem se lhe faz — acudiu o Victorino, excitado. — De velludo — disse timidamente Arthur. — Caspité ! — exclamou o Melchior, curvando-se profundamente. — Que freguez, hein ? D'aquillo não pilhava o sô Victorino todos os dias ! O Victorino correra a buscar amostras de vellu dilho—qua.ndo, do quarto proximo, sahiu uma mulher bem feita e de pelle muito branca, com uma creança estremunhada ao collo, toda rabujenta. Mel chior abriu vivamente os braços com una exclaEnação : —- Viva 0 fidalgo ! Então como vae a D. The reza ? Como vae isso ? E precipitou-se a beijocar o pequerrucho, chamando-lhe seu caro amigo, fazendo-lhe beribau no beiçinho, cocegas na barriguinha, roçando-se muito pela mãe. Tem estado com uma perrice — disse ella. — Seu maroto, seu maroto ! — roncou Melchior com voz de papão. mostrando-o a Arthur : — Que belleza, hein que bolleza ! O pequeno, assustado dos bigodes de Melchior, recomeçou a berrar, O jornalista, muito servil, afagou-o, fez glou-glou com a lingua, seguiu mesmo a mãe ao quarto, apalhaçando-se, e, d 'ahi a momentos, de certo para acalmar a creança, Arthur ouviu-o repenicar a viola franceza, cantarolando um fado de pretos. O Victorino, diligente, ia tomando as medidas a Arthur. —É cá muito de casa, o Melchior ! Grande cabeca ! A calcinha larga em baixo, hein — Sim, larga . a — Ha-de ser servido a preceito. Quando sahiram, a D. Thereza veio até ao patamar ; o pequeno socegara, com duas grossas lagrimas nas pestanas. Melchior foi logo puxar-lhe as rosquinhas do pescoço, lambuzou-lhe a face de beijocas, chamando-lhe amor, -principe ; — depois, apertou longamente a mão ao Victorino, fallou-lhe ao ouvido, abraçou-o mesmo pela cinta. — Grande gente ! — dizia, descendo a escada. —E a mulher nio é feia — observou Arthur. — Trago-a d'olho — disse Melchior. Na rua do Ouro pareceu espantado de serem{já tres horas, — Que diabo ! Tenho um rendez-vous ás tres e meia ! Não occultou mesmo que era questão de femea... Mas custava-lhe largar o amigo Arthur. Que bella manhã tinham passado, hein ? Caramba, podiam fazer uma cousa! vinha buscal-o ás cinco e iam ambos jantar ao Hotel Universal ! Havia de vêr que jantar! E que bella rapaziada! Valeu, hein? Ás cinco! Arthur voltou logo para o Hotel. A cacophonia na Ode á Liberdade, torturava-o desde manhã, e como esperava lêr as outras poesias a Melchior, toda a tarde, curvado sobre o manuscripto, de lapis na mão — com a attenção esmiuçadora d'um jardineiro sobre um canteiro de rosas — catou cacophonias nos versos. Melchior, muito pontual, encontrou-o ainda tra balhando : — Com os versinhos a contas, hein Sentou-se pesadamente na cama e retorcendo os bigodes : — E que tal de mulheres, lá por Oliveira — Um horror ! — Pézinho descalço, cheirinho a suor ! — E re clinando-se com satisfação : — Não deixa de ter seu cabimento . . , , Arthur achou-o « grosseirão mas sorriu para o lisonjear—e confessou que desejava lêr-lhe a do vaue. — Olhe que se faz tarde para o Unicersal ! — exclamou logo Melchior, pondo-se de pé. — Arriscamo-nog a não achar logar ! No Universal é muito serio ! Deu uma penteadela rapida no cabello, nos bigodes e olhando-se satisfeito ao espelho : Verá que rapaziada ! Muito chic ! Arthur lembrava-se das descripções do Rabecaz : de certo ia encontrar no Universal litteratos, deputados, diplomatas, cantores, um mundo de civilisação superior — e um pouco envergonhado do seu fraque preto, quiz, ao menos, comprar luvas claras. — Homem ! — disse Melchior — tambem eu preciso de luvas ! Mas que ferro, tinha-lhe esquecido o dinheiro ! Arthur, immediatamente, antes d'entrar na loja, offereceu o seu porte-monnaie aberto. Que diabo, entre rapazes — Você calha-me, Artur, você calha-me ! exclamou Melchior, com um impeto irreprimivel de gympathia. E ambos, de luvas claras, subiram o Chiado, de braço dado — decididos tacitamente a estimaremse, ligados já por uma amizade nascente. Tinha-se servido a sopa, quando entraram na sala do Hotel. E no primeiro relance, o aspecto das mesas, com brilhos de vidros e de plaqués faiscando sob a luz crua dos lustres de gaz, os ramos de flores fazendo centro á ordenação das sobremesas, as pessoas bem vestidas que julgava illustres, as gravatas brancas dos creados, deram a Arthur um vivo deslumbramento, immobilisaram•no junto da porta, um pouco embaraçado, passando, com um gesto errante, os dedos pelo bigode. Mas Melchior, que se apossara de duas cadeiras ao pé d'um sujeito pallido, chamava-o, muito alto : — Para aqui, amigo Arthur, ficamos aqui ao lado do Carvalhosa ! Ao adeantar.se, perturbado, com as palmas das mãos suadas, tropeçou n'um creado, que se voltou, furioso, e Melchior, immediatamente, apresentou-o ao snr. Carvalhosa, o illustre deputado. — Eu conheci V. Ex.a em Coimbra — disse Arthur com um esforço, córando, Conhecera-o, quando Carvalhosa publicava meditações democraticas na Idéa, fazia discursos lyricos no theatro acaaemco e era iiiustre por vicios que lhe tinham deixado para sempre na face uma amarellidão d'hectico. No terceiro anno levara um R — e passara desde então a ser na Briosa o republicano mais ardente. Porém, nomeado deputado do governo por influencia d'um tio, apresentado em Lisboa a Pares do Reino, introduzido em algumas casas onde recitava, enthusiasmara-se peug Instituições e concebera um respeito desmedido pela Monarchia. Tinha Ema gula immensa da pasta da Marinha — e fallava de papo sobre questões de politica, á porta da casa Havaneza, torcendo a ponta da pêra com os dedos queimados do cigarro. Era conhecido pelas suas imagens — safadas pelo uso de gerações, como velhos patacos do tempo do snr. D. João VI — e os jornaes faziam sempre preceder o seu nome do adjectivo inspirado ! Abaixou a cabeça a Arthur e fallou um momento a Melchior com condescendencia, como do alto d'uma nobre escadaria intellectual. Era da Provincia, vivia na Provincia e sentia-se bem, ao ouvil-o, que os proprietarios graves dos Arcos-de-Val-de-Vez deviam dizer d'elle na Assembleia, com admiração e desconfiança : — Grande cabeça, mas muito poeta ! — Então deixou Coimbra ? — perguntou elle a Arthur. — Ha doas annos ! Melchior apressou-se a citar com verve : Coimbra, terra d'encantos Do Mondego alegre flÔr Arthur terminou logo : Venho pagar-te em meus cantos Tributo d'antigo amor I E o Carvalhosa emendou : Venho pagar-te em escarros Tributo do meu rancor I • — Bravo ! Bravo ! — exclamou Melchior com ruido. — Essa é das boas Aquelle curto fragmento de dialogo, tambem pareceu a Arthur muito fino, muito da Capital, e recostou-se na cadeira, com uma satisfação commovida. Toda a sua vaidade se dilatava ao sentir-se alli, a uma mesa rica, entre individuos que suppunha personagens eminentes da Politica, das Letras ou da Finança ; todos os detalhes lhe agra-l davam— a luz forte do gaz, os molhos, a atten-t cão dos creados, os syphões, — mas movia os braços com um cuidado acanhado, como se receasse quebrar alguma cousa, observando-se, impondo-se modos delicados. A sua alegria foi completa, quando um sujeito que estava a seu lado e no qual não reparara, se voltou para elle e lhe disse com amabilidade : — Então, mais descançadinho da sua jornada Não o tinha reconhecido ! Era o sujeito do wa gon, que trazia um cãozinho no cesto. Fallaram das fadigas do comboio, do cão, da chuva no Entron camento. Então Melchior, reparando no dialogo, estendeu precipitadamente a mão por traz da cadeira d'Arthur, exclamando : — Oh, João Meirinho, desculpe homem, não tinha dado por você :i — Lá vi, lá vi ! — acudiu logo Meirinho, com o rosto nutrido, luzidio de reconhecimento. — Lá vi, muito boa noticia ! Todos gostaram muito. É d'amigo, é d'amigo. — E indicando Arthur : — Fomos companheiros de viagem. Arthur, lembrado agora da noticia que vira compôr no Sccu!o, ficou todo alvoroçado com a amizade d'aquelle «ornamento do high-life», estimado em tantas capitaes da Europa. Julgou delicado dizer-lhe: — Eu tinha lido a noticia . e . — Fazem-me o favor de me estimar, — disse Meirinho, enternecido — fazem-me o favor de me estimar ! Tornou-se então muito affavel com Arthur; Offereceu-lhe da sua agua Apollinaris para misturar com o vinho, deu-lhe noticias do cãozinho : tinha chegado optimo, fazia o regalo das meninas ! Era um amor q. — Depois, fallou de si. Havia muita verdade na local do Seculo : em geral era estimado, e a razão era esta : é que gostava d'obsequiar ! Não imaginava o snr. Corvello as encommendas que trouxera de Paris ! Vivia em Paris, modestamente, por. que não era rico , . . Bom Deus, longe d'isso ! Mas vinha de dons em dous annos a Lisboa. Paris, que deliciosa terriola, não é verdade Ah, tinha lá bons amigos ! Até o duque de Grammont lhe dizia sempre : JIerignô, cous êtes tout à fait des nôtres ! Ah, lá isso, era estimado . . . Mas, no fim, este cantinho do nosso Portugal era muito apreciavel. E depois, havia outra cousa : em Lisboa não soffria tanto de nevralgias Fallava com uma voz baixa, affectuosa, acari ciando a sua bella barba clara, com a mão bem tratada, onde reluzia um brilhante ; tinha na sobre casaca a roseta da commenda de Carlos d'Hespanha. E era tão affavel que ao assado já dizia a Arthur .• — meu prezado amigo, meu bom compa nheiro de viagem ! Quiz saber se elle vivia em Lisboa. — Não ? Ah, a provincia é muito apreciavel Ha muita bondade na nossa provincia, muita bondade. Eu, por exemplo . . . Interrompeu-se para responder a um sujeito d'aspecto pomposo, bello rosto côr de cera e bigodes tão lustrosos que pareciam envernizados — que do outro lado da mesa lhe perguntava porque não fôra na terça-feira a casa de I). Joanna Coutinho : — Não pude, meu bom Padilhão ! A snr. a Mar. queza não consentiu, positivamente não consentiu, Tinhamos uma deliciosa putida de manilha . . . Pediu então detalhes da soirée : D. Frederico ralhára muito ao whist? Tinha estado a divina Viscondessinha de Lordello ? E tu que fizeste, Padi[hão O individuo alteou o peitilho lustroso e muito decotado : — Na terça-feira passada ? Oboé e Emilia das Neves. Gostaram muito. — Conhece a D. Joanna Coutinho ? — perguntou Meirinho baixo a Arthur. — Não. Ah, pois era um salão adoravel. Excellente musica, lindas mulheres, dançava-se, recitava-se. Iam muitos estrangeiros. — Deliciosas terças-feiras — disse com beatitude, cerrando os olhos. Sob a influencia d'aquella intimidade e do jantar, Arthur acclimatava-se ; tinha mesmo perguntado, accentuando o seu d.esembaraço, a Carvalhosa : — V. Ex. a não voltou a Coimbra ? — O forçado livre não revisita as galés — respondeu Carvalhosa seccamente. Arthur procurou inutilmente uma phrase pittoresca : não a achou, e, calado, começou a escutar aqui, além, curiosamente. As conversas interessavam-no prodigiosamente e nas palavras triviaeg, novas para elle, parecia entrever, sob as amplificações da imaginação, revelações d'existencias superiores. Uma discussão, ao alto da mesa, sobre a dissolução da Camara, cheia de nomes de ministros e de citações d'oradores, deu-lhe a admiração da Vida Politicas grandiosa pelo dominio dos fortes, pittoresca pelas emoções da intriga e ennobrecida pelos idealismos da eloquencia. Sujeitog que fallavam pesadamente de Bancos, letras, fundos, corretagens, interessaram-no pela Vida Financeira, onde se revolvem milhões e o genio dos Nucingens, corno em Balzac, cria thesouros. Ao seu lado, uma questão sobre S. Carlos excitou o seu amor do theatro. Meirinho recomeçara a elogiar as terças-feiras de D. Joanna Coutinho e a vida so cial apparecia-lhe, com todo o romance dos amores aristocraticos, acompanhada de arias ao piano, em salas espelhadas, onde se movia graciosamente a gentil senhora do vestido de xadrez ! Que pouco tinha pensado n'ella, n'aquelle primeiro deslumbramento que lhe dera Lisboa ! De certo, muitos d'aquelles homens a conheciam, mas eram quasi todos de meia edade, de figuras fatigadas, com interesses positivos, e não sentia ciumes, na certeza de que nenhum a poderia interessar. E de todo aquelle cavaco ruidoso se desprendia para elle o indefinido conjuncto da vida de Lisboa, complexa, intensa, fortemente dramatica — onde. como sobre um fundo luminoso, se destacava a figura delicada da senhora do vestido de xadrez, que adorava agora, n'aquella dilatação da sensibilidade que lhe dava a excitação do jantar, Tinha-se servido o café e uma vozearia erguia-se no fumo alvadio dos charutos. Com os cotovellos na mesa, em attitudes pesadas de fartura, sujeitos fallavam com intimidade ; ao fundo da sala, n'uma altercação aspera, um individuo de lunetas gritava, perguntando se o tomavam por tolo ; um homem de pelle córada, enfartado, arrotava tranquillamente ; o Padilhão queimava cognac no café, e o Melchior, excitado, discutia com o Visconde, com palavras muito cruas, as pernas da Vizenti, a primeira dangarina de S. Carlos. Mas Meirinho erguera-se e indo bater no hombro de Melchior : — Você quer vir cá a baixo ao quarto do Sarrotini ? E mais cá o amigo ! — accrescentou, dando palmadinhas no hombro d'Arthur. — Prompto — exclamou Melchior. E de pé, puxando as calças, o charuto flammejante : — E d'aqui para S. Carlos, hein, Arthur Vae dia cheio' . —- chamou o creado : — Dá a conta a este senhor, ó Vicente ; depressa, hein ? Bom jantarzinho, Meirinho ! Arthur tambem achara o jantar excellente. — Melhor que no HespanhoZ — acudiu Melchior — não é verdade ? Você, Arthur, o que devia era vir para cá para o Hotel. Aqui goza-se ! Meirinho disse com auctoridade : — E para quem se quer relacionar, nada melhor. Arthur já entrevira, com delicia, aquella possibilidade. E descendo para o quarto de Sarrotini, o tapete do corredor, o retinir d'uma campainha ele- ctrica, um creado apressando-se com um taboleiro onde tilintavam louças, o som distante d'um piano, iam-no persuadindo tentadoramente. Que interessante seria, viver alli ! — Quem é o Sarrotini —É o segundo baixo de S. Carlos — disse Melchior. — Grande pandego ! Abriram a porta do quarto, mas Melchior, avistando um sujeito de gaforina frizada, que fumava, languidamente estendido no sofá, não entrou : tinham d'ir a S. Carlos, não se podiam demorar, Junto da porta, o Sarrotini, de jaquetão de veludilho sobre calças côr d'alecrim, grosso e vermelho, abraçou Melchior, a el ilustre periodista » ; apertou a cinta de Meirinho, dilecto amico » ; deu um shake-hands apaixonado a Arthur, fallando um italiano misturado d'hespanhol, verboso e jovial. Arthur olhava curiosamente a saleta : varias pessoas conversavam animadamente, bebendo café ; em torno das luzes d'um piano aberto, havia uma imponderavel nevoa de fumo de charutos, e um sujeito d'oculos d'ouro preludiava, com o olhar errante no tecto ; sobre uma mesa estava uma rabeca, livros de musica enchiam uma poltrona, e de pé, com gestos vivos, um rapaz de fato claro, fallava violentamente : discutia-se Arte—e Arthur, enthusiasmado, ouvia os nomes de Courbet, Corot, .Delacroix . . Mas houve um chui! E um moço paiiido, de buço claro, approximou-se do piano, ageitou os cabellos para traz das orelhas com um gesto dôce, fallou baixo ao pianista d'oculos d'ouro, e cerrando os olhos, com a cabeça inclinada, os labios entreabertos, cantou. Pela letra, Arthur reconheceu ser o duetto de Romeu e Julieta : era uma melodia d'uma adoração mystica e contemolativa, e a voz do moço pallido subia, n'uma supplicagão extactica, ao dizer : Ce n'est pas l'alouette, Non, ce n'est pas le jour; C'est\le doux rossignol, confident de l'amour Arthur escutava, encantado : parecia-lhe vêr no rythmo da musica dous braços tremulos elevaremse dos degraus d'uma escada de sêda para um balcão gothico, d'onde se debruça uma fórma branca, emquanto o rouxinol canta nos massiços d'um antigo jardim Mas Melchior, fechando a porta, travou-lhe do braço e foi-o levando pelo corredor, ainda deslumbrado d'aquella soirée de Litteratura e d'Arte, tão rapidamente entrevista. — Aquillo é que é passar noites — disse elle. — O amigo devia vir có para o Hotel — disse Meirinho, Melchior insistia, achava que era melhor. E Ar thur, com um vago sonüo, antevia 80iréa comoaquella, cheias de conversas originaes, escutando musica, na preguiça enternecida das digestões ricase — Talvez não haja quarto — lembrou, já seduzido. — Ora essa ! — exclamou Meirinho. E como o guarda-livros passava assobiando, chamou-o logo, levou-o para um canto, e, como se tratasse um negocio grave, fallou-lhe com ammacão : era um hospede a mais ; elle, o que queria, era que o Hotel prosperasse, hein ! E esperava que comprehendegsem que elle fazia tudo para chamar hospedes O guarda-livros tinha justamente, no terceiro andar, a um quartinho a calhar E Melchior que se deleitava ó idéa de vir jantar repetidamente com Arthur, exclamou logo que o deviam ir vêr já, para dar o seu parecer Era um quarto com estofos de reps azul e janella para a rua ; a mobilia, que á noite, á luz do gaz, lhe parecia ter um tom rico, tentava-o. Mas a despeza ! No emtanto, pensava que era indispensavel viver alli, para as suas relações litterarias . . p. Era mesmo habil ; depois, um artista devia estudai a vida, não nas suas pobrezas, as no seu luxo. — Tem por vizinha a Baretti, a segunda Dama — disse o guarda-livros, piscando o olho. — Rica mulher, caramba . — fez Melchior. — Grande espertalhão — accrescentou. E começou a explicar pozque não quizera entrar no quarto do Sarrotini : é que estava lá a besta do Guerreiro Mendes . . . Fazia-lhe mal aos nervos aquelle animal ! Arthur admirou-se : o Guerreiro Mendes ? O auctor da Margarida, um romance d'uma paixão tão intensa, á Werther ? —É uma besta ! — resumiu com tedio Melchior, que antes do jantar parecera a Arthur tão cheio de bonhomia, e que agora, sob a acção do Collares e do cognac, tinha nas expressões e nas opiniões uma dureza irritada. — Alli tem você S. Carlos : chic, hein ? Levou-o logo á bilheteira a comprar duas cadeiras « do lado do Rei » — o diabo do Saavedra não largava a cadeira do Secuto ! Em baixo, pediu ao « porteiro amigo D, a quem bateu familiarmente no hombro, o binoculo do só Mesquita ; apagou o charuto meio fumado, que guaydou a um canto, porque os tempos não estavam para desp ordicios » e tendo cofiado os bigodes — empurrou o batente verde. Como esc?eveu, no dia seguinte, ao Rabecaz, Arthur ficou deslumbrado com S. Carlos : «a ma« gestosa architectura dos camarotes, a vastidão do palco, a soberba tribuna real e aquella socie dade elegante, silenciosa, escutando uma divina musica, é realmente, amigo Rabecaz, impres- sionante ! » Cantava-se a Africana, e o panno erguera-se para o segundo acto. Sentindo-se olhado, ao atravessar para a sua cadeira, Arthur, atarantado, com todo o sangue na face, ia pisando sujeitos indignados. — Oh, senhores ! — exclamou alguem, torcendose furioso na cadeira. Arthur, afflicto, nem poude pedir perdão e immovel na sua cadeira, com o chapéu nos joelhos, o espirito esmagado, pasmava para uma decoração de carcere, onde uma dama gorda, côr de cobre, barbaramente ornada, junto a um catre onde um homem dormia, balançava, cantando, urn leque de plumas. A sua voz calida, revibrante nos agudos, lasciva nas modulações doces, deu-lhe um arrepio d'emoção, —É a Sassi — disse-lhe baixo Melchior. — Que lhe parece o theatro Arthur fez apenas um movimento admirativo com as sobrancelhagr, Como Melchior disse depois, durante todo o acto esteve embatocado i). Os personagens, com os seus gestos melodramaticos, pareciam-lhe mover-se vagamente na instrumentaçã0 substancial e massiga, como n'uma atmosphera so- nora de sonho. Olhava a decoração, as passadas selvagens de Nelusko, as duas columnaa do proscenio, tocadas d'alto a baixo d'um vivo de luz, os camarotes que lhe pareciam muito distantes, a pallidez dos rostos sob a luz do gaz, e sentia-se envolvido n'uma harmonia magnifica e incomprehensivel, em que por vezes seguia, durante um momento, meIodias delicadas que o tumulto da instrumentação bem depressa absorvia. A magnificencia orchestral, junto á riqueza social que gentia em redor, davamlhe uma vaga oppressão. Quando o panno desceu respirou com allivio ! — Vamos vêr o gado ! — disse logo Melchior, erguendo-se. Saudou em redor com a mão : — Olé, Visconde ! Viva, amigo Silva ! —e depois d'examinar rapidamente os camarotes, declarou com desdem que não estava ninguem decente — e que ia acabar o charutinho, Intimidado pelo sussurro de vozes que se levantara na plateia, Arthur não se mexeu. Os seus olhos saciavam-se dos detalhes, sofregamente. E da alta disposição dos camarotes d'um tom rico e escuro, do lustre com fulgurações de pingentes, pondo na tonalidade sombria relevos claros de envernizados brancos e de dourados, da gravidade monarchica da tribuna, desdobrando a sua cortina de velludo côr de cereja entre as cariatides herculeas, dos Reis, das toilettes, das casacas dos homens, desprendia-se como que a evidencia da grandeza da Capital e da magnificencia da Monarchia. As mulheres, sobretudo, impressionavam-no : na compostura dos seus movimentos, na brancura dos seus pescoços, sentia a influencia das genealogias que as ennobreciam e dos palacetes que habitavam ; admirou as luvas de oito botões e as fórmas dos penteados ; desejava saber o que diziam, porque sorriam. Estaria Ella ? Procurou-a até ás torrinhas, com o binoculo. Não a viu—-e invadiu-o uma vaga melancolia. O jantar pesava-lhe, o calor amollecia-o. Nas filas clareadas de fauteuüs, reparava agora em homens, de cabello lustroso e bem cortado, com peitilhos resplandecentes, em attitudes languidas. O seu fato coçado separava-o d'aquella sociedade bem vestida, com ru ges-ruges de sêdag e gravatas brancas : havia em todas aquellas pessoas a afinidade d'uma frequentacão permanente, conheciam-se, sabiam, uns dos outros, os sentimentos, as fortunas, o timbre da voz, os parentescos ; sentia-se vagamente um intruso : desejou ser titular —e que o Victorino lhe mandasse depressa a casaca ! Depois, presentia n'aquella sociedade, instinctivamente, uma indifferença pela Arte, pela Poesia, pelo Genio: havia nas maneiras alguma cousa de ficticio, incompativel com a preoccupagão do Ideal, nas conversas, o que quer que fosse de ligeiro, que denunciava a trivialidade das idéas, Parecia-lhe agora que o seu livro, os Esmaltes e Jda8, todas as suas poesias, o seu drama, não seriam bastantes para interessar aquellas indifferen — como, ai ! o seu dinheiro era insufficiente para egualar aquellas elegancias. Veio-lhe uma vaga melancolia, pelas excellencias do seu coração desconhecido e as scintillações do seu talento inedito. triste, com a desconsolação de se sentir mal vestido, de ser obscuro, tímido, olhava para o braço do rabecão, apoiado á grade da orchestra, pensando no seu quarto em Oliveira d'Azemeis, nas noites vibrantes de trabalho, em tantas aspirações d'então, que a presença d'uma burguezia rica, prospera e aparentada, lhe fazia agora parecer irrealisaveis. E lembrava-se de Oliveira d'Azemeis, como d'um elemento natural em que não contrastava. Mas os musicos, sahindo de baixo do palco, installavam-se e afinações de rabeca corriam na orchestra : o publico voltava e o panno, erguendo-se devagar, descobriu um galeão arrogante e decora- Soldados com mosquetes passeavam no castello da proa. N'um cubiculo baixo, um fidalgo, de gibão de velludo e gorro de plumas, media com um compasso, sobre um mappa ; e cercada de comparsas de faces avelhentadas e gastas, uma dama gorda cantava, sentada n'uma postura de sarau. A desafinação dos coros irritava os dilettantes : havia d'escarneo. Que escandalo ! rosnava. ge grossamente, com indignação. Ih ! Jesus ! », gania-se com arrepios. Melchior, affectando um horror de critico, tapava os ouvidos. A dama córava, empallidecia, via-se-lhe um suor afflicto —e não tirava de sobre o seio bojudo a mãozinha papuda. Mas uma sineta deu um toque melancolico, e ROIdados e marinheiros começaram, n'um canto largo, a orar a S. Domingos. Então, tacões patearam ; um sujeito, ao lado, soltou uma brutalidade irritada. Melchior voltava-se para os lados, acc,usando o ensaiador, a empreza, o governo, e acabou por se enterrar na cadeira, n'uma resignação sombria. — Isto nem é S. Carlos, nem é nada ! uma choldra ! No emtanto, Nelusko, apparecendo junto ao. mastro, ó proa, soltava, n'uma grande attitude, o seu Áterta I Alerta marinari II vento cangia Apitos de manobra silvaram e na orehestra passaram os rumores grandiosos d'um mar descn.cadeado, que brama sob a cerração temerosa. Arthur, enthusiasmado, achava-se em plena Historia Tragico-Maritima. O periodo das Descobertas, que só conhecia por fragmentos, sempre tivera para elle uma poesia emocionante, e a antiquada estructura do galeão, as plumas dos fidalgo» o pharol primitivo no castello de proa atirando a primeira luz ás aguaz virginaes, davam-lhe visões de navegações heroicas : parecia-lhe vêr as caravel1as do Gama, passando o Cabo ; sentia a oração dos homens, com um grande medo no coração ; ouvia o brado do mar, dando em vão nos penedos; os gritos que passam no ar e são a alma errante dos mortos naufragados . . . e aquellas imaginações da arte exaltavam-no retrospectivamente pelas realidades da historia. Magnifico, Melchior ! — disse baixo. O outro acotovelou-o : — Veja-me agora isto. Era Nelusko, que, entre a marinhagem apavorada, com gestos temerosos e cavidades na voz, cantava a colera do Adamastor. Palmas estalaram, houve gritos de bis ! O ruido dos applausos electrisou Arthur ; invejou a gloria dos maestros. Nelusko, com o suor luzidio sobre a face acobreada, agradecia, curvado e a respiração offegante erguia-lhe sobre o peito os collares de contas, barbaramente coloridos. Mas o tenor, depois, desagradou : um murmurio hostil correu nos fa'uteuits. — E quando, entre tiros d'arcabuzes, o panno desceu, Melchior agarrou o chapéu : Ora sebo para esta Africana ! Vamos a um cigarrinho ló fóra, Arthur seguiu-o. Estava vagamente fatigado da atmosphera sobrecarregada das respirações, do gaz, da admiração, do Collares. Aquella musica forte, resoando-lhe muito perto dos ouvidos, ator doara-o ; não encontrara n'ella a sensação fina que lhe davam as melodias que conhecia, da Lucia, da Somnambula, que lhe espiritualisavam o cerebro e traziam ás suas idéas, na alegria ou na melancolia, um rythmo cantante. E no pequeno patamar de pedra, em cima, junto ao bico de gaz, fumava calado, ao pé de Melchior, com um amollecimento de todos os musculos, um vago bocejo geral. Um sujeito que descia das ordens superiores embrulhando um cigarro, pediu-lhe o favor do seu lume A sua cabelleira, que parecia estopa negra, sahia fóra da aba do chapéu ; era baixo, secco, com uma face trigueira e rapada de seminarista ; usava lunetas azues e a gravata de fustão com pintas brancas cahia-lhe, n'um laço fôfo, sobre a sobrecasaca estreita, apertada até acima. Accendeu o cigarro e agradeceu cortezmente. — Olha que melro I — rosnou Melchior. — Quem é ? — O Jacome Nazareno, um republicano da sucia do Mathias, um malandro ! Arthur quiz vêl-o melhor, mas o homem já des apparecera entre a multidão escura dos chapéus altos, que ao fundo dos degraus de pedra se movia n'um rumor pesado d'onde sahia uma espessa fumarada de cigarroz. O Melchior, que parecia detestal.o e temel-o, explicava que era um d'esses meninos que tramavam contra o Rei, contra os fidalgos e que queriam a Communa . . • — Que está você para ahi a fallar de Communa, seu Melchior ? — disse, parando, um individuo alto, de peito concavo, nariz afilado, que trazia a gola do paletot erguida e tossia seccamente. — Olá, Inglez, — fez o Melchior — por aqui ? Está cá a pequena O sujeito tossiu, cuspilhou : — Está lá em cima com a Lola. —A sua voz rouca parecia difficil, de respiração escassa ; os labios entreabertos, anemicos, mostravam os dentes mal tratados. — E como vae isso ? — perguntou Melchior. O outro encolheu os hombros, com um geito triste dos beiços. — Menos Venus ! Menos Venus ! — exclamou Melchior, chalaceando. — Seu gajo — fez o outro, dando-lhe uma pal madinha no estomago, com um tom canalha. E curvado, tossindo, subiu devagar para os camarotes. Está com a Concha, — disse logo Melchior — uma belleza, menino, a melhor hespanhola que tem vindo a Lisboa. Que elle, está aqui, está na cova ! Mas a Concha ! — E muito enthusiasmado : — Vamos a vêr se a pescamos ! Entraram. Melchior, de pé, explorava as torrinhas com o binoculo : queria que Arthur a visse ! Era d'endoidecer, uns modos de duqueza, uns olhos, uma cintura , ! Mas não a descobriu —e o panno ergueu-se. No palco, finas architecturas ornadas de monstros chimericos e d'idolos hieraticos, entre palmeiras côr de bronze e florescencias sanguiReas de cactus, esbatiam-se n'uma pulverisaçõo de luz abrazada, como uma nevoa imponderavel d'ouro faiscante. Pausadas theorias de sacerdotes com barbas d'estopa entravam lentamente, magros guerreiros corriam com gestos desengonçados, e as bayaderas, as carpideiras, formavam um bailado, que ora parecia um rito nupcial, ora um ceremonial funerario: cambraietas esvoaçavam misturando o negro e o branco, discos de metal retiniam, e a instrumentacão, o canto, tinham gravidades de santuario e mollezas de serralho. Em redor, com risadinhas, commentavam-se as dançarinas : havia exames lubricos de pernas e de quadris, e Arthur impacientava-se @om aquellas relices de luxuria, cortando sujamente a eloquencia da orohestra. Escutava, immovel, com a pelle arrepiada de admiração, devorando a decoração ardente, o girar das bailarinas, e vinham-lhe pensamentos, reminiscencias, sentimentalidades vagas, logo dispersas pelas rajadas da instrumentação. Todo o seu ser, levado nas massas d'harmonia, vibrava das emoções que ellas continham ; os seus hombros vergaramse quasi n'um movimento d'adoração, ao apparecer de Celina, triumphal, no seu pallcê refulgente de pedrarias, sob doceis de plumas. Teve o mesmo extasi que Vasco da Gama, ao penetrar n'um recanto de bosque sagrado, em que os aromas têm uma sensualidade venenosa, gorgeios raros erram n'uma flora flammejante e aguas brandas gotejam de taças de jaspe ; as largas phrases de Nelusko encheram-lhe o peito do sopro das paixões grandiosas ; sentiu, com o duetto, todas as febres d'um amor asiatico e mortal e quando, aos cantos suaves do galeão que se afasta, o panno desceu, ficou como que esmagado, com um cansaço d'alma, piscando os olhos ainda cheios dos deslumbramentos da decoração, tremulo de todas as sensações sobrenaturaes que percorrera. Melchior, esse, estava desesperado com o tenor, tinha vontade de lhe dar uma desanda . . . Um sujeito com tons oleosos na pelle e um raminho de alecrim no fraque, quiz aplacai-o : era tão bem rapaz, o tenor — Eu não lhe vou ás ceias, eu não lhe vou ás ceias — interrompeu Melchior irritado, sahiudo. — Olha o asno do Melchior — disse o sujeito olhando em redor, attonito. — Forte asno ! Que quer elle E ia seguindo, ao comprido das cadeiras, com grandes gestos, explicando aos que o interrogavam sobre a sua colera : —É o asno do Melchior ! Que quer elle Forte asno ! Arthur examinava preguiçosamente os camarotos, quando, de repente, na primeira ordem á esquerda, a viu, a Ella, á senhora do vestido de xa drez ! Que surpreza ! O binoculo tremia-lhe na mão. Estava com outras senhoras, uma d'ellas, d'edade, de luneta d'ouro, e de certo, até ahi, se conservara no fundo do camarote. Com as costas para o palco, voltava o rosto levemente, olhando em baixo a plateia: Arthur reparou no seu vestido, escuro, côr de vinho ; a luz contornava docemente a adorave] redondeza do hombro e a manga punha-lhe em redor do cotovello um fôfo de rendas brancas ; com a mão nua onde reluziam auneis, hatia no velludo do rebordo, devagar, distrahidamente, como n'um teclado de piano. Toda a fadiga, toda a melancolia d'Arthur desappareceram. As cousas ama bientes adquiriram um encanto inesperado : uma luz mais viva sabia do lustre; já se não sentia iso• lado nem obscuro ! Ella de certo se lembraria, repetiria o dôce ciliar da estação d'Ovar. Esse olhar, queria attrahil-o : fitava-a com intensidade com magnetismo ; tinha vontade de bater as palmas, soltar um grito. Empurrou violentamente uma cadeira: ao lado um velhote que dormitava, encarou-o, estremunhado, com uns olhinhos subitamente arregalados, Sentou-se então, desesperado. Ella ago- ra fallava para o fundo do camarote e elle via o seu catogan, onde reluzia alguma cousa de vermelho, flÔr ou enfeite. Tinham supprimido o duetto das damas panno ergueu-se, mostrando a negra mancenilheira, n'uma praia aspera, junto a um mar triste, por uma noite de lua cheia. As rabecas, em unisono, romperam os 16 compassos. Aquella harmon.ia, que lhe pareceu sobrenatural, mystica, immobilisou-o : invadia-o uma sensacão estranha, como se os arcos das rabecas lhe tocassem sobre os nervos. Ella, agora, olhava para o palco com o binoculo de marfim, e aquella musica, que ora parecia a Arthur a expressão do vento e do mar n'uma região desolada, ora o queixume transcendente d'uma grande alma ferida, dava-lhe um delirio d'amor poetico : todo o seu ser sensivel se lançava, n'uma necessidade d'adoração, para aquelle camarote da primeira ordem ; desfallecia á esperança de lhe beijar as mãos ; quereria saber-lhe o nome; decidia immortalisal-a n'um poema e a sua alma estendia-se pelas longas arcadas das rabecas, toda desfallecida de paixão e dolorida de saudade. Celina, entrando lugubremente sob os seus longos crepes, reteve-lhe o olhar um momento. Quando se voltou, o camarote estava vazio e um sujeito de casaca que se adiantara sentou-se no logar d'Ella' bocejou discretamente e ficou immovel com a cabeça apoiada ao tabique, catando os pellos do bigode . . . E Melchior não voltara, e elle não pudera saber quem Ella era ! — Todo o encanto do theatro desappareceu e o canto de Celina, a instrumentação, pareceram-lhe muito distantes, recuados infinitamente para um fundo vago e luminoso. Um sujeito tocou-lhe no braço : — Olhe que o chamam. Era Melchior que da portinha lhe fazia gestos impacientes. Tinha d'ir á redacção, estava-se a fazer tarde Estivera no palco, ao cavaco. Sailiram. Os trens punham no largo escuro fia leiras de luzes avermelhadas ou pallidas ; grupos recolhiam, onde se destacavam as capas brancas das senhoras. No céu, muito negro, havia uma scintillação d'estrellas. Melchior assobiava os .Z6 compassos e Arthur, ao pé, calado, com a gola do paletot erguida, ia pensando em cousas vagas que faria para revelar o seu talento, conhecel-a a Elta, fallar-lhe, ser illustre como Meyerbeer, bem vestido como o Visconde. Reminiscencias das melodias do bailado passavam-lhe no cerebro, via a lua cheia luzir sobre o mar triste, por traz da mancenilheira . . . — Então, gostou-se, hein ? — perguntou Melchior. — Se lhe parece ! Na saleta da redacção, sob o bico de gaz, um sujeito de barba grisalha revia as provas. Ergueu os oculos para a testa, fixou Arthur, rosnou um otá e depois de tomar uma pitada : — Ha mais alguma cousa a mandar, Melchior ? Melchior pareceu ter uma idéa, olhou Arthur, sorriu, e sentando-se com o chapéu para a nuca, molhou a penna, meditou com os cotovellos na mesa, os olhos cerrados, cofiando o bigode com a mão gorda e tremula : escreveu, riscou, entrelinhou e por fim, depois de pigarrear — Ora ouça lá, Arthur. — Leu : — Chegou á Capital e acha-se hospedado no Hotel Universal, o nosso amigo e esperançoso poeta Arthur Corvello » — Arthur fez-se escarlate — que brevernente vae publicar o seu formoso livro Esmaltes e Joias. Algans dos trechos que ouvimos farão por certo sensacão » — Hein ? Arthur, com a voz tomada, bateu apenas no hombro de Melchior repetidamente : — Obrigado, obrigado ! O revisor olhava-o pelo canto do olho, cynicamente. D'ahi a póuco, na tipoia que batia a trote para o Hespanhol, Arthur resumia o seu dia. Fôra maravilhoso : fizera fato, jantara no Universal, conhecera deputados, o baixo Sarrotini, o bom Meirinho, vira-a — a Ella, tão linda no luxo da opera, entre as harmonias divinas da Africana, e finalmente, pela local, entrava na celebridade ! Sentia-se agora em Lisboa como no seu elemento natural ; a vida ser-lhe-ia facil, gem abalos, luminosa : os Esmaltes e Joias tornal-o-iam illustre ; pelo Meirinho conhecel-a-ia, a Elta, amar-se-iam ; teria outros dias divinos, com bons jantares, uma opera escutada de casaca nas cadeiras, e Dita, do camarote, sorrir-lhe-ia d'um modo disfarçado e languido. A tipoia parou, — Quanto é ? O cocheiro saltou da almofada: —O que V. Ex. 6 quizer. Arthur, n'um movimento de generosidade, de reconhecimento supersticioso ao destino, deu-lhe dez tostões. —- Muito agradecido a V. Ex. a, snr. marquez ! No seu quarto, foi direito ao espelho : achou-se bonito, com um ar prospero. Espreguiçou-se, n'uma voluptuosa confiança na vida. E d'ahi a pouco, sonhava que passeava com Ella, n'um bosque sagrado, junto d'um templo indio : dos tamarindos em flôr vinha o cheiro forte do pello fulvo das feras ; um fakir, nú, descarnado, ankilosado, contemplava philosophicamente o umbigo e tigres familiares rondavam, com a lingua pendente e vermelha, como pedaços de sangue coalhado, Arthur ao outro dia installou-se no Hotel Universal. Arrumou a sua escassa roupa na commoda, dispoz sobre a mesa, coberta d'um velho panno de pellucia, cadernos de papel branco e pennas novas, e, junto da janella aberta, enterrado n'uma poltrona de mollas rangentes, saturou-se da sensação de luxo que lhe davam os reps azues, o alto espelho, os cortinados da cama, e o Chiado, em baixo, com o seu movimento de rua rica: aquelles confortos traziam-lhe como que um ennobrecimento de toda a sua personalidade. Sentia comtudo um remorso indefinido, pensando na pobreza em que as tias viviam ; mas, que diabo, não era com o dinheiro d'ellas que elle se regalava de bons jantares e pagava aquelle quarto caro. E depois, esse luxo era-lhe necessario paraa sua profissão litteraria, como um meio de reclame e d'estudo social. Sentia-se todavia um pouco só. Meirinho fôra para o Porto, Melchior não apparecia e Arthur não tinha voltado á redacção, porque, julgando-se conhecido desde que fôra publicada a local do Seculo, não queria mostrar-se sem o seu fato novo. Occu„ pou-se então em completar os Esmaltes e Joias : tinha um plano de poesias novas, suscitado pela impressão que lhe fizera Lisboa — a Nova Babytonia, e o Galeão, em que queria versificar os vagos enthusiasmos do tempo das Viagens e das Descobertas, inspirados pela musica da Africana. Mas estava sem veia b. As comidas davam-lhe um languido bem estar enfartado que lhe entorpecia a imaginacão, e o rumor do Chiado, a vaga sussurração da cidade, traziam-no n'uma distracção enleada. Com a janella aberta ao dia esplendido d'um inverno luminoso, fumava, scismando em passeios, soirées a que assistiria, futuras criticas dos Esmaltes e Joio, applausos de theatro, gravatas que ambicionava e com preguiça de trabalhar no seu livro, ficavase a contemplar, n'uma vaga e distante fulgura- cão, a celebridade que elle lhe traria. Por esse tempo, recebeu uma carta do Rabecaz que o exaltou : a noticia do Seculo — de que elle remettera para Oliveira seis exemplares — tinha feito sensacio na Villa. Ao que parecia, aquelles mesmos que nunca lhe tinham fallado, affirmavam agora ter-lhe sempre o genio e antevisto os altos destinos. O Vasco da botica lia a local a todos os freguezes « para que soubessem que especie d'homem era o seu ajudante O Carneiro gabara-se na Assembleia de que lhe administrava a fortuna. «E eu » — concluia o Rabecaz — conheço Lisboa e a rapaziada, todos os dias digo bem alto a esta cambada, que você, e é a minha convicção, vai a ministro ! » Como se aquella gloria parcial d'Oliveira tivesse saciado por algum tempo a sua gula de celebridade, abandonou todo o trabalho. O Victorino, muito ins• tado, urgido, mandara o fato ; tinha comprado uma boquilha d'espuma que representava uma cabeça de cocotte, e, como um cavalleiro impaciente d'usar as suas armas, envergou a sobrecasaca nova, e começou a gozar a rua A sua vida tinha agora grandes doguras : o seu melhor momento era, depois do almoço, quando se encostava á janella, a fumar o seu charuto : os dias estavam muito claros, com um pó dourado de luz; no Chiado, os pregões cantavam, os trens rolavam, e elle, no indolente entorpecimento da omelette e do bife, olhava do alto, com a pupilla humida de bem-estar, a vida em baixo reinar, mover-se, e atirava para o céu luminoso baforadas brancas do charuto caro. Depois, vestia-se com cuidado, encharcava-se d'agua de Colonia, e de luvas elaras, ficava um momento á porta do Hotel, saboreando a entrada larga, o guarda-portão decorativo ; em seguida, ia á Casa Havaneza florir-se com uma camelia, e de boquilha em riste, fazendo vergar a badine, descia o Chiado, errava pela Baixa, dava uma volta no Aterro, n'uma molleza de vadiagem, procurando encontral-a, a Eltcc. Mas todas as mulheres novas lh'a faziam esquecer, voltar-se, com a esperança indefinida de que ia ser amado por esta ou por aquella, impressionadas pela sua figura, pela sua sobrecasaca azul e pela local do Seculo. Dava um olhar distrahido ás vitrines dos livreiros — sentindo sempre, por um momento, o desejo agudo de produzir, vêr-se impresso: voltavam-lhe então vagos desejos de celebridade litteraria, mas o rodar d'uma carruagem de libré, os cortes de sêda n'uma montra, dispersavam-lh'os subitamente, — e abandonava-se ás ambições indefinidas que o agitavam agora, de frequentações illustres, amores fidalgos, assignatura em S. Carlos e uma carruagem da Companhia. Depois, vinha de novo estacionar á porta da Casa Havaneza; e sentia um deleite indefinido em estar alli, immovel, vendo em redor grupos de deputados, de janotas, de empregados, dilatando-se ás emanações intellectuaes e sociaes que lhe pareciam sahir das conversações, dos perfis, das attitudes. Era sempre com uma satisfação vaidosa que, ao ouvir, ás seis horas, a sineta do jantar, ia descendo para o Hotel: já tarde cahia e aquelle crepusculo de cidade, á hora que precede o gaz, tinha para elle um tom rico, superior, interessante. Da escada do Hotel até á mesa saboreava triumphozinhos — o cumprimento do guarda-livros, o pisar do tapete do corredor, o lustre acceso, os ramos de flores no meio das mesas, o sorriso polido do Padilhão, o adeuzinho com dous dedos do Carvalhosa, o respeito dos creados de gravata branca. Comia com um appetite provinciano c os nomes francezes dos pratos augmentavam-lhes o sabor. Depois, farto, pesado, com uma vaga voluptuosidade, descia ao Martiñio, olhã,ndo intensamente as mulheres que passavam, recebendo do movimento do Chiado uma vaga excitação. No café, encontrava geralmente, solitario deante da sua chavena, o sujeito de cabelleira semelhante a estopa negra, o Jaeome Nazareno — o malandro, como dizia Melchior. Arthur olhava-o com insistencia, imaginando-o chefe de sociedades secretas, temido do Rei, vigiado pela policia; aquelle homem, que julgava ser uma força social, cuja vida, de certo, se movia n'um perigo dramatico incessante, attrahia-o com uma sympathia crescente. Ia sentar-sea alguma mesa proxima e espreitava-o por traz d'um jornal desdobrado. A sua attitude isolada, fria, muda, dava-lhe a idéa de planos secretos, de preparativos de revolta, que punham na vida de Lisboa um lado pittoresco, parisiense, de insurreição e de tragedia. à noite, ia a S. Carlos. Tinha comprado um binoculo, e para gozar o cumprimento dos porteiros que já começavam a conhecel-o, tomava sempre o mesmo logar, do lado do Rei. De resto, encontrava ás vezes o Saavedra e gostava de lhe apertar a mão publicamente. Depois, procurava-a, a Ella, pelos camarotes. Não a tornara a vêr, mas o canto, as decorações, consolavam-no ; todas as mulheres o impressionavam e amaria qualquer outra de quem recebesse um olhar como aquelle que recebera da senhora do vestido de xadrez, na estação d'Ovar ; ós vezes, acontecia que alguma senhora, n'um camarote proximo, attrahida pelo seu binoculo insistente, reparava n'el]e, fixando-o um momento com curiosidade : Arthur exaltava-se logo, entrevendo encontros providenciaes, uma paixão dramatica, lagrimas, poemas ; depois, não pensava mais n'isso : ella não tornava a olhar— e elle refugiava-se de novo na preoccupacão da sua desconhecida, como se o amor fosse um complemento tão necessario á frequentagio da opera, como a casaca ou a flôr na lapella. Quando entrava, á noite, no seu quarto, vinha-lhe uma tristeza molle : a musica, as luzes, a presença das senhoras, excitavam-lhe os nervos ; o rolar dos trens, as janellas alumiadas do restaurante Silva, davam-lhe idéas de ceias, de rendez-voue nocturnos, e desconsolava-se da sua vida esteril, desejando amores fidalgos e orgias sonoras. Se tivesse um titulo ! Se ao menos fosse camarista do Rei ! E passeava pelo quarto, de casaca, retardando o momento de a despir, como se ella representasse a encarnação da vida social que o captivava. Certa manhã, descendo tarde para o almoço, encontrou na sala de jantar Meirinho, que de madrugada chegára do Porto. Viram-se com jubilo. Que tinha elle feito, o amigo Arthur ? Tinti'a, visto o maganão do Melchior ? Tinha-se divertido Arthur queixou-se vagamente « de ter estado um bocado só . . . — Ah, mas agora estou eu ! — exclamou Meirinho affectuosamente. Pareceu reparar com satisfacão na toilette mais correcta d'Arthur. Affirmou-lhe que estava um janota » —e julgando-o de certo bastante bem vestido para se relacionar, aconselhou-lhe que se fizesse socio do Gremio. E se elle quizesse levava-o a casa de D. Joanna Coutinho ! Ella teria muito gosto ! Arthur fez-se rubro de alegria. E reconhecido, interessou-se pela jornada de Meirinho. Muito fa• tigado de certo? — Derreado, amigo — disse Meirinho lamento• samente. Suspirou : — Já não estou para estes ex• cessos ! Já não estou ! — Ficou um momento a olhar a parede, como se alli visse, n'um desenho claro, a representação das suas antigas forças, e disse, pousando delicadamente o talher : — Pois olhe que fui forte, menino ! Contou, então, proezas de vitalidade, que personagens illustres tinham admirado : andar cinco dias de caminho de ferro, passar tres noites em claro . . . E com um rizinho lubrico : — E peor ! peor ! Descreveu façanhas amorosas . . . Ah, bons tem POS ! — Uma sombra do que fui, meu caro senhor — E com um tom mais grave : — Em todo o caso, para prestar serviço a um amigo, ainda sou homem para andar um dia e uma noite . . . Sorveu o fundo do café, limpou a barba e, er guendo-se, espreguiçou -c e : mas pediu logo descul pa d'aquelie abandono familiar, — que emfim, entre aminos, entre patricio.s Que eu sou do Porto, sou da provincia . . . Riu, sem motivo, com a pe]le em redor dos olhos muito franzida. Achou a Arthur melhor cara. —E o nosso bom Padilhão ? Bello rapaz, hein ? Venha fumar um charutinho cá acima ao meu quarto . . . Estava alojado no segundo andar. O qüa,rto, mais largo, melhor que o d'Arthur, tinha um arranjo minucioso. Havia, mettido n'um vaso, um espanador de pennas, com que elle mesmo perseguia o pó nas frinchas mais cerradas. Entalados no caixilho do espelho, tinha todos os cartões de visita das pessoas que o visitavam, como a exposição heraldica das suas relações ; sobre a commoda, dispostos em semi-circulo, em passe-purtouts de marfim, figurava a galeria dos seus enthusiasmos : —a Rainha, sentada no peitoril d'uma janella ornada d'hera, a Imperatriz Eugenia, fazendo um rosto digno de viuva illustre, Mademoiselle Theo, das Bouffes, com um Signal assassino, quasi na ponta do seio esquerdo, Pio IX, com o seu sorriso quente de pontifice amavel, Paulo de Rock, de pelliça, Victor-Emmanuel, .com a sua face de bull-dog heroico — e sobre o tou.cadory uma pregadeira bordada a matiz ostentava um rotulo, como um objecto de museu : — « offereeido no meu dia natalicio pela nobre Marqueza de Folhes Meirinho tinha-se estendido languidamente na poltrona e olhava com satisfação os seus chinelos bordados a missanga. Pela vidraça aberta, uma aragem enfunava os reps das bambinellas ; defronte, n'uma janella de peitoril, uma creada sacudia um tapete e os ruidos da rua tinham uma tonalidade alegre, na manhã muito luminosa. — Como estará o cãozinho ! — disse Meirinho com um sorriso commovido. Pediu licença a Arthur para se tornar a espreguiçar, e olhando-o, batendo as palpebras : — Está-mc a chegar a somneca. Quem lhe fez a sobrecasaca ? está bem boa. Arthur mirou-se no espelho : parecia-lhe boa, hein ? — Muito boa ! — E fitando-o gravemente, como n'uma resolução profunda : — Mas rica obra voulhe eu mostrar ! Levantou-se com esforço e foi tirar do guardaroupa atulhado um paletot leve, côr de café, com bandas de sêda. Expol-o á luz da janella, e muito serio : — Que me diz a esta riqueza ? Arthur soprou o fumo do charuto para o lado : — Muito bonito ! — Hein ? Pois posso ceder-lh'o. Arthur, embaraçado, disse : — Não, não . . — PoseN 0 ceder-lh'o ! .Palavra ! — insistiu Meirinho. — E pelo preço, com franqueza ! Nunca o puz. Não me tenho atrevido, é muito claro para a minha edade ! Vista-o, vista-o ! Elle mesmo lh'O enfiou rapidamente, com uma destreza servical de creado fino, assentou-lh'o nas costas, esticou-o — e levando-o deante d')un espe- Parece um principe ! Hein, que chic ? Foi feito para si, com certeza ! Fique c@m elle, com • franqueza . . . Cinco libras. É de graça. É de Paris, de um grande estabelecimento. Aqui não lh'O faziam. Arthur, tentado pelo paletot e para condescender com o Meirinho, acceitava, córando, quando elle, com um gesto da mão espalmada : — Perdão, podemos fazer outra cousa. Foi á commoda e trouxe solemnemente uma pequena caixa de marroquim verde ; e com uma lentidão grave : — Meu caro senhor, vae vêr uma preciosidade ! Era um par de pistolas, muito reluzentes, n'um fundo de velludilho preto. —- Hein ? Urn primor. Fez jogar os fechos, collocou-se em attitnde de duello, depois em posição de suicidio. — Que era p'ra rir, elle não se queria matar : o homem que attentava contra a propria vida, era um atheu ! Já ouvira essa opinião a pessoas muito instruidas — era um atheu ! Depois, fez pontaria aqui, além ; explicou a justeza do tiro Nenhum rapaz elegante podia estar sem um par de pistolas. Em Lisboa era mesmo mal visto ! Dava chic n'um toucador. O Conde de Lan8bertini, o Alonso, Paul de Cassagnac, Espeleta, todos os grandes atiradores de Paris tinham d'aquellas pistolas ! O preço era prodigioso : cinco libras ! Talvez não acreditasse, bem lhe via nos olhos que não acreditava. Pois era verdade, e a cousa explicava-se . , . Mas não a explicou: poz-lhe a caixa na mio, di zendo : — Não fallemos mais n'isso. O paletot, o par de pistolas — dez librag. Que achado, hein ? Mas em fim, fomos companheiros de viagem, vivemos no mesmo hotel, somos patricios . . . Ora ahi está ! ArthLtr, córando, disse que não tinha alli no bolso — Tolice '. — interrompeu Meirinho, com um grande gesto. — Logo, ámanhã, quando quizer . . Espreguiçou-se : positivamente ia fazer a somne ca, que a viagem fôra muito maçadora. Ah, tinha-se lembrado d'elle . . . — Quando nós trouxemos o cãozinho, porque o amigo ajudou-me: eu disse-o á Snr. a Marqueza de Folhes. — Sorriu na sua bella barba clara. — Como estará elle, o amor ! — Bocejou enormemente : — Pois positivamente vou á somneca ! E Arthur, sahindo com o paletot no braço e a caixa de pistolas na mão, ouviu-o ainda do corredor cantarolar melancolicamente : Si tu n'avais rien a me dire Pourquoi venir auprês de moi t. n. Aquella despeza inesperada contrariou Arthur. Já por vezes lhe tinham vindo inquietações de di nheiro , As libras iam-se, iam-se ! Estava em Lisboa havia quinze dias e já gastara cincoenta libras ! Em quê, Santo Deus ? Poz-se a escrever as despezas que recordava, —o fato, o chapéu, a boquilha ! Mas quê ! faltavam dezoito, vinte libras talvez. Aterrou-se, quiz recordar quantas cadeiras em S. Carlos, quantas luvas, quantas tipoias . . . Con fundiu-se, atirou a penna, impaciente, irritado contra a brutal evidencia dos numeros. Decidiu-se, então, a uma economia cautelosa . . . Mas apenas na rua, sentia-se logo fraco, sem resistencia contra as tentaçõezinhas, as pequenas vaidades : comprava « mais » um par de luvas, tomava em S. Carlos uma « cadeira », em logar d'umâ geral decidindo sempre que seria a ultima vez* Desde que fôra com Melchior ao Matta comer ostras, tomara o habito d'aquella ceia, e para não perder a consideração do creado, apesar dos seus remorsos bebia um Sauterne caro e dava dois tostões de gorgeta. Justificava-se vagamente, pensando que a publicação dos Esmaltes e Joias, a representação dos Amores de Poeta, encheriam de novo os cartuchinhos de libras que tinha no fundo do bahú, alguns já com o papel vazio e amarrotado. A conta do Hotel que lhe foi apresentada pol esses dias, decidiu-o a ir fallar com Melchior para 'a impressão immediata do volume, Queria-se mesmo imal por aquelles remansos ociosos, gastos na rua : a drama, representado, dar-lhe-ia todas as noites seiE ou sete libras e via já o seu retrato vendido nas lojas, os folhetins cheios da sua biographia. Já áquella hora poderia ter os seus recursos regularisados, ser n_hecido d'Dlla ! E n'uma subita impaciencia foi á redacção do Secado. No começo da rua do Correio, porém, encontrou Melchior. Vinha com um individuo baixo e cheio, de barba preta, fina, a carne molle e baça, as palpebras inflammadas ; a fita do chapéu era gordu rosa e o collarinho parecia enxovalhado de roçar no pescoço gordinho ; sobre o peito do jaquetão abotoado, pendia um pince-nez enorme de vidros defumados, preso por uma larga fita de moiré. Era o poeta Roma, auctor estimado dos Idytlios e De vaneios. Teve apenas para Arthur um movimento secco de cabeça. E quando Melchior lhe disse que o amigo Arthur estivera em Coimbra, teve um sorrizinho franzido, um pouco fungado, e em toda a sua pessoa roliça uma reserva molle. Parecia constipado e de vez em quando ageitava as calças para cima com urn gesto torpe. — Idéas muito exaltadas cá o amigo ! — disse Melchior, batendo no hombro d'Arthur. — Esperemos que não nos venha fuzilar ! — acu diu o Roma. Quando fallava, torcia ligeiramente a bocca. Arthur fez-se escarlate. E constrangido pelo aspecto do Roma, dis,se a Melchior « que ia alli ao Correio » pevguntando « quando se poderiam encontrar » ? Homem, não se incommode, vou jantar com você. Ás seis, hein ? Arthur sentiu o Roma dar uma risadinha, ao travar o braço de Melchior. Voltou-se e o poeta, pelas costas, pareceu-lhe mais odioso ainda, com os quadris gordos, as calças esfiadas atraz, a cabelleira secca, cobrindo um cachaço espesso. Melchior foi pontual, e logo da porta, deitando o chapéu para a nuca : — Diga cá, Você teve alguma cousa com o Ro- Não . . . Nada. Era a primeira vez que o via ! — Pareceu-me — disse Melchior. E accrescentoa, com palavras vagas, que a rapaziada devia ser unida. Questões litterarias não serviam p'ra nada . . . E atirando-se para a poltrona : — Então que me quer.ia você dizer ? Arthur explicou : desejava fazer imprimir os Esmaltes e Joios. Segundo Melchior, nada mais facil : o Gonçalves, o revisor, o das barbas, um espertalhão, levava-os aos Castros, que lhe faziam um volume catita; depois, o Gonçalves se encarregaria de o pôr nos li- vreiros á commissão. Lá em editor nem pensar. Um editor para um livro de poesias — era mais rae,il achar um diamante no Chiado. Que se fiasse li'elle ! Arthur concordou, e fallou dos Amores de Poeta : desejava fazer uma leitura a um director de theatro. O melhor parecia-lhe o D. Maria . . . Melchior, fazendo beiços grossos, cofiava o bigode, calado. — Isso é mais serio — murmurou por fim. Arthur olhava-o quasi anciosamente, —É mais serio — repetiu o outro, com um bamboleamento grave da cabeça. Mas a sineta do jantar tocou, e Melchior ergueu-se d'um salto : — estava a cahir de fome ! E lavando ruidosamente as mãos : — Havemos de pensar n'isso. Isso é mais serio ! Por timidez Arthur não insistiu, e mesmo, tiran do-lhe a escova das mãos, escovou-lhe nas costas o jaquetão claro. A extremidade da mesa, junto á porta, estava deserta : sentaram-se alli, e logo depois Meirinho appareceu, esfregando as mãos, jovial, refeito peúi somneca ; d'ahi a pouco entrou o Padilhão, grave, e, como disse Melchior « fizeram uma panellinha catita b. Arthur, no centro, dilatava-se de prazer. Logo depois da sopa, que era uma má purée de petits pois, e a proposito da nomenclatura franceza dos menus, Meirinho contou anecdotas de Paris : era muito bonapartista. Segundo elle, « depois do Imperio, a França decahiaa olhos vistos, Paris já não era Paris». Era tambem a opinião do Padilhão, que tinha idéas catholicas e o amor da aristocracia. Lembrando o Imperio, Meirinho contou uma historia, ligeiramente obscena, da Princeza Mathilde, « que era de resto uma excellente senhora ». Vieram anecdotas sujas : Melchior disse a do padre surprehendido pelo marido, Meirinho acudiu com a do padeiro e o Padilhão, com a sua bella face pallida, contou, imitando as vozes, a da ingleza e do gendarme. A cada trecho mais torpe, torciam-se d'hilaridade : ás vezes ficavam sobre os pratos, fungando ainda um momento do sabor da indecencia. Aquillo punha alli um canto privilegiado de alegria chula, e sujeitos graves, no fundo da mesa, mastigando, olhavam com inveja aquelle grupo divertido, todo prospero de riso e de chalaça. Um individuo d'oculos reclamou mesmo, do topo da mesa, que contassem alto — Isto é cá para nós, — gritou Meirinho — isto é cá p'ra panellinha ! Arthur recostou-se com satisfação, feliz de ser da panellinha ». Ria exageradamente : contou tambem uma porcaria e ficou lisonjeado da gargalhada do Meirinho, do riso solemne do Padilhão. Acharam-no engraçado. Então Meirinho lembrou que elle devia pagar a patente, com uma garrafinha de Champagne, mas accrescentou logo, batendo-lhe na perna, que estava a brincar, que era chalaça. Arthur porém, insistia — queria pagar a patente — e Meirinho, immediatamente, pediu uma garrafa de Cliquot. Foi urn momento muito cordeal de sympathia expansiva. — Você calha-me, Arthur—dizia-lhe Melchior; e como Meirinho e Padilhão fallavam de relações, de soirées : — Sabe você o que me parece -É que antes de levar o drama ao D. Maria, você devia co nhecer a rapaziada. Mas como Elle não podia ir em romaria, pelas casas dos poetas, dos folhetinistas, apertar mãos, travar amizades ! . . . — Tem-me estado a lembrar, — disse Melchior. pondo o cotovello na mesa, fallando-lhe muito intimamente-— é neeessario apanhai-os juntos. Sabe como ? N 'um jantarinho. E muito prolixamente explicou que os litteratos eram uns exquisitos. Necessitavam de considerações. Não havia como um jantar : — Você convida os principaes, e antes da sopa, zás, lê-lhes as principaes passagens do drama. Ao outro dia a imprensa falla, a cousa chega aos ouvidos dos emprezarios, já prevenidos: e como o drama é bom, traz ! Logo em seguida, distribuiçãozinha dos papeis, etc., etc.... Arthur, radiante, via-se já no oalco, cercado de actrizes lindas, distribuindo creações I —E depois, ha o prazer do jantar— accrescen ta va Melchior. - Veja você o que nos temos divertido hoje. E então estando a rapaziada ! São anecdotas, chalaças, saudes, uma pandega imperial. Que diabo, são oito ou dez libras ! Arthur encolheu desdenhosamente os hombros. — Pois não lhe parcee, Meirinho ? Meirinho, esclarecido, concordou com enthusias- mo. Era como se fazia em Paris. Era ch ic, era de gentlemen. Podia-se arranjar um jantarinho delicioso. Era deixar a cousa com elle . . . Arthur calava-se. Via-se á cabeceira d'uma mesa resplandecente e os litteratos erguendo para elle, n'um toast frenetico, os copos esguios do Champagne ! — Ha mna difficuldado — disse Melchior. —É que aqui o amigo não conhece ninguem e não póde convidar . . . Convidar quem Se elle não conhece ninguem. Ahi é que está ! Meirinho reflectiu, passando a mão pela barba. —É contra a etiqueta murmurou. Padilhão, consultado, affirmou que era « inteiramente fóra dos habitos —É o diabo . rosnou Melchior. E calados, um instante, no embaraço d'aquella difficuldade, iam mastigando o pudim. De repente Melchior bateu na testa. Uma idéa! O meio era convidar elle ! Elle conhecia toda a rapaziada, convidava, apresentava Arthur, que era o heroe da festa, lia o seu drama, etc. . . . Hein? —B accreseentou baixo : — Você, já se sabe, paga o jantar ; eu convido, e zás ! Hein ? Catita, não Meirinho ap•provcu: era o melhor! -E muito juncos, cochicharam, combinando a festa. — Que diabo estão vocês para ahi a conspirar -— perguntou o sujeito d'oculos, que de certo se aborrecia no topo da mesa e que aquella animação intima, limitada aos da panellinha irritava. — Nada ! Depois ge verá ! — disse Melchior. Meirinho, muito interessado, tinha agarrado na manga d'Arthur : — Uma cousa elegante, — dizia — duas sopas, hors-d'cucres, duas entradas, assado, caça, entremets, um jantarinho p'ra quinze libras . . . Arthur assustou-se com o preço . . . Mas os applausos! A publicidade! Disse mesmo, para. parecer largo: — Sim, quinze ou dezaseis libras Meirinho chegou-se-lhe ao ouvido : —É necessario convidar o Padilhão, homem da sociedade. — E o Saavedra, —acc.rescentou Melchior, do outro lado — pessoa d'influencia. — Com o menu impresso — lembrou Meirinho. — P 'ra ir p'r'os jornaes— acudiu Melchior. esfregou as mãos com grande jubilo. — O jantarinho de casaca — disse Meirinho. Melchior que tinha a casaca no prego, escandalisou-se : isso estragava tudo ! Era um jantar de rapazes, sem espalhafato. Nada de poses ! Esboçaram a lista dos convidados. Naturalmente os quatro, « a panellinha Depois, Meirinho lembrou pessoas tão inuteis como o velho D. Frederico. Cada um queria trazer o seu intimo. Emfim, Melchior, conciliador, disse : — Você é quem dirige o jantar, Meirinho, mas eu sou quem convida. Eu é que sei que rapaziada se precisa. Divisão de trabalho ! Cada um na sua repartição ! — Ha-de ter um jantarinho fallado — affirmou Meirinho. — E uma sociedade t — disse Melchior. E deu um assobio admirativo. Deslumbravam Arthur. Iam aperfeiçoando o plano primitivo : além da leitura, poderia haver musica ; seria necessario convidar o Sarrotini ; para fazer um brinde á imprensa, convidava-se o Carvalhosa ! E Arthur via elevar-se pouco a pouco aquella festa, como um grande tropheu que se orna. Melchior acabou por affirAar que a cousa « havia de dar brado no paiz ! E combinaram com o guarda-livros, que o jantar seria na segunda-feira, ás seis horas. Quando Arthur e Melchior entraram no salão reservado, « para vêr a mesa i), Meirinho, atarefado, dispunha elle mesmo na abertura dos guar danapos raminhos de violetas, com botões de camelia. A luz abundante do lustre e das serpentinas, os Ti'llpos de copos, as laminas das facas tinham uma faiscação alegre, attrahente, sobre o linho branco da toalha. No pesado aparador de mogno, deante de duas filas escuras de garrafas, estavam dispostos os pratos d'ostras, Havia um cheiro de creme queimado, em que errava subtilmente um fiozinho de limão. As duas velas do piano estavam accesas, porque Sarrotini promettera uma aria. Melchior, enthusiasmado, poz-se deante de Meirinho, batendo devagarinho as palmas, com a face banhada n'um largo sorriso : — Bravo ! Bravo ! Bravo ! Meirinho curvou-se profundamente. — Muita experienciazinha, — murmurou — muita experienciazinha ! — E mostrou o menu. em cartão assetinado, tendo no alto, em letras douradas : Jantar Litterario do dia 15 de Dezembro. — Real ! — disse Melchior triumphante. Estava de sobrecasaca, com uma grande came lia branca na lapella. Chamava os creados, contava as garrafas de Champagne, fallava a nos seus can. vidados » : de resto, no hotel, dizia-se «o jantar do Melchior D. Elle propí'io affirmara n'um grupo, no corredor, que havia de mostrar « a esses senhores o que era dar um jantar chic » — e mesmo perguntava-se baixo onde arranjaria Melchior o dinheiro para pagar aquella festa Arthur no emtanto estava muito nervoso. Ensaiara-se toda a manhã, declamando scenas dos Amores de Poeta ; certas phrases sonoras davamlhe a certeza dos applausos, mas outras vezes tremia, pensando em faces desconhecidas, entreabrindo bocejos fatigados. Preparara alguns periodos litterarios para o brinde e só desejava que toda Oliveira d'Azemeis pudesse estar, de longe, vendo-o no centro da mesa, entre flores e luzes, acclamado pela Capital ! Quando o relogio deu as seis horas, o estomago contrahiu-se-lhe d'emoção. O primeiro que appareceu foi o folhetinista Xavier : debaixo d'um nariz grosso, o bigode farto, muito horizontal, tinha a espessura d'um rolo de crepe ; de face escavada e as fontes reintrantes, usava lunetas defumadas, com o cordão passado atraz da orelha ; debaixo do fato preto, adivinhava-se um esqueleto quasi sem carne. Melchior apresentou-lhe logo Arthur : — Tem um drama, cá o amigo, e vai-nos fazer logo uma leiturazinha — Interrompeu-se, correu a apertar a mão do actor Cordeiro, um moço galante, timido, que, com a cabeça um pouco de lado, torcia constantemente, n'um gesto machinal, um pequeno buço castanho. Drama historico ? — perguntou Xavier a Arthur. Moderno Em que genero Mas o Padilhão que entrara solemnemente, veio bater no hombro d'Arthur paternalmente ; apre sentava-se de casaca, com a pequena cruz de ca valleiro de Christo. O Xavier reparotl e fazendo saltar com o dedo a cruzinha : — Graçazinha regia, hein ? Padilhão escorregou pelo canto do olho um olhar satisfeito á condecoração, e grave : —- Foi o Ministro do Reino, á força : que a havia de ter, que a havia de ter ! Vá lá ! Viu-me fazer imitações em casa de D. Joanna Coutinho, gostou... Acceitei ! — E como vai D. Joanna, essa sylphide ? — perguntou Xavier. Padilhão pareceu chocado d'aquella expressão familiar, fez-se serio, disse : — Um pouco encatarrhoada ! — girou sobre os calcanhares e afastou-se limpando os beiços a um lenço de monogramma bordado. — Grande typo ! — disse Xavier a Arthur — Ahi temos o illustre Sarretini. O cantor entrava com as bandas da sobrecasaca deitadas para traz, o arco do peito saliente no collete decotado, uma vermelhidão prospera na pelle, o olho chammejante. Deu um abraço a Xavier, que lhe sacudiu todo o esqueleto, beijou, com escandalo de todos, a face bonita de Cordeiro, que córou como uma virgem, e com gestos de palco e voz dominante, ia dizendo para os lados : dilecto amico ! Carissimo hijo mio ! Levantou ao ar Meirinho, que gritou, perneando ; riram, fallaram de forças,. Sarrotini foi logo erguer pelo pé uma cadeira e conservou-a no ar, com o braço retesado, a face purpurea. Depois, pediu vermouth e exclamou : Portucallo e Italia siamo fratelli ! Achavam-no um maganão delicioso. No emtanto, Arthur reparara n 'um individuo barrigudo e calvo, que de mãos atraz das costas e passinhos subtis, ia rodando em volta da mesa, das ostras, das garrafas, com um rosto farejante e desconfiado. Ia perguntar a Melchior quem era — quando Saavedra entrou, Rodearam-no logo. E elle% com a cabeça erecta, consciente qua importancia, o olhar protector, dizia chalaceando : — Então, que lhes parece o meu Melchior Que chic que deita ! hein ? CAPIT&TS Sarrotini passava-lhe a mão pelo hombro, apossava-se d'elle, dava-lhe nomes carinhosos : gran periodista ! dilecto amico ! Mas Cordeiro arrebatou-lh'o, levou-o para ao pé da janella, cochicharam : — Você percebe, Saavedra, a rapariguita tem talento, é necessario animal-a. Vai ter um papel na Princeza Jus7ca Saavedra prometteu, com bondade, a protecção do Secuto. —É você quem lavra aquillo — perguntou. Cordeiro negou languidamente. — Seu sultão disse Saavedra rindo. com movimento desdenhoso dos beiços : — É um zinho d'ossos : eu gosto de carne mais almofadada. No emtanto, junto do aparador, Meirinho e Yelchior pareciam questionar vivamente. Arthur, inquieto, approximou-se. — Estão-se a estragar, estão-se a ! —-dizia Meirinho, excitado. E voltando-se thur : — Com o calor, com as luzes, estr É necessario começar já. Melchior insistia, mas frouxamente : emfim, primeiro a leitura do drama. Senão depois . . . — Depois, depois ! — exclamou abafadamente o Meirinho — O drama póde eeperar. As ostras é que não podem esperar, amollecem . . . Arthur ficou aterrado, pa]lido : tanta despeza e não fazer a leitura ! Olhou para o jornalista tão supp-licantenente, que Melchior compadecido teimou prin±o o drama, as ostras que as leve o NÃeirinho recuou, olhou-os ambos com rancor. E um grande gesto : .Bem I. É um perdido ! Eu não me resPonsahiliso por mais COüsa nenhuma ! ia sahir, furioso, quando esbarrou com o Roma. O poeta entrava devagar, com o seu ar de vago desp eito tão singular n'um homem nedio, descalçan&O as luvas pretas. Pareceu não reparar em Arthur• Deu um olhar de lado á mesa, e ageitando um saminho de alecrim que trazia na lapella, approximou-se de Xavier, mxando as calças para cima com o seu gesto torpe. Ecoo el eggrcgio oratore . — fez Sarrotini com uma voz possante que dominou o rumor. pra, o Carvalhosa. Vinha abafado n'um cachenez roxo e Ijaxecia descontente. Disse logo a Melchior que tinha vindo por grande favor, pois que uma constipação e precisava eautelas. E palpa V a a garganta, olhando em volta, desconfiado, procnrando Ilma corrente d'ar, uma fresta traiçoeira. Isto é orgão serio, — disse para Sarrotini _ a differença que para os senhores é questão de 0tas e para nós, d'idéas , E depois de soltar a sua phrase, veio para Arthur e stendendo-lhe negligentemente a mão : — Como vai o amigo Arthur interessou-ze servilmente pela sua garganta. Não era nada de cuidado, de certo . . . — Porque se espera ? — perguntou-lhe Carvalhosa, baixo, franzindo o nariz. Arthur, córando, balbuciou : — Não sei. Melchior auroximava-se radiante e batendo uma palmada no hombro d'Arthur : — Cá o amigo vai-nos lêr o seu drama ! Carvalhosa pareceu interdicto, f.ez : — Ah ! E foi andando, com olhares para a mesa, para as garrafas, direito ao grupo ruidoso, onde Xavier gesticulava : — Então — disse Carvalhosa baixo, indignado — temos uma estopada d'um drama ? Os outros encolheram og hombros com uma resignação sombria. Roma achava aquillo uma partida indecente do Melchior. E era em cinco actos ! O Xavier propunha que se fizesse um abaixo assignado pedindo a sopa. Se se fizesse intervir a policia ? Chamaram Melchior, cercaram-no, com olhares interpellantes, sacudiram-no. Que escandalo era aquelle de lhes impingir um drama ? Convidar pessoas inoffensivas, desprevenidas . . . — Oh, rapazes, por quem sois ! — supplicava Melchior. — Então, era uma fatalidade ! O diabo do Arthljr Viera-lhe reeommendado, promettera-lhe. O rapa" Cinha trazido o manuscripto. De resto eram só duas scenas. Nem duas syllabas ! — disse com furor o Carvalhosa Eu vou-lhe fallar ! Melcnior, afflicto, agarrou-lhe o braço. _ OIJ, filho, pelo amor de Deus ! Que me comprometteS ! Ih, Jesus, que desgosto! É um instante, coitado do rapaz ! E falava-lhe ao ouvido. Havia rizinhos fun- gados. Arthur' Pallido, via de longe aquelle grupo, e sentindO que alli se tramava alguma cousa de funesto para os Amores de Poeta e para a sua propria dignidade' errava pela sala com as faces abrazadas. de repente Melchior desembaraçar-se do Viu vrupo, correr para a porta e abraçar um sujeito grosso e IUbicundo, de chale-manta, o ar hilare e nedio . Era um tio de Melchior. Proprietario em Beja, exaltado pelas questões da politica local, ardendo n'um odio de provincia pelo dor civil, fundara uni jornal de opposição, governa A Voz do Districto, e não tendo encontrado em Beja um escriPt0r bastante eloquente para lhe pôr em periodos floridos os insultos á auctoridade — vinha procurar a Lisboa um estylista. Offerecia trinta e seis mil réis por mez e casa d'habitação com hortaliça. Melchiox• convidara-o, para lhe fazer admirar o seu jantar, a sua posição social, relacional-o com litteratos, e, enchei* dc,-o de Champagne, dar-lhe uma disposição propicia ás doze libras que lhe queria pedir. Foi logo apresental-o ao Xavier, ao Carvalhosa, ao Saavedra. — Meu tio Antonio de Moura, chefe da opposição em Beja, muito conhecido . . . Desembaraçava-o com carinho do chale-manta, abraçava-o ; e repetia arregalando os olhos para os lados : — Muita influencia no Districto... muita influencia ! Mas vendo entrar um official de lanceiros, de peito enchumaçado e bigodes ferozes, exclamou : — Viva o exercito ! Estamos todos ! Está toda a bella rapaziada ! No meio do grupo dos litteratos, o tio Antonio, muito á vontade, com um rizinho fino, explicava as condições em qu.e queria um escriptor : destemido, com palavreado, e sem escr'lpulos, p'ra dar p'ra baixo. E contava com prolixidade as suas queixas do Governador Civil, a questão da Junta de Parochia, do muro do cemiterio, do regedor de Reguengos. — Hei-de dar cabo d'elles — dizia, sacudindo a mãozinha gorda. Em redor chalaceavam, queriam desfrutai-o Xavier aconselhava-o a que se dirigisse a Alexandre Herculano. Porque não escrevia a Victor Hugo Victor Hugo era o sujeito que lhe estava a calhar O tio Antonio ria com bonhomia, uma ponta de velhacaria nos olhinhos luzidios : — Qual, quer-se um rapazola como os senhores, que ladre, que ladre E que morda ! Eh ! Eh ! Eh ! Arthur ia de grupo em grupo : sentia, afflicto, uma vaga brutalidade ambiente ; batia-lhe o coracão cada vez que via um olhar impaciente voltar-se para o relogio, ou uma bocca abrir-se devagar n'um bocejo de debilidade. Approximou-se um momento de Sarrotini, que, cercado, muito admirado, entre risos, fazia a imitação d'um moscardo perseguido : encolhia-se. como no susto de ser mordido, atirava a mão bruscamente para o agarrar, olhando para o ar, a face attenta ; depois, de repente, dava uma palmada no joelho para o esma oar . mas o moscardo, escavo, punha sobre o grul)0 um zumbido acre, doimente, continuo. Admiravani-no, riam. Padilhão, com a testa franzida n'um vinco de reflexão critica, murmurou : — D'artista, d'axtista ! —E tirando o relogio, voltou-se para Arthur ; — O Melchior Está-se a fazer tarde, que diabo ! Arthur, fingindo que ia buscar Melchi0T, afastouse, rubro. Receava agora que não fosse possivel fazer a leitura e vinha-lhe a amargura do desespero. Por urna curiosidade sympathiea, approximou-se do sujeito calvo, de fato claro. Estabelecera-se entre elles, por olhares repetidos, uma affinidade : eram os mais obscuros, os mais isolados. — Muito bonito tempo disse Arthur sor- rindo. — Lindo — disse o calvo. — E logo mais baixo : — Diga-me cá, porque se espera ? Ouvi fallar que tinhamos leitura . . . Que estopada, hein ? Arthur fez-se escarlate. Mas n'esse momento Melchior bateu as palmas : rostos voltaram-se com curiosidade. — Meus senhores . . . — começou Melchior, junto da mesa, n'uma attitüde grave. Mas vozes romperam, chalaceando : o Melchior deita falla ! Ora adeus ! Menos eloquencia e mais sopa ! Não seja tolo, seh Melchior ! Melchior, irritado, bateu fortemente com uma faca na mesa, Roma disse alto : — Respeito ao grande orador I Todos riram. — Meus senhores, — recomeçou Melchior — aqui o meu amigo Arthur Corvello, vae-nos lêr o seu drama, isto é, duas ou tres scenas do seu drama ! Houve um silencio concavo, hostil. Meirinho que fallava baixo com G guarda-livros, ergueu a face para soltar um isolado : muito bem ! apoiado ! Tinham arredado dous talheres na mesa, e ao pé d'um castiçal estava o manuscripto aberto. Ar{9 thur sentou-se. Tremia todo. Receava que lhe fal• tasse a voz, que lagrimas nervosas rompessem. Melchior ia d'um a outro pedindo baixo, por caridade, quo se sentassem, que tivessem paciencia, era um instantinho — Maldito ! — murmurou Xavier com raiva. — Canalha I — fez o Roma, dando-lhe um canellão. Carvalhosa beliscou-o : — Has-de m'as pagar, ogsassino ! Elle torcia-se, tinha olhares anciosamente supplicantes : — Oh, filhos, por quem sois ! um momento ! Pelo amor de Deus ! Sejam decentes ! Arthur, livido, gentia a hostilidade, Mas não lêr agora, poderia parecer uma aesfeita . . . Depois contava dominal-og pela eloquencia do drama, Fez um estorço e disse n'ama voz baixa, estrangulada : — Eu não leio tudo , , . —Sim — acudiram logo. — Uma ou duas gee• nas, p'ra fazer idéa ! Melchior, por traz da cadeira d'Arthur, revirava olhos imploradores. AB cadeiras enfileiravam-se em semi-oirculo : o tio Antonio, com as mãos nos joelhos muito geparad&, arregalava OB olhos na sua face nedia ; Sarrotini arqueava o busto forte, os braços soberbamente cvuzados sobre o peito ; Car valhoga apalpava a garganta, com olhares desconfiados para a porta, para as janellas ; Roma, com as pernas muito estendidas, os pés cruzados, con• servava a mao sobre a bocca, como para esconder bocejos provaveis ; havia queixos melancolicamente descahidos sobre as gravatas ; os olhares tinham uma resignação molle. E o andando em bicos dc pés, acabava de dispor uma nova densa fileira de garrafas sobre o aparador. Para Arthur, aquelles rostos em linha eram quasi pavo- rosos. Tinha ex.plicado, tremulo, que os Amores de Poeta eram a lucta entre o talento e os preconcei tos sociaes. — Alvaro, um poeta, ama a duqueza de S. Ro mualdo Padilhão pulou : — Ora essa ! E então o que ha-de pensar a snr.8 condessa de S. Romualdo, uma senhora respeitabilissima ! Arthur, atarantado, balbuciou : —É duqueza — Duqueza ou condessa. um titulo da casa, lum titulo antiquissimo. Sou relação da familia, pes• soas da primeira sociedade . , . Concordaram, em redor, que era preciso mudar o titulo. Então todos fallaram, n'uma balburdia, que lera a desforra do silencio forçado, lembrando titulos : duqueza de I Duqueza de Pedro- Negras Qual! Duqueza da Casa-Santa... Emfim decidiu-se que foge simplesmente — a duqueza ! Aquelle interesse pelo titulo animou Arthur. Pro- seguiu, mais seguro : —O que lhes vou agora lêr, é quando o Poeta faz, em casa da duqueza, o elogio da poesia • E, emfim, verão . . . É n'uma soirée : O CONDE S. SALVADOB Leu os Céus Estrelados marqueza ? A MARQUEZA D'ALVARENTA (despeitada) Até acho impertinente gue m'O pergunte, Conde I Uma pessoa do meu nascimento e da minha educação, não toca nem com luvas . . . O VISCONDE DE FREIXAL (gaguejando) A ma-arqueza e-em gue-estões d'es-es-trelladog 8ó-ó-ó 0-008 ! Todos riram, Muito bem ! muito bem ! O Meirinho affectava torcer-se. Atiraram-lhe mesmo um chut severo ! — Deixem-me deixem-me saborear dizia suffocado, com as mãog nag ilhargas. — Magnifieo I Arthur, aquecendo, continuou já com inflexões theatraes : O DUQUE A Marqueza tem razão. Platão erctuéa os poetas da sua republica e Platão, a meu vêr, era um homem d'espirito e um estadista. De que servem 08 poetas ? O POETA (que conversava baixo com a Dugueza, er guendo-se arrebatadamente) De que servem, gnr. Duque ? A DUQUEZA (baioo) .Atvaro, por quem és, não o irrites que nos perdes ! O POETA (sem a escutar) De que servem ? Semeiam o Ideal ! E o poeta, de certo de pé, com gestos nobres, fazia o elogio da Poesia. Amaldiçoava os Preconcei- tos, as Inscripções, os Fundos Publicos, os Bancos, todo o materialismo economicoa Accusava os fidalgos, seguramente cabisbaixos, de não comprehenderem a alma da Natureza, o que dialogam as aves com as flores e o que diz o vento aos pinheiraes. De que vos servem os vossos castellos, o vosso ouro, as vossas librés — perguntava desgrenhado. Que almag tendes consolado Que lagrimag enxugado D. Arthur, agora, levantado nas ondulações da rhetorica, tinha emphases de voz, e o seu olhar, os SOUB gestos, dirigiam-se sobretudo ao poeta Roma, como para ganhar a sympathia do versificador, incensando-o com aquella glorificação da rima. Mas Roma tinha posto o seu enorme pince-nez e na sua posição estendida, fixava os vidros de reflexog sombrios, na ponta romba dos botins. Quando o Poeta invocava Deus, inclinou-se para o Carvalhosa e murmurou : — Que besta ! Que burro ! O Carvalhosa, que a cada momento apalpava o enfartamento das glandulas, encolheu 08 hombros com uma resignação sombria ; todavia, secretamente, aquelle estylo ás empolas agadava-lhe como orador ; e a Saavedra tambem, que, bamboleando a perna traçada, affectava uma distracção elevada, preoccupagões politicas. Só o Cordeiro admirava francamente, meditando attitudeg d'actor, em con cordancia com a eloquenoia da prosa. Padilhio melia-se na cadeira, indignado, vendo em cada. phrase insultos aos titulares das suas relações; e pó, o tio Antonio, os braços gordos e ourtog ornza. dos, cerrava os olhos, como se a cadencia dog periodos lhe desse a gomnolencia d'um embalQr soporifico de berço. Quando Arthur, offegante, terminou a scena, sd Melchior e Meirinho tiveram brav08 ! Depois d'uma pausa, Arthur começou a lêr o acto do Baile de Mascaras. Bra longo : passava-se no palacio do Duque, n'um logar indeterminado, na Baixa, com terraços sobre um rio desconhecido de ballada. Pelas rubricas, parecia ser uma festa veneziana da Renascença : uma mascara vestida de trovador cantava uma serenata, dous napolitanos dançavam a tarantella, pagens circulavam com taças de vinho de Syracusa, um bobo roubava com destreza a bolsa aos cavalleiros, e no fundo passava um barco, em que flautas e rebecas alternavam com uma voz de mulher, cantando, na noite, versos de Petrarca. Xavier, experiente do theatro, comprimia o riso, roxo. Havia dialogos singulares : Marqueza, dizia um dominó, não sente n'esta festa errar um presentimento de morte » A Marqueza respondia, passando, a arrastar brocados : — O amor é um goivo que floresce n'uma caveira ! Doug fidalgos desciam ó geena : 0 FIDALGO Como ee portou comtigo o destino, no sarau da Princeza ? 0 FIDALGO Perdi seiR mil cruzados aos dados ! Quando Arthur leu a apostrophe do Duque, aepois d'atirar a luva ao Poeta : « Quem ousar erguer os olhos para a duqueza de S. Romualdo póde encommendar a mortalha ! » — houve um rumor lento, languido de : muito bem ! muito bonito ! de muito effeito ! — Os litteratos estavam tranquillos, o acto era idiota, o Arthur inoffensivo, e gosavam com attitudes recostadas, faces risonhas, a evidencia d'aquella mediocridade. Excellente drama para ser representado n'uma Assembleia de provincia, por curiosos d'uma phylarmonica. Pobre tolo ! E Roma cofiava a barba com deleite. Algumas scenas do quarto acto na caga do Poe- ta, na vespera do duello, com uma mãe humilde, creatura sacrificada, fatigaram. Sarrotini torcia-se na cadeira, impaciente do silencio, da immobilidade; o alferes bocejava sem pudor; puxavam-se os relogios ás furtadelas ; havia olhares desesperados para o aparador ; Carvalhosa, com os cotovelos nos joelhos, enterrava a cabeça nas mãos ; e Arthur, sentindo o tedio ambiente descer-lhe sobre o cerebro como um panno gelado, apressou-se a dizer : — Agora vou lêr o duello I Houve uma respiração alliviada : com a morte do Poeta, chegava do certo o fim ! Arthur proseguiu com uma voz lugubre : — Um cemiterio. Cruzes, campas, cyprestes. — Vem rompendo a madrugada. Um coveiro afasta-se com a enxada ao hombro, cantando —E elle mesmo cantou uma melodia singularmente triste, tocante : Nascem goivos a-a-ah t E rosas nas sepulturas. Morte eterna, morte eterna, Vida que tão pouco duras I — Bravo ! — gritou Sarrotini. A melodia impressionara. Arthur explicou que realmente a ouvira a urn coveiro, no cemiterio d'Oliveira. Extasiaram-se : elle repetiu-a. E aquella toada, d'um vago melancolico, punha alli, na sala, sob o gaz, um relance de cemiterio d'aldeia, n'um cahir de tarde triste. Animado, Arthur começou o monologo do Poeta, que entrava envolvido n'uma capa e pousava sobre uma campa duas espadas. As physionomias recahiram n'uma fadiga molle, havia uma prostração de fome ; o Xavier que soffria do estomago, não se contivera, e, em bicos dc pés, fôra tirar da mesa passas e amendoas, partilhando-as com Saavedra que se mexia na cadeira, desesperado ; o official de lanceiros então foi buscar uma bucha de pão ; o Mei. rinho desapparecera. O grito do Poeta, ao ser atravessado pelo florete do Duque, espalhou nos rostos uma alegria feroz. O Poeta expirava; a Duqueza corria, vestida dc branco, d'entre os cypresteg. Era a scena mais trabalhada, que lhe custara um mez de rascunhos, de vígilias. Leu-a, tremulo ; ás ultimas palavras do Poeta, estava pallido d'emoção, e a vela d'estearina, ao lado, fazia parecer a sua faco mais macilenta — como se se lhe espelhasse no rosto a agonia do personagem ; O POETA Adeus, anjo ! Deus te pague toda a felicidade que me deste na terra. Tu /08te a gota d'agua no desato, a estrella d'alva na cerração. Se alguma vez, nas festas do teu palacio, entre as valsas, os madrigaes e 08 cortezã08, te vier idéa o poeta gue na campa fria é pasto dos vermes, chora e diz comtigo : ninguem, como ellc, ninguem 8abia amar ! Vejo uma luz É a patria divina! Julia, a tua mão ! Oh, gojjro ! Adeus ! Ah ! (um grito, morre). A DUQUEZA (cahinao de joelhos) Oh, bem amado, a minha alma Vac comtigo e este corpo migeravel irá fenecer na gotidão d'um claugtro ! (CAE O PANNO) Ergueram-se com ruido. Havia como que um reconhecimento pela estopada finda ». Arthur muito pallido, de pé, com OB olhos brilhantes, fitava uns e outros. — Muito bem ! Muito bem ! Mas Roma estava desesperado. No final, reco, nhecera emoção, ideal, estylo ; e muito 'perfida• mente : — A pilheria dos ovos é uma obra prima ! Os outros immediatamente lançaram-se sobre aquelle detalhe, exaltaram-no, esmagaram com elle o drama todo. Era divina a sahida do gago. Repetiam-na : Estralados, gó ovos ! Era soberba. Cercavam-no, pareciam admiral-o por ter achado aquella facecia. Carvalhosa disse-lhe, muito serio : — O amigo deve escrever comedias ! —E é que é um rico calembour I— insistia! Melchior, Arthur sentia-se constrangido d'aquella admira Cão exclusiva por uma pilheria tão patusca no meio d'um drama tão sombrio. Perguntou timidamente o que lhes parecia o final. — Sim, muito bem — disse o Saavedra. — Mas a dos ovog é esplendida . . . não torna a fazer melhor ! Então Melchior exclamou da porta : — Messieurs, te aner est 86rvi t Atraz, um dos creados entrava com a terrina. Houve uma acclamaçao n'um ruido de cadeiras. Sentavam-se, fallando alto, na approximação gulosa do jantar tão esperado. Mas subitamente Roma ergueu-se, livido, exclamando : — Somos treze ! Contaram-se, inquietos. Sarrotini afastou-se com horror da mesa. O alferes refugiara-se, aterrado, ao pé do aparador. O tio Antonio ria : — Ora nada de pieguices ! Nada d'enguiços ! Era necessario chamar alguem ; então Melchior agarrou o chapéu e sahill a correr. Contavam agora desgraças, mortes inesperadas, depois de jantares de treze ; estavam de pé ; os creados, immoveiB, esperavam. Pouco depois, Melchior entrou com um sujeito de fato claro, despenteado, muito amarello e que tinha costuras no pescoço. Apresentou-o como o snr. Gallinha, o seu amigo Gallinha. Ninguem o conhecia — era o decimo quarto ! E, tranquillos, atacaram alegremente as ostras emquanto o snr. Gallinha, como que es tremunhado, batendo as palpebras á luz, voltava para os lados uma face avinhada e livida de de boche ! Na manhã seguinte, Arthur corren ao café Tavares, na rua de S. Roque, para lêr no SetNto a noticia do jantar Havia apenas uma curta local : O nosso collaborador Melchior Cordeiro deu hontem um lauto jantar aos seus amigos politicol «e litterarios no Hotel Universal. O adiantado da hora obriga-nos a reservar para ámanhã a des cripção d'esta notavel festa D. Aquella apropriação que o Melchior fazia do jantar indignou-o. Mas afinal não havia que estranhar, pensou : tinha-se combinado que apparentemente o Melchior lhe offerecia o jantar, a elle, Arthur. De certo, ao outro dia, uma noticia circumstanciada explicaria a intenção da festa e as sensações da leitura. Na manhã seguinte ergueu-se mais cedo e ás nove horas entrava no Tavares, com o coração a bater-lhe alto. A noticia enchia duas columnas ; dizia ; O JANTAR LITTERARIO DO UNIVERSAL « O banquete do nosso collaborador Melchior Cordeiro foi uma verdadeira festa da Intelligencia. No esplendido salão do Hotel Unicersal achava-se « reunido o que a Litteratura, a Politica e o High-life têm de mais eminente : um bouquet de celebridades. « Vimos o inspirado orado: Carvalhosa, o brilhante « poeta Roma, o estimado barytono Sarrotini, o so cial Padilhão, o espirituoso folhetinista Xavier, esse Jules Janin da imprensa portugueza, o estudioso actor Cordeiro e o nosso querido director, snr. Saavedra. «O menu do jantar, elegantemente impresso em cartão assetinado, continha o que a culinaria fran« ceza tem inventado de plus raffiné ; dir-se-ia uma d'essas festas do Segundo-lmperio em que o Café Inglez recebia, nos seus dourados salões, Impera« dores e Reis que vinham curvar-se ante o poder « de Napoleão o pequeno, segundo a immortal ex« pressão do vidente d'Hauteville-House. Eis o menu : HUITRES HORS-D'T,UVRE POTAGES : Julienne, Tapioca Crécy Porss0N : Turbot, sauce hollandaise « ENTRÉES : Escaloppe de veau à ta Macédoine Suprême de volaitle à Ia Melchior Jambons d' York auD épinard8 Fileis mignons à Ia Saavedra GIBIER : P«dreauc rotis à ta crapaudine Charlotte Russe « Dartoi8 doré GLACES, DESBEBE VINS : Bucellag, Collares, St. Jetien, Champagne, Porto. OAFÉ-LIQUEUBS « Como leitores vêem, havia dous pratos de dicados — um, ao sympathico amphytrião, outro, a ao nosso querido director Snr. Saavedra, que foi objecto das manifestações mais demonstrativas. « A ornamentação da mesa, bem como a compo sígão do menu, foram feitas gob os conselhos in« do popular João Meirinho, que uma « longa residencia nas capitaes da civilisação torna un artiste n'estes episodios da vida elegante e a boulevardiàre. Og brindes foram numerosos e eloquentes : o a do snr. Carvalhosa, á litteratura contemporanea, foi um dos improvisos mais brilhantes que temos ouvido e trouxe a todas as memorias a lembran ga do genio do immortal José Estevão. O snr. Roma, recebido entre um enthusiasmo exhuberan te, recitou a sua mimosa elegia, O Adeus d'Jtoira : vimos lagrimas em mnitos olhos. Sarrotini cantou, com a sua maestria habitual, uma deliciosa canção napolitana. O amigo PadilhZo, sempre obsequiador, deu algumas dag melhores imitações, que tan tos applausos lhe grangeiam nos salões do High Life : foram notaveis ag do Oboé, Emilia da8 Neves, Perd" e Paflida de comboio. Cordeiro, o inspirado galan, recitou com prodigioso talento o monologo « d'Hamlet, do grande bardo da fria Albion, tão « primorosamente traduzido por uma penna real. Houve tambem a leitura de trechos d'uma come dia, escripta por um mancebo d'Oliveira d'Aze meis, o snr. Corvello, se nos não falha a memoria, que conseguiu fazer sorrir com alguns calembourg. «A maior cordealidade, o espirito mais picante, as anecdotas mais finas, as conversações mais es pirituosas, occuparam a noite. Todos se retiraram bemdizendo o snr. Melchior, que é uma das per sonalidades mais sympathicas da Republica das Letras, por ter proporcionado um tão notavel meio de se provar que Lisboa não deve ter inveja a Paris, pela sumptuosidade dos Hoteis, o talento dos escriptores e as boas maneiras do High-life. « Estas festas elevam o espirito e fazem remontar «a memoria aos tempos de Garrett e de D. João « d'Azevedo, em que a vida elegante ge unia em proficuo convivio á vida litteraria ! Arthur desceu a rua de S. Roque, até ao Hotel, como uma pedra que rola, praguejando alto de indignação; galgou as escadas, soprando; no quarto, atirou o chapéu contra a parede : sentia por Melchior um odio homicida ; pensava tumultuosamente em vinganças vagas, batendo o soalho com passadas nervosas. Reparou então n'uma carta, que fôra mettida por baixo da porta. Urna explicação do Melchior, talvez ? Propoetas de rectificação ? Era a conta do jantar. Verificou a somma, tremulo : vinte e duas libras! Deixou-se cahir n'uma cadeira com o papel aberto na mão, lagrimas de raiva nas palpebras, murmurando : — Canalhas I Tinha recebido, ao outro dia, as provas da primeira folha dos Esmaltes e Joias, e, muito emendadas, ia leval-as elle mesmo, preciosamente, á typographia dos Castros — quando, ao chegar á Praga de Camões, no momento em que parava para deixar passar uma carroça, viu, descendo a rua de S. Roque, a senhora do vestido de xadrez ! No deslumbramento que lhe deu a presença da sua pessoa, o seu rosto oval, alumiado de dous grandes olhos negros, a graça da sua cabeça, toda a sua figura pequenina e mimosa, ficou immovel. Uma carruagem a trote quasi o atropellou : refugiou-se, atarantado, ao pé das grades da praça e viu-a seguir para a rua do Correio. Não reparara n'elle ! Levava pela mão um querruchinho. O seu vestido de fazenda azul tinha enfeites de sêda d'um azul mais escuro ; ia devagar, apanhando com graça a cauda do vestido. Trazia luvas de peau de suêde clara, e, andando, voltava-se, sorrindo para a creança que palrava, com passinhos muito vivos, as perninhas calçadas de meias encarnadas, toda rosada, gorducha, sã, appetitosa como um fructo, fresca como uma rosa. Foi-a seguindo. Não ouvia os ruidos da rua ; as fachadas das casas tinham desapparecido : parecialhe que só ella passava nas lages do passeio e que a claridade do dia adquiria um dourado glorioso. Apesar de magnetisado, retardava o passo : receava offendel-a indo muito junto d'ella, como n'uma perseguição, e devorava com o olhar os folhos baixos do seu vestido, uma brancura de rendas da saia, os tacões altos das suas botinas. Á esquina d'uma travessa, n'um portal, uma pobre pedia, com uma creança no regaço : ella parou, deu-lhe uma esmola e aquella caridade simples commoveu Arthur como a revelação de bondades delicadas, de piedades democraticas ; discretamente, para se associar com ella n'uma generosidade commum, pôz dous tostões na mão descarnada da mulher. Um amor avido de se produzir, de se manifestar, enchia-lhe o peito : aquella cinta fina, direita, attrahia-lhe os braços, a trança negra, em catogan, chamava-lhe as pontas dos dedos ; punha toda a alma nos olhos, tão intensamente, que não ficaria surprehendido se ena parasse, se voltasse e lhe estendesse a mão. Notava sofregamente todos os seus movimentos, como revelações do seu caracter ; viu-a erguer os olhos para um cartaz e lamentou que não fosse a sua peça, annunciada alli em grossas letras negras ; teve odio a um gallego, que, ao passar pesadamente, quasi lhe roçou a manga do vestido azul : como correria se alguem a offendesse ou a pisasse ! apertava com furor a bengala, olhando em redor, prompto a defendel-a, imaginando que um bebado, ao sahir d'uma, taberna, lhe passava as mãos mundas pelo rosto , . . Elle precipitava-se : ella refugiava-se nos seus braços, reconhecia-o—e um amor delicioso começava, que seria a gloria, o fim, a alta significação da sua vida. Impellido por aquellas imaginações, ia quagi junto d'ella, Tinham entrado na rua de S. Bento ; pensou então em passar adiante, voltar-se, fital-a com adoração, dizer-lhe n'um longo olhar : Sou eu ! Olha para mim, não te lembras Mas uma timidez retinha-o. Ia emfim adiantarse, quando ella, atravessando a rua, entrou no portão largo d'uma casa espaçosa d'um andar Que ferro ! . . Mas talvez lhe apparecesse á janell& i! Havia uma vidraça entreaberta, por onae elle via, entre o estofo escuro das bambinellas, reluzirem vagamente, no fundo sombrio, dourados de quadros. Accendeu um charuto e pôz-se a passear devagar, esperando a cada momento vêr chegar á varanda a cabecinha pallida e fina, já sem chapéu, Morava de certo alli, e a casa, com sua fachada amarella, as janellas do rez-do-chüo gradeadas, o pateo d'uma pedrinha miuda, com dous batentes de baeta verde ao fundo, sobre um degrau, attra hia-o singularmente, por uma expressão discre ta, aristocratica, como se a querida creatura que lá vivia lhe communicasse uma graça digna e reco lhida. Um guarda-portão grosso, barbudo, veio collocar se á porta rolando em redor olhares magestosos, e Arthur, receando que elle reparasse na sua curiosi dade inquieta, por prudencia, tomou a subir a rua do Correio. Esquecera agora as provas, o livro, e caminhando rapidamente, pensava com energia em cousas vagas que tentaria para se fazer conhecer, e conseguir o seu amor ! A casa de D. Joanna Cou tinho, as suas soirées aristocraticas e litterarias, onde ella, tão bonita, tão nobre, de certo ia, offereciam lhe o meio mais accessivel. Eram o rendez-vous do nosso high-life, dissera Meirinho quando promet tera apresental-o. Iria de casaca, com uma camelia vermelha . . . Pediria delicadamente ao Meirinho que o apresentasse . . . Qual ! devia exigil-o Tinha di reito a isso : comprara-lhe um paletot e duas pisto Ias, regalara-o com um bom jantar ! Era necessario ser finorio b. Meirinho devia saber o nome d'ella, as suas relações, os seus habitas ; Melchior tambem, elle que dizia conhecer até os cães vadios da rua . . . de repente deu de rosto com o jornalista, que descia a rua do Carvalho : — Homem, vinha a pensar em você — disse expansivamente, esquecido da infamia da noticia do Seculo. Melchior tivera um movimento para se esqui var, mas deu-lhe um aperto de mão molle, hesitante com as faces escarlates. Que tinha feito Porque não apparecera na redacçño O Saavedra perguntara por elle — gostara immenso do drama, o Saavedra . . . Mascava as palavras, espessamente, com um embaraço que lhe entumecia as feições — e de repente, gem transição, muito alto, com grandes gestos que faziam voltar pessoas espantadas, começou a invectivar o Roma. Fôra o Roma quem escrevera o artigo do Seouto, aquelle patife ! Tinha sido uma perfidia ! Elle, quando o lera, até arrancara os cabellos . , . E cruzando os braços com violencia, quasi es candalizado com Arthur : — Mas para que me não disse você a verdade ? Que tem você com o Roma ? Arthur jurou energicamente que não tinha nada eom o Roma. — Pois não o póde tragar ! E, para fallar com menos reserva, foi-o levando pelas ruas mais isoladas do Bairro Alto. —-- Você percebe, eu não podia escrever a noticia ! Que diabo, eu é que tinha dado o jantar, não era decente. Pedi ao Roma : sempre é um vulto, é um estylista ! Reeommendei-lhe que falasse no drama, com um bello elogio, um elogio d'arromba ! Pois senhore,s, escreve aquella infamia ! Arthur então indignou-se. Que pouca vergonha ! E elle então que até admirava o Roma e os Idyllios 6 Devaneios ! Pois que tivesse cuidado ! Que havia nos Idyllios muitos podres . . . Versos errados, imitações, erros de grammatica . . . ! Exaltado, fallava alto, com os olhos brilhantes, Melchior olhava-o de lado, inquieto já d'aquella (tolera, inesperada n'um moço provinciano e acanha do. E exagerava então elle mesmo o seu odio ao Roma. A affronta era feita a elle, Melchior. Ah ! mas o Roma havia de Ih 'as pagar ! Fiara-se n'elle, quê ! — Você não imagina o desgosto que tive, Arthur ! Eu sou assim. P'r'os amigos,—e você, caramb ar, calha-me, --- p'ra os amigos, tudo ! Sou uma victima da minha dedicação. Sou uma victima ! Com uma verbosidade impetuosa, contou então outros casos em que a sua boa-fé fôra surprehen dida: indignamente surprehendida ! É que elle era um cavalheiro : acreditava no cavalheirismo dos outros ! por isso que não tinha cheta. Era um mãos-rotas p'ra todos. Já fôra o mesmo com o inventario do papá ; tinha perdido p'ra cima de dous contos de réis. Porquê Boa-fé, cavalheirismo ! Mas ao menos passeava na cidade de cabeça era guida . , . Aquellas explicações tão intimas, tão amigas, confidenciaes, quasi enterneciam Arthur. Sentia-se reconhecido a Melchior de o vêr soffrer por causa da noticia do Secuto. Veio-lhe por elle um fluxo de amizade transbordante : desejava passar-lhe a mão pela cinta, offerecer-lhe dinheiro ; lembrou-se n'um relance de lhe dar uma boquilha. Não se tinha zangado com elle, ia dizendo : o Rabecaz sempre lhe affirmara que o amigo Melchior era um rapaz ás direitas. — O Rabecaz é que sabe, o Rabecaz é que sabe ! — exclamava Melchior, apossando-se sofregamente d'aquelle testemunho, erguendo as mãos e os olhos para o céu azul. Ah, mas não se perdera nada ! O Roma fizera a infamia — mas porque era ? Inveja. Todos consideravam o drama uma maravilha . . . — Disse-m'o o Saavedra; o Arthur é um grande d.ramaturgo. o unico ! E o Xavier, que é quem entende, estava enthusiasmado! Disse-m'o elle. Você a publicar o livrinho de versos e elle a fazer um folhetim que o Roma e€toira de raiva . . . Que elle não póde vêr c Roma ! E lamentou então aquellas inimizades entre a Rapaziada. A rapaziada devia ser unida ! Vinham descendo a rua de S. Roque, e MelOhior, querendo aplacar inteiramente Arthur, declarou que para apagar a má impressão da « noticia do jantar b, era necessario fazer outra sobre o drama — Por exemplo . . . —e parado defronte do Tavares, meditava, com um dedo sobre os labios, o chapéu um pouco para a nuca. — Uma noticia chic, d'estalo . . . Por exemplo . . . Espere você . . , Mas de repente, dando com os olhos em dous indivíduos que subiam a rua devagar, perturbou-se, murmurou : Oh, diabo, adeus menino ! — girou sobre os calcanhares e abalou, fugindo a grandes passadas, Arthur, attonito, viu-o cortar, cosido com a esquina, por uma travessa do Bairro Alto. Os dous sujeitos approximavam-se tranquilla- mente, rindo : um d'elles, grosso, de grande pêra, deu um olhar de lado a Arthur e elevou a voz : —O covarde do Melchior safou-se á correcção. Não as perde. Aquellas orelhas de burro pertencem-me, hei-de arrancar-lh'as em tempo competente ! E seguiram com um ar de chacota. N 'essa tarde, M) jan.tar, no Unicersal, Arthur, timidamente, deu a Meirinho os signaes da senhora do vestido de xadrez, perguntando se a conhecia... Morava na rua de S. Bento, um palacete d'um andar só . Meirinho pareceu humilhado de a não reconhecer. De resto, como estivera tanto tempo ausente de Lisboa . . . havia camadas novas. Não era d'estranhar que não a conhecese. E recostando-se na cadeira, fazendo girar nos dedos o a,nnel d'armas, como para se comprazer na pureza da sua estirpe, lamentou a formação d'um•a aristocracia nova, abrasileirada, que era quem tinha o dinheiro, as carruagens . . . Citou a phrase do velho marquez d'Axreffana, aquelle original » : Eu, quando passa um rico landau, volto a cabeça, « porque tenho a certeza que é gente pulha, mas « se vejo um omnibus, tiro o chapéu, porque estou seguro de que vão lá pessoas de nascimento . . . » — É bem dito, hein — Cofiou com satisfação a beha barba clara e inclinando-se ao ouvido d'Arthur : — Porquê Temos conquistazinha Arthur negou. Era pura curiosidade. Encontrara essa senhora, parecera-lhe bonita . . . Queixou-se então da sua solidão : não tinha relações . . . Ás vezes, á noite, enfastiava-se. E disse, rindo negligentemente, como gracejando : — Então quando vamos nós á D. Joanna Coutinho ? Meirinho enguliu á pressa, bebeu um gole de vinho e pousando o copo : — Ah, não me tenho esquecido. Eu até faço empenho . . . É necessario primeiro, naturalmente, — é a etiqueta — pedir-lhe auctorisag•ao. — mais baixo : — Lá vi, lá vi a noticia do Secado. Lá me fizeram o favor... fazem-me o favor de m'estimar... Recostou-se com beatitude, cerrando os olhos, como para saborear a sympathia ambiente : — Que a festa esteve bonita, muito bonita Com franqueza — quanto Arthur córou e disse : — Vinte e duas libras, salgadinho ! Meirinho reflectiu um momento e com gravidade: — Muito razoavel, muito razoavel ! E lá vi, lá vi : os calembours, muito bem acceites . . . E dirigindo-se a um sujeito pesado, de beiços grossos e barba grisalha, que comia com uma gula lenta, um vago suor oleoso na pelle avelhada : — Oh, Bento Correia, tem aqui um rival ! Ouvindo o nome de Bento Correia, uma celebridade antiga, quasi classica, jornalista, funccionario, Arthur fez-se escarlate. Bento Correia voltou-se e com uma voz empastada, lenta, a bocca cheia : — Então pertence á confraria — Havia d'ouvir. No jantar do Melchior, leu-nos uma comedia . . . Oh, menino, d'estalar ! Calembours deliciosos ! Estava convencido da excellencia dos calembours desde que os vira celebrados n'um jornal. Arthur, desesperado, envergonhado, acudiu : — Não, não é só isso É um drama — Não senhor, não senhor • f — exclamou Mei rinho, como para contradizer aquella modestia ex cessiva. — Muito bons ! Muito bons ! O dos OVOB é delicioso ! É digno do Figaro ! — Vamos lá a vêr o dos ovos — disse Bento Correia, com a sua tranquillidade mage«tosa e enfartada. Meirinho citou-o, rindo, saboreando-o ainda. Bento Correia pareceu satisfeito e disse logo outro que tinha feito na vespera, na reunião da maioria ; repetiu o boeuj-à-ta-mode e contin uou fallando no seu tom espesso com um sujeito ao lado que es outava com os olhos, com o queixo, com toda a sua pessoa provinciana, n'uma admiração de discipulo, esgaravatando os dentes com a unha. Arthur considerava a grossa face lu.strosa de Bento Correia, o seu olhar amortecido cahindo de sob uma palpebra pesada, a sua mastigação vagarosa, pensando, exasperado, que, para aquelle ho mem illustre, elle era apenas um fazedor de catemboure, um insignificante ! Era, de certo, a opinião dos outros, de todos os que tinham lido o Seculo. Parecia-lhe vêr nos rostos clareados d'uma satisfação alvar, repleta, um desdem apathico pelas suas habilidades d'arranjador de graçolas Os lados nobres, elevados, do seu talento, desappareciam sob a popularidade d'uma facecia incidental ! E fôra o Roma, o canalha, que preparara aquella perfidia acabrunhadora ! Era o Meirinho, o imbecil, que a exagerava, a prodigalisava I Tinha-lhes odio ! O Meirinho sobretudo irritava-o, com o seu gesto de acariciar a bella barba clara, arrebitando o dedo minimo d'unha envemisada. O seu furor cresceu quando o Carvalhosa, que chegara taxe? o, com o aspecto sujo de quem vem de longe, a testa vermelha do vinco do chapéu, a cabelleira desleixada, lhe disse, sentando-se, com um tom negligente e superior : — Então temos algum novo cate,mbour ? Positivamente era uma conspiração ! Queriam diminuil-o, amesquinhal-o, reduzil-o ás proporções grotescas d'um chalaceador d'alman.ach ! Planos vagos atravessaram-lhe o espirito : fazer uma declaração nos jornaes, imprimir i.mmediatamente o drama ! Desejava sobretudo chicotear o Roma. E, furioso, ia erguer-se, quando appareceu o snr. Alvim, adiantando para a mesa a sua carinha velha, muito rapada, de rugas duras, com aquelles tons de greda livida que a caracterisagio e o gaz dão aos antigos comicos. Pequenino, subtil, errava todo o dia pelo Hotel, fazendo vagamente sortes de prestidigitação ás pessoas que encontrava, tirando um limão d'uma gola, um bogalho d'um nariz, empalmando um par de luvas, sob o olhar attonito d'algum provinciano ; estendia gostosamente a mão a uma placa de cinco tostões e o seu sorriso miudo tinha um servilismo lisonjeador ; dobrava-se em cortezias com a elasticidade d'um clown ; dizia-se que conhecia agiotas e que geria um lupanar : era geralmente estimado, era o maganão do Alvim b. Parecera desde o principio sympathisar com Arthur, achando n'elle uma passividade favoravel ás suas « sortes E apenas entrou, approximando-se na ponta das botas cambadas, seguido de olhares já divertidos, tirou-lhe do queixo, com uma surpreza comica, uma pêra d'inverno. Em redor, riram : — Bravo, seu Alvim ! E o Bento Correia concluiu paternalmente : — Isso é tirar uma pêra d'um queixo que a traz rapada ! Era um famoso calembour ! Causou deleite ! Aquelle diabo do Bento Correia ! . . Aquelle era de truz ! Meirinho, enthusiasmado, acotovelou Arthur : — Este é soberbo, homem ! Ponha-o na comedia, ponha-o na comedia ! E Carvalhosa, com a bocca cheia, repetia : — Ponha-o na comedia ! É soberbo ! — D'artista — disse com auctoridade o Padilhão, olhando Arthur como para o aconselhar a utiligar aquelle soberbo calembour. Arthur sentia deante dos olhos uma nevoa ganguinea. Era uma troça com certeza ! Abafava. Disse vagamente : que calor ! E agarrando o chapéu, sahiu, ouvindo ainda as risadas na sala. Riam-se d'elle, de certo ! Desceu o Chiado, gente, @om palavras vagas, murmuradas, que lhe sahiam da bocca como um vapor de colem. Entrou no Martinho e o creado que limpava o marmore da mesa ficou admirado do gesto com que se atirou para uma cadeira e da voz furiosa com que. pediu genebra. Quando o seu furor se evaporou, Arthur reparou no republicano, no Nazareno, que, ao lado, com a chavena defronte, fumava, a cabeça encostada á parede, as lunetas reluzindo sombriamente. Os burguezes do Universal tinham-no indignado tanto que sentiu, n'um impulso, uma sympathia ardente por aquelle homem, hostil á burguezia, que fallava nos Clubs contra ella e lhe preparava a morte. Depois das faces alvares que tinham rido do calembour do Bento Correia, achava uma alta expressão intelligente, critica, n'aquella physionomia secca de jacobino, que tomava o seu café com uma mansidão philosophica. Como o seu drama, que era a glorificação democratica do genio plebeu, agradaria áquelle republicano, áquelle egualitario ! Parecialhe agora que os Carvalhosas, os Padilhões, queriam amesquinhar o seu drama por sentir n'elle um grande sopro revolucionario ; e na sua indignação contra os Conservadores, os Bentos Correias, os Meirinhos, decidiu servir as idéas do Nazareno, dramatisal-aé. Desejava conhecel-o, desabafar com elle, dizer mal, odiosamente mal, da canalha que lá em cima, no Universal, lambia os bigodes humidos de café, partindo nozes apathicamente, no enfartamento d'uma nutrição cara. Procurava um meio de lhe fallar, quando Nazareno pediu ao creado a Revolução de Setembro que estava deante d'Arthur, aberta, enxovalhada : apressou-se a offerecer-lh'a, meio erguido, sorrindo ; o republicano agradeceu com um movimento reservado, percorreu o jornal um momento, atirou-o para o lado com desdem e bebeu os ultimos goles de café. Aquelle gesto encantou Arthur : mostrava o desprezo do republicano pela litteratura dos Romas, dos Xavieres, da canalha ! E pediu outro café, demorando-se, esperando um incidente, um olhar, alguma palavra casual que os reunisse. Mas Nazareno, immovel, soprava espaçadamente o fumo do cigarro. Era talvez um amigo de Damião, pensou Arthur. Poderia perguntar-lhe, muito naturalmente, a morada do Damião ou quando voltaria do Algarve. E ia fanar-lhe, animado por dous calices de genebra, quando o republicano pôz tres vintens sobre o marmore da mesa, ergueu-se, deu um geito ao cabello deante do espelho e sahiu, direito e secco. Que ferro ! Sahiu tambem, immensamente desconsolado. Aquella contrariedade fez-lhe pensar, com amargura, nas outras, bem maiores, que lhe estragavam a vida : o seu amor por aquella creatura pequenina e pallida, entrevista, logo perdida ; a reputação de farça dada ao seu drama, tão philosophico ; as soirées de D. Joanna Coutinho, promettidas e sempre adiadas ; os seus enthusiasmos litterarios pelo Roma, pelo Carvalhosa, retribuidos com perfidias, desdens, troças . . . Tudo na sua vida era assim incompleto, esboçado, fragmentario ; não encontrava nada de solido em que se fixar, a que se dedicar : amor, relações, gloria, tudo lhe escapava d'entre as mãos, como a agua que uma creança quer apanhar e lhe foge entre os dedos. E sentia uma solidão, uma frialdade, que a noite ennevoada augmentava. Cahira um nevoeiro, que os altos predios entalavam, condensavam, em que a luz do gaz se amortecia e os vultos tomavam um tom neutro e encolhido ; as fachadas escuras pareciam mais tristes, vagamente fundidas na incerteza baça da kruma. Arthur caminhava, triste : sentia a nevoa prender-se-lhe ao bigode, ás pestanas, amollecer-lhe a gomma do collarinho, e toda aquella humidade depositar-se-lhe na alma. Cheio de tedio, sentindo-se mais só nas ruas vazias d'onde o nevoeiro afastara a gente, teve um desejo de se embebedar, aquecer o corpo e o espirito com genebra, rolar-se no deboche. Voltou ao Rocio : entrou n'um pequeno café, onde a Õôr suja da parede, o •soalho negro, o estuque enxovalhado, comiam a pouca luz dos bicos tristes de gaze Installou-se a um canto com a garrafinha de genebra, melancolico, pensando no botequim da Corcovada, qu.e agora lhe parecia mais confortavel, mais amavel do que tudo quanto encontrara em Lisboa, com a sympathia verbosa do Rabecaz, 0 lume a estalar do outro lado do tabique na lareira da cozinha, e as vozes conhecidas caturrando no bilhar. Um pigarro pertinaz, n'uma mesa ao lado, fel-0 reparar n'um sujeito que tomava um cabaz : pequeno e grosso, trazia um chale-manta aos hombros e a face redonda, barbeada, molle, tinha uma côr livida de pelle de gallinha ; no seu olhar embaciado havia um langor morbido e grotesco. Sorriu para Arthur, dirigindo-se-lhe com uma vozinha fina : — Má noite ! — Muito má ! O individuo, immediatamentej arrastou-se pela banqueta de palhinha até junto d'Arthur, com um movimento derreado dos quadris, os olhos revirados n'uma ternura chorosa : — É servidinho d'um cabaz ? Arthur recusou. Aquella proximidade do velho embaraçava-o : O individuo tinha um não sei quê de pegajoso na pelle, um roliço de perna effeminado que repellia, e nos seus olhos, de côr indecisa e que não deixavam Arthur, errava uma luxuria turva, equivoca, flaccida. — Então porque não vai um cabazinho P — disse o homem, mais baixo, chegando-se. Arthur, instinctivamente, recuou com nojo. O outro teve um movimentozinho de quadris, tocou lhe no joelho e muito canalhamente : — Não tenha medo, menino ! Arthur comprehendeu, ergueu-se e com os punhos cerrados : Seu mariola ! — Então, menino, então ! — disse o outro trane quillamente. Arthur berrou pelo creado, atirou uma placa para a mesa e sahiu furioso. O nevoeiro cerrava; e Arthur, galgando o Chiado) impellido pela indignação, ia murmurando ; — Canalha de cidade ! D'ahi a dias, de manhã, revia as provas do! Esmaltes e Joias, quando a porta se abriu discreta. mente e Meirinho entrou, pedindo muitas licenças envolvido no seu belo robe-dc, chambre de ramagens, o aspecto mais risonho, mais serviçal. Se estava a trabalhar, não o queria incommodar ! A revêr as provinhas, hein ? Examinou-as por cima do hombro d'Arthur, sem o deixar levantar, dizendo : — Por quem é, por quem é, patricio ! Eu não vim incommodar ! Bonito typo; elzeviriano, não ? É muito chic. Versinhos d'amor, hein Seu maganão ! . . Ora vamos a vêr, vamos a vêr. — E inclinava o rosto para escutar, com extasi. Arthur, lisonjeado, leu, na folha que revia, algumas quadras ás Collinas de Santo Estevam — « que era lá nos seus sitios : Oh ! colliff8s verde-negras Onde se escondem casaes, Pondo brancuras de cal Nos ramos dos pinheiraes Collinas de Santo Estevam, Onde eu á tarde passeio, Colhendo nas nuvens brancas Motivos de devaneio Meirinho achou « d'appetite E sorrindo maficiosamente, quiz saber se elle não fazia ás vezes « versinhos frescos », como os do Bocage, por exemPIO . Arthur córou como uma virgem : de certo que não, que horror ! — Pois têm seu cabimento — disse Meirinho com um ar entendido. Eu pello-me ! E olhe que na sociedade gosta-se ! Gosta-se ! Já se sabe, nada de grossa indecencia ! No genero do Padilhão. O Padilhão para isso é um Deus ! Conhece o Botão de Rosa, do Padilhão ? Não conhece ? — E p»tecia admirado — Pois olhe, é fallado, e como o amigo é litterato . . . Mas em Paris é que ha meninos para isso ! Oh . —- e revirava os olhos — E poetas de fama ! São muito apreciados. É muito chic ! Arthur, ainda vermelho, estava indignado. Havia na voz compenetrada, nos movimentos d'olhos de Meirinho, fazendo o elogio da poesia obscena, uma satisfação langorosa que lhe lembrava, por vagas semelhanças, o velho do café do Rocio ; e aquellas opiniões estupidas faziam parecer mais irri tante a correcção da sua barba e o catitismo do seu bello robe-de•chambre de ramagens. Meirinho passou o lenço de monogramma bordado pelo nariz, e mudando de tom : — Pois eu vinha saber se o amigo quer ir hoje á D. Joanna Coutinho Que surpreza ! Porém, á alegria repentina que lhe veio, misturava-se um vago medo que lhe fez dizer, sem saber porquê : Não, hoje . . . Arrependeu-se logo. Queria revogar a palavra. Remexia nervosamente nag folhas impressas do livro, com as orelhas escarlates. Meirinho exclamou : — Qual! O amigo não tem que fazer. Eu já fallei á D. Joanna: ella tem immenso gosto... Recita-se, naturalmente. É necessario levar uma poesiazinha . . . Arthur, por fim, aceitou, reconhecido. E para esconder o seu enthusiasmo provinciano, perguntou a que horas devia ir, quem estaria . . . — Ah, — fez Meirinho — talvez lá encontre a tal senhora que mora em S. Bento. Se é pessoa de sociedade, uma ou outra terça-feira, deve lá ir. Vai lá tudo t Arthur fez-se vermelho de prazer. Calculou logo que devia ir comprar luvas côr de palha, uma flôr . Sentia uma nova estima pelo Meirinho : era um bom amigo, este ; pensava mesmo em lhe dedicar uma poesia no livro . . , — Como o tempo melhorou, hein ! — exclamou Meirinho que se approximara da janella. De manhã ainda choviscara, mas agora o céu azul, d'um azul terno e humido, reluzia entre largas nuvens algodoadas que a luz orlava d'uma tonalidade macia de leite. Arthur abriu a ianella. Ao contentamento do bonito dia, misturava-se a alegria d'ir á soirée : sentia-se vagamente enternecido. Via-se lá, n'uma sala rica, onde caudas de sêda rugem sobre os tapetes, fallando-lhe baixo, a ma, muito junto do leque aberto sobre o lindo rosto cóiado de sensações doces. Que recitaria — Recita-se, hein — perguntou ainda a Meirinho. — Costuma-se — disse o outro, que parecia distrahido, passeando pelo quarto, afagando a barba, apertando os cordões do robe-de-chambre. Ás vezes parava, sorria para Arthur, cerrava os olhos, dava alguns pa.ssos, curvado para as suas chinelas bordadas. De repente disse : — Então ás nove, de casaca Dirigiu-se para a porta; mas parando, com um grande gesto : — Homem, esquecia-me ! — E riu baixo um mo. mento, como se fosse dizer alguma cousa de muito comico : — Succede-me uma historia engraçada, Esperava ahi hoje uns dinheiros . . . Tem graça: não Cousas do paiz É d'um ridiculo t Esperava um dinheiro Pois senhores, descui. dam-se . . . E aqui estou eu . Tem o amigo de} libras, até ámanhã ? Arthur, um momento surprehendido, foi logo ao bahú tirar as libras d'um cartucho. E Meirinho, fazendo-as escorregar negligentemente para o largo bolso do robe-de-chambre : É d'um ridiculo, hein Cousas do meu pro. curador ! — Tornou a rir ambiguamente : — E en- zgo tão ás nove, de casaca. gravata preta; é escusado gravata branca . . . Sorveu outro riso, e já com a mão no fecho da porta : —A D. Joanna Coutinho ha-de estimar muito. Já fallei nos calemboureinhos. Ella já sabe, ella já sabe ! Riu de novo, e com um deslisar doce das chineIas, sahiu, dizendo : — Au revoir, cher ! Arthur ficou extremamente agitado. Ia vêr em a fim essa cousa extraordinaria : a SOCIEDADE ! Imaginava vagos dialogos, phrases originaes que diria, posições em que se sentaria : e sentia já umas indefinidas colicas a que se misturava um sopro de vaidade alegre e de timidez retrahente. Se DIIa lá estivesse? Ousaria lembrar-lhe a estação d'Ovar? E fumando, pelo quarto, perdia-se em imaginações fluctuantes, em que se formava e desmanchava o romance fragmentado dos seus amores com DIIa — desde o primeiro olhar até aos ciumes do marido, até a um duello possivel ! . N 'esse momento um creado entrou com uma carta : era do snr. Melchior e o gallego esperava a resposta. Amigo Arthur — dizia o jornalista — « hoje, por acaso, eu e outro amigo combinamos c uma partida ao Dáfundo, com damas hespanholas. Despezas divididas como n'um pic-nic d'amigos, « Quer você vir ? O outro rapaz é conhecido, é dos « nossos. Resposta. O 'tendez-vous é ás 9 em ponto « na Casa Havaneza — P. S, —A formosa Concha está prompta a ir e você será o seu cacaliere ! Viva Arthur ficou com o bilhete na mão, hesitando : na letra irregular e desmanchada de Melchior entrevia como que uma impetuosidade de troca, desalinhos de toilette. A idéa da Orgia apparecia-lhe toda reluzente de tentações : n'uma abundancia de luzes de gaz, jactos dourados de Champagne saltando dos gargalos estreitos, mulheres de decotes atrevidos can- tando, valsas improvisadas fazendo saltar os crystaes sobre a mesa e em que o frou-frou das sêdas se misturava ao estalar dos beijos ! Desejava muito ir — mas a sua promessa a um homem tão bem relacionado como Meirinho . . A esperança de a vêr, a Respondeu, não sem orgulho, «que sentia muito, mas já estava convidado para uma soirée no High. A casa de D, Joanna Coutinho, a Santa Izabel, era um antigo predio, com um pateo lageado de pe r dra miuda, onde ás vezes se via, a um canto, desatrellada, a carroça da agaa. Casada com um fidalgo da provincia, rico e já d'edade, D. Joanna Coatinho recebia ás terças-feiras : aquellas soirées constituinm a sua posição social. De vez em quando, com a prudencia de quem esperta uma lareira que tende a esmorecer, alguns amigos (Bento Correia dizia alguns devotos faziam publicar nos jorna€ Y.s — que as deliciosas tergas-feiras da Ex.ma Snr.a D. Joanna Coutinho continuavam a ser a grande attracção da sociedade elegante — Dizia-se gel almente que eram soirées ecleticas » : viam-se, effeito, nas tres salas seguidas, velhos fidalgos, novos deputados, jorna•stas, um ou outro banqueiro, algum ministro, poetas e estrangeiros. Ás vezos recitava-se ; quando do. avam as raparigas, va Isava-se ao som do piano ; e como seu marido conservava muitas relações na provincia, via-se tambem e LTar entre os grupos caracteristicamente lisboetas, algum sujeito embezerrado, de cores sadias, chegado do fundo da Beira ou das alturas de Traz-os-Montes, incommodado na casaca vincada das dobras da mala. O que sobretudo torna va estas 80irée8 estimadas era a disposição da mobilia e a moderação da luz : as cadeiras e os sofás, cober tos, de verão ou d'inverno, das suas housses de fustão branco, estavam dispostos de modo a formar retiros favoraveis á intimidt de d'um grupo ou d'uma coterie, recantos obscuros, excellenteg para o dialogo murmurado d'um par sentimental. Ás vezes, via-se assim, n'um canto mal alumiado, um peitilho de ca, misa muito chegado a um leque aberto : — era um escandaloziuho em plena funcção, como dizia o ma,• ligno Xavier ; otitras vezes, d'uma d'aquellas alcovas — Bento Correia dizia, impudentemente, as alcovas de D. Joanna » — via-se erguer um sujeito, com o rosto muito serio, entumecido, escarlate, batendo as palpebras, como um homem mal acordado e a quem se desejaria perguntar : fez a sua somneca, hein ? — As luzes, lampadas Carcel de globo fosco, com fortes abats-jours, concentravam toda a claridade no meio d.a sala, sobre innocentes albuns e honestas vistas stereoscopicas, deixando junto ás paredes uma zona de sombra adoravel : assim não era necessario ág senhoras, como se dizia, puxar muito á toilette » : ligeiras modificações d'enfeites, no mesmo vestido, bastavam durante um trimestre ; além d'isso, a penumbra favoreceia os rostos muito pintados e as bellezas decahidas tomavam, n'aquelle esbatido doce de tons neutros, um encanto imprevisto. Por isso D. Joanna Coutinho era muito estimada. Apesar de ser casada com um velho monotono e passivo e de ter, com os seus esplendidos olhos negros, a sua alta estatura airosa, inspirado um bonito par de paixões era honesta. Tinha grandes amizades femininas : andava ás vezes durante um inverno inteiro com alguma rapariga que ninguem conhecia, desentranhada dos fundos neutros da burguezia, e que ella trazia a seu lado no landau, installava no melhor logar do seu camarote em S. Carlos ou no centro da sua sala, ás terças-feiras, cocando-a sempre com olhos brilhantes, erguendo-se de repente para lhe ir murmurar um segredo, com rizinhos quentes, muito zelosa dos Iseus olhares, dos seus apertos de mão. Depois, no inverno seguinte, outra favorita reinava » ; as suas creadas tinham a reputagão de bonitas e os rapazes costumavam, ao entrar, demorar-se nos corredores, tirando o paletot devagar, na esperança de entrevêr algum dos rostinhos maganos das escravas de D. Joanna ». Estas circumstancias davam logar a sorrisos malignos : chamava-se-lhe, rindo : D. Juanna. Mas ella era tão amavel, tinha um sorriso tão bom, os seus apertos de mão faziam-lhe tilintar os braceletes d'um modo tão attrahente—sempre tão prompta a servir d'empenho a um ministro, a organisar um bazar de caridade, a reunir um publico para a leitura d'um poema triste, que — como dizia Bento Correia — todo o mundo tinha a caridade de não aprofundar ». Seu marido, de resto, parecia contente e orgulhoso d'ella. Era um homemzito amarello e silencioso, a quem os convidados, ao entrar, davam um aperto de mão molle e as senhoras mostravam os dentinhos n'um sorriso curto ; depois, não se reparava mais n'elle. Muito methodico, muito economico, toda a noite errava subtilmente pela casa, arranjando uma cadeira, diminuindo no corredor um bico de gaz, levantando um paletot cahido. Di Lia-se geralmente que soffria d'um aneurisma : dous sujeitos, ambos empreg ados no Ministerio do Reino, ambos graves, seguram com impaciencia a marcha da, enfermidade, estudando-lhe a amarellidão, os cangaços, na esperança de ainda um dia gozarem os dez contos de réis de renda da viuva. Dizia-se porém que, morto o marido, D, Joanna Coutinho se retiraria a um convento — on.de o numero e a edade das educandas satisfariam amplamente as suas necessidades de ternura feminina. Davam nove horas no relogio do corredor quan•• do Meirinho e Arthua entraram, para despir os paletots, n'um pequeno gabinete alumiado por ser pentinas, ao lado d'um antigo tremó de provin cia. Arthur, muito nervoso, encharcado d'agua de colonia, hirto na sua casaca, com uma compressão de medo no estomago, calçava, um pouco tremulo, as luvas côr de palha, quando ouviu, sahindo d'uma sala proxima, um zurrar clamoroso de jumento ! Voltou-se, espantado, para Meirinho . . . Mas este apenas sorriu, alteou o peitilho, penteou cuidadosamente ao espelho a bella barba e disse : —É perfeito, hein ? Ao lado, o burro zurrava convulsivamente e aquelle ronco bestial, vindo atravez d'um repos teiro de fazenda escura, com um monogramma bor dado sob uma coroa, dava a Arthur a impressão d'uma estrebaria installada n'uma soirée. —É o nosso amigo — disse ainda Meirinho. Deu um puxão á casaca e ergueu o reposteiro. Era com effeito o Padilhño : no meio da sala, torcido sobre uma cadeira, com as mãos nas ilhargas, a face roxa, fazia a sua grande imitação do burro com cio » ! Admiravam-no ! Sujeitos graves, as mãos atraz das costas, tinham nas faces burocraticas expres soes approvadoras e profundas ; dos sofás, na pe numbra, estendiam-se magros pescoços avelhentados, boccas de poucos dentes entreabertas de pasmo; e as senhoras, de pé, com o peito alto, a cabeça de lado, o rosto luzidio de satisfação, saboreavam com rizinhos calidos a sensação de bestialidade que es palhava na sala aquelle rouco bramar de cio ! — Muito bem ! Muito bem ! Magnifico ! Elle erguera-se com os olhos injectados, arquejante, alargando o collarinho, murmurando : — Esta do burro, mata-me ! Trouxeram-lhe agua com assucar ; as senhoras cercavam-no, electrisadas, como procurando n'ellQ o cheiro, o calor, a excitação d'estio do animal, E pediam-lhe que fizesse a Emitia das Neves ! Só u-m instantinho ! Padilhão repellia-as, quasi brutalmen•• te, inchado, bufando, e foi refugiar-se n'um sofá, ao pé de duas velhas, abanando-se com o lenço : — Isto não é forja de ferreiro ! Isto não é forja de ferreiro ! Esta do burro, ! Meirinho então, correndo para Joanna Coutinho que atravessava a sala, apresentou Arthur. Ella deu-lhe um grande sha7ce,-hands varonil, com um sorriso amigo que lhe dexq cobriu os dentes até ás gengivas : — Muito prazer ! . . . admiravel o Padilhão ! Tem-nos divertido immenso ! Arthur olhava-a com admire cão : muito alta, de feições um pouco masculinas, as maçãs do rosto salientes e córadas, o nariz grande, os labios tão vermelhos que pareciam sanguinclentos—a sua força estava nos olhos encovados, muito negros, brilhane tes, voluntariosos ; da sua cinta espartilhada, mobil, secca, cabia uma camada espessa de saias, com um ruge-ruge d'engommados e de failZe dura ; e havia na sua magreza, nos seus movimentos d'uma ondulação felina, no seu cabello veto forte, no macio das suas mãos longas e estreitas, n'aquella quantidade de saias rijas, um tom ardente, decidido, que preoccupava e irritava. — Ha muito tempo em Lisboa — perguntoulhe ena ? Mas Padilhão, erguendo a voz do fundo da sala, d'entre um grupo de senhoras : — Oh, snr.a D. Joanna, venha oá ! Venha decidi.r I Ella deu um sorriso a Arthur e foi logo, balanqarxdo a camada sonora das saias. Arthur, só, isolado, procurou Meirinho com um olhar inquieto, e, não o vendo, ficou muito embaraçado, com o claque collado á perna, sentindo o acanhamento entorpecel-o, os dedos errantes sobre o bigode. A penumbra projectada pelo grosso abutiour verde esbatia as physionomias n'um tom neu t,ro, apagado : todas lhe eram desconhecidas. Olhou um momento uma mulher bonita, de vestido de Hêda amarella, que, enterrada n'uma poltrona baixa, o leque aberto sobre o co.llo, o olhar no chão, escutava com um vago sorriso um sujeito de pince-nez, de pulsos magrissimos, que gesticulava, muito chegado a ella ; junto da mesa, tres meninas cochichavam com rizinhos, os rostos unidos, examinando um album. Arthur, então, desejou tambem um album para folhear e os seus olhos voltavam-se an.,losamente para D. Joanna Coutinho, que de pé defronte do Padilhão, muito estirado no sofá entre vestidos de mulheres, ria, toda animada, com o l)raço passado pela cinta bonita d'uma menina loura o gordinha. Para não estar immovel, approximou-se a examinar um quadro que pendia por cima d'uma ronsole onde havia porcellanas : mas na meia obscuridade que dava o abat-jour, apenas via os dourados desbotados do caixilho ; voltou-se, mais embaraçado, infeliz : duas velhas com enfeites negros, as mãos no regaço, um aspecto de placidez embrutecida, pareciam examinal-o com uma curiosidade desdenhosa ; quasi angustiado, furioso com o Meirinho que desapparecera, com D, Joanna que o esquecera — entrou na outra sala, com a esperança de a vêr, a Ella ! Na sua turbação, distinguiu apenas, na mesma penumbra que cahia dos abats-jours, peitilhos claros de sujeitos recostados, corpetes de sêda onde reluziam medalhões ; leques palpitavam devagarinho ; fanava-se francez. Junto d'uma jardineira, no meio da sala, uma magnifica mulher d'aspecto esculptural, de bella e soberba massa de cabello louro, remexia distrahidamente em photo graphias espalhadas : sentada de lado á beira da cadeira, toda a riqúeza das suas linhas ficava em relevo e a longa cauda escarlate do vestido esten dia-se amplamente sobre o tapete. Mas Ella não estava, não viera, não era talvez mesmo das relações de D. Joanna. A 80irée perdeu para Arthur todo o encanto ; todo o attrahente calor ambiente pareceu-lhe ficticio, d'um ceremonial frio. Ia retirar-se, intimidado, quando ouviu a voz de Carvalhosa : gesticulava entre dous sujeitos, ao fundo, junto da chaminé, onde um guerreiro de bronze sobre um cavallo empinado brandia uma espada. Approximou-se logo d'elle, com um sorriso quasi servil, todo reconhecido ; o Carvalhosa deu-lhe um olá ! secco, desdenhoso, e mesmo abaixou a voz. Arthur então, desesperado, examinou um momento o bronze : sentia os pés pesados como chumbo, as orelhas ardentes ; muito perturbado, veio tropeçar na longa cauda de sêda escarlate : a senhora voltou-se com um olhar que brilhou o aconchegou o vestido com um gesto brusco, quasl irritado. Arthur voltou á primeira sala e ficou um mo. mento junto da porta, immovel : sentia que as articulagões se lhe emperravam. E teria de passar toda a noite, errando assim de hombreira em hombreira, mudo, grotesco, lugubre . , . E as tres meninas que conservavam ainda egoistamente o album ! Como desejaria approximar-se do Padilhão, refugiar-se n'elle como n'uma intimidade animadora; mas via-o tão cercado de saias, de sêdas, de penteados enchumaçados, de leques abertos !... E sobretudo, a intimidade que unia aquellas pessoas e as envolvia como uma atmosphera — tornava o seu isolamento mais pungente. Deviam de certo pensar : que provinciano, que lapuz ! » Achou aquella gente artificial, egoi,sta, amaneirada ! Que saudades do seu robe-de-ehambre de velludo, no quarto do Universal, ou do hotequim da Corcovada, em Oliveira ! Porém, não podia ficar alli, espectralmente collado á hombreira da porta ! Já surprehendera olhares de lado, sorrisos que lhe punham nas costas um suor afflicto, e com um esforço da vontade reteeada, approximava-se da mesa, para se apoderar das vistas stereoscopicas, quando D. Joanna, o peito alto, batendo o leque, n'um ruge-ruge de faitte rica, se dirigiu a elle : — Então tem gostado de Lisboa ? — Muito, minha senhora!—respondeu com todo o sangue nas faces. — Ah, gosta-se sempre . . . ! — Sorria por cima do hombro d'Arthur para o grupo das meninas que folheavam o album : ameaçou-as mesmo com o leque; com um rapido brilhar das pupillas negras. — Está um tempo muito agradavel, não ? — Adoravel ! — E vai durar, é d'esperar . . . — Tornou a sor rir para as raparigas, a ameaçal-as com o leque — E demora-se ? — É provavel ! — Terei muito prazer — abaixou-lhe a ca beça com um movimento lento que lhe cerrou as palpebras e com outro sorrizinho que lhe descobriu as gengivas, afastou-se, dizendo ainda : — O Meiri- Ilho está com o seu whist . . , Arthur viu-a um momento fallar ás meninas, rindo, com a cinta sempre mobil, como que sustentada no ar pelo tufado das saias; depois, debruçar-se para o album, fallar-lhes sobre o rosto, pondo a mão no hombro d'uma ou d'outra. viva, radiante ; acha, va•a provocante com o seu longo nariz, os dentes tão brancos, aquella magreza quasi masculina onde corria uma vibração de nervos excitados ; e mais animado, como se as palavras que dissera lhe tivessem dissipado o entorpecimento, atravessou a outra sala, para ir vêr o Meirinho na sua partida de whist. Havia dous reposteiros ; abriu um d'elles, e topou com uma porta fingida ; n'um vão estava uma vassoura ! Vermelho até á raiz dos cabellos, ergueu o outro : ao fundo d'uma saleta, Meirinho lá estava a uma mesa de Arthur apoderou-se avidamente d'uma cadeira e installou-se entre elle e um sujeito de suíças grisalhas e oculos d'ouro. — Então tem-se divertido — perguntou-lhe Meirinho, Recebeu as suas cartas e recahiu n'uma reflexão immovel, coçando devagar a barba. Arthur não sabia o whist ; mas como se fumava, accendeu um charuto, mostrando-se interessado pelo jogo, seguindo attentamente as cartas, estabelecido alli como n'um refugio amavel, no terror da sala, das hombreiras solitarias, das caudas de sêda . . . O monotono movimento das cartas ia-lhe dando um torpor somnolento : com o claque nos joelhos, a cabeça vazia, uma vaga sêd_e, abandonavase n?uma inercia molle, enfastiada, de que o tirava o Meirinho de vez em quando, dizendo-lhe, com um tom satisfeito : — Não se faz vintem ! Aquillo escandalisava o gujeitG d'oculos, que perdia : —O que não se faz, o que não é decente é ter uma sorte tão escandalosa ! Parecia ter um genio irritavel : certas cartadas faziam-no mexer-se na cadeira com um rosnar hos til ; já por duas vezes olhara para Arthur, de lado, com rancor. Arthur accendia outro charuto, quando o sujeito d'oculos que jogara uma carta com ira, batendo-a fortemente na mesa, ao vêr Meirinho estender a mão para a vasa, pulou na cadeira, fez estalar os nós dos dedos, repelliu a caixa de rapé, e disse entre os dentes : — Eu, quando ha calistos, não posso ! Não posso ! Nem o jogo é um prazer ! Arthur não sabia o que era um calisto, mas estranhou o accento sibillante, furioso, d'aquella voz caturra : sentia que o sujeito d'oculos o detestava ; o parceiro d'elle, mais grave, muito calvo, disse : — Então não se vai fazer a Côrte ás senhoras Arthur respondeu : — Estou bem, gosto de vêr jogar ! O dos oculos torceu-se na cadeira, soprando. Meirinho, mudo, cofiava a barba, a face risonha, banhada na alegria do ganho. Deram de novo as cartas, mas ao vêr as suas, o sujeito d'oculos deu uma punhada na mesa : — Uma cousa assim ! Tinha a face injectada e por traz dos oculos, os olhos pequeninos faiscavam-lhe ; de repente, a uma cartada infeliz, recuou a cadeira com um oh ! surdo, rangeu os dentes e voltando-se para Arthur, tremulo de colera : — Perdão, eu não tenho o gosto de o conhecer, mas não posso, não posso ! Estes amigos sabem, conhecem-me o genio ! Tenha a bondade de Inudar de logar ! E não se contendo, berrou os punhos fechados : — Eu com calistos não posso ! Arthur ergueu-se, pallido, balbuciando : — Pois não, pois não ! Atirou o charuto e pisando o tapete com passos nervosos, sahiu para deixar a soirée, indignado, hilmilhado, furioso contra Meirinho. Ao erguer o reposteiro deu com D. Joanna Coutinho, que, muito affavel, o chamou : — Ia procural-o ! O Meirinho disse-me que é poeta Queremos que nos recite logo alguma cousa. 'Iodo o seu despeito se dissipou ; sentiu envolvel-o subitamente uma sympathia ambiente : — Pois não, pois não, minha senhora ! Recitarei A Pomba. Curvou-se, enternecido, e entrando na sala foi apoderar-se do album que as tres meninas tinham deixado, muito entretidas agora o Padilhü) que lhes lia nas palmas das mãos a buena-dicha, com ceremonias de bruxo, fazendo voz sepulchral. E riam ! . Arthur, folheando o album — pessoas reaes, vistas da Pena, individuos de farda — recordava aestrophes d'A Pomba. Pelo meio da sala, dous sujeitos passeavam pausadamente : um, muito alto, de perfil espesso, com uma enorme testa deprimida no alto, escutava, com um olhar vazio, somnambulo ; o outro, magrinho, de passinho dançado, fallava com verbosidade, uma das mãos por baixo da aba da casaca, o que lhe mostrava um pouco da camisa sal-lida, a outra, de pollegar estendido, furando o ar com gestos vivos, aqui e além ; Arthur ouvia-lhes ao passarem junto d'elle : «a portaria . . influencias da prima . . o Rei é que quiz . . . , o ministro furioso . b. Ás vezes paravam e o mais alto rolava em redor o bugalho baço dos olhos pasmados. Um individuo nutrido fallava com duas senhoras d'edade da irreligião dos creados ! Era cousa que elle não supportava ! As velhas lamentavam a perdição dos tempos . O povo estava impio, era obra da maçonaria . . . Mas um velhote, de collarinho enorme e bochechas fortes, approximou-se arrastando a perna : perguntaram-lhe se ia melhor : Não ; estava decidido ó operação , Talvez fosse fazel-a a Paris. Discutiram então medicos, pharmacias, e as vozes tomavam tons dolentes, como n'um quarto onde se agonisa. Mas Arthur teve de ge arredar um pouco para dar logar, ó mesa, á senhora de vestido côr de palha, que se approximara com o rapaz magro de pincenez : era alta, com um seio rico, a pelle esplendi• da, os olhos grandes ; sentou-se, tomou uns poucos de retratos soltos que estavam n'um cesto de filigrana; o rapaz magro disse-lhe ainda algumas palavras baixo e afastou-se de cabeça erguida, limpando as lunetas ao lenço. Ella deu um olhar rapido a Arthur, outro, lento, á roda do vestido, comprimiu de leve um bocejo e começou a examinar distrahidamente os retratos : Arthur admirava-lhe as mãos d'uma brancura lactea, cheias de pedrarias, o comego do braço cujo torneado, polido como um marmore, se perdia n'um fOfo de rendas ricas, quando o Padilhão que acabara de lêr a buena-dicha, lhe veio fallar : nunca a vira com melhores côres Ella riu : — Sim E então não nos faz outra imitacão ? — Ah, já contribui, já contribui ! A do burro canga-me muito. Aqui o nosso amigo — e indicou Arthur — vai-nos recitar . . . Ella olhou para Arthur um pouco de lado, e Padilhão, muito correcto, apresentou-o : —O meu amigo Arthur Corvello. E agora accrescentou— vou vêr o D. Frederico que tem pere dido e está furioso Au revoir, snr. a baroneza ! Arthur, vermelho, procurava uma palavra, quí do ella reparando n'uma das photographias, lh'a mostrou : — É Rochefort, não é ? Arthur, quasi inconscientemente, soltou : — Grande apepinador ! E, espantado, aterrado d'aquella phrase quasi obscena, que lhe sahira involuntariamente, como um arroto, sentiu a vergonha esbrasear-lhe a pelle, pôr-lhe um suor nas mãos, immobilisal-o. Viu os dous sujeitos que passeavam pararem junto da baroneza : mas atravez do zumbido que lhe enchia os ouvidos, as suas vozes chegavam-lhe apenas como um murmurio remoto ; percebeu vagamente que fallavam do Fim de D. Juan — o poema recente d'um poeta illustre. A baroneza, que justamente o lera n'essa manhã, não gostava achava que tinha paginas incomprehensiveis ; o individuo magrinho atacava o livro : não que o tivesse lido, oh não ! — não tinha tempo para se occupar de versos, de romances, de litteratura — mas va-lhe que estava recheado d'immoralidades e de idéas de Communa . . . O individuo soj nnambulo, esse, parecia procurar uma phrase na lanpada Carcel, no penteado da baroneza, no peitilho da sua propria camisa, com olhares d'uma ancia abstracta • não a achou e passou os dedos devagar pela testa enorme, com uma lentidão cheia d'agonia emquanto o magrinho continuava a fallar : parecia furioso com as idéas novas, os livros novos, os rapazes novos ! Era d'opinitío que o Gove no devia inter vir. O somnambulo, com um esforço que lhe entumeceu mais o rosto, disse por fim, n'uma voz espesga, crassa : — É todavia um rapaz bastan(e profundo ! — teve outro esforço e murmurou n'um tom cavernoso : — Dizem-me que tem muito i undo ! Era possivel — mas a senhora btroneza preferia a todo o Fim de D, Juan, uma sim) )les quadra das Flores da Alma : « As flores d'alma que se alteiam betlas — Ah ! — disseram ambos, cone)rdando impetuosamente. As palavras que chegavam por frffgmentos a Arthur, atravez da sua turbação, faziam- lhe entrevêr na senhora baroneza leitura, curiosida des artisticas, um gosto formado, e a sua phrase : grande apepinador! parecia-lhe então mais estupida, mais torpe ! Ergueu-se subtilmente, encolhido de vexame, o foi-se refugiar, com a cabeça a arder: na sala amarella, deserta, onde as luzes das serpei Itinas erguiam grandes chammas direitas. Atirou-se para o sofá, dando uma punhada no joelho, eom um oh! de raiva, O que lhe fizera partir dos Iqbios aquella palavra abjecta ? Elle, que ao nome de Rochefort sentira apertarem-se-lhe no cerebro apreciações ori ginaes, pittorescas ! E era áquella mulher, formosa, toda vestida de sêda amarella, com uma carnação tão pura e que tinha a magestade d'um marmore, que atirara uma tal chulice! Apresentado como um poeta, um estylista, um delicado, abria os labios e soltava uma sandice obscena, elle, que mesmo entre homens, quando se desabotoam os colletes e se fala n'uma fumaraça de cigarro, tinha sempre uma correcgão honesta d'expressões ! . . . Oh ! Que pensaria ella ? Que diria D. Joanna ? Sons de piano tiraram-no da sua modorra. Ergueu-se: o seu rosto, no espelho, pareceu-lhe envelhecido, parvo, e com o claque collado á coxa, chegou-se á porta da sala. Valsava-se. D. Joanna que passava pelo braço do barão, um rapazote gordinho e baixo, de collarinho muito decotado e barbinha rala — parou e voltando o rosto para Arthur : — Quizeram antes valsar. Raparigas ! . . . Mas n'outra noite, espero ter a oceasião de o ouvir . . . Tire par para uma valsa Arthur fez-se escarlate : — Eu não valso. Para uns lanceiros então — Não, obrigado, não danco , Tornou a mastigar em secco e pareceu readormecer. Os sapatos de verniz começavam a torturar Arthur : decidiu partir e foi á sala de jogo, chamar o Meirinho. Ao vêl-o, o sujeito d'oculos teve um movimento de terror e Meirinho que perdia agora, muito vermelho, respondeu com impaciencia : — Aqui cada um sahe quando quer ! E agarrou as cartas, furioso. Aquellas palavras bruscas escandalisaram Arthur : lembrou-se com despeito das dez libras emprestadas — resolveu exigir-lh'as. Detestava agora o Meirinho, D. Joanna, a Sociedade, Lisboa, e vestia na saleta o seu paletot, quando viu com terror que lhe esquecera o claque, na sala, sobre a poltrona. Despiu de novo o paletot, desesperado, e voltou á sala. Que raiva ! Uma senhora robusta, a quem chamavam familiarmente a viscondessa » sentara-se na poltrona ! Ainda pensou que ella tivesse visto o claque, o tivesse atirado para outra cadeira ao pé : não — gorda, enorme, com uma espessura tremenda de saias e de folhos, sentarase, sem o sentir, em cima do claque chato ! Ficou aniquilado. Como ousaria pedir áquella magestosa senhora «que se erguesse, que queria o seu chapéu» Pensou que se levantaria em breve, libertando assim o seu claque e perfilou-se um momento junto hombreira da porta ; depois, foi vêr todas as photographias nos gala onde o cavalleiro de bronze erguia a sua esl ada; foi examinar os livros n'uma estante envidraçada ; não se atrevia a consultar o Meirinho, Padilhio valsava, Carvalhosa sahira. Decidiu então dizer á Viscondessa um dito espirituoso, origmal, que a fizesse logo erguer, rindo, amavel, encantada, mas acudia-lho apenas a phrase natural, goeca : «a senhora está em cima do meu chapéu!) De repente lembrou-lhe que talvez fosse uma partida : queriam escarnecel-o, tortural-o; um sopro de orgulho, de revolta, sacudiu-lhe a vontade: não! Iria á Hala, faria levantar aquelle enorme corpanzil de matrona obesa, e se visse uma face d'homem sorrir, espalmar-lhe-ia uma bofetada! Voltou á sala, resoluto, mas ficou logo inerte, acabrunhado, vendo a Viscondessa immovel, com o seu grande nariz bourbonico muito lustroso, cercada do rapaz de pince-nez, do somnambulo, do magrito ! Teve desejos homicidas ; sentia-se tão desgragado que se lhe humedeceram os olhos. Sem motivo, de repente, lembrou-se da sua e enternecido voltou á sala amarella, atirou-se para o sofá com a cabeça entre as mãos. Um frou-frou ô&ias roçou o tapete e uma voz disse : — Está incomm odado Era D. Joanna, pelo braço do barão. Arthur ergueu-se bruscamente, explicou que tinha uma enxaqueca . . . Sim, com effeito, na sala dentro estava um calor , . . Mas não consentiam que se abrisse uma vidraça O ar fazia-lhe bem. E accrescentou : — Ah, se espera pelo Meirinho, olhe que elle não larga o whist senão alta noite. E Arthur, atarantado, pensando vagamente que D. Joanna o expulsava : — Ah, eu vou já, não me demoro . Ella estendeu-lhe a mão : — Espero tornar a ter o prazer Ás terças- feiras • • Arthur, só na sala, pensava: e o chapéu? Agora que se despedira de D. Joanna não podia voltar a immobilisar-se na hombreira da porta, esperando que a Viscondessa se levantasse. E poderia explicar que o seu claque estava debaixo das gorduras da excellente senhora Ririam, geria prodigiosamente grotesco. Com uma esperança voltou á sala : lá estava a Viscondessa, repimpada, as mãos gordas no regaço, estabelecida, palrando com a sua voz nasal. D. Joanna Coutinho, essa, pareceu surprehendida de o vêr e muito amavel : — Perdeu alguma cousa — Não, — acudiu — era o Carvalhosa — Ah, foi-se ! Aquelle ingrato, está um moa anento e desapparece , . . Arthur inclinou-se e sahiu. Estava farto, que diabo ! Vestiu o paletot e desceu a escada sem chapéu ; mas ficou aterrado : no pateo, havia dous trintanarios de casacos brancos e um cocheiro de praça. Tornar a subir ? Não ! Retesou a vontade, dirigiu-se para o portão, emquanto o creado attonito, abria devagar a grossa fechadura. Sentia por traz risinhos fungados, a chave perra parecia resistir. Arthur tremia de raiva, de vexame ,• — emfim a porta massiça rolou, e uma frialdade humida. envolveu-lhe a cabeça : choviscava. Então amarrou o lenço com um nó debaixo do queixo e cosido com as casas, querendo enterrar-se na escuridão, apressou-se, correndo quasi, com a chuvinha miuda fustigando-lhe o rosto, a garganta tumida de lagrimas. Mas perdeu-se, vagueou palo Rato, pelo Salitre ; pessoas paravam, assombradas d'aquelle individuo cujos passos pareciam d'ebrio, com um lenço apertado na cabeça ! Na rua da Escola, encontrou um trem que recolhia : atirou-se para dentro, gritou : — P'r'o Que allivio ao pisar o tapete do quarto ! Despiu a casaca com uma colera impaciente, arrancou bruscamente a gravata, como se quizesse arrojar de si, com a toilette que lhe representava a soiréé odiosa, todos os seus desejos de sociedade, d'encontros amorosos em salas aristocraticas . . . Só quando ia apagar a luz é que se lembrou que em casa de D. Joanna Coutinho, ao outro dia, encontrariam o chapéu ! Pelas iniciaes que elle, tolo, mandara bordar no forro de setim azul, reconhel-oiam ! Que risadas ! Formar-se-ia a lenda do poeta d'Oliveira que esquecera o claque, o pelludo! Oh!... Mas que lhe importava ! Estava bem resolvido a não voltar lá, nem a outra soirée ! Isolar-se-ia na Poesia, na Arte ! Frequentaria Nazareno, seria um revolucionario, conspiraria contra aquelle mundo burguez, bancario, ficticio, idiota ! E escreveria uma satyra tremenda contra os ridiculos jogadores de whist, e as grotescas Viscondessas gordas ! — Canalhas ! — murmurou, aconchegando-se aos lençoes. E começava a pegar no somno, quando, como o frio d'uma lamina, lhe atravessou o cerebro a idéa da phrase que dissera : Grande apepinador ! Era a unica que pronunciara ! Deu murro no colchão, rugiu uma obscenidade, e com Ilim oh ! de raiva e de vergonha, enterrou a cabeça no traves seixo. Toda a noite sonhou com a soirée : valsava com a senhora baroneza, mas no chão encerado escorregava, entre as gargalhadas agudas da velha d'enfeites lugv.bres ; não se podia erguer e aquella gente impiedosa, estupida, egoista, continuava valsando alegremente sobre o seu corpo prostrado ; sentia so- bre a testa, onde viviam ideaes que ella não tinha, pularem os sapatinhos de setim da senhora de cauda escarlate, e no peito, onde palpitava um coração, que não batia no peito d'elle, enterrarem-se as tachas dos tacões do somnambulo ! Dormia, já tarde, ao outro dia, quando a porta se abriu bruscamente, depois a janella, e viu junto do leito, Meirinho, pallido, com os olhos fóra das orbitas, e o seu claque na mão ! — Então — gritou elle— então o senhor sahin hontem sem chapéu ? Arthur fingiu-se estremunhado, bocejou, espreguiçou-se, disse vagamente : — O que é ? O que é —O que é ? —D o claque tremia nas mãos colericas de Meirinho — É isto ! É o seu chapéu ! Então o senhor sahiu sem chapéu ! Arthur affectou rir : — pensara que o tinha perdido, procurara-o, estava com dôres de cabeça, havia uma tipoia em baixo . . . Meirinho levou as mãos á cabeça : — Ih, Jesus ! Que vergonha, meu caro amigo ! Eu, esta manhã, recebo um chapéu, com um bilhete de D. Joanna, dizendo quo tinham achado aquelle claque e que, só depois de muitos tratos á memoria, é que descobrira pelas iniciaes que era o seu ! Estava n'uma poltrona ! A Viscondessa, toda a noite, esteve sentada em cima ! Arthur tentou rir : até tinha pilheria ! -— Pilheria Meirinho, batendo, assombrado, com as mãos "ma na outra — Pilheria ? É uma vergonha ! Que hão-de dizer ! Eu não me atrovo a ir lá, cu nem me atrevo a ir lá outra vez ! Uma cousa assim Levou as mãos á cabeça e sahiu desesperado. O claque ficara sobre a cama : então Arthur, livido, agarrou-o e torceu-o com tanto rancor que lhe quebrou a mola. Maldito, vai-te ! E atirou-o furioso para o canto da roupa suja. Saltou com os pés nús para o chão e toda a manhã, esguedelhado, com os olhos vermelhos, embrulhado no robe-de-chambre, rimou uma satyra amarga contra a sociedade, contra o High-Life : Oh I corações de pedra, Ohi homens do milhão I N 'essa noite, entrando no Martinho, viu com prazer um logar vago junto á mesa onde, corno de costume, Jacome Yazareno tomava o seu café. Desde a vespera, o seu desejo de o conhecer redobrara. Repellido da suirée de D. Joanna pelo mundo conservador, official, esta belecido, tendia instinetivamente, no seu despeito, a refugiar-se no mundo revolucionario, revoltado, de que Nazareno lhe apparecia como o representante. A Inava sobre tudo a democracia por certos lados humanitarios, sentimentaes, reparadores, e suppunha nos homens quo a serviam um calor de coração, uma fraternidade sensivel, que a sua natureza effeminada appetecia—e que faltava á gente secca, fieticia, sem generosidade e sem entranhas que tanto o humilhara em Santa Isabel. Além d'lsso, devorava-o am desejo vago de se vingar da Sociedade e queria concorrer para a sua destruição provavel, alfiando-se ao Nazareno e aos seus amigos, levando-lhes as suas poesias, o seu estylo, o seu dinheiro e o seu odio. Para facilitar o conhecimento, teve o cuidado, ao sentar-se, de cumprimentar discretamente o republicano, e como reparara que elle nunca bebia alcoolicos, não tomou a sua genebra habitual : pediu anisette. Fumando devagar o seu charuto, revolvia phrases philosophicas que lhe diria, esperando uma casualidade que os reunisse, quando um sujeito d'aspecto doente e que parecia sahido d'um hospital, se approximou devagar de Nazareno : tinha os labios naturalmente entreabertos, o nariz afilado, uma pallidez oleosa, a barba desmazelada ; parecia sahir da cama e conservava ainda na pelle, na camisa sordida, na guedelha secca, o cheiro da febre e o relento dos suores ; apoiava ao marmore da mesa duas mãos lividas, molles, pegajosas, d'unhas negras e com uma voz debil, de rouquidão asthma. tica : — Então quando fica prompto ! Nazareno, pousando o cigarro á beira do pires, disse : — D'aqui a quinze dias. Foi necessario pôr papel, que a parede estava ignobil. A sua voz que Arthur ouvia pela primeira vez, tinha um timbre energico e resoluto. O doente varreu a mesa com a palma da mão, limpou os dentes com a lingua e pe:guntou mais baixo : —O Mathias — Tem a nevralgia hoje. — Lá fallei com o homem d'Alcantara. — Então O doente estendeu o beiço, oscillou a cabeça : — Sim, boas idéas, chega-se, mas . . , É preciso espicaçai-o. Vou mandal-o ámanhã ao Mathias ! — O Mathias ámanhã tem a nevralgia, tem sempre dous dias de nevralgia. — Ah ! E o Damião Quando vem Nazareno tirou do bolso um maço de papeis e mostrou-lhe uma carta. O doente leu, sorriu, mos trando as gengivas brancas e disse : — Cousas do Damião . . . — Derramou em redor o seu olhar morbido, tossiu com fadiga e erguendo a gola do paletot : — Vou-me chegando que está humido . . . Apparega, Nazareno. O republicano retomara o seu jornal, mas Arthur tinha agora um pretexto, quasi o direito de lhe fallar : amigo de Damião, quereria saber se a sua ausencia se prolongaria na provincia. Animou-se, e córando, com o chapéu na mão, a voz acanhada : — Eu peço perdão a V. Ex.a. Não tenho o gosto de o conhecer, mas . , . ouvi, sem querer, V. Ex. a, fallar no Damião. É o meu amigo intimo . De sejava saber se se demora, se , . . — O Damião ainda tarda um mez. Dobrou o jornal, bebeu um gole de café e ageitando as lunetas : — Então conhece o Damião ? Arthur apossou-se d'u.ma cadeira, estabeleceuse á mesa. Exagerou logo as suas relações com o Damião: eram intimos já desde Coimbra, tinham sido companheiros de casa, escreviam-se sempre . . , Elle até viera a Lisboa para viver com e]le . . . Infelizmente tinha partido. — Grande rapaz, hein ? Nazareno teve um gesto de respeito sympathico, fez : Arthur então exaltou Damião. Já em Coimbra era o centro das Intelligeneias. Era uma das fortes cabeças do paiz. E que espirito, hein ? ! E bom coracão. Não havia melhor no partido democratico —- Repetju duas vezes : o partido democratico, para se pôr com Nazareno em communhão d'idéas. Mas o republicano escutava-o. reservado, quebrando a cinza do cigarro no pires examinava-o com insistencia, pondo nos olhares, abrigados pelas lunetas defumadas, penetrações de bisturi. — Conhece o Mathias ? — perguntou-lhe bruscamente. Infelizmente não, e deseiava-o bem. E o snr. Nazareno conhecia. o Fonseca Não ? Grande rapaz ! Vivia em Castello-Braüco. Ah, havia então, em Coimbra, no tempo do Pensamento, uma grande rapaziada. E havia união . . . O que faltava em Lisboa era união e —um jornal . . . ---- E surprehendido, contente da facilidade com que as palavras lhe acudiam, desforrava-se da mudez que o dominara na soirée de D. Joanna, mostrando-se ao Nazareno sob um aspecto captivante de moço enthusiasta e generoso. O republicano respondia apenas por monosyllabos, uns sins rosnados, affirmações de cabeça. Arthur offereceu-lhe uma alguma cousa ; Nazareno recusou tudo, mesmo um charuto. Havia em toda a sua pessoa um retrahimento, uma congelação que desanimava Arthur e lhe esbatia a verbosidade como a humidade extingue uma fogueira : teve d'accender outro charuto para occupar uma pausa. Mas Nazareno disse-lhe então : — O senhor vive em Lisboa Infelizmente não. Contou eom sinceridade o que o trouxera á Capital : a publicação d'urn livro de versos, a representação d'um drama, o desejo d'um meio intelligente, litterario e o horror á provincia . . . —E que tal se pensa ua provincia Boas idéas democraticas Arthur riu. Qual ! Estava-se tão atrazado como I no tempo dos frades. Uma collecção de pequenos burguezes, imbecis, rotineiros, cacheticos ; meia duzia de ricaços que seduzem as raparigas e fazem eleições Citou exemplos d'Oliveira d'Azemeis, não duvidando, para lisongear o republicano e ter graça, fazer a caricatura da estupidez do Carneiro, dos vicios do Rabecaz, da devoção das tias E o pobre povo . . . — Reza e paga — disse sombriamente Nazareno. Atirou o cigarro para o fundo da chavena, carregou na copa do chapéu com a mão espalmada e ergueu-se dizendo que para conversarem era melhor irem para fóra. Havia alli gente que escutava e nem toda a gente devia ouvir. E já á porta acrescentou, aprumando a estatura : — Que eu para os espiões tenho em casa uma, bengala soffrivel, Caminharam calados até ao Rocio. A noite tinha um vago ar lugubre : nuvens escuras cobriam e descobriam uma lua fria d'inverno, de tons lividos. — Peço perdão disse Nazareno ; — a quem tenho a honra ? — Arthur Corvello. E para dar ao republicano uma impressão favoravel, propoz que fossem conversar para o Hotel Universal : tinha lá um quarto confortavel . . . Porém Nazareno, com o tom hirto d'um devoto que allude a uma orgia —- respondeu quo não frequentava esses covis de conservadores Todo 0 luxo, com effeito, o irritava ; sem inveja, mas sobrio e simples, condemnava-o como funesto á democracia. Arthur, receando que a elegancia da sua installacão o fizesse duvidar da sinceridade do seu liberalismo, apressou-se habilmente a denegrir o luxo — explicando que o que lhe convinha era viver n'um quartito modesto, que, no Universal, a frequentação dos conservadores e brasileiros o irritava, que fôra para lá mal informado, pondo nas suas explicações uma humildade e um fervor que todavia não acalmavam Nazareno. — Não s'encontram n'esses sitios senão ladrões e devassos — disse elle. Foi logo a opinião d'Arthur, e, satisfazendo o seu odio da vespera ao mesmo tempo que agradava a Nazareno, citou o Meirinho como a personificação d'aquella « corja da sociedade » : pintou-o como um idiota, occupado de cãezinhos de marquezas, intrujão, pedi.ndo dinheiro aqui e além, vendendo por preços de ladrão, fatos feitos que eximia aos direitos, inventando detalhes — para mostrar a sua veree d'artista e a sua indignação de justo, — Todos os mesmos, todos os mesmos—- rosnava Nazareno. Uma mulher coberta de luto adiantou-se para elles, pedindo esmola, com um murmurio plangente. Arthur, para mostrar o seu humanitarismo, apressou-se a dar-lhe uma moeda de prata, dizendo : pobre creatura, por esto frio ». — O povo não precisa de caridade, precisa de justiça— disse dogmaticamente Nazareno. Arthur, um pouco surprehendido da fórma litteraria do principio, objectou todavia que emquanto não vinha a justiça . . . — É mau — interrompeu o republicano— acos tumar o povo a contar com a caridade. Elle sabe os seus direitos : que os realise ! Arthur sentia confusamente acudirem-lhe mui tas respostas, todas justas ; mas, por timidez, calou se, murmurando : talvez, talvez O republicano começava a desagradar-lhe. As suas naturezas — uma toda de impressões, a outra toda de raciocinio discordavam, e havia entre elles como alguma cousa de frio, d'hostil, que os se parava. Mas o que mais descontentava Arthur era não vêr no republicano aquella bondade quente e evangelica, que era para elle o attributo melhor da democracia. — Sobro que é o seu livro de versos — perguntou-lhe o outro. Para dar uma idéa das tendencias do seu livro, fallou então na Ode á Li±erdade, na satyra Sociedade. Era um livro democratico A poesia moderna, como dizia o Damião, devia ser revolucionaria. Mas Nazareno detestava a poesia: a sua fórma luxuosa. totalmente idealista, servia apenas para amollecer as virilidades. Nunca lia poetas. Arthur, offendido, exclamou : — Mas Alfred de Musset, Garrett — Pulhas ! — disse dogmaticamente o republicano. — Musset era um libertino, um bebedo, um bohemio, que nunca comprehendeu o seu tempo e que o que soube celebrar foi a luxuria ! E Garrett, um janota ! Usava espartilhos e em pleno seculo XIX vem-nos fallar de romances de cavallaria e d 'outras pieguices gothicas . . . Um vendido ! Arthur sentia-se indignado. E que tinha a dizer de Lamartine — Um erotlco ! — Ora essa ! Mas em 48 . . . — Comprometteu tudo. Fez phrases. Faltou-lhe a idéa, a inspiração da justiça, a alma do povo ! Vinha das salas, das camarilhas. O seu ideal era a regencia da Duqueza d'Orléans, de quem elle queria ser primeiro Ministro e amante, á Mazarin. Um vendido ! Oh, era de mais ! Arthur, attonito, procurava razões, phrases, parecendo-lhe agora que o republicano era tão seeco, tão ficticio como os burguezes da soirée de D. Joanna Coutinho. — E o seu drama o que é ? — disse ainda Nazareno, com um tom interrogante de pedagogo. Arthur, que aquelle interesse lisonjeou, descreveu-lhe logo o drama, insistindo no lado democratico — a glorificação do amante plebeu, a humilhação do marido fidalgo — occultando-lhe o elemento lyrico e romanesco do trabalho. O plano assim contado parecen satisfazer Nazareno ; porém deu-lhe conselhos : — para que dar ao protagonista, ao filho do povo, a profissão esteril e immoral de poeta lyrico Devia-o fazer engenheiro, medico, empregado d'uma companhia ; devia seduzir a duqueza, não pelo brilho do seu lyrismo, mas pela justeza das suas idéas. Comtudo, a verdadeira obra de theatro era a co media satyrica á Moli&re, a comedia aristophanesca, a exposição dos vicios, das infamias, da imbecilidade d'esta canalha lisboeta: alguma cousa de fustigante, de vergastante ! Dizia isto com um accento d'odio que lhe passava entre os dentes, e atirava vergastadas ao ar com o guarda-chuva, como se açoutasse, n'um só dorso toda uma Sociedade ! Arthur apressou-se a concordar. Essa era a sua intenção : e alargava-se em considerações sobre a Comedia Social, fazendo renascer a sympathia commum. Mesmo, para mostrar a sua veia d'observador, para desabafar os seus despeitos, pôz-se a dizer que bello acto daria a soirée de D. Joanna— uma 80irée idiota, onde fôra arrastadc e que era do melhor que havia em Lisboa » — porque não desgostava de mostrar que tinha relações aristocraticas, mesmo fazendo-lhes a caricatura. Contou a opinião dos dous homens graves sobre o Fim de D. Juan, a conversa do velho sobre a irreligião do povo, os adulterios que presentira, a grotesca figura da Viscondessa, os vicios de D. Joanna . . . — Pouh ! — fez Nazareno com nojo. — Que sociedade, que asco ! Não, realmente, o Mathias tem razão, é humilhante luctar contra uma tal sociedade ! A lucta suppõe forças que se encontram ; mas assim, temos d'um lado a força, do outro a pustula ! Pouh ! Portugal não deve ser reformado, como diz o Damião, deve ser queimado a nitrato de prata Estavam no Terreiro do Pago : uma lua livida deixava cahir d'entre as nuvens uma mancha luminosa sobre a agua sombria. — Tudot isto precisa ser arrasado ! — disse ainda Nazareno, mostrando em redor as Secretarias negras, d'uma uniformidade emphatica. Tinha parado e olhava, apertando com colera o cabo do guardachuva, toda aquella reunião d'edificios officiaes, como a pesada e antiquada personificação de regimens funestos —- o Banco e o seu agio, a Alfandega e os seus direitos, os Ministerios e o seu burocratismo — e pensando no mundo estabelecido, farto, que vive d'aquellas instituições : —E lembrar-me — exclamou — que um homem como o Mathias está reduzido, para ganhar a vida, a rever diecionarios, cartilhas e manuaes encyclopedicos ! Oh ! Dá-me vontade de vir para a rua e fazer fogo sobre toda esta gente ! Depois da sua reserva, aquella expansão de colera impressionava Arthur e as injustiças sociaes pareciam-lhe maiores, desde que podiam aquecer n'urn desespero tao alto aquella figura secca de seminarista. Mas Nazareno calmara-se. Pôz-se então a fallar do Mathias e a sua voz tornou-se grave, quasi solemne. Mathias era um justo : era casto, era incorruptivel, d'uma alta elevação moral ; vivia n'um quinto andar, pobre, sereno ; de dia trabalhava na typographia, á noite no seu livro ; não tinha um pensamento que não fosse pela liberdade e pela revolução. —É um Robespierre ! — resumiu Nazareno, que, com o seu espirito auctoritario e dogmatico, muito bilioso, tinha um culto pelo chefe do Club dos Jacobinos. Arthur, electrisado, mostrou um grande desejo de o conhecer. Mas algumas gotas de chuva cahiram, e Nazareno, abrindo o guarda-chuva, prometteu que lhe fallaria. Seria mesmo possivel conseguir que o admittissem como socio do Club Republicano, Arthur experimentava Uma 2atisfação profunda. Era o seu velho ideal emfim realisa,do ! A sympathia generosa de Jacome Nazareno eornmovi2F0 : roçavase por elle, aconchegava-se-lhe, orgulhoso da sua amizade e do abrigo do seu guarda-chuva. O Mathias, o Club Republicano, a idéa vaga d'um partido, arjpareciam-lhe como alguma cousa de forte, em que a sna vida eheia de fluctuações encontra ria emfim estabilidade, regra e uma idéa elevada, cujo serviço engrandeceria a sua personalidade. — Eu não valho muito — dizia, humilhando-se mais por ternura que por modestia — mas emfim, para escrever, para luctar . . . Se fosse necessario fundos para um jornal . . . — Offerecia-se com uma dedicação real, desejando n'aquelle momento ter para o serviço da Republica — genio, thesouros, as forças d'um leão ! A chuva cessara e Nazareno, fechando o guarda-chuva : — Ela-de achar em que se empregar : todas as aptidões vão ser necessarias para preparar a grande barrela. — Mas quando virá ella ? — disse Arthur oom desalento, como se lhe tardassem os vagos triurnphos, as vagas vinganças que entrevia na Republica Nazareno parou e disse, brandindo o guarda chuva : —A pera está madura ! —E explicou jovialmente que era uma punerlti de 48, em França, nos banquetes reformistas, quando á figura bojuda de Luiz Philippe fôra dada a alcunha de pera e as suas teimas de despota burguez lhe tinham trazido o odio publico. Arthur, todavia, achava o partido republicano em Portugal bem desunido, bem vago, sobretudo bem limitado Nazareno citou logo as forças de que dispunham, ainda dispersas, mas que um sentimento crescente de justiça e de progresso tendia a unir, a organisar. Fa.llou nos operarios de Lisboa, do Porto ; na pequena burguezia a que é d'instincto republicana E baixando a voz, grave pela imoortancia da revelação : — Em Coimbra fórma-se um Club, no Porto outro, em Vizeu outro . . . — Calou-se um momento e continuou : —E depois que importa ? As idéas fazem o seu caminho sem os homens ; não são necessarios muitos homens para fazer triumphar uma idéa. Os Apostolos eram doze—e o mundo é christão ! A chuva recomeçara ; e ao fundo da calçada do Alecrirn separaram-se, quando soavam devagar ap onze horas na torre da Egreja de S. Paulo. Arthur galgou a calçada do Alecrim, impressionado, exaltado. Decidia-se agora a abandonar todos os habitos de sociedade, as esperanças vãs em amores ficticios, a Ijf,teratura puramente lyrica : queria trabalhar para o estabelecimento da Republica, compro comedias satyricas, á Casamento de Figaro, que abalassem o velho regimen ; e vinha-lhe um desejo de se dar a todos os que soffrem, como se as palavras de Nazareno lhe tivessem nosto na alma uma tão grande energia d'amor humanitario, que só se Batisfizesse esposando a miseria universal ! E ao mesmo tempo, recordações de leituras da Historia da Revolução franceza lhe voltavam ao espirito, dando-lhe moldes para conceber attitudes, situações, enisodios : via-se brandindo uma espada, á frente d'operarios que um antigo opprobrio enchia de furor ; ou de noite, n'uma vaga sala baixa, onde vagas sombras se agitavam, decretando incendios de palacios ; ou ainda, severo, interrogando o Rei prisioneiro, como na volta de Varennes. E como os impulsos de piedade e de fraternidade lhe voltassem ao coração, olhava em redor, procurando algum pobre que soccorresse, algum opprimido a libertar. Viu apenas a patrulha cujas grossas capas d'oleado reluziam sob a chuva. Ao entrar no Hotel, as janellas alumiadas do restaurante Silva deram-lhe a idéa de cear ; porém, pensando que áquella hora familias operarias soffriam fome, impôz-se com orgulho aquella privação, em respeito aos necessitados e n'um sentimento de vaga egualdade fraternal. Quando entrou no quarto foi-se vêr ao espelho, enternecido de se sentir tão bom —e vinham-lhe ao mesmo tempo bafcradas de vaidade, um antegosto de desforra, pensando que n'um dia, proximo talvez, appareceria áquella Sociedade que o ignorava e o desdenhava: poderoso, n'um terror d'apotbeose popular. Deitou-se, fez machinalmente o Signal da cruz, como tinha por habito, e adormeceu cangado. Foi Melchior que o acordou ao outro dia, abrindo as janellas com ruido. Vinha muito jovial, e dando-lhe palmadas Dor sobre a roupa : — Seu preguiçoso ! Upa ! Upa ! Arthur abriu á luz olhos aparvalhados de somno: estava sonhando justamente que do portal da casa da Camara, em Oliveira d'Azemeis, proclamava a Republica, ao agitar dos lenços nas janellas, entre um estalar de foguetes e os vivas furiosos da plebe libertada ; e ainda vibrante dos enthusiasmos d'aquella gala, não reconhecia a grossa figura de Melchior, de bigodes arrebitados, a face jovial e um raminho de violetas no jaquetão. — Então porque não veio você ao pic-nic, seu typo Arthur espreguiçou-se e disse, bocejando, que estava compromettido. — Pois perdeu ! -— exclamou Melcnlor. — Grande patuscada ! Tudo socegadiuho, sem desordens, gem troça, em boa amizade Ceiazinha rica e belll) CA PVPAL fado ! Emfim, uma noitezinha cheia ! E a Concha ficou com um ferro ! Está com vontade de o conhe cer, homem ! Está em brazas por o vêr ! Arthur lamentou não ter podido . . . Tinha-se compromettido a ir a casa de L). Joanna Couti[lho — Caspité . — exclamou Melchior, saudando-o Muito bem. Todos muito amaveis, tinha-se divertido . . . Estava boa gente. — Caspité ! Caspité ! — dizia Melchior, torcendo o bigode. E com um tom ambiguo, descontente, declarou que, para elle, as soir¿es eram uma estc„ pada. Nunca lá ia — não que não andassem atraz d'elle, mas . . . Aborrecia-se, que diabo ! Não havia para o regalo do corpo e da alma como uma boa pandegazinha ao Dáfundo. E então, talvez para fazer inveja a Arthur, contou as alegrias da patuscada, deu detalhes, citou episodias, fallando da Concha, da belleza da Concha, da pelle da Concha ! Mas quem é a Concha Melchior encolheu os hombros, corn impaciencia, como se Arthur lhe tivesse perguntado quem era — A Concha! Então você não sabe? Não se lem bra em S. Carlos, d'aquelle rapaz tisico, o Irglez Pois bem, a Concha estava com elle ; deixou-o, que o pobre diabo já se não levanta, ás bacias de san- gue pela bocca ! É a hespanho]a mais bonita que tem vindo a Lisboa. E rapariga fina . . . Coitada, está n'aquella vida . . . mas muito fina. É filha d'um general, muito bem educada. Toca piano, oh menino ! E depois que maneiras ! A comer, é uma duqueza ! E que pé, que pé ! É d'endoidecer. Arthur espreguiçou-se com uma vaga languidez : — Bonita, hcin — Caramba ! — fez Melchior com um grande gesto. Do quarto proximo vieram sons de piano e duas vozes, uma de soprano e outra de tenor, começaram a cantar o duetto do terceiro acto do Fausto : AI pallido chiarore dei astri d'oro Melchior escutou um momento : devia ser a segunda dama de S. Carlos, que estivera doente, a ensaiar com o Videllt — Vá, vista-se, homem ! — exclamou — Estou a cahir com fome. Está um dia lindo ! Abriu a vidraça. Os rumores da rua entraram com a larga luz festiva. — Arriba ! Arriba ! Arthur saltou vivamente para o chão. A linda manhã, o alegre rodar dos trens, aquelle ensaio, ao lado, d'uma aria elegante que punha no quarto uma intimidade de bastidores, a idéa da Concha «que o queria vêr davam-lhe vagos rebates de felicidade ; sentia-se leve, desejoso d'ir para a rua, vêr mulheres com toilettes bonitas, o aço dos arreios dos trens ricos reluzir á porta das lojas. ajanota. va-se, emquanto Melchior se debruçava da varanda, torcendo o bigode, escarrando alto, a vêr se pescava a segunda dama. Ao almoço, Melchior voltou a fallar da Concha, emquanto devorava a sua omelette: se fosse rico, punha-lhe casa . . . E que era uma rapariga com quem até se podia conversar . . . verdade, tinha pilheria ! E depois, coração . . . Sentia, que diabo ! Arthur considerava-o, notava-lhe a face grossa occupada a mastigar, a pelle engelhada em volta dos olhos, a calva crescente, o bigode espetado . a Concha sentia alguma cousa, não era de certo por aquelle typo ! » —E como Melchior insistia, que ella desejava muito vêr Arthur vinham-lhe vagas dilatações de vaidade, de desejo. Talvez ella o amasse ! — Ella conhece-me — Viu-o em S. Carlos. Reparou em você ! Arthur recostou-se na cadeira : não duvidava que lhe tivesse feito impressão. Depois das suas humilhações, aquella idéa deleitava-o ; ás vezes, n'aquellas mulheres andaluzas, encontram-se almas profundamente amantes, avidas de sacrificio Gostaria, n'uma manhã assim luminosa, almoçar com ella, fresca e branca, com o seu penteador de rendas fôfas, ou ainda, á noite, de verão, com as janellas abertas, vêl-a soltar as notas calidas d'uma malagueña que iriam morrer na tranquillidade suave do ar alumiado de lua. E no fundo do seu espirito agitava-se confusamente aquelle vago desejo d'um amor romantico por uma Dama das Cameli,as, d'um sentimento á Armando, com aquellas idéas de rehabi!itação que já em Coimbra tanto o perturbavam. Disse, córando um pouco : — Como poderei eu conhecel-a ? Melchior, muito cynico, riu : — Entre por alli dentro, amigo, entre, por alli dentro ! Mas Arthur « achava isso ignobil Queria algtun encontro delicado, com chic . . . Verem-se n'uma ceia, por exemplo . . . Nada mais facil, disse Melchior. Podia-se arranjar outra patuscadazinha, sem espalhafato. Sómente, n'aquella. semana elle não podia. — Deixe você vêr . . . Sabbado, hein —- Sabbado — concordou Arthur, espreguiçandose com voluptuosidade. Melchior bebera o seu café e « safava-se porque tinha d'ir ao Seculo D. Arthur subiu para o quarto, e ficou a fumar o seu charuto á janella. Ao lado, agora, a soprano cantava a aria do Rigoletto : Caro nome de mio sposo Arthur escutava : parecia-lhe vêr o vulto branco, com a lampada na mão, subindo a escadinha da casa occi ülta nos arvoredos, vpapalldo a cada degrau, para soltar, com o olhar commovido, as notas calidas que se perdiam na sombra suave da noite ! Vinharn-lhe idéas de noites d 'opera, d'elegancias amorosas. Sentia uma molleza preguiçosa, vendo o fumo branco do charuto dissipar-se em aroma. A luz envolvia-o como uma carieia ; todas as convasas sombrias da vespera, aquellas idéas violentas do Nazareno, tinham sido levadas com aq nuvens lugubres da noite : eram tão incompativeis @om o so1 radioso como vôos de morcego. O que sentia agora, não eram desejos de Justiça, d'Egualdade, mas as molas flaccidas d'uma carruagem, um rosto aristocratico a amar . . . Tinha feito impressão á Concha, hein E retorcia o buço, ageitando a gravata. Era a impressão que já fizera á senhora da estação d'Ovar ! A senhora do vestido de xadrez ! Teve um desejo intenso de a vêr : aquella manhã lucida, festiva, dourada, reclamava urna occupaçao delicada, elegante ; se a pudesse avistar á janella, seguil-a na rua E, escovando o cnap&a, ia acompallhando com movimentos languidos de cabeça as notas amorosas da aria do Rigolctto. Correu a florir-se á Casa Havaneza, e foi á rua de S. Bento. O guarda-portão lá estava, empinando o ventre magestoso, as mãos atraz das costas. A janella, a mesma, entreaberta, deixava vêr por entre as bambinellas de fazenda sobrepostas a cortinas de cassa, um interior de sala, escuro e rico. Mas ningnem se debruçou á janella, ninguem sahiu do portão. Arthur accendeu um charuto, mais contrariado, mais amoroso agora, em frente da casa d' Ella, na presença d'aquella fachada muda, que era como alguma cousa da sua pessoa, Não se conteve, entrou n'urn estanco proximo, comprou phosphoros, cbarutos, e p a rguntou negligentemente á estanqueira quem vivia alli n'aquella casa. Alli, onde está o guarda-portão . — disse a creatura, uma magrita, muito gravida — É a snr. a Daroneza de Paradas. Ao menos sabia-lhe agora o nome ! E subindo a calçada do Correio, arrependia-se de não ter com, prado mais alguma cousa no estanco e interrogado a mulher sobre os habitos, as horas de sahida, as relações, a edade da snr. a baroneza. A creatura, com o seu enorme ventre, a bocca muito fendida, a pelle cheia de sardas, parecia accessivel ás tentações de meias libras. Por ena poderia fazer-lhe chogar uma carta, talvez . . . Perguntou n'essa noite ao Meirinho se conhecia a baroneza de Paradas , — Nunca Vi. —- Uma senhora muito bonita, com um pequerruchoa — Nunca vi. Desde o caso do chapéu, tratava-o com seccura ; o Padilhão tambun. Arthur suspeitava que em casa de D. Joanna se tivesse fallado, troçado, N'essa noite, teve a certeza, quando, ao passar no corredor, o Carvalhosa o deteve para lhe perguntar com o seu ar soberano : — Então que historia ó essa do chaoéu Não se falla n'outra cousa ! Arthur, escarlate, quiz rir : — Tolices ! E o Carvalhosa, de charuto ao canto da bocca, as mãos nos bolsos, um bambolear d'escarneo :, — Homem, semear assim chapéus de molas peIas casas particulares Arthur teve vontade de lhe espalmar uma botetada na bochecha livida. Não achando urna resposta, subiu para o quarto, furioso. Não se fallava n'outra cousa, -hein ? Por isso surprehendera olhadellas, rizinhos Canalhas ! Começava agora a ter odio ao Hotel : desde que se sentia vagamente troçadc, as physionomias pareciam-lhe tão estupidas como as conversas; o Bento Correia, que fingia ignoral-o, enervava-o com a sua gula tranquilla, a mastigação ruminada, com pingos de molho que lhe cahiam sobre a ; sentia uma vaga ironia, um desdem a,tnbiente cercal-o ; cham•avam-lhe o poeta. Um dia, ouvira 0 guarda-livros dizer para o creado : « é para o poeta, do 26 nreirinho tinha mudado de legar, para se não sentar junto d'elle, de certo : quiz, por vingança, reclamar-lhe as dez libras, mas não se atreveu ; além d'isso conservava a idéa de que Meirinho lhe seria ainda necessario, mais tarde, para se relacionar com a snr. a baroneza de Paradas : por isso fazia-lhe pre o mesmo sorriso muito amigo, a que Meirinho respondia apenas com um movimento secco de ca. boça. Agora, durante o jantar, ficava isolado, mudo, sentindo-se vagamente um paria ». Levantava-se sempre da meza desesperado, lançando-se de toda a alma em idéas de vingança e de revolução. Porém ultimamente nem o Nazareno apparecia no Martinho, e como lhe não sabia a morada, a sua vida arrastava-se de novo n'aquollas fluctuações intoleraveis, sem fim, sem resultado. Depois, o dinheiro ia-se derretendo » ; o manuscripto dos Amores de Poeta lá estava, improductivo, inutil, no fundo do bahú, entre as camisolas. — A sua unica alegria era a revisão das provas dos Esmaltes e Joias, muito adiantada já. Certa manhã — um sabbaao — em que trabalhava no seu quarto, recebeu da redacção do Seculo um bilhete dc Melchior : Amigo. Hoje, sabbado, é o dia da pandegazi nha. Estive cata malina com as sy[phides. Aceitam. Eu levo a Carmen, você a Concha. A tipoia « do José r.L'ezo está arranjada. Ás 9 horas lá vou « buscal-o ao Hotel. A divina Concha está anciosa « por vêr el Señor -Arturito. Salero ! » Ficou enthusiasmado. Vinha bem a proposito aquela pandega, depois dos tedios dos ultimos dias ! Era a sua primeira orgia com raparigas chics e entrevia uma tipoia correndo sob o luar, cheia de sons de cantigas ; depois, o Champagne, espur:uando sob um lustre de gaz e camizinhas de rendas de hombros brancos como marmore. Estirou os braços n'uma sensação de concupiscencia brutal. Que ria embebedar-se, gritar, delirar, e deante d'aquelles gosos carnaes, o Platonismo, a Sociedade, a Arte, a Revolução, pareciam-lhe cousas bem ficticias ! Nem poude, na sua excitação, continuar a revêr as pro vas. Sahiu ao acaso, pelo Chiado. Pensava na Concha e á idéa de a ter semi-nua nos braços, sentia ama viva contracção no estomago ; imaginava-a alta, pallida, d'olhos arabes, com os ardores d'um sangue sevilhano e as melancolias d'uma existencia transviada. Desejava-a tanto, agora, que quasi a amava ; não duvidava da impressão que lhe fizera e olhava vagamente as vitrines, pensando no presente que lhe daria, quando ella, desinteressada e amo. rosa, recusasse dinheiro e só lhe pedisse fidelidade, à tarde, quando voltou ao Hotel, o guarda-portão mostrou-lhe um rapaz de buço, com um chapéu de c,ôco, que o esperava encostado á hombreira : —Um recado para V. Ex. a . O rapaz approximou-se e com voz cautelosa : — V. Ex. a é que é o snr. Arthur Corvello — Sou. — Não ha engano — Não, homem, não ! — Tem a bondade de me dar uma palavra. — Levou-o para a rua, quasi até defronte do Casino e tirando do bolso um bilhete :—Vem iá dos amigos... Arthur leu á luz d'um candieiro de gaz : « Camarada. Hoje é a installação do Club na casa a nova. Mathias preside. Venha-se encontrar mathe• «maticamente ás 8 horas menos um quarto, á es- « quina do theatro D. Maria, lado occidental. Não « lhe digo que seja exacto, pois que seria offender os seus sentimentos de patriota. Queime este bi thete — Faz favor de dar recibo — disse o rapaz. Arthur deu-lhe o seu cartão de visita e o rapaz, levando a mão ao coco, disse com uma voz surda, grave, que impressionou Arthur : — Saude e fraternidade ! Arthur entrou no Hotel profundamente contrariado. Era tarde para avisar o Melchior, e todavia não podia faltar ao Nazareno, ao Mathias ; além d'isso, a idéa da sala, do estrado da presidencia, aquella esperança de sessão secreta, de revoluções temerosas, attrahiam-no pelo seu lado dramatico. E comtudo lamentava perder a ceia, a noite d'amor ! A sineta chamou-o para o jantar. Antes do assado, sob a influencia do Collares, já pensava em deixar a sessão republicana e ir com a Concha ; o cognac decidiu-o : sentia mesmo um requinte de prazer animal em mandar as idéas ao diabo » e atirar-se ao bonito corpo branco que se offerecia todo calido. Diria ao Nazareno que tivera uma colica, que recebera um telegramma . . . As sessões do Club seguir-se-iam todos os dias — e a Concha, despeitada se elle falhasse, podia perder o capricho, ou voltar para a Hespanha. E para que, por um acaso, o Jacome não o viesse surprehender, sahiu. Ás nove, voltaria, encontraria o Melchior e batiam para o Dáfundo. Com a charuto na bocca, o chapéu ao lado, atraVessava o corredor, cantarolando, quando o Meirinho que conversava n'um grupo, ao avistal-o, veio para elle com uma cara severa : — Perdão, meu amigo disse— sinto ter de lhe dizer uma cousa. Eu levei-o a casa da snr.a D. Joanna Coutinho, uma senho:a da primeira sociedade, e o meu amigo, passados dez dias, nem sequer lhe deixa um bilhete . . . As faces d'Arthur abrasaram-se de vergonha. — Ora isto não se faz — continuou Meirinho, — É pôr-me em má posição : dá a entender que eu levo lá gente que não sabe os habitos da Eociedade . . . Isto não se faz. Arthur, petrificado, não achou uma palavra : viu-o oirar sobre os calcanhares e reunir-se ao grupo, cofiando a barba. Lá estava o Bento Correia, mascando o charuto, o Carvalhosa, erguendo alto a guedelha cheia d.e caspa, o Padilhão, torcendo solemnemente a pera, o brasileiro Gomes, com a sua bocca alvar, hilare. . . Arthur teve-lhes um odio sanguinolento que se estendia a tudo o que representava a Sociedade, a Politica, a Finança ! Esqueceu um momento o Melchior, o corpinho da (%ncha, o Champagne e o luar. Sentiu a necessidade de se vingar, de hutnilhar, de aterrar aqueJle conciliabulo d'idiotas enfartados de comida, occupados de pieguices, vivendo no artificio . . . E furioso, tendo-lhes sêde do sangue, partiu como uma bala, procura do Nazareno ! Quando ás nove horas Arthur ent,rml com Nazareno no Club, na rua do Principe, pareceu-lhe que havia apenas, em logar da larga reunião quc esperava, quatorze ou quinze pessoas. A sala era vasta, d'um aspecto regelado, forrada com um papel pardo semeado de florzinhas azues ; do tecto caiado de fresco descia um candiaro de gaz de dous bicos, sem globos, dando uma luz crua de botequim ; cadei- ras de palhinha, como as dos asylos, perfilavam-se contra a parede ; o soalho velho tinha remendos de taboas novas ; ao fundo, deante d'uma janella que dava para o pateo d'uma cervejaria vizinha, disfargada por uma larga cortina verde, era o estrado da Presidencia, com a sua mesa coberta d'oleado, e um guarda-pé de baeta vermelha ; ao lado, a uma mezinha de pé de gallo onde ardia uma vela, um sujeito que tinha feridas na testa escrevinhava, muito myope, com o nariz sobre o papel. Conversava-se em grupos. Nazareno deu apertos de mão mudos e levou Arthur a uma sala contigua: caiada de novo, alumiada por um bico de gaz que sahia da parede. Havia no chão rolos de papel, potes de tinta, e, junto á janella de portadas cuidadosamente fechadas, um banco de carpinteiro, Ao pé d'uma pilha de taboas arrimadas ao alto contra a parede, um sujeito, todo de preto, fallava a dous individuos que o escutavam de charuto na bocca. Era o illustre Mathias. Arthur foi-lhe apresentado pelo Nazareno como «o nosso poeta D. Mathias apertou-lhe a mão com uma gravidade secca, murmurou um estimo muitis8imo, e continuou com o gesto lento, medido, das suas mãos calçados de luvas pretas : — . . . Por isso, no caso do Luiz, fa:ia o geguinte : apenas doscobrisse o escandalo, expulsava-a de casa, sem colera, e recomeçava tranquillamente a trabalhar . . . Arthur examinava-o : era alto, de feições aquilinas, cabello rapado á escovinha ; o seu bigode curto, castanho, tinha pellos asperos e sahidos ; e o seu olhar azul e claro era frio, apagado, muito duro, Um dos sujeitos disse, cuspilhando pelliculas de tabaco : — Pois sim. Mas emfim sempre é sua mulher. Se elle a expulsa gem recursos, abre a porta ao publico Mathias encolheu os hombros, com uma indiferença que significava : — que tem isso — Ah — fez o outro agitando a cabeça — é que é muito desagradavel saber uma pessoa que sua mulher está usando o seu nome, e, por traz de taboinhas, a fazer pst, pst, aos sujeitos que passam . . . Mathias interrompeu dogmaticamente : — Desde o momento em que, por sua culpa, o pacto conjugal se desfez, não tenho nada com as suas acções. A minha honra é minha, não é d'ella ! Se a vejo por traz das tabcinhas, o meu devor é avisai a policia para que a numere e a ponha, a ella, sob o contrôte da hygiene e aos cidadãos, ao abrigo do contagio Mas na outra sala alguem entrara, porque se ouvia : Olá ! Viva ! Como vae isso ! Ditosos olhos ! Emfim o rumor sympathico em torno d'uma pre senga estimada. E quasi immediatamente um individuo nedio entrou na saleta, de chapéu para a nuca, o ar hilare, uma grossa cadeia de relogio sobre um ventrezinho prospero. O Mathias estendeu-lhe vivamente a mão, os oatros vieram dar-lhe palmadinhas no hombro, com o olhar enternecido. E com as bochechas prazenteiras, o individuo nedio excla- mou : — Então cá estamos, cá estamos ! Era o snr. Abilio Pimenta, logista de pannos, proprietario. Devendo ser, por profissão, por interesse, por physionomia, um conservador, a sua presença era para os republicanos uma satisfação permanente, muito saboreada ; com o seu ventre, o seu grilhão, a sua face nedia, o vago cheiro d'ar mazem que sahia d'elle, o amigo Abilio introduzia no Club aquelle tom de respeitabilidade, d'estabilidade, d'ordem, que a Propriedade confere ás Idéas que apoia ; a cooperação d'aquelle proprietario era a evidencia gloriosa da praticabilidade da Republica : elle representava a adhesão da burguezia, e a sua pessoa trazia aos republicanos da plebe aquelle or gulho que dava aos deputados do Terceiro Estado, em 89, a presença, nos seus bancos, dos fidalgos das casas de Noailles ou de Montmorency. A sua presenga tirava ao Club a feição de grupo inquietante de pobretões descontentes e as theorias mais exaltadas tomavam a seriedade de legislações prudentes, quando, para as escutar, se via aquelle honrado logista, d'ar benigno e paterno, com dinheiro no banco, inclinar-se, fazendo com a mão gordalhufa uma concha em redor da orelha cabelluda. A sua assiduidade no Club era proverbial e todavia as suas idéas pareciam nebulosas. Exprimia-se vagamente, dizendo com jovialidade : — É dar p'ra baixo, é dar p'ra baixo ! Para « dar p'ra baixo », aconselhava a fundação d'um jornal e previamente a cornpra por subscripção d'um prelo, typo, etc. Elle mesmo se offerecia para dar o seu obulo — e que apparecesse o dinheiro que o prelo, typo, etc., não estavam longe . , . Ultimamente estivera incommoaado, com ameaças de dôres rheumaticas, e, muito interessados por aquella vida preciosa, o Mathias, o Nazareno, pe• diam detalhes da sua convalescença. — Á custa de muito alcool camphorado, . , — ex plicou elle com bonhomia.—Foi a minha senhora que me curou. Nada de medicos, dizia-me ella. Tens dê res nas cruzes? Fricções d'alcool. Pois senhores, fez-me arribar . . . Eu estendia-me na cama, e agora o verás, era a minha senhora a esfregar, a esfregar Riram com enternecimento : aquillo parecia mui- to patriarchal, d'uma alta união domestica. Um dos sujeitos que mascava o charuto fez sentir a differença entre aquella honrada senhora, tratando o marido, e as d'outras classes, occupadas de toilettes chics e de modistas . . , — Não vá sem resposta — fez o logista. — Que a minha senhora gosta da sua tafularia . . . E olhe que aos domingos, ao Passeio, não vai outra ! . . . Podem levar outros arrebiques em cima do corpo, mas mais valores e melhores sêdas, nenhuma, nenhuma ! Uma voz disse á porta da saleta : — Oh, Mathias, são nove horas ! Mathias deu um puxão á sobrecasaca ; com um gesto rapido e machinal ageitou a gravata, e, se guido dos outros, entrou na sala, dizendo a Arthur : — Tive carta do nosso Damião. O livro d'elle sahe por estes dias Subiu ao estrado e quando o rumor de cadeiras socegou, disse, sentando-se e remexendo n'alguns papeis sobre a mesa : — Está aberta a sessão. Um membro do Club, magrissimo e estrabico, ergueu-se bruscamente. E com a cabeça alta, as mãos na cinta : — Eli proponho que se altere esta fórmula : Está aberta a sessão. Cheira muito a S. Bento. Em redor um murmurio correu : ora adeus ! Tolices ! P 'ra quê ? — P'ra quê — exclamou o estrabico, que parecia do genio irritavel Pela razão que se diz « cidadãos », em logar de meus senhores Todas essas formulas são boas Mathias interrompeu-o com um gesto breve da mão espalmada : — Eu creio esta formula tão innocente como a de bons dias. Usava-se na Conven.ção. — E olhando em redor: — O que me parece mais util evitar é o habito de fumar . . . O estrabico que tinha o cigarro nog dedos, atirou-o, sentando-se e resmungando. Arthur apagou logo o seu charuto sobre a sola. Dous ou tres, mais economicos, foram pousar na borda do estrado os charutos meio fumados. O secretario, que estivera tirando pelliculas das feridas da testa, de pé, inclinado para a luz, com o nariz no papel, ia rosnando a leitura d'uma acta : pelas cadeiras fallava-se baixo, e Arthur, sentado ao pé de Nazareno, examinava as physionomias. Não tinham as expressões exaltadas e sinistras que elle imaginara. Á excepção d'um sujeito calvo e obeso, que quasi occupava duas cadeiras, tanto as faces como os corpos eram magros : sentia-se n'elles ag existencias mesquinhas nos quartos estreitos das casas d'hospedes, o tedio d'um trabalho monotono d'escriptorio on de gecretaria, o ar vago e fatigado que dá a vadiagem ; havia dous padres, d'olb0B duros, a pelle azulada da barba espessa, muito rapada, os beiços lubricos; um velho militar conservava entre os joelhos um enorme bengalão de castão de ferro. Não havia um unico operario e todos pareciam sentir uma infinita vaidade d'aquelle apparato de sessão, gosando a ficção parlamentar. Um individuo, porém, parecia a Arthur muito original : tinha a cabeça enorme, quasi calva, apoiada ás costas da cadeira, e, muito estendido, á larga no seu fato bonito de cheviote claro, com as mãos nos bolsos, parecia dormitar, n'uma indifferença irreverente ; entre os sapatos de verniz e as calças, via-se um pedaço de meia, ás riscas pretas e vermelhas ; Arthur achava-o elegante e parecia-lhe que tudo o que sahisse da sua bocca fina, mobil, d'um arco bem talhado, devia ser original e engraçado. — Quem é ? — perguntou a Nazareno. — Um doudo — disse o outro, encolhendo os hombros. O secretario, no entanto, findara a leitura ; e com a mão apoiada á mesa : — Approvado, não ? — perguntou. — Approvado — disseram — approvado Mathias então ergueu-se. A sua face bem talhada parecia mais pallida sobre o fundo verde escuro da cortina ; deu com ambas as mãos, ainda calçadas de luvas pretas, um puxão breve á golla da sobrecasaca e começou : — Meus senhores — emendou logo : —— Cidadãos. Hoje estamos aqui paxa nos installarmos. Como vêem, ha ainda na sala arranjos a fazer : espero que estejam promptos para a semana. As sessões regulares podem começar então. — Deu um olhar ás filas de cadeiras : — Creio que ha apresentações a fazer. Jacome Nazareno ergueu-se logo e com solemnidade : — Proponho e apresento, sob minha garantia, o snr. Arthur Corvello, auctor d'um drama de tendencias democraticas e amigo desde Coimbra do nosso Damião. Creio que não haverá objecções. Vozes soltaram : — Apoiado ! Foram minutos gloriosos para Arthur. O secrotario, voltando para elle uma face muito risonha, chamava-o : — Tem a bondade? É para assignar o seu nome. E emquanto Arthur, vermelho, commovido, assignava n'um largo registo encadernado — o rapaz de fato de cheviote claro, meio erguido sobre a cadeira, disse com uma voz bem timbrada, mordente : — Proponho o meu amigo Vicente Falcão. Um homem muito alto, muito pallido, d'aspecto mystico, com um longo casaco ecclesiastico, adiantou-se para o meio da sala. Curvou-se e no silencio um pouco admirado. disse cavamente : — Desejando fazer parte do Club Democratico, quero evitar equivocos. Uma só palavra os desfaz : eu sou socialista ! — Olhou em redor, repetiu com força : — Eu sou socialista ! So-cia-lista ! Recuou um passo, cruzou os braços sobre o peito, erguendo a face livida, como para affrontar a morte. Em redor, havia nas physionomias uma vaga expressão assombrada, mystificada ; cochichava-se, narizes franzidos interrogavam n'um gesto mudo ; rizinhos fungavam. Que é ? Quem é ? Que diz elle ? O rapaz vestido de cheviote exclamou : — Apoiado ! É bom prevenil-os ! Mathias deu-lhe de lado um olhar frio d'odio e com uma voz affectadamente cortez : — Este Club não tem exclusivismos . . — Mas tem divergencias ! — interrompeu o rapaz vestido de claro. E erguendo-se a palavra !— Não esperou que lh'a concedessem, proseguiu : — Entre pessoas que aspiram apenas a substituir um rei constitucional por um presidente jacobino, que se indignam porque ha viscondes, que fazem guerra á lista civil e outras pieguices —e entre nós, que queremos a evolução democratico-social na sua larga acção — ha divergencias muito g:aves. É conveniente evitar os equivocos. Estou com o snr. Falcão : uma declaração a tempo define os terrenos . . O estrabico soltou um apoiado, semelhante a um rugido. Nazareno que se agitava, impaciente, ergueu-se bruscamentG e com o punho estendido : É melhor desmancharmos o Club á nascença e acabarmos . . . — Ordem ! Ordem ! — disse-se logo. — Pois que significa gritava Nazareno, bracejando — trazerem-se estas divergencias, apenas nos installamos ? Ainda as portas não estão pintadas e já nos dividimos em partidos . . . — Não queremos ser confundidos com os jacobinos ! —- rugiu o estrabico. — Nem nós com os communistas ! — atirou um sujeito de barbas e oculos. Alguns diziam monotonamente : — Ordem ! Ordem ! repetindo a formula parlamentar. O velho militar grunhia : Tóra os petroleiros ! Uma sussurração confusa corria nas filas de cadeiras, quebrada, aqui e além, por uma voz saliente que gritava : mais seriedade ! mais decencia ! O mystico conservava-se immovel, espectral, os braços cruzados. E um individuo de cache-nez, sentado ao pé d'Arthur, perguntou-lhe ao ouvido, com o rosto franzido d'ignorancia impaciente : — A que vem tudo isto Que querem elles Ningnem parecia saber c o que elles queriam — até que Mathias, que de certo julgou o tumulto inconveniente ó sua dignidade, repenicou, nervoso e pallido, uma campanhia de quarto de convalescente. —É lamentavel — disse no silencio creado — que se produzam antipathias tão caracterisadas, apenas reunidos para um fim de justiça. São estas scenas que justificam o que dizem os nossos inimigos : que no partido republicano não ha senão desuniões ! Este Club não tem exclusivismos, repito. Aceita toda a opinião democratica que se apresente, em opposiçõo ao Constitucionalismo. Em presenga da vergonha do systema actual, o dever de todo o homem livre e intelligente é associar-se para a sua destruição. Havia agora nas filas de cadeiras uma attenção intensa de rostos estendidos, applicados a surprehender, apanhar a significação d'aquella divergencia irritada. O amigo Abilio fazia com a mão uma concha acustica á orelha. Com o queixo na palma da mão, alguns arregalavam olhos em que reluzia a adoração pelo Mathias. Só o socialista, o rapaz de fato claro, o estrabico e outro, que, com a palpebra abaixada, catava os pellos do bigode, affectavam distracções, com bamboleamentos de perna muito ironicos, os labios torcidos em sorrisos de tedio. E Mathias proseguia : — Se o snr. Falcão, — o mystico dobrou-se em (lous —- por Socialismo entende . . , O mystico disse d'um só folego : — Entendo uma nova concepção da Propriedade, do Trabalho, do Casamento, da Educação, da Sancção Moral, etc . . . em opposigão ás soluções dadas pela egreja e as instituições que as realizam... Mathias estendeu o braço : — Então, mais ou menos, somos todos socialistas — Quod Deus avertat — interrompeu Gilberto, o rapaz de fato claro. O sujeito de cache-nez parecia extremamente impaciente, intrigado : — Mas onde querem elles chegar — perguntou novamente a Arthur. A explicação seria longa, complicada e para abreviar Arthur disse-lhe baixo : — Partidos. São dous partidos . . . — Theorias ! — disse o de cache-nez, que parecia ter pela ideologia um odio d'economista. — A questão é fundar um jornal . . . E pôr um guardavento n'aquella porta, d'onde vem uma corrente d'ar que me mata Mathias fallava agora da revolução social : —Se o snr. Falcão entende, como socialista, que ella deve ser feita pelo povo, educado por uma philosophia popular positiva . . . (procurava os adjectivos) proudhoniana, com exclusão de toda a direcção autoritaria, de toda a iniciativa de governo, então podemos divergir. Se, na questão politica, pretende impor a formula federativa em opposição á formula unitaria, de certo divergimos tambem . . . Divergencias sempre — atalhou Gilberto. Mathias continuou : — Mas estamos unidos para o mesmo fim, e mais tarde, desembaraçado o Paiz das instituições do passado, poderemos agitar essas altas questões — Phrases*! — rosnou Gilberto. Aquella irreverencia pareceu escandalisar a assistencia : olhos aücesos, irados, voltaram-se para elle ; o velho militar acariciava soturnamente o castão da bengala e as mesmas vozes repetiam : decencia ! decencia ! — O Jacobinismo — continuou Mathias— já que esta palavra agrada ao snr. Gilberto, o Jacobinismo não combate o Socialismo, prepa;la o , petiu com um gesto vivo : — prepara-o ! O Socialismo é um poder espiritual, substituido a outro poder espiritual . . . O mystico abaixou approvativamente a cabeça. Havia em todas as physionomias um vago ar espantado, d'incomprehensão, de fadiga. — Ora essa substituição — continuava Mathias — para ser feita sem lucta, sem choque, precisa ser levada a effeito dentro d'um regimen amigo que a favoreça, a promova e garanta a, paz social emquanto se faz a transformação espiritual, — Pretextos para o Cesarismo—rosnou Gilberto. O sujeito de cache-nez apertou as mãos na cabeça, murmurando com uma voz plangente ; Ih, Jesus ! Eu não os percebo, eu não os pcrcebo ! Não pareciam «percebel-os», em geral. Os olhares que o desejo de comprehender arregalava, iam de Gilberto a Mathias, implorando clareza : em toda aquella phraseologia nebulosa, onde estava a Republica ? Porque não diziam, claramente, como se havia de destruir a casa de Bragança Porque se não distribuiam já os empregos de que os conservadores iam ser expulsos Com que regimentos se contava ? E os que se tinham reunido ao Club na esperança d'uma futura satisfação de necessidades ou d'ambigões, sentiam como que um vasto logro„ encontrando, em logar de preparativos d'acção, apgumentações doutrinarias. Um individuo sem barba e muito amarello exprimiu a impaciencia de todos, dizendo com uma voz fina : — Vamos ao que importa: basta de philosophias I Mathias fitou-o com o seu olhal frio como uma punhalada : — Sn-r, Malachias, se lhe falta o respeito pelas idéas, deve ter ao menos o respeito pelas pessoas. — Bravo ! Apoiado ! O Malachias ergueu os braços, enterrando a caboça nos hombros ; e com uma voz fina, muito arrastada, pegajosa, que arrepiava os nervos : — Eu, não era para offender, eu, era para di- zer . Arthur, então, reparou n'elle : era amarello, d'uma amarellidão baça, oleosa, com uma bocca muito larga e parecia sujo, viscoso ; sentia-se que devia exhalar um cheiro mau, Mathias, então, resumiu : O incidente vae longo e eu julgo exprimir a opinião do Club, dizendo que nos honramos de vêr entre n.ós o snr. Falcão, e que, sejam quaes forem as divergencias d'opinião, é um orgulho adquirirmos a cooperação d'um homem de bem e d'um democrata illustre. O mystico curvou-se até ao chão e entre apoiadog ! foi assignar o seu nome no registo. Mas o Malachias erguera-se logo e com gestos lentos, molles, gelatinosos, começou a fallar d'um modo tortuoso, empastado : dizia que era republicano, que respeitava todo o mundo, que quantos mais membros melhor . . . —E demorava-se, passava as longas mãos lividaa e magras pela face sem barba, oscilava com a cabeça : — elle não queria pôr em duvida as convicções dos cavalheiros admittidos, mas . . . Porque emfim era necessaxio cautela Longe d'elle insinua! cousa alguma . . Todavia e— Acabe, homem — gritaram-lhe, impacientes da voz, da hesitação molle, dos gestos frouxos. — A questão é esta — disse por fim — estamos ou não estamos nós aqui a conspirar contra o governo 'l Ora bem. Sim, digo eu, isto não é para offender, mas emfim Sim, digo eu . . . Quem nos diz a nós . . . Quem nos diz a nós — repetiu, espalmando os cinco dedos sobre o peito concavo : — quem nos diz a nós . . , que não ha pessoas que vêm aqui para escutar, para espiar Jacome Nazareno deu um pulo : — Isso é insinuar alguma cousa a respeito do meu amigo — E indicava Arthur que escutava, esearlate, immovel. O mystico saltou, com duas passadas, para o meio da sala e com a voz tremula, agitando dous enormes braços magros : — Cidadãos, é triste que depois de toda uma vida d'estudo e dedicação á Democracia, no dia mesmo em que me venho reunir aos camaradas para um fim de justiça, me veja apontado como um espião — eu ! —E batia com os dous punhos freneticamente no peito. O sujo Malac,hias protestava, levando as mãos á cabeça : Pelo amor de Deus, o que ahi vae ! Ahi está o snr. Falcão com as suas exager'ações e o snr. Nazareno com o seu genio. Eu nic disse . . . eu não disse , . . Eu, o que queria dizer, é que era necessario não fazer as cousas a trochemoche. É necessario mais solemnidade . , . Porque é que se A não ha-de exigir aos que são admittidos o juramento — Sobre um craneo ! — soltou Gilberto. Houve risadas, Muito bem ! E Gilberto ergaeu-se : — Peço a palavra. Hão-de notar que é sempre do snr. Malachias que sahem as idéas comicas sobre a symbolica do Club : foi elle que ha tempos reclamou a senha ; hoje quer o juramento ; ámanhã ha-de exigir o subterranéo ; depois, em logar do gaz, a tocha ! A democracia do snr. Malachias pertence á Rua dos Condes. Quanto ao sor. Falcão, são bem conhecidas as suas idéas, o seu caracter, os seus artigos na Evolução, a sua vida — Apoiado ! Apoiado ! Nazareno erguera-se : — E com respeito ao snr. Corvello, creio que é inutil affirmar a sinceridade das suas crenças, o seu odio intransigente á sociedade conservadora . e . — Apoiado ! Apoiado ! Está acabado isso . , . ! Malachias curvou-se, disse ainda : — Eu, com a minha pequena experiencia, sem, pre tenho visto exigir-se o juramentozinhn Lá fóra é o mesmo . . . Mas emfim, se os sabios não querem . . . Eu, era para o futuro, mas emfim . . . eh! eh ! eh I Em redor puxavam-lhe pelas abas do paletot ; elle sentou-se, resmungando, mas erguendo-se logo com a elasticidade d'uma mola, recomeçou na sua voz irritante que punha comichões no sangue : — Eu pego perdão de voltar á carga, mas emfim . . . para dirigir uma pergunta á mesa . . . Queria saber se a subscripção de mil réis por cabeça, para as obras da sala, foi excedida ou se ha um saldo E se ha um deficit, quem responde . . . Sim, n'estas questõezinhas de dinheiro . . a Eu não quero offender —E enterrava a cabeça nos hombros, com um gesto torcido dos braços : — Mas emfim ; . • Mathias disse com seccura : — As contas serão apresentadas, examinadas e discutidas. A pergunta é inopportuna e mal formulada. Malachias teve o seu riso casquinado : — Eu era p'ra saber . , . Gosto de saber . , . Eh ! E ficou sentado, passando pelo queixo os longos dedos magrissimos. Tmmediatamente, um homem d'edade, muito feio, com uma baxba de pellos grisalhos e raros, ergueu-se. com um caderno de papel na mão. Escar rou e com uma voz lenta, dormente, um pouco cava: — Eu pensei que n'este dia de inauguração, seria conveniente lêr algumas paginas, que puzessem deante do espirito de todos as phases que tem atravessado a Liberdade. Se me permittem E vendo Mathias abaixar a. cabeça em consentimento, o homem feio abriu o caderno, pigarreou, e comegou a lêr : Se remontarmos aos tempos quasi mythologicos, encontramos o primeiro martyr da liberdado, pregado sobre um rochedo, e tendo o flanco devorado pelo bico de bronze d'um incansavel abutre Havia em redor um vago pasmo : o que era Examinava-se o cadern.o espesso, azul, cosido com guita. O quê ! Ia lêr aquillo tudo . . . O insensato » — continuava elle, lento, pausado, crasso — tendo querido arrebatar aos Im- mortaes o fogo sagrado, viii seus membros acorrentados ao Caucaso e a historia sauda n'elle o primeiro que reivindicou os direitos do homem contra a tyrannia da Divindade . . . Comprehendeu-se vagamente que era a longa historia dos Martyres da Liberdade, desde Prometheu ! Alguns queriam escutar, por camaradagem, ou na esperança de anecdotas typicas ou de declamagões que lisonjeassem as suas opiniões : mas os periodos molles, gordos, movendo-se surdamente, como um lento rolar d'odres mal-eheios, constituiam uma rhetorica fatigante ; a voz era tão dormente, d'um escorrer tão monotonc que amodorrava ; algumas conversas estabeleceram-se baixo ; um sujeito er gueu-se em bicos de pés, apanhou no estrado a meepu do charuto que lá deixara, e, subtilmente, refugiou-se na saleta ; outros seguiram-no — os mais timidos affectando, com as mãos nas calças, uma necessidade urgente ; e os que ficavam, para resistir ao torpor erescente, estabeleciam uma sussurragio de vozes ciciadas. Então, Mathias, que tinha os olhos fitos no tecto, batia com os dedos na borda da mesa —e no silencio deferente que se cavava, ouvia-se a voz vagarosa, fallando « dos grilhões de Spartacus, do punhal de Bruto ou do ferro de Lucrecia 9. Mas o rumor crescia gradualmente e, um a um, sujeitos em bicos de pés, encolhidos, desappareciam pela porta estreita da saleta. Vinha de ló uma fumaraça de tabaco ; ós vezes, uma face de cigarro na bocca espreitava para a sala ; ouviam-se risadinhas . . . Impassivel, absorvido, solemne, o homem feio ia expondo as miserias da plebe romana. Arthur, em respeito a Nazareno, conservava-se immovel : uma inercia molle afrouxava-lhe og mus culos n'um abandono de fadiga. Pensava no Melchior : áquella hora, se não fosse a Republica, elle tambem bateria para o Dáfundo, sentindo, sob o assento da caleche, os pézinhos da Concha entre os seus ; chegariam ; vêl-a-ia, na sala da ceia, tirar os agasalhos, apparecer á luz do gaz na belleza triumphante do seu decote, e sentiria a sua cinta fina vergar-lhe entre os braços, emquanto o seu pescoço branco, cheio, dobrando-se para traz, chamava deliciosamente os beijos. Estirou as pernas, os braços, n'um espreguiçamento de languidez . . . A voz espessa ia apostrophando Tiberio e a galera de velas de purpura que o levava a Capreia . . . Jacome então bocejou enormemente : olhou um momento o gaz, o grosso manuscripto, e, com uma decisão brusca, ergueu-se e nas pontas dos pés, sahiu. Arthur ia seguil-o, mas o olhar frio de Mathias immobilisou-o. Agora, boccas abriam-se em bocejos sinceros ; faces lamentosas, imploradoras, voltavam-se para a impassibilidade de Mathias ; um ou outro, tirando o relogio, tinha um gesto desesperado ; o secretario dormitava, e, sem pudor, Gilberto lia um livro... Por uma transição que ninguem seguira, o homem feio divagava sobre os Persas . , Jacome voltou a ao pé d'Arthur e oom uma voz de rancor : — Isto é uma cousa extraordinaria ! Ha tres quartos d'hora que falla ! E que quantidade ha ainda de manuscripto ! — Quem é elle ? — Uma besta — disse o outro por entre OB dentes, com um furor concentrado. Esteve um momento a roer nervosamente as unhas : mas tornou a erguer-se, e batendo agora os tacões como n'uma demonstração hostil, entrou para a saleta... O homem feio, sereno, depois do ter celebrado o suicidio de Catão, começava a commentar a crucificaçio de Christo. Foi então que se reparou que o amigo Abilio adormecera profundamente. Na monotonia da leitura, aquillo tomou o interesse picante d'um incidente grotesco : seguiam com rizinhos fungados os cabeceamentos bruscos que lhe atiravam o corpo para os joelhos, e. nos olhares jubilosos luzia a esperança de o vêr rolar no chão. Mas Mathias, zeloso da dignidade do Club, fez Signal ao Secretario que desceu do estrado em bicos de pés, e — como era de temperamento pacatamente faceto — em logar de despertar disfarçadamente o logista, fez-lhe cocegas na orelha com a rama da penna. Abilio pulou com um berro —e a gargalhada que se estivera formando rebentou irreprimivelmente. O amigo Abilio, com as feições inchadas, vermelho, desconfiado, esgazeava em redor os olhinhos estremunhados ; o homem feio suspendeu um periodo sobre Savonarola, e Mathias, severo, deu um toque de campainha cheio de reprehensão. E a seriedade restabelecida, o homem feio proseguiu, lamentando, com imagens floridas, a fogueira em que ardeu João Huss . . . Arthur aproveitara o ligeiro tumulto para ir, em bicos de pés, com as cruzes quebradas de fadiga, fumar para a saleta. — Onde vai o homem ? — perguntaram-lhe. —- Vai nos martyres da Reforma I — Ainda tres seeulos ! — murmurou o sujeito de barbas e oculos, erguendo aos céus os braços e os olhos. Fallava-se a meia voz, fumando, de futuras sessoes, de projectos, d'esperanças politicas, d'infamias da Monarchia—e as vozes abafadas davam um tom de conspiração ás accusações, ás injurias lançadas ao Governo : attribuia-se-lhe unanimemente a decadencia vil da nação ; n'um circulo, d'onde se elevava uma fumaça de cigarros, cada um expunha « uma grande vergonha » — a ruina economica, o baixo preço dos salarios, o compadrio dos empregos, o abandono das colonias ; fallava-se por generalidades vagas : era uma choldra ! O paiz estava perdido ! Nada, nada, nada ! Tudo uma canalha ! — e hombros encolhiam-se com tedio, faces chupavam-se, aspirando o fumo do tabaco. Mas, em geral, a irritação contra as pessoas excedia a hostilidade ás instituições : atacava-se a vida immora] dos ministros, contavam-se ao ouvido anecdotas da Côrte, grunhia-se contra o abaixamento dos jorna- listas conservadores ; um individuo magro, cheio d'espinhas carnaes, parecia attribuir todos os soffrimentos da humanidade ao administrador do Bairro Central, que de certo odiava. Outros, então, contavam despeitos pessoaes. E como justificação d'aquellas coleras, voltavam constantemente as afñrmações humanitarias : € a miseria dos operarios a indignidade dos ricaços Os mais incultos ior- mulavam a sua indignação politica com um termo de calão ou uma obscenidade de taberna ; os mais illustrados declamavam vagamente, fallando com gravidade na corrupção do baixo imperio Ninguem parecia ter uma noção exacta de reformas definidas: mas todos, vagamente, confiavam que da Republica escorreria a felicidade publica, penetrando todas as classes, até os mais obscuros casebres, com a fecunda universalidade da luz que cahe d'um astro. Ás vezes, um d'elles ia escutar á porta, outros seguiam-no, escondendo os cigarros atraz das costas . . . E ouvia-se a voz morosa do homem feio, impassivel, declamando considerações sobre o processo dos Girondinos Mathias, de longe, reclamava-os com um olhar imperioso, alguns obedeciam resignadamente, indo immobilisar-se nas suas cadeiras, sob o lento escorrer da prosa infindavel ; outros recuavam rapidamente, refugiando-se no fundo da saleta, onde o bico de gaz erguia a sua tulipa de luz crua. O Nazareno parecia o mais impaciente. Segundo elle, era inutil haver sessões, se ellas deviam ser tomadas por aquellas leituras rhetoricas. Então discutiram-se os trabalhos urgentes do Clube Antes de tudo, era necessario fundar um jornal. Um sujeito de barbas louras lembrou a necessidade de alliciar alguns militares. O Club devia fazer um manifesto a todos os liberaes, lembrava outro, e pôr-se em communicação oom os republicanos hespanhoes. Este projecto pareceu desagradar : alguns acha vam-lhe um odioso sabor iberico . . . Mas a salvacão da peninsula era uma republica federativa t E além d'isso, para fazer a republica, era necessario dinheiro e armas D'onde haviam de vir Da Hespanha ! e— Nada d'hespanhoes, nada d'hespanhoes ! — Hespanholas, sim — disse um gracejador. O tumulto que ge levantara foi interrompido pelo secretario, que veio dizer : — Oh, meninos, o Mathias está furioso ! Vocês fazem aqui uma algazarra que se ouve lá dentro . . O homem está a acabar . . . Pelo amor de Deus, venham. Arthur que temia o descontentamento do Mathias foi retomar a sua cadeira O homem feio espalhava flores de eloquencia sobre os tumulos, lado a lado, dos quatro sargentos de La Rochelle. Pouco a pouco os republicanos entravam — e, subitamente, o homem feio sentou-se. Houve um rumor d'allivio, largamente respirado. Alguns tomavam o chapéu : eram onze e meia, que diabo ! Mas Mathias fez retinir a campainha : — Consultarei a assembleia sobre a proposta que no fim do seu notavel trabalho o nosso illustre concidadão — e indicou o homem feio — acaba de fazer. Foi um espanto. Que proposta . . Ninguem percebera ! Olhares interrogavam, hombros encolhiam-se. Mathias, então, explicou : — O nosso amigo propõe que se pendurem nas paredes do Club os retratos de todos os Martyres da Liberdade, desde os tempos mythologicos até . . . — Pareceu um momento interrogar a memoria : — perdão, snr. Esqueira, até . . . O homem feio recitou d'um folego : — Joaquim Vicente da Costa Esqueira, morto nas enxovias d'Almada, á machadada, pelas suas idéas jacobinas. Era meu tio. Uma gargalhada correu pelas cadeiras. O velho Inilitar que parecia admirar o homem feio, rugiu : mais decencia ! E Mathias, severo : — Acho a hilaridade inopportuna . , . O homem feio julgou de certo do seu dever in dignar-se, e erguendo-se com solemnidade : —É estranho que cause riso a homens liberaes um parente meu que morreu pela liberdade ! Alguns risos abafados escaparam, aqui e além ; e então, Gilberto, no meio da sala, com o chapéu na mão : —A idéa é nobre, mas além de que não ha logar para conter n'estas paredes todos os Martyres da Liberdade, é difficil obter o retrato da maior parte — a não ser desenhos de phantasia que, por A CAPITAL falsos, tenderiam a produzir a indifferença em gar d'inspirar a veneração. Além d'isso, os Martyres são innumeraveis—e as paredes são só quatro... — Apoiado ! Apoiado ! O homem feio parecia descontento : — Ao menos o immortal Rousseau .—começou. — Nenhum ! nenhum ! — gritaram com impaciencia. Estavam quasi todos de pé, havia uma vozearia. Então ouviu-se a voz do gnr. Abilio dizer : — Eu, é só duas palavras . . , Fez-se um silencio deferente : havia sorrisos amp gos áquolla bemvinda phrase. — Eu — continuou Abilio, de pé, com a face jovial — eu quero offerecer ao Club (dizia Clubio) um presentinho. Tenho lá em casa uma cabeça de gesso, que a minha senhora diz que é Minerva Um lento rumor sympathico correu, áquella: bonhomia, quasi fraternal. — Eu não sei se é Minerva, mas a cousa parece ter valor, E a mim parece-mo — desculpem se eu digo asneira — que poderia muito bem figurar como um busto da Republica. Se o querem, está ás ordens com todo o gosto. Eu já disse á minha senhora, porque emfim, são cousas que pertencem á casa. Ella consentiu, coitada . . E eu tenho muito gosto em offerecer . . . — Bravo ! Apoiado ! Acceitamos ! Muito bem Abilio reclamou silencio : — Então cá o mando, ámanhã, pela creada ! Palmas estalaram. Mathias erguendo-se : — Está levantada a sessão. Arthur foi arrastado no movimento impaciente que se fez para a porta. E no pateo, emquanto accendia um charuto, achou-se ao lado do homem do cache-nez, Não foi má estopada . . Arthur disse-lhe, por condescendencia — A leitura foi longa. O outro inclinou-se-lhe para o ouvido : —É que se não faz nada ! Tudo isto é uma historia. palrar, é palrar ! Não se faz nada emquanto se não deita o governo abaixo ! Eu já disse ao Mathias—eu quero ir recebedor p'ra Belem. Eu cá sou franco . . . desappareceu, encolhido no paletot, porque começara a choviscar. Quando Arthur chegou ao Hotel, o porteiro disse-lhe que viera alli um sujeito procural-o ás nove horas, voltara ás nove e meia, depois ás dez, depois ás dez e meia. Da ultima vez, estava tão furioso que dera punhadas na mesa, rogando pragas. Pela descripção — gordote, já entrado, gandes bigodes — Arthur reconheceu Melchior. Ao outro dia Arthur recebeu as ultimas provas dos Esmaltes e Joias e revia-as no seu quarto* quando a porta se abriu e Melchior appareceu com um impeto irado. O aspecto d'Arthur, trabalhando tranquillamente, de robe-de-chambre de velludo, exas perou-o mais ainda, e curvando-se até ao chão disse ironicamente, com uma voz repassada d'Gdio : — Sim senhor ! Fel-a boa Arthur ia fallar, mas Melchior, bruscamente, com um gesto vivo : —É simplesmente uma canalhice ! Venho aqui com a tipoia, com as raparigas, ás nove : nada, tinha sabido ! Volto ás nove e meia, com as raparigas na tipoia : nada ! Volto ás dez : nada ! E aqui me vejo eu com as mulheres, com a tipoia, a bater asruas, Chiado abaixo, Chiado acima, ellas furio- sas, o cocheiro desconfiado — emfim, uma indecencia ! Arthur ia explicar , . . — P'ra mim — interrompeu Melchior — pandegas comsigo, acabaram ! E então divagou prolixamente, n'uma abundancia de despeito : — que em Lisboa não se usavam d'aquellas chalaças . . . Com quem imaginava elle que estava a tratar O cocheiro era nada menos que o Teso, que só batia com a melhor rapaziada. E as raparigas , Tol-as incommodado, obrigado a sahir de caga. .. p'ra quê ? Assim perdia-se todo o credito, era-se mal recebido. Elle queria levar a sua vida direitinha . . . No fim, elle é que fôra responsavel . . . Era homem de bem, gostava de se portar como homem de bem, Emfim, o snr. Arthur tinha-o entalado I Vendo aquella indignação verbosa, aquelle olhar fuzilante, Arthur acreditou que praticara uma vileza excepcional. Fallou em pedir desculpas, ir elle mesmo explicar á Concha — E é que ha despezas — interrompeu Melchior, grave pela responsabilidade tomada. — É que ha despezas. O amigo imagina que o cocheiro andou a bater p'ra cima e p'ra baixo de graça? E eu tomei-o por sua conta . . . E as raparigas Arthur tirou logo do bolso a bolsinha de trama de prata. Então Melchior, goeegado, responsabi- A lisou-se por arranjar as cousas decentemente com tres librinhas —E onde diabo estava você ? — perguntou, já risonho — outra vez no High-Life ? Arthur, discreto, teve um sim ambiguo, gosando interiormente as cautelas do conspirador. Estivera n'uma casa, até tarde Fôra convidado de repente . . . — Pois eu tive um ferro — disse Melchior, penteando o bigode ao espelho. — E a Concha estava. Oh, menino ! Uma divindade ! E ficou furiosa Não, palavra, ella está com muita curiosidade em o vêr. Arthur lamentava intimamente aquella occasião perdida. E p'ra quê P'ra ouvir durante hora e meia, escorrer monotonamente, com uma lentidão d'agua gordurosa, o elogio balofo e molle dos Martyres da Liberdade ! Que tolice ! Apesar do seu desejo, não ousava propor outra pandega » a Melchior. Disse apenas, andando em redor da mesa com a cabeça baixa, embrulhando um cigarro : — Tenho pena, tenho pena . . . Outra vez será, hein ? Mas Melchior não o escutava : fôra, segundo o seu costume, para a janella, trautear, retorcer os bigodes, a vêr se pescava a segunda dama b. Arthur, então, foi-lhe mostrar as ultimas provas dos Esmalta e Joias e córando um pouco, pergun- tou-lhe se não seria possivel annunciar a publicasão proxima — Está claro que sim ! E publica-se até uma poesia. Dá chic. Veremos logo isso. Você que faz á noite, nada ? Bem, venho jantar com você e combinamos a noticia. —- Bateu-lhe no hombro : — Hein, sou amigo ou não Arthur agradeceu. —E p'rá venda do volume — Entenda-se com o Gonçalves, o revisor. Eu lh'arranjo isso : não ha-de haver duvida. Põe-lhe o volume nos livreiros, á commissão. Você não tem trabalho nenhum, senão receber , É necessario dar alguma cousa ao Gonçalves, já se vê. Coitado, homem serviçal, cheio de familia Deu uma escovadela ao chapéu e ia-se que tinha um rendez-vous Foi ainda olhar á varanda — mas como se não punha olho no diabo da cantora sahiu trauteando o fado. Terminada a occupa,ção das provas, os dias tornaram-se muito vazios para Arthur. Mas estava então n'uma situação d'espirito tranquilla, muito segura. Em breve, pela publicação do seu livro, pela critica do Seculo — Melchior promettera-lhe um folhetim d'arromba » — ia ser illustre; a sua ligacão com os republicanos, com o Club, dava-lhe uma secreta vaidade de revolucionario perigoso ; seria completamente feliz se pudesse vêr, conhecer a snr. a baroneza de Paradas. Todas as manhãs, agora, por ociosidade, com uma vaga esperança, ia passear pela rua de S. Bento, esperando sempre que se daria emfim o encontro desejado, recebendo de cada vez uma desconsolação maior d'aquel]a longa fachada impassivelmente unida e vazia. Que faria ella lá dentro Suppunha-a lendo, estendida n'um sofá, ou no jardim que devia haver nas trazeiras da casa, bordando sob alguma velha arvore, vendo o pequerruchinho rolar-se pela relva. Á noite ia a S. Carlos, sondando todos os camarotes com o binoculo ; e aos domingos no Passeio: á tarde no Pote das Almas ou pelo Chiado, não cessava de a esperar, de a invocar. Mas não a tornara a ver — e isto punha uma falha discordante na felicidade tão unida dos seus dias. Onde a encontraria ? Como ? A recordação odiosa da soirée da Coutinho dava-lhe, com o terror da sociedade, o desejo de a vêr, de a amar, fóra das convenções mundanas, na deliciosa segurança do mysterio, d'um modo litterario e excitante, á Romeu e Julieta, Quereria encontral-a n'um parque, n'umas pequenas ruinas, longe, n'algum recanto pittoresco de valle ou d'estrada. Uma manhã, ficou todo alvoroçado, vendo no Secado, nas noticias do high-life, que asnr.a baroneza de Paradas fazia vinte e cinco annos. Mas então Melchior e o Saavedra conheciamna Correu á redacção. Melchior encolheu og hombros : tinha copiado a noticia do Almanach do anno precedente, eram apontamentos do informador. Talvez o Saavedra soubesse . . . Tam bem não : ouvira dizer que era uma senhora brazi- leira . . . — Mas p'ra que quer você saber — perguntou Melchior, com um sorriso de malicia, muito curioso. — Temos conquista ? Arthur negou frouxamente. — Vá lá homem, conte Iá— insistiu Melchior. — Olhinho, cartinha, hein Arthur não resistiu á tentação de dizer, affectando reserva : — Conhecemo-nos, mas não ha nada ! — Seu felizardo ! — disse o outro, olhando-o @om in.veja Olha o melro, hein E Arthur cofiava o bigode, entumecido de vaidade, o olho enternecido. Melchior então, por um instincto de despeito, affectou não dar importancia á aventura que suspeitava : bocejou, estirou-se na cadeira, fallou de S. Carlos, do circo, d'outras cousas. E de repente : — Então você agora é da panellinha do Nazareno Arthur córou : — Conhecemo-nos, É um amigo do Damião que foi meu companheiro em Coimbra. Porquê — Vi-o hontem no Martinho . . . Você não me viu. Estava em grande cavaqueira com o Nazareno — E depois d'uma pausa : — Faz mal. Fraca sociedade. Arthur então protestou : fez o elogio do Naza reno, do Mathias ; attribaia-lhes todas as virtudes, grandes excellencias d'espirito, Melchior muito estirado na cadeira, com o ventre saliente, todo envolvido na fumaraça do charuto, disse com desprezo : — Uma corja ! Uma corja ! Arthur escandalisou-se. Eram, disse, os caracteres mais nobres de Lisboa. .E irritado pelo tom d'escarneo de Melchior, pela sua attitude repoltreada de escrevinhador pedante, affirmou que o Mathias, o Nazareno, dentro de dous ou tres annos, haviam de governar o Paiz. O partido republicano estava certo de triumphar . . . Melchior que limpava as unhas com um canivete teve um risinho secco : — Ora historias, amigo ! Quatro municipaes, de chanfalhos desembainhados varrem todos os repu blicanos ! A contradicção fez perder a Arthur a pruden cia. Fallou do Club, da organisação do partido socialista no Porto, em Vizeu, em Coimbra : havia quinze mil operarãog promptos ; inventava forçae sociaes ao serviço da democracia : o dinheiro não faltava e — lembrando-se da presença do amigo Abilio» no Club da rua do Principe — jurou que toda a burguezia de Lisboa, proprietarios. banqueiros, pertenciam ao partido republicano . . . Melchior fitou-o um momento com a expressão victoriosa de quem obtem a confissão d'um crime : — Ah ! o amigo tambem é do Club Arthur, vermelho, pensando que necessitava para o seu livro o apoio conservador do Seculo, negou. Não pertencia, mas emfim a verdade era a verdade . . . O partido republicano era forte . . * — Meia duzia de maltrapilhos—rosnou Melchior, cuja verbosidade usual parecia esterilisada. Calaram-se. E d'ahi a momentos Arthur sahiu, descontente. Melchior nem levantou a cabeça do papel : disse-lhe apenas um adeus amigo extremamente seceo. A injustiça feita aos seus amigos fazia-lh'os parecer mais dignos, mais superiores. E como as palavras de Melchior o tinham revoltado, jurou dedicar-se aos republicanos, como aos unicos homens de justiça e de verdade que até ahi encontrara. Não deixou mesmo, n'essa noite; de contar ao Nazareno a sua questão com o «tolo do Melchior». Mas o Nazareno não conhecia no Seculo senãc 0 Saavedra, que, disse, «era um corruptozinho que merecia na enra a badine que usava na mão D. Arthur, então, lembrou a necessidade de mogtrar ao Paiz a força do partido : achava prejudicial que o Club tivesse, havia quinze dias, suspendido as suas sessões, O motivo era o Mathias estar preparando o seu grande Programma d'Organisação Democratica, e parecer-lhe inutil reunirem-se antes de possuirem aquella base de trabalho, de acção, que era, segundo o Nazareno, uma das grandes obras que se tinham eseripto n'este seculo ». —O Mathias leu-me hontem a primeira parte. Depois de Proudhon, não se tornou a escpever nada tão forte e tão elevado. O amigo verá ! No emtanto Arthur estava inquieto por causa da sua questão com o Melchior » : não conhecia que largo fundo d'indifferença pelas idéas ha nos espiritos inferiores e, julgando tel-o escandalisado no seu fervor xmonarchico, receava perder a noticia, o promettido folhetim no Seculo, e até os serviços do velho Gonçalves, pae de tantos filhos ! Por isso, na manhã seguinte, ficou encantado encontrando Melchior, que vinha, risonho e florido, almoçar com o caro Arthur b. Justamente, Arthur recebera, ao acordar, uma carta da typographia annuncia,ndo a terminação d o volume e remettendo a conta da impressão. Melchior examinou-a, achou-a muito moderada, prometteu mandar o Gonçalves á typographia e assegurou que depois do almocinho ia fazer uma noticia catita. E com effeito, ao outro dia, Arthur ponde lêr.com o coração afogado em vaidade, os elogios do Seculo : « É hoje posto a venda o liVT0 de poesias do nosso « ilustre amigo Arthur Corvello, os Esmaltes e Joias. « É um bello volume de 250 paglnas, nitidamente impresso na excellente typographia de Castro & « Irmão, Vamos lêr e fallaremos d'espaço d'esta in- « teressante estreia do inspirado poeta. É natural « que a critica se occupe largamente d'este magni- « fico volume. Em seguida damos um pequeno ex- « tracto que nos parece uma verdadeira joia onde « não falta- o esmalte —E seguia-se a transcripção d'uma pequena poesia, em que Arthur, retomando uma antiga imagem do velho Gautier, comparava a sua alma cheia de desejos, a um pombal atulhado de pombas. Recebeu pouco depois da typographia, os volumes destinados a offertas —e de robe-de-chambre, com uma chavena de café ao lado, passou uma manhã deliciosa, escrevendo dedicatorias na primeira pagina, n'um estylo lapidar, poetico, affectando na irregularidade da letra a desordem da inspiraeão. Remetteu um exemplar ás tias, outros ao Carneiro, á Corcovada, ao Rabecaz, ao Vasco da botica, ao Nazareno, ao Mathias, a D. Joanna Coutinho, ao Padilhão, a Victor Hugo, e outro ainda a Garibaldi, com estas palavras : Ao sublime heroe da espada, o humilde scismador da lyra. Mandou pôr volumes nos quartos de Meirinho e de Carvalhosa e n'um ultimo exemplar escreveu apenas : 15 de Maio. Estação de Ovar. Remember . . . Por entre as folhas pôz duas violetas esmagadas e sobrescriptou para o palacete da snr. a baroneza de Paradas, a S. Bento. Depois, sentado á janella, com um exemplar na mão, ficou longo tempo a saborear o delicioso orgulho que elle lhe trazia ; o cylindrado do papel dava uma doçura inesperada á harmonia das rimas e a côr de canario da capa, com o seu nome em elzeviriano, enternecia-o ; lia aqui, além, versos, trechos, e ora tinha palpitações de vaidade por bellezas que impressas lhe pareciam d'um brilho particular, ora se assustava com incorrecções de fórma subitamente apercebidas, que lhe tinham escapado nas provas e que decidia emendar na segunda edição. Entrou n'essa noite no Martinho, commovido. De certo o volume, tornado popular pela noticia do Seeulo, fôra já folheado. No rumor das conversas, parecia-lhe sentir o seu nome, trechos do livro tados ; deviam de certo olhal-o, examinal-o; e calculava os seus movimentos, a maneira de se encostar na cadeira, de passar a mão pelo cabello, para dar de si uma idéa mais favoravel e como que a revelação publica do seu genio intimo. Nazareno que tomava o seu café, ainda não lera o livro, mas vira a noticia do Secuto. Palavra, fiquei surprehendido — acudiu Arthur. — Depois da minha questão com o Melchior, imaginei que me fariam guerra. Mas não. No fundo, são bons rapazes—e é necessario estar-se bem com os jornaes . . . De certo — disse Nazareno que parecia reflectir. E depois d'um momento : — Então o amigo é lá muito da gente do Secuto, hein Arthur affirmou que tinha alguma influencia no Seculo. Estimo --- disse Nazareno—porque então vamos arranjar uma cousa . . . Procurou na algibeira e tirou um rolo de tiras de papel. baixando a voz : —É necessario fazer publicar isto . . . Arthur teve um deslumbramento: pensou que por fraternidade revolucionaria, Nazareno fizera um estudo sobre os Esmaltes e Joias ; e a sua desconsolaçüo foi grande quando o outro, com os cotovelos na mesa, o seu ar Iam pouco soturno, lhe disse que era um artigo do Mathias sobre o livro do Damião. Publicara-se havia uma semana e intitulava-se a Renascença em Portugal. Nazareno affirmou que era um livro concebido n'um espirito muito livre, de grande estylo, d'uma alta sciencia, «a verdadeira iniciação em Portugal da critica historica e litteraria Uma grande obra de democracia, emfim ! Era util para o partido, para os interesses da intelligencia, fazer em torno do livro um ruido d'artigos : como elles não tinham jornal, era necessario de resto era até conveniente — que os jornaes conservadores popularisassem o volume. Elle não conhecia jornalisoas. mas ao vêr a noticiñ do Seculo, sabendo que o amigo Corvello conhecia a redacção, lembrara-se . . . Hein — Sim, — disse Arthur—fallo ao Saavedra. Até tenho muito gosto . . . Sou amigo do Damião. — Dá dous folhetins — disse Nazareno. Arthur levou o manuscripto, mas estava contrariado. No momento em que elle necessitava do folhetim do Seculo para os Esmaltes, achava imprudente reclamal-o para o livro do Damião. Nazareno parecia-lhe egoista. Era abusar, que diabo ! Tinha agora um vago medo de que o Saavedra consentisse na publicação, e que o livro do Damião tivesse um successo ruidoso em que o seu volumesinho lyrico desappare,cesse, como um suspiro n'uma trovoada. Pensou em guardar o manu.scripto até que sahisse o folhetim do Secado sobre os Esmaltes... Ou ainda, poderia dizer a N"azareno, com um gesto desolado, « que, o patife do Saavedra, nem á quinta facada » . . . Mas então, o patife era elle, Arthur. eQu estupida idéa, a de Nazareno ! Detestava-o agora, e sentia-se inclinar vagamente para as opiniões do Melchior sobre a cambada dos republicanos 9. Mas ao outro dia, por um sentimento de lealdade — que a claridade limpida da manhã concorreu de certo a fortalecer — foi ao Secuto. E sem calor, cumprindo estrictamente e unicamente o que pro mettera, estendeu o manuscripto a Melchior, dizendo : — Estimava que você publicasse isto no seu jornal. É sobre o livro do Damião, um amigo meu. Melchior remexeu as tiras de papel azul quasi com medo. Vinha do Mathias, dos republicanos, e parecia-lhe que sob aquella letrinha miuda se devia tramar alguma cousa de funesto para o Secado, para a Monarchia, para os prazeres tranquilos da Baixa. Deu um olhar desconfiado a Arthur e disse devagar, coçando a cabeça : — Emfim, eu fallarei ao Saavedra, en não quero compromissos . . . Você bem vê . . . É uma responsabilidade . . . Você tem empenho Arthur hesitou : porém, a honestidade venceu e disse com firmeza : — Tenho ! — Bem ! E Melchior fechou o manuscripto á chave, com precaução, como se fosse dynamite ou outra qualquer substancia explosiva. Arthur passou esse dia e o seguinte fazendo o giro dos livreiros ondo se vendiam os Esmaltes e Joias, para gozar, vendo o volume nas citrines, as primeiras doçuras da publicidade. Não ficou satisfeito : ora o volume não estava bastante em evi.. dencia. ora o achava collocado ao pé d'algum livro fraucez cujo frontespicio illustrado absorvia a attenção ; estes detalhes descontentavam-no. As citrines dos livreiros pareciam-lhe além d'isso bem indifferentes ao publico : homens, senhoras, passavam, na pressa da occupagüo ou no vagar da vadiagem, parando deante das ourivesarias, das camisarias, das modistas — nunca deante dos livreiros. Não encontrava nas physionomias nada que revelasse a impressão dada pelos seus versos : o livro parecia passar sobre a cidade como uma gota d'agua sobre gutta-percha. Á noite, no Martinho, em S. Carlos, roçava-se pelos grupos, na esperança avida d'ouvir o seu no me : chegavam-lhe fragmentos de palestras sobre politica, fundos, jogo, mulheres, nunca sobre os Esmaltes e Joias. Entrava desconsolado no Hotel e punha-se a relêr o volume : tudo lhe parecia então vulgar, imitado, ma} rimado, chato, e vinham-lhe desesperos mudos e como que um pungente senti- mento de solidão e de treva. Uma idéa consolava-o : áquella hora a linda baroneza tivera o livro, leor-ae palpitava d'emoção, vendo que o sympathico rapaz da Estação d'Ovar era um poeta ! Esperava uma resposta, de visita, uma flôr secca dentro d'um sobrescripto, um amo-te ! n'uma folha de papel perfümado. Nada veio. Das pessoas a quem offertara o livro não recebera nenhuma palavra animadora. Carvalhosa nem lh'O agradecera ; Meirinho dera-lhe no corredor um obrigadinho secco. O Padilhão dissera-lhe, do outro lado da mesa : — Lá recebi, está um volumezinho bonito. Só Nazareno lhe dera uma opini ão critica : — Você tem a fórma, agora é procurar a idéa. Comprehende„se, n'um primeiro livro de poesia, o genero lyrico. Mas é necessario não repetir. Victor Hugo fez as Orientaes, uma composiçãozinha ridicuIa, mas tomou a sua desforra nos Chatiments. Agora é pôr de lado o amor e os lirios e fallar-nos de cousas mais serias. — E o artigo sobre o livro de Damião Arthur affirmava— segundo lhe dissera repetidamente Melchior — que o Saavedra o ia lêr . . . Naturalmente publicava-se. Talvez saia ámanhü, acrescentava. Elle venia. Mas o que realmente queria vêr, todas as manhãs, o que ambicionava @om palpitações do coracão ao abrir o Secuto, era o !olhetim promettido sobre os Esmaltes. Não o encontrava. E vinha-lhe então uma grande irritação por não ver o artigo do Mathias sobre o livro de Damião. E era aquelle o pretexto que tomava para se indignar contra Melchior, ir á redacção, e, ao principio com modos timidos, depois, mais seccamente, lembrar-lhe a sua palavra — Oh, menino, o Saavedra lá tem o folhetim . . . Mas era necessario decidir, que diabo . — insistia elle, furioso contra Melchior, que, obtusamente, não comprehendia que a promessa que elle verdadeiramente queria vêr cumprida, não era sobre o livro do outro — bem lhe importava . — mas sobre o seu Sobre o seu ! Melchior, porém, comprehendera : muito lealmente, tentara, n'uma noite de lucta, produzir um folhetim sobre os Esmaltes e Jüias ; chegara a obter meia columna em que fallava da nitidez da edição e da grande inspiração Mas faltavam quatro columnas e meia e nem duas chavenas de café, nem charutos fumados á janella com a testa á aragem da noite, nem pitadas de rapé para alliviar o cerebro, nem passeios furiosos pelo quarto, nem a cabeça apertada entre as mãos, como um limão a que se exige o sumo — nada forçara a sua vasta fronte calva, que parecia conter um mundo, a produzir uma linha mais ! E desistira, furioso contra uma « tão extraordinaria falta de veia ». Arthur agora subia quasi todas as manhãs ao Secuco, pretextando ir dar uma vista d'olhos aos jornaes mas na sua presença, na sua voz, na maneira de se sentar, Melchior sentia errar uma vaga accusacão — já o temia como a credor. — Ámanhã, fallo ao Saavedra — jurou-lhe um dia. E na manhã seguinte, vendo-o entrar, ergueuse logo, e dizendo-lhe baixo que ia decidir a questão, foi bater discretamente com os nós dos dedos á portinha verde do gabinete do snr. Director. — Entre ! Melchior entrou, fazendo a Arthur um gesto em que lhe promettia ser energico, Mas d'ahi a momentos voltou e logo da porta abriu os braços, enterrando a cabeça nos hombros, exprimindo toda a sorte de impossibilidades. — perguntou Arthur. — Diz que não ! — fez o outro arregalando os olhos. — E levando-o para o vão da janeila : — Não deu explicações, diz que não : um livro communista, cheio d 'horrores . . . O artigo do Mathias tambem. Emfim, diz que não ! Arthur não pareceu muito irritado. Enrolava um cigarro com a cabeça baixa e de repente, um pouco vermelho, com a voz ligeira de quem se record.a d'uma minudencia : —É verdade, a proposito- e o fcAhetinsiio sobre os Esmaltes ? Melchior córou, mas não querendo confessar a sua miseria intellectual : — Que quer você, tambem diz que não ! — Ora essa ! — Fanei-lhe— continuava o outro com gestos desolados—é por causa da Ode á Liberdade, da Satura á Sociedade diz que não. O jornal está com o governo; se estivesse na opposl(süo, então . . . Diz que não ! — E baixando a voz : Um asno ! Arthur galgou a calçada do Correio, fanando alto d'indignação. Na sua necessidade de desaba far, de rugir, correu ao quarto de Nazareno. o encontrou. Então foi sentar-se para o Passeio, debaixo d'u-ma arvore, e alli ficou ruminando a sua colera. Uma grande doçura parecia cahir do alto azul, purissimo ; o rumor da cidade chegava por fragmentos abafados, como se ficasse preso, enleado nas ramagens meias despidas. Um jardineiro regava. E na rua onde a areia reluzia ao sol tepido, duas creanças muito louras corriam, vigiadas por uma ingleza vestida de verão, de lunetas azues, que lia n'um banco, com um King Charles no regaço. Mas aquella paz de jardim burguez não o calmou. O mundo official, de que o SecuZo era a expressão litteraria, parecia-lhe agora vil, d'uma villeza pequena, piegas, com alguma cousa de senil e d'estupido : nunca se sentira Fio decidido a servir as idéas de Nazareno ! O seu livro, agora, repelido, igno rado da imprensa, parecia-lhe sublime, A recusa do Saavedra, attribuia-a á inveja, talvez á influencia inimiga do Roma. E pensava em cousas vagas que faria, que escreveria, para provar a sua força, fazer sentir a importancia do seu talento . . . Mas pouco a pouco, no amollecimento que lhe dava aquelle tepido meio-dia d'inverno, veio-lhe como que a indefiuida consciencia da sua inhabilidade para a lucta : necessitaria ter uma amizade forte ou um amor inspirador, apoiar-se a alguma cousa de duradouro, de consolador . . . O quê 61 E as duas creanças. correndo, brancas e côr de rosa, frescas como flÔres, appetitosas como fructas, dando-lhe vagos desejos de patern.idade, fizeram-no pensar na familia, n'uma casa bonita, toda sonora de risos de creanças, onde o frou-frou d'um vestido puzesse no ar ambiente uma ternura subtil. Lembrou-lhe a filha do Carneiro. Pouh ! Usava uma cuia postiça e nunca poderia comprehender as necessidades do seu espirito nem as bellezas dos seus versos. Depois, a provincia aterrava-o. Mas Lisboa impacientava-o já. E vinha-lhe como que uma desconsolação de tudo, uma sensação de mal-estar : bocejou enormemente, ergueu-se, foi arrastando os passos, enfastiado, até ao Hotel. Já nem se sentia indignado contra o Saavedra, porque na sua natureza lympbatica tudo se amollecia, fenecia depressa — indignação ou enthusiasmo — como n'um ar sem oxygenio todas as plantas se estiolam. Á noite, no Martinho, contou tranquillamente a Nazareno a resposta do Saavedra. O republicano fez-se pallido de raiva e a sua indignação, exprimindo-se com violencia, chegou a despertar, a aquecer de novo a colera d'Arthur. Tudo provinha d'elles não terem um jornal . . . Um jornal fal-os-ia respeitados, temidos, dar-lhes-ia uma voz, uma po sição —E onde está o dinheiro ? — exclamou Naza reno. Arthur, pensando no seu conto de réis, lá na provincia, na burra do Carneiro, calou-se, encolhendo os hombros. Contou então ao Nazareno, como para o conso lar e mostrar bem a sinceridade do seu despeito, que o Saavedra recusara tambem a inserção d'•am folhetim sobre os Esmaltes. Nazareno, porém, não parecia a Arthur bastante indignado : — Pois não lhe parece uma grande maroteira, Nazareno O outro fez um vago gesto d'assentimento e de pois d'uma pausa : — O Mathias já folheou o seu volume. Acha-o muito erotico . . . Arthur mordeu os labios e voltou para o Hotel desesperado com aquella opinião. Que entendia o parvo do Mathias de versos e d'e:tylos! Aquella tendencia de querer reduzir toda a Arte. mesmo a Poesia, a um auxiliar subalterno d'ambigües politicas, parecia-lhe d'espiritos estreitos, egoistas. E deitou-se descontente do Saavedra, do Mathias, de Lisboa, de si, da vida. Acabava de almoçar na manhã seguinte, quando Melchior appareceu com uma face radiante. Atirou um numero do Seculc para cima da mesa, exclamando : — Ora receba lá esse presentinho ! Que surpreza ! Era uma noticia, a primeira, que dizia : «O illustre auctor dos Esmaltes e Joias, que tanta sensação têm causado, o nosso prezado ami« go Arthur Corvello, muito conhecido na nossa so ciedade aristocratica onde as suas maneiras, o seu espirito, o tornam alvo das maiores attenções, tem emfim terminado o seu grande drama Amo« res de Poeta, gue brevemente será representado n'um dos nossos primeiros theatros. O drama, que « por alguns trechos que ouvimos nos parece pri morosamente escripto, é um estudo de costumes da alta sociedade e por assim dizer um protesto contra as theorias subversivas, que, aquelles que em Portugal pretendem introduzir as idéas repu blicanas, espa,lbam para destruir a familia, a reli gião, a elegancia e tudo o que constitue o patri monio da gente bem educada. Os Amores de Poeta são dedicados a um Augusto Personagem. O pu a blico eapera anciosamente este debute theatral do a inspirado vate Arthur, attonito, exclamou com os olhos muito abertos para Melchior : — Ora essa . . . Dedicado a um Augusto Personagem Hein . — exclamou o outro com triumpho — É bem jogada, hein ? É um achado ! É catita ! Que lhe parece ? Compuzera aquella noticia sobre o drama para o consolar da perda do folhetim sobre os versos e, orgulhoso do « achado » — a idéa da offerta do drama ao Rei, ou á Rainha—repetia com os olhos bri- lhantes : —É catita ! de chupeta ! Arthur, embaraçado, disse : — Mas não é verdade, homem ! Póde-se suppôr que é o Rei. Está claro que se suppõe ! P'ra isso é que eu escrevi ! Faz um effeitarrão ! — Mas se o Rei sabe . . . abusar. O outro teve um grande movimento d'hombros : — Ora sebo ! Nem elle sabe, nem s'importa ! se fôr necessario, você dedica-lh'o ! Faz um effeitar• rão... Não ha emprezario que o não queira levar... Arthur, no meio da sua vaidade satisfeita, tinha uma vaga contrariedade. Que diriam os republica nos, vendo-o assim designado como g o menino bonito» da alta sociedade, fazendo dedicatorias aos tyrannos ? Torceu o bigode, parecia assustado. — Ainda você não está contente ! — exclamou Melchior, despeitado d'aquelle acolhimento cheio d'embaraço a uma local que devia ser recebida com exclamações victonosas. Arthur disse : —Não, estou. Estou penhorado, Melchior, mas. — Mas quê, com mil diabos ! E esta ? —É que tenho amigos . . . O Nazareno, o Ma• thias . . . Parece uma traição A face de Melchior tornou-se grave : — Você vai por um mau caminho, Arthur. — sem o deixar fallar, com uma verbosidade repen• tina, continuou : — Você se se mette com essa gente está perdido. Eu conheço Lisboa. São muito mal vistos. Se você quer furar e que se falle de si, que se lhe represente o drama e tratar com gente fina, deve deixar essa cambada. Que é que elles lhe podem dar t Divertimentos Onde . . . Empregos Que é d'elles . . . Posição Nicles ' Leval-o á sociedade t Olha quem, os pelintras ! Então p'ra quê f Você póde aspirar a muito : é o que diz o Saavedra. Mas é necessario estar com a gente decente. Veja você : porque não apanhou você o fo• Lhetim no Secuto ? Por causa d'essas historias de Odes á Liberdade, e Marselhezas e toda essa chol- dra ! Você tem dinheiro, não é verdade ? P 'ra que se ha-de metter com maltrapilhos ? O Quee elles querem é exploral-o, homem ! . Arthur escutava-o, abalado. —E além d'isso — ia dizendo Melchior Um creado entrou com uma carta para Arthur, Era um simples cartão de visita : D. JOANNA CANDIDA DE MENEZES COUTINHO a agradecer o delicioso volume de versos. Um rubor de orgulho espalhou-se-lhe no rosto. Estendeu o cartão a Melchior, que exclamou com o impeto alegre de quem, combatendo, se apossa d'uma arma nova : — Ahi tem você ! Vê ? Se ella soubesse que você pertence á canalha do Mathias, recambiava-lhe o livro, tão certo como eu estar aqui. — Foi muito amavel — disse Arthur, relendo as palavras escriptas no cartão. E revia a sala de D. Joanna Coutinho, as toilettes de sêda, os homens de casaca : alli apreciava-se a poesia amorosa, elegante —e pensava em Nazareno, habitando n'um quinto andar, com uma sobrecasaca coçada, relações pulhas, os dedos queimados do cigarro e hostil ao lyrismo. E aquelle simples agradecimento de D. Joanna apparecia-lhe como uma porta que se abria sobre a Sociedade e d'onde sahiam aquellas emanações de luxo, d'amores patricios, de graças femininas que intimamente o captivavam sempre. O Melchior, que diabo, tinha talvez razão. .Disse-lh'o. — Está claro que tenho ! —E retorcendo o bi at gode approximou-se da varanda. Mas teve logo uma exclamação e com um grande! gesto para Arthur : — Pst ! Venha cá, homem, venha depressa ! Arthur correu : viu apenas uma tipoia, que descia o Chiado a trote largo, com duas cabeças cobertas de mantilhas á hespanhola. — Era a Concha — fez Melchior, dando uma pu nhada no peitoril da varanda. — Que linda que ia ! E a Paca . . . Oh, menino ! —E exaltado : —- Qner você uma cousa? Vamos ao Dáfundo com ellas. Hein E brilhavam-lhe os olhos. Arthur teve um impeto de mocidade, de ardor ; disse vivamente : — Valeu ! — Caramba . — fez o outro. B de certo para se preparar á excitação nocturna, reclamou uma gotinha de Cognao. O mesmo creado entru com outra carta para Arthur. —É o dia das cartas — disse elle, com uma vaidadezinha. E de repente, teve a idéa, pela letra que não conhecia, que era da baroneza : a alegria das SfiüS feições foi tio clara que Melchior perguntou, com os olhinhos vivos : — Cartinha d'amor ? Era de Nazareno. Dizia que ao outro dia, ás 9 horas da noite, Mathias lia, o seu grande trabalho. « Sem falta, caro concidadão ! Arthur metteu a carta no bolso affectando discreção. — Rendez•vouzinho, hein ? — fez Melchior, já invejoso. Arthur julgou não mentir, dizendo : — Rendez-couzinho, p'ra ámanhü ! — Seu felizão ! — fez o outro — E para occultar o despeito, emborcou o calice de Cognac com o seu chic especial, atirando-o d'um golpe para as guelas. Estalou com a lingua e pousando o copo : — Hoje andaluza, ámanhã baroneza ! Veja se a republica lhe dá d'essas pechinchas ! E Arthur sorria, torcendo com fatuidade o bigode. Partiram ás nove horas, n'uma caleche descober• ta : levavam a Concha e a Carmen. Melchior que par recia enthusiasmado, mandara Teso bater pelo Chiado e direito no assento, com o chapéu ao lado, o charuto flammejante, atirava adeuses com a ponta dos dedos para os grupos escuros da Havaneza e do Baltresqui. Arthur, um pouco embaraçado, encolhido, admirava a Concha: a mantilha preta dava uma palidez mais mimosa, mais tocante, ao seu rosto de feições finas, d'um tom melancolico ; os seus olhos arabes, humidos, bem rasgados, tinham na sombra uma negrura mais profunda ; recostava-se com um abandono languido mas senhoril, retrahindo castamente os pézinhos para não encontrar as botas d'Arthur. Logo no Aterro, Melchior começou com as suas pilherias : f•azia declarações inflammadas á Carmen — uma grossa andaluza, de grandes carnes e olhos banhados n'um fluido negro como tinta — beijocava-lhe as mãos papudas, chamava-lhe n'um hespanhol gotesco : mi palomba, flor de benedi,ccion remexia-lhe no vestido, attrahia-a pelos braços, fazendo-a rir, d'um riso calido de cocegas e de pandega. Para lhe imitar a animação, Arthur quiz tomar desageitadamente as mãoe da Concha, mas ella, com dignidade, censurando de certo as expansões publicas de concupiscencia, retirou-as brandamente. Aquella frieza chocou Arthur : desesperav a-se por não poder fallar hespanhol e captival-a com a eloquencia da phraseologia poetica. Então recostou-se, calado, a olhar a noite, : uma doçura infinita errava no ar que tinha uma vaga cor d'anil deslavado brancuras de luar banhavam pedaços de fachadas ; e a tipoia corria a trote, com o Teso muito direito na almofada, de cabeça baixa, o pingalim alto, as pontas da faixa. a esvoacar, batendo no seu estylo catita. — Então isto não é melhor que todas as soiréeg do high-life ? — disse Melchior. — E em passando as portas, salta a bella mulagueña ! E aconselhava Arthur a que se atirasse á Concha e «que se puzesse á altura das circumstancias», que isto de pandega sem animação era dinheiro deitado á rua ! —- Eh, Teso, é bater! é bater ! Tinham passado Pedrouços, adormecido e escuro, e a Carmen, muito solicitada, entoou a sua malagueña : Melchior, mascando o charuto com enthusiasmo, seguia o compasso, saracoteando a cintura e fazia o acompanhamento, batendo as mãos em cadencia. A voz da rapariga era acre e mordente e as notas arrastadas, os á-á-áhs muito modulados, perdiam-se pela noite. misturados ao trotar batido das ferraduras, ao rodar da tipoia no areado do macadam. No alto silencio azulado brilhava uma lua immovel, muito serena, e um ar vivo passava, salgado das emanações do Tio. Arthur sentiu um fluxo de ternura triste, de enleio poetico afogar-lhe o peito e recostando a cabeça, suspirou. Então, muito terna, a Concha debruçou-se para elle, e, chamando-lhe hijo mio, quiz saber o que o fazia soffrer. Elle carregou a voz de ternura, para dizer : nada! Ella apertou-lhe a mão docemente Arthur duvidou. do seu amor. Mas Melchior tinha entoado o fado : fazia uma voz especial, estrangulada, do nariz, rouquenha, afadistada : Eu fui um dia ao Dáfundo, Ai I Em companhia do Amôri I Mas interrompeu-se : o fado sem guitarra não ia. No Dáfundo é que haviam de cantar, se lá estivesse o Zé das Tres. Arthur é que havia de vêr ! Era de chorar ! E declarou que tinha fome. Tambem, iam fazer uma ceia real ! Abraçou os joelhos da Carmen, que dava gritinhos, e, para animar o Teso, aconselhou Arthur a que lhe desse um charuto. Chamava-lhe o Tesinho. — Tenho feito muitas pandegas com elle.- Não é verdade, oh Tesinho ? Hein ? No tempo do snr. Visconde. Hein — Viva o salero ! Lhegamos, nihas ! Estavam com effeito deante do Hotel do Dáfundo. Melchior saltou vivamente — mas ficou á portinhola, escutando, petrificado : do Hotel sahiam gritos de mulheres, uma luz corna no primeiro andar. — Temos chinfrim disse o Teso, atirando a manta á8 ancas dos cavallos. As raparigas tinham descido, já assustadas; comtudo entraram. No corredor, um homem cruzou-os, correndo, com uma toalha e uma bacia na mão ; uma mulher, de saia muito engommada, passou aos gemidos, aos ais E Arthur, com a Concha muito tremula agarrando-se-lhe ao b.ra,ço, Melchior, pallido, um nouco encolhido atraz da Carmen, dirigiram-se á sala da esquerda, alumiada, d'onde sahiam os choros dilacerantes d'nma mulher rouca. Junto da mesa, um homem, com o busto todo nú, o rosto livido, os cabellos empastados n'nm suor frio, erguia ao ar o braço direito, todo coberto d'uma pasta de sangue escuro que gotejava devagar : o chão estava encharcado d'uma humidade negra. Sobre a toalha da mesa, repuxada a nm canto, negra de vinho entornado, estavam pratos quebrados, estilhaços de copos, e uma rapariga que duas mulheres acalmavam, seguravam, chorava convulsivamente, arrepellando-se, com os olhos esgazeados, a face manchada de vermelho. Um individuo gordo e calvo, d'ar importante, procurava vedar o sangue, mas a toalha enrolada ensopava-se depressa : as carnes estavam dilaceradas por facadas transversaes e apenas lavado com muita agua, o sangue recomeçava a correr, cahindo em gotas pesadas. O rapaz immovel, mudo, corajoso, perdia a côr ; os olhos embaciavam-se-lhe. Todos os rostos estavam amarellos de terror : perguntava-se baixo pelo medico t, uma creada, toda esguedelhada, esfregava o chão ; e o dono do hotel, em de camisa, as calcas muito erguidas pelos suspensorios, ia pedindo que se retirassem, que não fizessem barulho », affirmando « que não era nada, que fôra por acaso », seguido da mulher, que, de peitos á mostra, em camisa de dormir, procurava acalmar uma ereanga estremunhada que se torcia, aos berros. Melchior, muito branco, quiz partir immediatamente ; nem deixou o Teso dar uma sopa ao gado : empurrou á pressa as hespanholas para dentro da caleche, subiu, e fechou rapidamente a portinhoIa, como para se refugiar na tipoia, tremulo, cheio do terror das desordens, dos fadistas, da policia e do sangue, — Isto só a nós ! — disse elle a Arthur. Declarou que tinha tonturas : — Vá, Teso, é largar. É largar, que diabo ! A volta para Lisboa foi lugubre : as raparigas falavarn baixo, tomadas d'um vago terror ; tiuham reconhecido o rapaz — era o Álvaro, o querido da Adelaide, da rua do Norte. Fôra questão de ciumes, de certo ; e gabavam-lhe a coragem, a brancura da pelle, vagamente enamorad2,s d'el]e. Melchior, mudo como uma estatua, sem veia, torcendo nervosamente o bigode, ia sondando os recantos escuros do caminho, no susto de assaltos posciveis, apressando o Teso, avido de se encontrar em Lisboa, no socego das ruas populcsas5 sob a protecção da patrulha. Só começou a tranquilizar-se quando a tipoia rolou pela rua. Era uma pandega estragada! E deblaterava agora contra tudo o que até ahi fôra celebrando : os fadistas, a solidão do Dáfando e as relações de prostitutas. Foram cear ao Silva. E ahi, bem seguro dentro das qnatro naredes do gabinete. á luz queate do gaz, recobrada a loquacidade, contou outras desordens a que assistira, a maneira como salvara o celebre Viola d 'uma facada do Rei de Copas e os faias que tinha esbofeteado. Estimava agora ter visto aquelle chinfrim e foi á sala procurar pessoas conhecidas a quem repetia prolixamente o caso assegurando que se não fôsse el-le, o pobre diabo escoava-se em sangue. No emtanto, no gabinete, esperando as ostras, Arthur revirava olhos ternos para a Concha, cons trnindo laboriosamente phrases hespanholas : e para Ilhe dar uma alta idéa do seu valor, recitava-lhe ardentemente dous versos d'Espronceda que sabia de côr : Porque vuelve a Ia memoria mia Triste recuerdo dei placer perdido Ao outro dia, quando ás 10 horas da manhã en- trou no Hotel para mudar de roupa, vinha enamorado da Concha. Na intimidade da alcova, ella contara-lhe a sua vida. Não era filha d'um general — segundo a versão de Melchior — mas seu pae, cunhado d'um capitão, negociava honestamente em vinhos, n'uma localidade que ella não quiz revelar. Seduzida — innocente que era então ! — pelo filho d'um marquez, fôra esconder a sua gloria e a sua vergonha n'um terceiro andar da melancolica rua de S. Juan de Dios, em Madrid. O seu amante, cujo titulo era confuso, ora conde, ora simplesmente visconde, era um carlista fanatico, que se alistara nos bandos de Saballo e morrera junto a Estella, n'um encontro de cavallaria. Ella — pobrecíta ! — só, miseravel, depois de ter empenhado uma por uma todas as suas ricas joias — rubis, perolas, diamantes, que o carlista lhe dera com uma profusão de Grande d'Hespanha, vira-se forçada — ah, bem forçada — a aceitar o amor d'um director de caminhos de ferro, um primeiro andar em Fuencarral e um coche. Este coche parecia ser a gloria eminente do seu passado : fazia-o rolar constantemente atravez da sua historia— ora cictoria aberta aos tepidos aromas dos arbustos do Retiro, ora coupé assetinado, correndo silenciosamente sobre a neve da Fuente — pus xado por um cavallo branco quo se chamava Miramolinos . . . Mas os ciumes ferozes do director de caminhos de ferro, a sua bengala tão dura aos pobres hombros tenros, obrigaram-na um dia a vir refugiar-se em Lisboa, com o « vestidinho que trazia no corpo », n'uma casa amigavel e hospita leira da rua de S. Roque Mui desgraciada ! Depois, fallara mais particularmente dos seus sentimentos. Dizia-se simples como uma creança, amoravel como uma pomba. Para ella, luxos, theatros, toilettes, pouh ! eram miserias ! O seu ideal era ter uma casita sua e um homem novo que a estimasse e a tratasse como uma senhora. Ella mesma coseria os seus vestidos e era facil d'alimentar como um passarinho ! Alguns gravanzos, muita ternura — e era feliz ! Ia revelando estes pormenores do seu passado e do seu caracter, ao mesmo tempo que se despia e mostrava as bellezas da sua nudez. As suas desgragag davam um encanto tocante ás suas fórmas ; havia como uma harmonia entre as fragilidades sentimentaes de sua alma e a delicadeza fina das suas linhas. Arthur escutava-a, fascinado pela sua pelle e enternecido pela sua biographia, cheio d'ardores libidinosos e de piedades christãs ! E emquanto ella punha devagar pó d'arroz ao espelho, com o peitinho ao léu onde corriam veias azues d'uma doçura aristocratica, Arthur, em redor, d'olho acceso e ima- ginação captivada, impacientava-se no desejo de a possuir commovia-se á idéa de a reoenerar ! Depois, alta noite, ella, fez novas revelações sobre o director de caminhos cle ferro. Era um monstro que lhe puxava pelos cabellos, a amarrava por um tornozelo ao pé d'um buffete e a deixava assim, como uma cabra presa a uma estaca, com um copo d'agua e caranlellos . . . Até uma vizinha, D. Angelica Lorenzo, chorava todas as lagrimas dos seus olhos . . . Arthur torcia-se, tomado d'un odio infernal pelo director de tos Ferro-Ca,rriles. — Mas porque era elle assim, esse bruto ? Ella suspirou e revelou-lhe ao ouvido, que era por ser fria com elle » . , . Mas então — com homens de quem não gostava, não podia ser senão fria. E dava-lhe assim a entender a exaltação voluptuosa que mostrara era uma certeza do seu amor por elle. Áquella revelação, Arthur, apertando-a doudamente nos braços, jurou-lhe que a amava e que a faria feliz : prometeu-lhe que voltaria essa noite mesmo—e que lhe traria uma somDrinha côr de peito de rÔla, que ella vira no Valente e lhe virava o somno. Todo o dia, passou-o saboreando, ruminando as felicidades da noite. Sempre, desde Coinn,bra, desde as suas leituras de Musset, as Andaluzas, — tes Andalouses aux seins brunis—se tinham conselvado para elle como um ideal de voluptuosidade; e a posse d'uma, emfim, e tão tocante, tão infeliz, tão inge- nua, tão aristocratica, dava-lhe como que o orgu lho d'uma iniciação. Comprou-lhe a sombrinha e doug pares de luvas — desejaria dar-lhe diamantes, como um devoto que orna um idolo. E ia pelas ruas com um vago sorriso beato, o corpo lasso, a alma suavemente enternecida, pensando n'ella, parecendo-lhe que a cidade tinha uma elegancia mais amorosa, que o céu era mais azul, e respirando com languidez al guma cousa de romantico e de triste que lhe parecia errar subtilmente no ar. Pensou mesmo com tedio no Club Democratic0' onde tinha d'ir n'essa noite ; julgava bem seccante o apparato maçador d'uma sessão republicana — agora que só respirava bem no ar abafado do quar tito da Concha. E como quiz ir vêl-a, beijal-a depois do jantar, eram quasi dez horas quando che gou ao Club. No meio d 'um silencio grave, Mathias acabava de lêr o grande escripto : Programma d'Organi gação Democratica. Como todas as cadeiras estavam occupadas, Arthur, um pouco acanhado, ficou de pé, encostado á parede. A sala estava quente das respirações e da intensa attengão apaixonada. Mathias pareda palido de fadiga : a sua voz secca, lenta, tinha agora, lendo a peroração, uja vigor exaltante e em todas as physionomias, nas attitudes, havia a animação satisfeita de quem res pira um ar regenerador. A primeira parte da leitura fôra um libello amargo contra o Regi',nen Constitucional, deduzido por factos e cifras, e que regosijara todos os descontentamentos como a expressão bem clara de odios indefinidos ; depois, a parte pratica do programma, mostrando meios de estabelecer a Republica, apaziguara emfim os ambiciosos, que, até ahi, no Club, só tinham escutado uma vaga phraseologia balançando-se ao acaso ; finalmente, a peroração, as grandes phra ses, com appellos á Justiça e invocações á Liberdade, electrisava os mais obtusos, como uma bella rajada d'instrumentação. Todos pareciam comprehender, querer, sentir : Arthur desconhecia aquelles rostos que vira vazios e aparvalhados e que encontrava agora expressivos e determinados; e elle mesmo se sentiu vibrar, em harmonia com a eloquencia revolucionaria d'aquella prosa elevada— quando Mathias terminou com uma larga apostrophe á Repvblica Universal ! Os bravos I romperam ; um brouhaha animado elevou-se ; e então, no amor, Arthur viu o Mala chias, o homem sujo e ariarello, que fallava voltado para o secretario, agitando um jornal. — Pego a palavra, pego a palavra ! — exclamava. Erguera-se e ia fallando baixo a uns e outros com grandes gestos dos seus braços magros. Alguns olhares voltavam-se vivamente para Arthur e tres sujeitos cochichavam com Nazareno, que parecia mais pallido e muito — Peço a palavra ! — bradou o Malachias, bran dindo o jornal. A campainha retiniu e subitamente cavou-se um silencio disciplinado. Malachias então olhou em redor com triumpho : a sua larga bocoa fendida alargava-se mais n'um sorriso perverso e acariciava o queixo com os dedos magros, como que ruminando um gozo intimo. Depois de bambolear a cabeça, começou a dizer na sua voz mastigada e aguda, que, antes de discutir o profundo trabalho que todos acabavam d'ouvir com admiração — o Ma thias fez uma: grande cortezia — era do seu dever, do dever de todos —e curvava-se respeitosamente para os lados — proceder a um acto de justiça. Quando elle, na ultima sessão, exigira garantias para os novos membros admittidos, por exemplo o jura mento, bem sabia o que dizia . . . — Bem sabia o que dizia ! Eu não sou nenhum tolo ! —e agitava os braços, esganiçando a voz — Mas os mestres . . . —e com a bocca arreganhada, baixava a cabeça humilhando-se ironicamente : — Mas os mestres , . E ahi têm o resultado ! Eu não , quero fazer verrinas, mas se me dão licença, sempre lhes passo a lêr o que ge diz n'um jornal, a respeito d'um certo membro ultimamente admittido e os cidadãos verão o que convem fazer ! Arthur sentira uma pancada no coração : no jornal que Malachias brandia reconhecera, aterrado, o Seculo ! Olhares indignados fitavam-no, e o silencio era tão grande que se ouvia vagamente, por momentos, na cervejaria proxima, as agudezas d'uma rebeca com acompanhamento d'harpa, tocando o can-can da BeJZa-Hetena, O Malachias, então, desdobrou o jornal devagar, com solemnidade, pigarreou e disse : — Ora escutem os senhores este mimo : O illustre auctor dos Esmaltes e Joias, que tanta sensação tem causado, o nosso amigo Arthur Corvello . . . » Santo Deus ! Era a noticia do Melchior . . . Quiz interromper, explicar, mas a lingua pesava-lhe como um pedaço de chumbo ; olhava anciosamente para uns, para outros, procurando uma protecção : mas só via faces duras, vagamente enfatuadas de serem chamadas a sentenciar. O Malachias ia lendo lentamente, sublinhando com malignidade, pondo intengões profundas, mesmo nas virgulas. A phrase em que os -Amores de Poeta eram designados como um protesto contra as idéas republicanas foi seguida d'exclamações indignadas ! Uma voz soltou : — Oh ! que maroteira ! Arthur pensava em fugir, abalar pela escada abaixo, quando o Malachias, voltando-se para elle com olhos arregalados de triumpho, o braço acousador, -leu com emphase : os Amores de Poeta, são dedicados a um Augusto Personagem ! » Então um rumor de colera correu pelas cadeirase Havia interjeições de desprezo, risadas de piedade ; alguns, mais escandalizados, voltavam-se para Arthur, ameaçadores. E Mathias, immovel, tomava um aspecto rigido, á Fouquier-Tinville, de juiz d'onde sahe a morte. Malachias elevou a voz aguda : — Eu, agora, só pergunto se o snr. Corvello póde continuar a fazer parte do Club ! — Não ! Não ! — berraram. — Eu só quero saber se um homem que frequenta os salões, e dedica aos tyrannos — Não ! Não ! Fóra ! Malachias voltara-se para Nazareno : —E o snr. Jacome, que foi . . . Mas Jacome estava já de pé, terrivel, pallido de raiva. E oom uma vivacidade estridente : — Meus senhores, eu só esta noite li esse jornal ! Meus senhores, eu fui enganado na minha boafé ! — E batia desesperadamente no peito. — Acolhi como um amigo, quem era apenas um espião . . . Arthur, livido, com um suor frio nos cabellos, tremulo como uma vara verde, estendia os braços, e n'uma voz estrangulada : — Eu peço para me explicar. Vossas Excellen- cias — Nada d'ExceZtenciag ! — berraram-lhe. — Os senhores podem estar certos que eu não sabia da noticia Não é verdade . , . O Jacome gritou, mostrando-lhe o punho : — Mente ! —E voltando-se para Mathias : — Esse homem declarou-me ha dias que era intimo dos redactores do Seculo Eu dei-lhe um artigo sobre o livro do Damião para elle obter a publicacão . . . Era uma pura questão litteraria nada de politica , Esse senhor veio-me dizer que o artigo não sahia porque o director do jornal o achava cheio d'idéas revolucionarias, quando é evidente, agora, que foi elle quem impediu a publicação — Juro ! — bradou Arthur. — Mente ! — gritou Nazareno, batendo violentamente com o pé. O juramento conta pouco para os traidores. Veio aqui espiar , . . E eu que o apresentei, confessando o meu erro, pego a expulsão d'esse homem ! Soaram apoiados ! freneticos, d'uma colera communicada. O Mathias fez retinir a campainha e no silencio profundo, ouviu-se de novo, em baixo, as vagas arcadas da rebeca. — Convido o snr. Arthur Corvello — disse Ma thias com solemnidade —a sahir immediatamente da sala ! — Fóra ! Fóra ! Arthur, desorientado, deixara cahir o chapéu : um ponta-pé arremessou-lh'o intra a parede ; aga chou-se para o apanhar ; um assobio silvou e o homem ascetico, erguendo-se, grit ou-lhe n'um impeto á Mirabeau : — E diga lá ao Augusto PerAonagem que o man dou, que nós aqui estamos, sela medo, a preparar o dia da Justiça ! — Bravo ! Bravo ! Vozes trocistas ganiam injurias : — Recados ao Augusto Personagem ! — Lamba-lhe as botas ! A campainha do Mathias ret iniu, zelosa da gra vidade democratica. E Arthur, at urdido, como ebrio, com as fontes a estalar, achou-se na escada escura, aos tropeções pelos degraus ; e a travez dos zumbi dos nos ouvidos, as agudezas da rebeca perseguiam no com motivos estridentos da Filha de Madame Angot. N 'essa noite, a Concha, acordando, não o en controll ao seu lado : saltou da ca ma em camisa e á luz morbida da lamparina, viu-o no sofá de clina, abatido, com a face enterrada nas mãos. — Que tinha ? Que era ? Tanto carinho abalou-o, enterneceu-o e n'uma explosão de sensibilidade : — Amas-me, querida Se o amava Abraçeu-se a ella, sepultou o rosto no seu peitinho, entre as rendas da camisa' como n'um derradeiro refugio e jurou-lhe que d'ahi por deante, viveriam sempre juntos ! Tomara aquella resolução sobretRdo por pero : sentia-se como um homem que torno de si só vê portas baterem-lhe violentameAte na cara, A Sociedade desdenhava-o, a expulsava-O' o Publico desprezava o seu livro' a taitteratura repellia-o, o Amor ideal fugia-lhe. Só aquella doce rapariga o acolhera com dedicaçã0 sinceridade ! Pois bem, recompensaria tanto affefto : dar-lhe-ia a casita socegada que ella ambiciona.va, um amor poetico e moço, toilettes, a considera.ção d'esposa. Que lhe importava a senhora bar(kneza da rua de S. Bento Nem uma palavra ao livro enviado com um amor tão disck.eto ! quasi a detestava por fazer parte d'aquelle Aundo egoista, secco, artificial, que na sala de D. Coutinho lhe dera olhares de lado, que não COkx1pr,ava o seu livro, que o não reconhecia como um grande homem » . . . E os republicanos? — Idiot as! Cretinos ! Odiava-os agora. E depois de tanta injustiça, de tanta hostilidade, o amor da Concha, sua sinceridade facil, parecia-lhe delicioso, de dominar a sua vida. Installar-se-ia confortavelmente com ella : mandaria ao diabo as vaidades da Sociedade e as ambições de Justiça ! Estava desilludido ! A lição fora formidavel : d'ahi por deante, só acredi- taria nas felicidades da carne--— comer bem, rolar nas boas molas d'uma tipoia, possuir as bellezas d'uma andaluza ! E o mais — á tabúa ! Melchior, consultado ao outro dia na redacção do Secuto, approvou ruidosamente (Stas resolu- ções, Até que emfim o Arthur tinha juizo ! Essas cousas de sociedade, de litteratura, eram historias ! Gastar o dinheiro com uma bella rapariga, isso entende-se. Ao menos gosa o seu dinheiro ! Arthur não lhe revelara o desastre do Club. Mas dissera-lhe, ao conversarem sobre o plano de concu binagem com a Concha : — Ouga lá outra cousa : estou @om vontade d'escrever um folhetim a dar uma desanda nos republicanos ! Melchior ficou attonito : — Porquê Arthur hesitou : —É que agora que os conheço melhor, está-me a parecer que são uma sucia de patifes , Melchior fitou-o : — Pilharam-lhe dinheiro ! — exclamou radiante. Arthur, por vingança, tendo de dar a Melchior CAP] TAL uma explicação d'aquelle odio tão subito, disse vagamente : — Fizeram-me uma por 'aria . . — Calotezinho? Que lhe dizi•a eu ! Uma canalha ! É somma grossa ? Por um resto de honest idade, Arthur disse, córando : — Não fallemos mais n' (sso. Mas Melchior fallou e ag ira do apoio d'A?thur, deblaterou contra « aquella corja b. — Mas porque os detesta você tanto, Melchior Melchior fez-se grave, affect preoccupaçõ n s politicas, resmungou : qua toe principies ! mas d'um modo tão ambigvo que Arthur suspeitou id'odios pessoaes n'aquella indigna cão philoqophica, e lembrando-se agora vagamente de ter ouvido a historia d'uma « coça » que 01 Itr'ora o Nazareno d.era no robusto Melchior em pleno Y'artinho. Insistiu então em publicar uma desanda no Club Demo• cratico. Mas Melchior coçou a cabeça, deu alguns passos pela saleta, com as mãos ent erradas nas algibeiras : — Você bem vê, homem, o jornal é muito serio. Não queremos discussões essa gente. Fingimos que não sabemos que existem. Que diabo ! . . . E depois são doudos. São capazes de vivem tomar satisfacões, e eu sou obrigado a quebrar-lhes a cara. Que lh'a quebro quebrolSe lh'a 2 Quebro-lh'a tão certo como estarmos aqui ! Mas emfim, você comprehende, sempre é desagradavel ! Arthur irritava-se de se vêr privado d'aquella desforra. Pensava que o Melchior que provocara o insulto do Club com a sua estupida noticia, devia agora facilitar-lhe a vingança. Teria mesmo rompido com elle, se lhe não fosse necessario para a representação do drama e para futuras locaes ; além d'isso, a Concha morria-se por elle : Melchior adulava-a, fazia-a rir, ensinava-a a tocar guitarra ; ella chamava-lhe, rindo : mi abueto, e Arthur contava, quando vivesse com a Concha, tel-o por confidente, cortezão, amigo, dependente e bobo. Foi por conselho de Melchior que se decidiu a ir viver com a rapariga para o Hotel Hespanhol. Era a installagão mais prompta e evitava os embaraços de oreadas, cozinheira, etc. E depois, é divertido, tinha dito Melchior. Sem contar que é mais chicl A Concha ficara enlevada com este plano e d'ahi a dous dias Arthur despediu-se do Universal, Quando, feita a mala, olhou em redor, pela ultima vez, aquelle quarto de reps azul que lhe dera tantas satisfações de vaidade, onde se creara tantas illusões, sentiu uma commoção. Teve saudades do oreado, um velho muitc trigueiro que o servia. Quiz tornar a vêr a sala de jantar que lhe agradava tanto, quando, depois do almoço, soprava á varanda cheia do bom sol d'inverno, o fumo do sen cha- ruto caro, ouvindo ao lado o tlim-tlim da longa e em baixG o Chiado, no seu rumor de vida rica. No corredor, encontrou Carvalhosa : — Então o amigo deixa-nos Arthur, lisonjeado, apressou-se a dizer : — Oh, por poucos dias ! — Não morreremos de dôr ! — rosnou o outro com um aceno negligente de cabeça. Arthur sentiu uma colera congestionai-o. Canalha ! pensou — e desceu com pressa, avido do Hegpanhol e das suas delicias. — E para onde quer que mande as cartas, se houver — perguntou-lhe o porteiro, contente da esportula. Arthur, com uma vaga esperança que a baro neza ainda respondesse — ped.iu que lh'as guardassem. para se dar importancia, mesmo deante do porteiro, accrescentou com mysterio : — Mas muito secretamente ! Que ninguem veja ! O seu bahú, o seu sacco de noite, já estavam na tipoia. ao fechar a portinhola, mandou bater para o Rocio — porque, por vaidade, não quiz fazer conhecer deante do porteiro que mudava para o Hespanhol. O trem rolou, e Arthur, com um olhar para as varandas do Hotel, murmurou sentimentalmente : —É outra pagina da minha vida que ge volta . . . Avante ! Foi n'essa noite com Melchior buscar a Con chae As companheiras estavam na sala, em redor d'ella, como uma familia em torno da noiva n'uma manhã nupcial. A governanta, que se declarou cominovida, levou Arthur para um quarto e alli, durante vinte minu tos, foi-lhe mostrando as dividas da Concha : contas do cabelleireiro, da lavadeira, do sapateiro . . . Ars thur, aturdido, assustado, impaciente, pagava — sentindo fóra os gritinhos calidos das pequenas que Melchior beliscava. Emfim, voltou á sala, e os adeuses começaram. A Lola, intima amiga da Concha, rompeu n'um choro exagerado, desproporcional, que irritou a governanta, descontente que ella estivesse a fazer-se feia, com tanta lagrima 9. Depois, a Concha quiz ir 'á cozinha, despedir-se do cozinheiro que era de su pueblo » e d'outra rapariga que estava em cima, no segundo andar, doente d'um furunculo. Voltou com os olhos vermelhos. Melchior troçava-a, contorcendose em prantos comicos. Ellas chamavam-lhe perdido, bandido! Todas vieram ao patamar: os beijos, os abraços, os segredinhos, o chalrar das vozes já imIpacientavam Arthur — e a arrancando-se táquellas expansões de despedida, desceu finalmente. Mas as vozes agudas seguiam-na pela escada, Ella respondia : era um chilrear de passarada, — Adi08, hija ! — Adios, Lolita ! — De usted empreciones a Pancho ! —- Que se le vea a usted, Arturito ! — Carmita, hija, que no se haga usted olvidada ! Adios ! adios ! Melchior rompeu adeante, o chapéu p'ra nuca, radioso, faceto, cantando o coro nupcial da Lucia. E Arthur, atraz, descia com a Concha pelo braço, um triumpho de noivo pela alma, o olho brilhanto. o peito alto — na posse, emfim, da sua andaluza ! VIII No primeiro dia, quan'lo desceu ó sala de jantar do Hespanhol a buscar charutos — Arthur encontrou os mesmos hospedes que o habitavam, mezes antes, á sua chegada a Lisboa. Lá estava B hespanhola bonita e gordinha, o feu robe-de-chambre escarlate e o homem calvo, de oachaço grosso e rostinho vermelho, vendo-a comer, estatico, com olhinhos beatos e chorosos. Os dous republicanos hespanhoee sentavam-se no mesmo logar, cabisbaixos, as capas ao hombro, mais pallidos, mais tenebro80s. Havia, de novo, um homemzarrão barbudo que parecia um contra tador de gado, e um sujeito d'oculos azues e nariz agudD, que devia ser tabellião na provincia. E em volta da mesa, com a travessa do cozido, o Manuel — o Manuel que tanto desesperara Arthur, outr'ora, lastimando-lhe as botas ro- tas — arrastava as chinelas, esguio, amarello, com a sua cabelleira gecca, côr de rato e esguedelhada. A mesma gaze côr de rosa protegia o caixilho dou. rado do espelho, e Prim, inalteravelmente, levantava ao ar a sua bandeira desfraldada. O Manuel pareceu satisfeito de vêr Arthur : — Então, usta, hein ! Ora usted ! , . . — dizialhe, emquanto Arthur escolhia os charutos — Então por onde andou usted ? — A viajar — disse Arthur. —Ora usted I a comidinha ós sete, hein Usted será bem servido ! Para evitar a mesa redonda, tinham tomado, ao pé do quarto de dormir, outro quarto, que, tirada a cama, fôra improvisado em sala de jantar. A commoda servia d'aparador ; e para dar alegria e conforto, tinham-lhes dependurado um canario defronte da janella. As primeiras semanas foram deliciosas. O inverno ia muito doce e luminoso e succediam-se os dias de sol, n'nm grande azul, d'onde cahia um calorzinho suave e uma alegria macia. As varandas, que deitavam para a rua da Prata, alegravam o quarto. Era a primeira vez que Arthur vivia com uma tnulher em intimidade conjugal ; as mais pequenas 'cousas : B gomma das gaias, os atacadores do col- -lete, os bordados das camizinhas, interessavam-no como revelações ; admirava cada vez mais « a sua Conchazinha», achando um gozo raro em cada um dos seus movimentos. Nos actos mais insignificantes — quando lavava os braços nús, quando esticava as meias nas pernas ou enfiava uma fita côr de rosa nos passadores da camisa — encontrava o sabor inesperado d'uma voluptuosidade nova. Rondava em volta d'ella com uma curiosidade devota, ora interessado pelos cabellinhos da nuca, ora pela fórma das unhas, ora por certo requebrar da cintura ; não amava os seus olhos com o mesmo amor com que amava os seus peitos ou as suas orelhas pequeninas, porque cada parte do seu corpo, como se fossem personalidades differentes com influencias espeeiaes, lhe inspirava um enthusiasmo particular. Melchior definira-o como um baboso e punha n'eeta expressão um fundo d'inveja e de vago despeito. Como a Concha era muito preguiçosa, levantavam-se tarde. Ordinariamente almoçavam na cama : uma creada que fallava um hespanhol misturado de portuguez e que depressa se tornara a intima da Concha, trazia o almoço aos pombinhos i, ás onze horas. E era para Arthur uma delicia todas as manhãs renovada, vêr a Concha com os peitinhos ao léu, um casabeque de flanella escarlate pelos hombros, mover sobre o taboleiro os braços brancos e partir os ovos quentes delicadamente com o gume da faca, arrebitando o dedo minimo : depois, no chôco da roupa quente, corpo contra corpo, saboreavam am ciga rrinho. Arthur cada dia lhe achava as maneiras mais senhoris. Mesmo nos ardores amorosos, tinha Uma reserva de dama. Ao deitar-se, nunca lhe dava um beijo sem primeiro fazer o Signal da cruz : assim se vê um livro d'orações sobre a commoda d 'um lupanar. Arthur attribuia estas delicadezas ás suas convivencias '{Ilustres e não se fartava de lhe ouvir historia dos seus amores com o conde ou visconde carlista : interrogava-a mesmo sobre a maneira como elle a amava, a abraçava, se lavava, gostando de penetrar nos etalhes intimos d'uma vida aristocratica e de beijar a bocca onde se tinham pousado os labios d'um Crande d'Hespanha ; comtudo sentia uma satisfação intima em o saber enterrado n'algum desfiladeiro montanhas de Navarra. Pelas duas horas vinha o Pancho, o cabolleireiro, penteal-a : era um gordalhufo, amarello como um limão, de t)igodes negros como tinta ; Usava a mesma camisa ile chita, de collarinho muito decotado, quatro, cine,o semanas a fio ; e manejando, com as suas mãos papudas e molles de _pomada, os gos cabellos negros da Concha, conversavam — tratando-so por tu por serem do mesmo pueblo. sempre historias d'outras raparigas bespanholüs a quem Pancho construia os altos penteados — 0 que fazia a Trina, o que dissera' a Angelita, quem o querido da Lola . . . Como fallavam no rapido accento andaluz, em calão, Arthur não os comprehendia e aquelle tu familiar do cabelleireiro irritava-o surdamente. Mas a Concha não podia dispensar o Pancho, porque não se sabia pentear. Não sabia, de resto, fazer nada, nem pregar um botão, nem dar uma passagem : quando tentava pegar n'uma agulha, tinha logo dôres de cabeça. Cada dia Arthur se surprehendia mais com aquelle temperamento : ora tinha rajadas d'animação, e então agitava-se pelo quarto, batendo os moveis com as longas saias muito engommadas, abrindo e fechando as janellas, arrumando e desarrumando a roupa nas gavetas, cantarolando, batendo as palmas sem razão, toda petulante de vida animal ; ora, embalando-se n'uma cadeira de balouço, com o corpo molle, os braços descahidos, abandonada n'uma madracice vaga, os olhos meio cerrados, fumava infindaveis cigarros ; ou então, sentada em cima da cama, encruzada como uma turca, o pézinho n'uma das mãos, a face murcha, parecia um bicho entorpecido, nos fins do inverno. Mas animava-a sempre a presença de Melchior. Elle vinha geralmente de tarde, entrando com rompante jovial, trazendo um espalhafato pandego áquelle quarto amodorrado. Tornara-se immediatamente o amigo intimo b. A Concha beijava-o diante d'Arthur, que sorria, tranquillo, confiado ; na sua ignorancia das mulheres, não sentia ciumes, porque a Concha lhe dissera um dia « que o Melchior era muy-feo ». Elle de resto affectava com ena um modo paternal, fazendo-se velho, dando-se ares de avô ; dava-lhe lições de guitarra, fazia-lhe recados, ajudava-a mesmo, ás vezes, a laçar as botinas, com as mãos tremulas que se demoravam com guIodice nos tornozelos finos da rapariga. Arthur, socegado, deixava-os sós, sahia ; e se um vago ciume o remordia na rua, tranquillisava-se ao entrar, abrindo a porta do quarto com um imprevisto intencional, encontrando-os muito longe um do outro, n'uma attitude indifferente, ella, balouçando-se com um bocejo pallido, elle, muito vermelho, ferindo os bordões da guitarra. Ultimamente, Melchior tomara o habito de vir jantar com elles ; ia então abaixo combinar com o Manuel petiscos hespanhoes : arroz á Valenciana, bacalhau á Biscainha Á mesa, Althur, a quem era difficil fallar hespanhol, refugiava-se n'um silencio extatico, olhando a Concha com urn ar beato. A conversação de Melchior parecia-se com a do Pancho : eram 08 mesmos can-cans sobre a Lola, a Trina, a Angelita, os queridos. A Concha parecia considerar Melchior como da c sua gente conhecedor das pequenas, ao facto dos segredinhos e das concubinagens; tinham sympathias communs, d'uma baixeza egual ; Melchior era um amigo dos lupana- reg : conhecia-lhes o estylo, os habitos, ag preoccupapões. A Concha, por vezes, respondia bruscamente a Arthur quando elle se queria introduzir n'aquellas conversas, que elle d'aquillo não entendia nada Affirmara-lhe mesmo que só o Melchior é que «sabia tratar com hespanholas Por isso, quando elle não estava, parecia aborrecer-se. A maior parte do tempo passava-o á janella, muito vestida, cheia d'anneis : conhecia já todos os vizinhos de vista, as lojas, a côr dos cabellos dos caixeiros. Arthur ia de cadeira para cadeira, com um livro que mal lia, o charuto nos dentes, satisfeito de a vêr, gozando a presença do seu corpo bonito. Ella, ás vezes, por bondades que lhe vinham, e com a seriedade forçada de quem cumpre um dever, procurava fallar-lhe das cousas que julgava o interessariam ; e como o sabia es&iptor, conversava sobre politica. Mas as suas opiniões desolavam Arthur : admirava muito um poeta de que ninguem ouvira fallar, um certo Lopez que ella conhecera e lhe fizera versos ; depois, dizia-se Isabellista, chamava pato a Castellar, ladrões aos republicanos. Arthur queria argumentar, educal-a, mag faltavam-lhe as phrases hespanholas, tinha medo de a seccar e limitava-se a sorrir com uma condesceadencia de grande homem. E todavia, admirava-a, achava-lhe talento, espirito : as suas expressões vivos, dando-lhe a surpreza do acoento e da lingua pareciam-lhe sempre pittorescas e affligia-se que ella apenas soubesse soletrar, e só pudesse, em letras garrafaes, assignar o seu nome. Para a divertir, á noite, ia aos theatros, ao Price, e Melchior acompanhava-os ; nas noites mais tepidas passeavam até Belem de caleche descoberta : eram horas deliciosas para Arthur, muito estendido no assento da tipoia, o braço pela cinta da Concha, o coração afogado de concupiscencia ; defronte, o charuto de Melchior fumegava e os seus olhos sob a aba do chapéu carregado para a frente, devoravam a Concha, muito branca na sua mantilha negra. com camarotes, tipoias, jantarinhos, o dinheiro ia-se ! O conto de réis que Arthur trouxera, estava quasi devorado D. Foi por isso que pensou em recolher o pro• ducto da venda dos Esmaltes. O revisor do Seculo, encarregado de fazer o giro dos livreiros, voltou 800 réis — preço de dons exemplares vendidos. Arthur ficou aterrado, succumbido. E julgando que devia haver engano, negligencia, talvez maroteira do revisor, foi elle mesmo na manhã seguinte percorrer as livrarias. Porém, não se atrevia a interrogar, julgando-se conhecido e prevendo a resposta. Emfim, na rua do Ouro, depois de folhear alguns livros, d'examinar titulos, tomou um exemplar dos Esmaltes: abriu-o aqui, além, affectou interesse, per- guntou o preço, pagou e recebendo o troco d'uma libra, disse com um ar distrahido : — Tem-se vendido muito d'isto —É o primeiro — disse o homem tomando a penna para continuar a sua correspond( ncia. E Arthur sahiu, embatucado, enrolam Io nas mãos nervosas o seu proprio volume. Acousou o publico e a cidade d'estl IPidez. Que admirava que uma burguezia embrutecila e de craneo molle fosse indifferente á Poesia e {s idéas nobres Ser poeta n'um mundo tão torl e era uma chapada tolice ». Quando um tal desde; n espera as expansões preciosas das almas ellas devem refugiar-se n'uma mudez orgulhosa e triste. É o que elle faria, que diabo ! Se pegasse na penna, seria para escrever algum dram?lhão com bons direitos d'auctor, ou algum Rot•ambote bem pago e vendido ás cadernetas ! E o mais, regalar a Carne ! E refugiou-se com der,espero na posse da sua Concha. Já não lhe impord ava o dinheiro ! Quando se lhe acabasse o pouco que tinha— Deus daria ! Toca a extrahir da hora presente todo o gozo, como o sumo fresco d'vma laranja ! E por uma petulancia nervosa, comprou para a Concha um vestido de sêda, dous chapéus, e decidiu satisfazer-lhe os desejos incessntes de luvas, rendas, fitas e frascos de perfuma. A Concha, de resto, tinha uma mobilidade extrema de caprichos e de appetites : penava por uma sombrinha que via n'uma vitrine e depois de a usar com exaltação um ou dous dias, aborrecia-se, jurava que « lhe não ia bem 9. Arthur encontrava muitas vezes na saleta uma velha de capote e lenço, grande buço, fallas doces, muito cumprimentadora — que, apenas elle entrava, erguia-se, mettia um cabazinho debaixo do capote, agachava-se n'uma mesura, ia buscar a um canto um enorme guarda-sol de sêda tingida e Bahia subtilmente, ciciando : — Creadinha de V. Ex. a. A Concha acompanhava-a até ao corredor, fechando a porta sobre si, e alli ficavam a cochichar horas esquecidas ; voltava, vermelha, dizendo que era uma mulher muito decente, que comprava ves„ tidos e arranjava cousas muito baratas em segunda mão. — Mis cosas, mis cosas ! Estava, com effeito, trocando constantemente objectos, pondo um par de brincos no *prego para obter uma renda inutil, vendendo a renda para ter mais um par de meias de sêda, toda tontinha de phantasias. E ultimamente para ir ás lojas, segundo dizia, sahia só de manhã e de tipoia. Um dia que aquelas passeatas o irritaram mais, Arthur fez-lhe uma observação despeitada. A Concha voltou-se com a grande attitude d'uma esposa offendida, passou-lhe nos olhos negros como que o clarão d'um tiro e de cabeça erguida, perguntou-lhe se a tomava por uma escrava ! Era o resultado de viver com um portuguez ! E dos seus labios deseahidos escorria um desprezo immenso. Nunca o seu conde lhe fizera uma tal offensa ! Mas esse era um fidalgo, um homem que sabia amar e respeitar uma mulher. E deixando-se oahir n'uma cadeira, começou a choramigar . . . Que desgraciada era I Arthur, an.iquilado pelo seu grande ar, enternecido pelas lagrimas, prostrou-se de joelhos deante d'ella, jurou-lhe que ninguem a amava como elle . . . i Que dispuzesse da sua vida ! Era capaz de casar com Mas a Concha respondeu-lhe friamente que não imaginasse fazer-lhe uma grande honra. Já outras vezes Arthur, n'algum momento de delirio mais ex pansivo, lhe fallara em casamento, mas d'um modo gracejador, ligeiro, e aquella palavTa tornava-a sem pre muito seria. E um dia mesmo, ella confessa ra-lhe que varios homens ricos, de grandes nomes, tinham querido casar com ella : em Madrid, antes d'ella vir para Portugal, um marquez offerecera-lhe a sua mão e um palacio, — Que marquez — Mi marquez ! Aquelle marquez que apparecia assim subitamente no seu passado —de que Arthur julgava conhecer os episodios mais mil:dos — irritou-o extraordinariamente. Exigiu a hist oria d'ef: sas relações e a Concha acabou por lhe jurar que el a um velho repugnante : por isso o recusara. Mas dias depois, deixou escapar, fallando ainda di) marqu — que se tornara um assumpto sempre presente — que era um rapaz mui guapo. E accreseentou qae a perseguia para que ella voltasse para Madrid. Arthur concebeu então um ciume g] otesco pelo personagem : se a via macan;buzia, suppunha-a cheia de saudades do marquez ; se a ouvia segredar com a creada, imaginava que er reeados do marquez : chegou mesmo a suspeit{..r que elle estivesse em Lisboa, disfarçado, para II, 'a roube.r e sentia que alguma cousa de funesto so contra o seu amor. Um dia, mexendo n'uma g: ',veta 11a, encontrou um lenço muito fino, com u n monog ramm.a sob uma coroa. Enfureceu-se : uma corôa ! De quem — Mi marquez ! — disse ella friamenbe. Arthur, pallido, fez o lenço tiras e ficou logo a tremer, receando uma rajada de colera, um rompimento. Mas ella, tranquillam( nte, com uma serenidade de ser fragil martyrisad. apanhou as tiras uma a uma, fazendo beicinho ( horoso, como uma creança que levanta os pedaços d 'uma boneca partida, uniu-as, beijou-as, contemplo a-as murmurando : — Mi marquez ! Mi marquez ! D'ahi a pouco Arthur encontrou as tiras preciosas, esquecidas, arrastando entre a roupa suja. Aquillo serenou-o como uma prova d'indifferença pelo marquez. De resto, se ás vezes, de dia, os modos d'ella, as suas distracções, os seus amuos, os seus suspiros sem razão lhe davam um vago ciume—o fogo com que ella á noite o apertava nos braços nús, era como a evidencia deliciosa do seu amor. E ia-se prendendo tanto a ella pela trama subtil do habito que já nem sahia á rua. Não tro caria aquelle quarto, com saias amarfanhadas por cima das cadeiras e trouxas de roupa enxovalhada debaixo da cama, pelas galerias do Vaticano ; as paisagens do Paraizo não lhe dariam mais satisfa ção e enternecimento do que a contemplação das fachadas sujas dos predios vizinhos. Havia alli, n'a quelle espaço abafado, um cheiro de mulher, de pó d'arroz, de dormido, que o deleitava, e, estirado na cama, com o cigarro na bocca, ouvindo o Melchior tocar o fado e vendo a sua andaluza arrastar a saia, tinha horas regaladas de madracice, de torpor lascivo ; o gemer da viola, o gingar da Concha, mergulhavarn-no n'um sentimentalismo baixo e pandilha; estendia então os braços para ella, reclamava-a e os olhos cerravam-se-lhe n'uma voluptuosidade morna, sentindo-lhe por baixo do roupão a flexibilidade calida da cinta sem espartilho. Não lia um livro, nem um jornal. Todo o movimento d'espirito lhe era odioso, como se a alma fatigada, amodorrada na baixeza muito quente, no chôco d'aquella vida de gallo, se recusasse a toda a ascenção para alguma coisa de mais elevado. Quasi lhe custava lavar-se, arranjar-se : o corpo comprazia-se-lhe na porcaria. E levantava-se da cama em chinelas, com um derreamento canalha do corpo, para ir para a mesa de jantar, onde ficava até ás dez horas, bebendo com Melchior copinhos de genebra. Depois, vinham os fados, as malagueñae, e elle de novo estirado sobre a cama, de pernas abertas, n'um embrutecimento de bestialidade satisfeita, só erguia a voz para dizer n'um tom idiota, julgando-se catita vagas palavras hespanholas que aprendera : Vivan tas niñas ! Chiquita, no digas eso ! Aquelles diag de preguiça, porém, cessaram quando a Concha declarou que queria ir jantar á mesa redonda. Dizia que a aborrecia comerem a,lli, n'aquella saleta um pouco escura, sós ; que ficava um cheiro de comida desagradavel ; que a sala em baixo pelo menos era alegre ; que se via gente. Arthur, contrariado, vendo n'aquelle desejo um começo de saciedade, apoiado pelo Melchior — que achava que não havia nada como (f a pandegazinha alli á cachucha b,— resistiu. Mas a Concha, ao outro dia, a cada prato que lhe apresentava o crea- do, tinha um gesto triste de recusa, com um suspiro. Arthur affligiu-se : que diabo, era uma creancice ! Ella declarou simplesmente que emquanto jantassem alli, n'aquelle cacifo, jurara a Nossa Senhora da Atocha não tocar com os seus ricos beiços nem urna bucha de pio. Arthur, furioso, exclamou : — Bem, Manuel ! Ámanhã jantamos em baixo ! Ella saltou-lhe ao pescoço, recompensando-o com um beijo chilreado. O seu fim era humilhar a outra hespanhola, a Mercedes. Ha muito que se preoccupava com aquella collega segundo a expressão faceta de Melchior. Sabia pela creada o que vestia, que roupa branca tinha, que fórma de perna, o que lhe dava o amante, os namoros, tudo ! E quando se certificou que possuia mais vestidos, melhores anneis, outro chic, decidiu « enterral-a Não lhe queria mal desejava só fazel-a chorar de raiva ! No dia em que foram jantar á mesa redonda, levou horas a escarolar-se, a experimentar vestidos, a perfumar-se ; obrigou Arthur a pôr muita pomada no cabello, uma camelia no fraque, para parecer guapo, e tomando o seu grande ar de duqueza, desceu, com um ruge-ruge de sêdas, pelo braço de Melchior. A pobre Mercedes, desprevenida, tinha o seu roupão escarlate, o cabello mal penteado e, ao pé, o seu calvo, de conarinho enxovalhado, cocando-a com os olhinhos afogados de concupiscencia. As duas mn}heres atravessaram-se com dous olhares trespassantes como punhaladas ; toda a côr do roupão de Mercedes lhe subiu ás faces e a Concha sentando-se com modos de princeza que se vê obrigada a comer n'uma taberna, encostou o cotovello á mesa, a mão á face, com todas as pedras dos anneis dardejando sobre a outra. Durante todo o jantar fel-a desgraçada. Tinha maneiras enjoadas de tocar nos pratos, segredinhos para Arthur, com olhares de tedio para a fealdade do calvo ; fallava a Melchior com imperio, como uma rainha a um cortezão, e a cada momento dava pancadinhas na manga do vestido, para fazer sentir a riqueza da sêda. A outra não comia, petrificada : tinha mesmo repellido com uma furia reprimida um gesto terno do calvo ; e quando, a uma ordem da Concha, Arthur pediu uma garrafa de Champagne, ergueu-se, pallida de raiva, e sahiu arrastando a saia, seguida do calvo, curvado, que apertava contra o peito as abas do seu chapéu branco com um ar lamentavel. Ao outro dia, a Mercedes appareceu á mesa com um vestido de sêda azul, de decote quadrado, toda cheia de joias, e duas camelias no eabello. N 'essa tarde, pela primeira vez, sentou-se á mesa um rapaz hespanhol, muito bonito, d'uma pallidez deliciosa, olhares afogados n'uma langui- dez fluida, um buçozinho que parecia desenhado a tinta da Chi na, janota, com o cabello muito frizado e dous car: á Capoul sob.re a testa. Parecia conhecido da. Mercedes e do calvo: trocavam atravez da mesa alg.trnas palavras. Mercedes olhava-o muito, e a Concha, ao fim do jantar, vendo o rapaz, muito Io, partir avellãs para ella, mordeu os beiços furiosi b. O seu des ejo de a humilhar tornou-se então uma preoccupação ardente; exigiu a Arthur outro vestido; queria ir todas as noites ao theatro, para que a outra soubesse, se ralasse ». Ás horas em que a via á janella do primeiro andar, mandava buscar uma tipoia descob rta, descia as escadas com grande espalhafato, ia. se recostar na caleche, rindo alto, fingindo-se anin lada, gritando pelo Melchior, pelo Arthur, c. que lhe esquecera a sombrinha, e que lhe fossem buscar o lenço de renda . . . Pessoas na rua paravam, pasmac Ias d'aquella vivacidade, admirando-a. A M em cima, se não tinha tempo de se retirar 11a varanda, affectava olhar o céu ou o predio fronteiro, (;u, de costas voltadas para a rua, fallava, Tia para dentro do quarto. A Concha desesperava-se d'aquella indifferença, chamava-lhe os nomes ma is hedi ondos, e apenas chegava ao Aterro, mandava voltar para traz, para o Hotel, para a « apanhar ainda á janella dar-lhe o espectaculo do seu chic, da sua grande cauda, das suas meias dc sêda côr de rosa, ao saltar do estribo da tipoia. — F, no emtanto, Arthur pagava ao cocheiro, pensando : — Mais dez tostões deitados á rua ! Porque recomeçava a prcoccupar-se com o dinheiro. Desejava escrever ao Carneiro, pedindo-lho o outro conto de réis que lá tinha em deposito, mas hesitava ; sentia que o gastaria depressa, n'aquella vida prodiga. E depois Deixar a Concha Era matar a pobre creatura que o amava, que por um sentimento de regeneração, para se tornar digna d'elle, ia-se cada dia fazendo mais senhora D, a ponto d'ir ouvir missa todos os domingos, querer aprender piano e soletrar depois do almoço, labo riosamente, o Diario de Noticias. Podia lá deixal-a ! Seria vil ! era possivel tambem voltar a Oliveira d'Azemeis, recahir n'aquelle embrutecimento mor no, com partidas do bilhar na Corcovada e passeios por entro os pinheiraes da estrada, aos domingos de tardo, no pó do macadam Uma d'essas manhãs, quando estavam na saleta o Pancho penteava a Concha Melchior appareceu o atirou-se para uma cadeira com um ar tão abatido, que Arthur, sempre bondoso, lhe perguntou com muito interesse : — Que aconteceu O outro fitou-o com anciedade e apertando as mãos dramaticamente : — Oh, Arthur, você é que me pode salvar ! Preciso sem falta, ámanhã, de dez libras. Senão, estou perdido. Oh ! Arthur . . Arthur interrompeu-o, desolado. Tinha de seu quatorze libras — era tudo o que restava de um conto de réis — devia a conta do Hotel, não podia O outro deu uma punhada furiosa no ar : —É a minha sorte . — rosnou com rancor. — Você comprehende, homem . . . — Basta, homem ! Raio de vida ! E foi harpejar a guitarra com furor, vendo pen tear a Concha. Arthur -— que devia ir buscar um camarote para o Price, porque a Concha queria lá ir, para enterrar» a Mercedes com um chapéu novo — sa,hiü, muito contrariado. Aquella precisão do Melchior collocava-lhp. a realidade deante dos olhos, brutal mente : estava a tinir ! D'ahi a dias, não teria sequer para uma tipoia ! FJ depois, custava-lhe negar dinheiro ao Melchior ; era o intimo, o confidente ; era tão bom para a Concha, tão serviçal, tão alegre Quando entrou, estava resolvido a pedir quinhentos mil réis ao Carneiro ; em todo o caso, para economisa, que diabo!... não largaria as dez libras ao Melchior. Antes de tudo, elle ! Pousava o chapéu sobre uma cadeira, quando a Concha, direita, nobre, cruzando os braços, lhe per gutitou com severidade e que significava aquillo de não querer tirar o pobre Melchior d 'apuros ! Era neceRsario ser ingrato ! Que amizade ! Ah, bem via agora que os portuguezes eram uns para os outros como tigres ! Ah, se fosse o conde ou o marquez ! Outra gente ! Arthur, envergonhado. balbuciou que realmente negara dinheiro ao Melchior — mas porque imaginava que era para jogar — e queria tirar-lhe o vicio ! Fallou então de Melchior com exaltação : era o seu melhor amigo ! Por elle daria a vida ! Teve phrases lyrjcas, disso cousas sobre Orestes e Pylade. E a Concha;, que nunca o comprehendia quando elle fallava depressa ou com estylo, voltou-lhe as costas, dizendo que, então, devia portar-se como um cabaltero. Arthur, n'essa mesma noite, deu as dez libras a Melchior, dizendo vagamente que recebera uns dinheiros. » E então abriu-se com elle : contou-lhe que as tias, apesar de ricas, começavam a espantar-se d'aquellas despezas ; a sua fortuna particnlar, d'eile porque a tivera, em bom metal — ia-se esgotando ; era necessario pensar em arranjar dinheiro . . . A unica maneira, era fazer representar o drama Melchior estendeu a mão aberta, como para o fimpedir de continuar : CAPIN Eu m'encarrego d'isso. Nem mais uma palavra. Isso é commigo. Onde está o manuscripto — Você comprehende, Melchior ; depois, se o drama rende, é o que quizer . . . — Nem mais padavra. Venha o manuscripto ! E n'essa certeza, Arthur escreveu uma carta ao Carneiro, dizendo que para negocios desejava quinhentos mil réis. D'ahi a dous dias, estava ainda na cama, quando Melchior rompeu pelo quarto com um aspecto triumphante. Tinha fallado n'essa manhã ao empre- • zario ! Pilhara-o de boa maré epromettera uma resposta dentro de quinze dias. Naturalmente a cousa ia ! Hein ? Não havia outro como o Melchiorzinho ! E no seu enthusiasmo, fazia cocegas nos pés da Concha, por cima da roupa. Ella dava gritinhos, encolhia-se contra Arthur, que, radiante, lhe promettera um vestido novo para a primeira representacão. Melchior lembrou logo que se devia dar uma ceia aos actores. A Concha bateu as palmas, já exaltada á idéa de se sentar, presidindo a uma festa, entre o Cunha galã, e a Maria Joanna ingenua. Era ainda uma maneira de fazer ferro á outra ! Porque a lucta continuava, mais aspera. O que desesperava a Concha era que a Mercedes possuia as relações, a amizade do hespanhol bonito ; elle agora jantava ao pé d'ella : e eram risadinhas, segredinhos, amabilidades, ao lado do calvo, estatico, que parecia gozar aquella animação da sua hespanhola. A Concha mostrava-se indignada d'aquella intimidade ; achava a Mercedes obscena : coquetear com aquelle peralvilho nas barbas d 'um homem tão bom, tão baboso ! Se não era mesmo d'uma perdida ! E tomava ao jantar attitudes de puritana severa offendida pelos espalhafatos d'uma meretriz. Mas os seus olhos, por vezes, tinham clarões para o hespanhol. A Mercedes, muito fina, reparava— e logo exagerava a sua familiaridade @om elle, fanandolhe muito de perto, pousando-lhe os dedos sobre o braço, com o olhar rendido. A Concha mexia-se na cadeira, toda nervosa — e o hespanhol, com gravatas resplandecentes, puxava os punhos da camisa, de chita, torcia o buçozinho, recostado com languidez, sorrindo á Mercedes, dando á Concha olhares langorosos. Cada dia a Concha subia para o quarto mais exaltada. Tinha agora rnnitos segredinhos com a creada ; e Arthur, mais d'uma vez, indo ter com ella á janella, vira na varanda de baixo o rapazola, encostado n'uma attitude « catita $ que lhe fazia sobresahir sob o jaquetão os bellos quadris do mulher, soprando o fumo do charuto e revirando para cima os seus grandes olhos gaditanos. Aqui}lo irritava-o. Sabia que era um emigrado de Cadiz compmmettido na revolta de Salvo€hea. Achava-o bonito e a sua presença inquietava-o. Mas tmanquil- lisou se onvindo, uma noite, a Corcha dizer com grande desdem a Melchior que parecia ter pelo emigrado um rancor feroz : — Mira ! Se es un niño ! Se es un polio ! Más feo —E declarara mesmo com cara enjoada, que detestava homens com rostos de mulheres. Pouh ! Até o achava ridiculo ! De resto Arthtur andava de novo tomado por ambições litterarias. Uma noite d'applausos, e entrava na publicidade, na gloria, nos folhetins ! Era a desforra resplandecente das suas humilhações obs curas. Relembrava certas scenas do drama, mais queridas, e não duvidava do triumpho. Que vida então ! Os applausos da multidão, misturar-se-iam á doçura dos beijos da Concha ; porque ella amal-o-ia mais, vendo-o celebre, namorado por outras, con siderado como gloria nacional ! E as felicidades seguir-se-iam todos os dias, a todas as horas ; á noite, as palmas d'uma platéa electrisada ; a ceia com o bom Melchior, com outros amigos ; depois, os delirios da Concha apaixonada ; e de manhã, na caixa do theatro, as librirthas a saltar ! iTo emtanto a resposta do Carneiro não vinha ! h.t•fhur começou a ter repentes agudos de susto. Se o tivesse fugido, ou fallido ? Se se recusasse a dar-lhe, contas Se fosse necessario um processo Santo Deus ! Ás horas em que o carteiro passava, PA.lpitações anciosas — e como não vinha carta, mal podia almoçar, com a garganta contrahida, o olhar vago, pensando que talvez fosse o seu ultü mo almoço com a Concha. Mandara mesmo um telegramma ao Carneiro—e uma manhã, mais inquieto, como um homem que prepara de ante mão a explicação d'uma desgraça provavel, confessou á Con.eha que estava á espera d'uns dinheiros que Ilão vinham ! Era o diabo ! Receava até que houvesse difficuldades com o correspon- dente . . . Ella acolheu a noticia com absoluta indifferenca. As suas maneiras tornavam-se singulares : andava muito nervosa : a janella parecia ser o centro da sua existencia s, chegava-se um momento á vau randa, voltava, esfregando as mãos, com a cabeça baixa, contrariada ; outras vezes, parecia debruçarse, tão radiosa, tão interessada, que Arthur, ao vêl-a, chegava-se com curiosidade ; mas não descobria nada : apenas, na varanda do quarto do hespanhol, uma cadeira vazia com um jornal dobrado em cima. Os segredinhos com a creada redobravam ; a Concha parecia adoral-a, não a podia dispensar, reclamando-a constantemente, enchendo-a de presentes, de fitas velhas, de botinas, de camisa,s já muito usadas ; e quando Arthur estranhava esta intimidade, ella respondia que uma mulher precisava de ter uma axniga para desabafar : não tinha outra á mão ; queria por ventura que uma senhora, fizesse amizade com a meretriz do primeiro andar Não — então caluda ! — E de que faliam vocês — De ti ! Mas apesar d'aquelle amor que Arthur julgava cada üa mais forte — era por vezes brusca com elle ; repellia-lhe enfastiada os abraços : uma mu lher, Dios miv, não podia estar sempre lambuzada pelas beijocas d'um marmanjo ! Ás vezes, á noite, ao deitarem-se, sob o pre texto d'algama enxaqueca, não consentia que Ar thtu; lhe tocasse, nem com a ponta da unha — deixando a paixão do auctor dos Esmaltes e Joias desapontada, como um cão a quem se retira uma febra. Outras vezes, vinham-lhe ardores subitos, a horas singulares, sem razão, Arthur explicava estas! mudanças ethnographicamente, pela sensibilidade muito refinada das raças andaluzas—- e cada dia a achava mais adoravel. Seria completamente feliz, se o Carneiro respondesse ! Por fim, o respeitavel Carneiro respondeu, n'uma larga folha de papel pautado, em que explicava a demora da remessa por uma jornada que fizera « á Invicta Cidade, onde o tinham chamado exigen« cias dos seus negocios, bem como levar ao Theatro de São João, a vêr uma peça lyrica, sua joven « Adelaide, que » Arthur, enfastiado, atirou a carta para o lado e releu com satisfação a letra de cambio sobre um negociante da Baixa. Não resistiu mesmo a communicar a sua alegria á Concha, e agitando a letra disse com um ar negligente, ricaço : — Dinheirinho fresco. Ah ! — fez ella seccamente. Aquellas indifferenças escadalisavam Arthur.n Não as comprehendia : quando elle, por ternura, para lhe dar todos os privilegios d'uma esposa, a queria fazer partilhar intimamente dos seus interesses, dos seus sentimentos, ennobrecendo assim aquella ligação, — ella retra,hia-se, repellia toda a communhão muito intima, evitando entrar nos seus planos e nos seus segredos, dando-lhe o seu corpo, mas reservando-se a alma e a vontade. Parecia querer conservar-se unicamente concubina. Arthur sentia alguma cousa de subtil errar entre elles, se paral-os ; as suas naturezas, como as suas epidermes, tocavam-se sem se penetrarem e Arthur, tendo uma mulher com quem comia, dormia e cohabitava, sentia comtudo, por vezes, uma dolorosa falta de sympathia, uma inactividade triste das suas faculdades affectivas. E para não se parecer a si mesmo inteiramente destituido de affeigões alheias, a sua alma refugiava-se na lembrança da tia Sabina, como um ser que procura um elemento proprio. Pensava mesmo em lhe escrever, quando, um dia, recebeu d'ella uma longa carta. Que boa gurpreza ! A letra era qüasi inintelligivel, mas por todas as folhas do papel errava um bom calor de amizade e os ganchos dos seus F F e dos seus T T eram como curvas d'abraços. Dizia : «Meu querido menino. Espero que esta te encontre bom, o que todos os dias peço a Nossa Senhora de toda a alma e acabo de saber pelo Vasco que mandaste ir um «ror de moedas, que até me parece peccado. Ora pois se tu soubesses o que nós aqui nos assusta mos, por te saber tão longe e talvez doente n'essa terra tão grande e sem os teus jantarinhos a horas, «e afflige-nos vêr que gastas tanto, o que custou a ganhar a teu padrinho, n'essa Babylonia sem reli gião. Eu não tenho passado bem, o que é a velhi ce ; é esta vida que não quer ir mais para deante « e assim quem sabe se te tornarei a vêr, e todos os « dias peço a Nossa Senhora que te guarde porque « o mereces. Dizem-me que até os papeis fallam em ti, o que me tem assustado, ainda que o Vasco « diz que os papeis fallam só de gente que é im- « portante e do Estado, O Albuquerquezinho vai « indo, graças a Deus, bem e já fez este mez doze « paciencias sobre quinze, o que e um bom mez. Adeus, meu filho, que Deus esteja comtigo no teu « coração. A tia recommenda-se e tem estado com «o seu defluxo. A Ruça anda-te a fazer ceroulas, « d'uma peçazinha de linho, que eli fiz d'economias, «e o bichano engasgou-se o que me deu cuidado, e «o inverno tem estado mau para, os velhos. Se pu- « deres voltar, vem, pois me diz o coração que Nossa « Senhora me chama e vou encontrar a paz da alma ( e os outros que já lá estão. O A.lbnquerqueziuho recommenda-se e é sempre o mesmo santo homem. Não deves abusar ahi das comidas, que me dizem « ser tão más. Adeus rneu filho, possas tu em todas « as tuas cousas ser tão feliz, como eu não fui, e « agora vejo que a morte vem perto e com um abragQ arrochado da tua tia que te quer « Sabina i. Arthur ficou @om a carta na mão, a alma longe : estava lá, na cazinha d'Oliveira d'Azemeis, tão socegada, tão doce uma boa restea de sol onde o bichano dormia estirava-se pela sala de jantar, o velho relogio batia o seu tic-ta,c, a tia Sabina fazia a sua meia ; ao meio-dia na torre, todos os gallos cantavam, e no silencio da Villa adormecida, uma nora ia chiando . . . A Concha fel-o levantar dos pés da cama onde ficara sentado, scismando : andava á procura d'uma liga, com os cabellos desfeitos, a cara pesada de somno ; saias enxovalhadas arrastavam pelas cadeiras um ar relentado amollentava ; no toucador, entre escovas pelladas, havia postiços de cabello, A Concha acordara mal humorada, e deante da sua physionomia desagradavel, Arthur pensava vagamente que para além d'aquelle quarto onde elle vivia n'uma concubinagem molle, havia ares lavados, campos frescos e existencias dignas em interiores asseados : desejou alguma cousa de mais ele vado, de mais puro . . . Melchior appareceu á porta e como a Concha se vestia, Arthur foi com elle para a saleta, levando ainda na mão a carta da tia Sabina. — Cartinha de casa ? — perguntou o jornalista. — Da minha tia — Com cheta ! — e os olhos de Melchior relu-l ziram. Arthur respondeu, córando : — Mandou algum dinheiro. —É cardava ! E é quantia grossa — Soffrivel. —É cardai-a ! cardal-a ! — repetin Melchior com enthusiasmo. — Fica por minha conta t — disse Arthur affec• tando um cynismo catita. D'ahi a dias, Arthur desceu á sala de jantar, a buscar charutos—uns certos Intimidades de Carvajaz, famosos no Hotel. Manuel mostrou-lhe a ultima caixa vazia : — Já vê usted . . . Arthur parecia contrariado: então o hespanhol bonito, que a uma mesa lia o seu jornal tomando café, ergueu-se muito affavelmente, e offereceu a sua charuteira : — Son eguaZes. Fume usted. Arthur agradeceu, embaraçado. Mas o hespanhol insistia com expansão e Arthur, depois d'acceitar um charuto, embrulhava-se n'uma phrase hespanhola, quando o emigrado, sorrindo, lhe disse que podia fallar portuguez : elle comprehendia-o, até o hablaca ; de resto os dous idiomas eram tão parecidos eram como um só povo, porque espahotes y portugueses son hermanos ! . . . Arthur, contente de se poder exprimir em portuguez —a necessidade de fallar hespanhol torturava-o—e querendo ser amavel, perguntou-lhe se estava ha muito em Lisboa. Havia quatro mezes. E com loquacidade familiar disse que era um republicano federal. que se batera nas barricadas de Cadiz e estava condemnado á morte. Um destino tão pathetico impressionou Arthur. O rapazola pareceu-lhe grande como Danton; e por uma necessidade subita e inatinctiva de lhe canalisar as sympathias, decla?ou-se tambem republicano, fallou vagamente no Club Democratico, disse-se enthusiasta de Castellar. Tinha acceitado um café e ambos á mesa, soprando o fumo dos cha rutos, penetravam-se d'uma sympathia commum. O emigxado tinha uma voz vibrante e calida. A vivacidade andaluza dava aos seus gestos, á expressão da sua physionomia mobil, uma, seduc,çño singular. Parecia conhecer Arthur de ha muitos annos : fez-lhe logo confidencias politicas, deblaterou contra os Bourbons, prophetisou a republica universal e chamou a Victor Hugo um Deus, tratando Arthur por hijo mio. Arthur surprehendia-se d 'encontrar idéas litte rarias e sociaes, que julgava admiraveis por condizerem com as suas, n'um rapazola que tinha o ar, os modos, d'um chuto de raparigas. E fallou então com enthusiasmo da Hespanha, do paiz de Cervantes, grande raça . . . O hespanhol electrisou-se, jurou-lhe que nunca encontrara um portuguez que estimasse tanto ; e para celebrar um pacto d'amizade ao antigo modo andaluz, mandou buscar ao quarto uma garrafa de manzanilla especial . . . «um licor divino ». Beberam, apertaram-se as mãos. Ar thur achou o vinho delicioso e o hespanhol cantou com cerce a aria de Robinson Pero el Xerez Dá fuerza al hombre, fuego a muja . Convidou Arthur a vir a Cadiz : queria-lhe mos trar os sitios onde se batera e onde os federaes tinham feito proezas. Havia de vêr o seu amigo Salvochea, um heroe ! De resto, esperava a amnistia e lamentava deixar Portugal : era um paiz que admirava pela sua liberdade d'imprensa e pela belleza das portuguezas ! E a proposito, como lembrando-se de repente, perguntou-lhe quem era aquella rapariga com quem estava. —É a minha pequena — disse Arthur, córando um pouco. O outro bocejou, repoltreou-se na cadeira, disse negligentemente que a sua querida tinha ficado em Sevilha . . De resto, presentemente, a politica de via prevalecer sobre o sentimento : quando o povo soffre não se póde pensar em prazeres ! A sua querida, agora, era a Patria ! Obrigou-o a acceitar outro charuto e dizendo que ia escrever a sua correspondencia, sahiu assobiando a Marselheza ! Arthur galgou a e:cada para ir contar á Concha o conhecimento que fizera, feliz em mostrar a sympathia que inspirara a um hespanhol tão bonito e tão illustre. A Concha fez-se escarlate, deu duas voltas pelo quarto @om a cabeça baixa, contemplando o bico das botinas, foi arramar as escovas sobre o toucador, um pouco tremula, e por fim disse com uma voz ambigua — que achava cara de mau ao seu patricio, « su paisano». Mas de repente, acommettida d'uma jovialidade brusca, arrebatou Arthur pela cinta e fel-o rodar n'uma valsa. D'ahi a pouco, o creado entrava corn uma caixa de charutos Intimidades ; era um presente do hespanhol, que mandava o seu cartão de visita : D. MANUEL MANHIQUE ROJAS Y CUEVAS Arthur ficou muito lisonjeado e a C0i)cha declaroa, com a auctoridade d'uma mulher experiente da sociedade, que era necessario convidal-o a jantar. Arthur admirou um tacto tão fino e á tardinha, quando a Con.cha, muito vestida, toda perfumada, se ia sentar á mesa enfastiada d 'esperar, Arthur, que desde as quatro horas sahira, appareceu trazendo pelo braço D. Manuel Manrique ; ella fez-se muito vermelha, o seio arfou-lhe e baixando as palpebras, curvou-se n'um cumprimento digno. O jantar foi muito alegre. D. Manuel interessou profundamente Arthur. Fel-o rir, contando episodios picarescos da sua fuga para Portugal, com quatro duros na algibeira ; enthusiasmou-o pelas viagens, descrevendo-lhe a Havana, os cafesaes, as florestas tropicaes, as danças dos negros e os profundos céus abrazados ; exaltou-o pelos romantismos da guerra civil, explicando a defeza heroica das barricadas na Cal.le da Aduana, em Cadiz, e espantou-o pela grandeza dos seus planos politicos, fazendo-lhe antevêr uma grande federação das republicas latinas, em opposigão aos despotismos saxonicos e 81avos. E ia declamar contra o papado e contra a Egreja, n'um furor d'impiedade democratica, quando a Concha, muito devota, fez um gesto escandalizado. D. Manuel immediatamente se re tractou, e mesmo disse : — Pero nada se hace sin Za cotuntad de Dios ! Aquillo pareceu a Arthur de muito bom gosto, d'uma alta cortezia, e, electrisado, deu-lhe sem reaerva a sua amizade. Fallaram então de Lisboa, de Madrid, de theatros, e bebiam fraternalmente —— quando Melchior abriu de rompante a porta. Ao vêr o hespanhol confortavelmente installado no seu logar habitual, teve uma expressão tão desaponta da, que a Concha deu uma risada : — E8 Melchior, el pobre ! Mas logo apresen- tou-o com gravidade ao emigrado. Melchior arrastou devagar uma cadeira, recebeu com um ar soturno um calice de curaçao e ficou embezerrado, mudo, torcendo o bigode com os dedos tremulos, deitando olhares ferozes a Arthur, á Concha e ao hespanhol. Emfim, não se contendo, ergueu-se, chamou Arthur para o quarto de cama e cruzando desespera• damente os braços, n'urna voz estrangulada, disse : — Então que significa o bebado do hespauhol mettido aqui de casa e pucarilho ? Arthur explicou o encontro, a offerta do charutos, elogiou o hespanhol : era um rapaz de grande talento, iinha ido á Havana, Ao diabo que o carregue ! Falle baixo, homem ! —- fez Arthur inquieto, indo fechar a porta do quarto. — Qual baixo ! É um bebado ! Olha que brincadeira ! Estavamos aqni todos tres como Deus com os anjos . . . Está tudo estragado agora ! Eu por mim, não torno aqui a pôr os pés A colera eriçava-lhe os pellos do bigode. Arthur tentava calmai-o : o D. Manuel parecia-lhe urna pessoa fina . . . — Você verá ! Espere-lhe pela volta ! — Mas porquê, que diabo ? Melchior hesitou, parecia querer soltar uma rovelação, mas depois d'encolher desesperadamente os hombros : —A culpa é do governo ! Canalhas d'hespanhoes ! Eu, é gente que odeio — E lançou-se em violentas declamaçoes patrioticas : a Uniõo Iberica era a infamia das infamias ! Mas que se livrasse um hespanhol de se lhe. atravessar no caminho Bebia-lhe o Bangue ! Positivamente, bebia-lhe o sangue ! Uma risada muito alta, muito calida, da Concha, dentT0, na saleta, interrompeu-o, immobilisou-o : olhou Arthur dos pés á cabeça com odio, com desprezo—e atirando o chapéu para a nuca, rompeu pelo corredor, blasphemando. Quando Arthur voltou á saleta, a contar que Melchior abalara, achou a Concha muito animada, com uma côr radiosa nas faces : nunca a vira tão bonita ; tinha descoberto que D. Manuel era ainda seu parente e diziam-se já com familiaridade : Conchita, Manolo ! O emigrado tornou-se intimo d 'elles. A Concha não quizera voltar á mesa não comer ao pé da (indecente do primeiro andar»—e quando Manolo não vinha jantar com elles, appa,recia á sobremesa para tomar o café e fumar um puro. Arthur cada dia o estimava mais : a sua alegria petulante seduzia-o ; os seus serviços á republica inspiravamlhe respeito ; gostava das discussões politicas, com o copinho de curaçao defronte. talhando e retalhando a Europa, geaundo planos vagos d'uma democracia universal ; e tinha momentos deliciosos, ouvindo-o contar anecdotas da revoluç¿o de 68, cantar cançonetas politicas ou fazer gemer na guitarra as segliidilhas d'Andaluzia. Tinha toda a sorte d'habilidades : fazia caricaturas com um phosphoro apagado sobre um prato, sabia necromancia, jogava a espada — e dava mesmo liçõcs a Arthur, no seu proprio quarto, onde lhe fazia admirar retratos de republicanos illustres que conhecera e d'actrizos que tinham sido sus queridas. Com a Concha, era d'uma familiaridade fraternal mas discreta, com tons de respeito ; divertia-a muito, tirando-lhe as cartas, lendo-lhe a buena-dicha, com prophecias complicadas, em que os destinos d'ella e d'Arthur appareciam sempre unidos, escorrendo de felicidades, como taças muito cheias. Melchior, durante os primeiros dias, não voltara. Mas uma tarde, Arthur entrando no qua,Tto ás quatro horas, achou-o installado ao pé da Concha, retorcendo com satisfação o bigode : tinha feito as pazes com a pequena, Mostrou-se n'essa noite mais conciliador com o hespanhol, a ponto de so declarar, elle tambem, republicano e mesmo acceitou com prazer um convite que o emigrado lhe fez para um jantar que dava «a Conchita y az amigo Arturo Foi uma festa muito alegre. Á sobremesa, na excitacão do Champagne, juraram estimar-se sempre e formarem uma sociedade de pandega : Arthur, Concha (t C.a ! Arthur perdera inteiramente o vago ciume que ao principio lhe inspirara D. Manolo ; de certo a Concha era muito affavel com eJle, quasi carinhosa, mas só via n'aqnelle sentimento uma amizade de compatriotas que s'encontrarn n 'uma estranha e a affeição de parente2 remotos. Além d'isso, a Concha, a sós com elle, nas conversas intimas do leito, tinha-lhe confessado por vezes que gostava do Manolo, mas que desconfiava d'elle : achava-lhe « cara de mau ; perguntara-lhe mesmo se sabia (Iliem era a querida d'elle. Já varias vezes, deanto d' Arthur, ella perguntara a Manolo «quien eran sus amores» ; o Manolo torcia o buço n'um silencio discreto e instado terminava por dizer com emphase — que a sua querida era a Patria ! De resto a Concha affirmava que o Manolo, al)ezn,}' de bonito, não era um typo para mulheres : muito effeminad.o, muito maricas ! Por seu lado Manolo, na intimidade, a sós com Arthur, confessara-lhe, como forçado pela verdade e lamentando a franqueza, que a Concha lhe não parecia bonita ; não era feia, sim, mas havia d'elle vêr as mulheres de Cadiz ! Havia d'elle vêr a sua pequena, a que estava em Sevilha ! Isso sim ! A Concha . E Arthur vivia tranquillc. Deixava-os sós por vezes e quasi se escandalisava do gesto iudifferente, seccado que tinha a Concha, quando ás vezes, de manhã, Manolo lhe mandava um ramo de camelias. — Mas é muito amavel da Tarte d'elle, filha ! É muito delicado ! Deves gostar I — No me gusta, no me gusta — dizia ella, voltando as costas com o ramo na mão e cobrindo as flôres com um olhar dôce como um beijo, O que de novo preoccupava seriamente Arthur era o dinheiro. Desde a intimidade com o Manolo, as desvezas cresciam. O republicano tinha todos os dias uma idéa cara : irem a Queluz, tomarem uma quarta ordem em S. Carlos, uma ceia na Ponte d'Algés, e com as contas do Hotel, as tipoias, as luvas, os charutos, tinha dias de duas, tres libras ! Mas não podia modificar a, sua existencia. Era cheia de tantas doçuras ! A Concha que perdera agora todos os seus « nervos », andava muito egual, muito amorosa. O emigrado e Melchior constituiam a Arthur uma pequena Côrte : gostava de os vêr á 8ua mesa, bebendo-lhe o seu Cognac, cortejando-lhe a sua amante. Deleitava-se em lhes dar o espectaculo dos seus amores : beijocava a Concha deante d'elles—o que produzia em Melchior a immediata necessidade de se levantar, de puxar as calças com maus modos, e no hespanhol, a de cofiar o buço, com as suas Delas pestanas descidas : até que a Concha, um dia, lhe declarou que era faltar-lhe ao respeito, abraçai-a e fazer pieguices deante de gente. De resto, Manolo punha cuidados delicados •isonjear Arthur : recebera, comino vido, a offerta dos Esmaltes e Joiag e dera-se trabalho de de- corar algumas estrophes da Ode á Liberdade. Pro mettera-lhe traduzir todo o volume para um joreal republicano de Marcia e dizia-lhe, á mesa: com arrebatamento : —- Don Arturo, es usted et primer poeta del siglo ! Es usted Hugo ! Es usted un Dante ! E assim, com um amigo que o comprehelldia üo bem, uma amante que lhe queria tanto, 0 otor dos Esmaltes e Joias tinha dias em que an dava inchado de gozo, Se nao tosse o dinheiro ! O maldito dinheiro ! . A resposta do emprezario no emtanto tardava e Arthur instava com Melchior para que voltasse a fallar-lhe, o apertasse. Que diabo, a cousa urgia ! E havia agora na sua impaciencia, nao só a necessidade de recursos, mas o desejo de deslumbrar o hespanhol com o espectaculo d'uma l)laléa: arreba tada. Melchior, complacente, fôra ao emprezario que se declarara, « occupadissimo, menino, occupa• dissimo » e pedia mais quinze dias ! Mas a cousa havia de ir, a cousa havia de ir ! Porém Melchior v andava de novo desconjiaao com o h6panhol : Ir:itava-o sobretudo o saber que a Concha retomara o habito de sahir de manhã, duas, tres vezes por semana. Ora ia vêr a Paca estava muito doente, ora, á modista, ora apeD08 dar un passeito. Col'.su.rou Arthur por consentir n%a.qüel - -Iag passeabas. —A rapariga não ha-de estar aqui como n'um convento dizia .A rthur; E accrescenlava, girando com fatuidade sobre os calcan hares : — Estou tão certo d'ella como de mim mesmo ! Melchior deixava-lhe cahir sobro as costas um olhar rancaoroso, cheio d'um desprezo immeuso, Não podia, por vezes, disfarçar ataques subitos d'odio pelo emigrado. De repente, sem razão, embezerrava. A Concha percebia, vinha gracejar com elle, perguntar-lhe o que tinha su abc¿elito, se estava zangado com su uietita, retorcia-lhe o bigode, sentava-se-lhe mesmo nos joelhos, rindo, puland.o, emquanto Manolo, muito serio, harpejava os bor(Iões da guitarra ou jogava com Arthur o écarté a dous tostões. Melchior, ordinariamente, acalmava-se, mas, só com Arthur, desabafava : não podia tragar o Manolo ! Não podia ! Um dia quebrava a cara ao Manolo . . . — Mas porquê, Melchior Melchior calava-se e d'ahi a pouco rosnava : — O governo é que tem a culpa ; consentir n'esta sucia de foragidos ! Arthur espantava-se d'um patriotismo tão fanatico, tão intolerante. Era necessario tambem não ser caturra, que diabo ! Os hespanhoes _eram uma raça nobre . . . — Uma corja ! — rugia Melchior. E dando passadas pelo quarto, sondava com mãos nervcosas as algibeiras, como para procurar uma arma : — Um dia rasgo entranhas a um castelhano . E uma oceasião, njãD se contendo, disse a Arthur n'uma explosão : — Pois você não vê como ella fa.z olho ao Manolo Arthur riu. Ora, storias ! Mas aquella palavra, com a lentidão d'uníll veneno absorvido, começou a espalhar-lhe no oangue um ciume crescente. Observou-os aos douys. Porém, via-os tão naturaes, tão francos, tão camgradas, tão innocentes!... Pensou que disfarçavan:n » e suspeitou das sahidas da Concha. Um dia que ouvira dizer que ia a casa da Paca, seguiu-a de longe, cosido com as fachadas. Que, allivio quando é, viu entrar, com effeito, no portal de Paca ! Jurou a si mesmo, n'um elanee. de yeconhecimento, mais para a compensar da injusta suspeita com que a offendera. Mas depois reflectiu que no pred;r» da Paca havia mais andares. ou ainda que a. cancha poderia ter sahido por uma porta Vaidoso, irritou-se de ter sido simplorio e quasi deÉ#j0U que ella fosse culpada. Assim, certa Elanhñ qlle a sabia lá, seguiu-a e foi tocar á campainha. Per,tuntou pela señorita Concha : esperou dez minutos viu-a apparecer de chapéu, as faces em braza, os Olhos brilhantes. Que era ? Porque tinha vmdo Elle riu : passara nor alli, lenibrara-se de a vir buscar. Mas em casa, de repente, pergun tou-lhe quasi com severidade, porque lhe apparecera ella tão vermelha ? Em logar de se escandalisar com aquella pergunta repassada de desconfiança, con tou-lhe que assistira a uma scena ! Ah ! A Paca que se julgava perdida, a chorar ! O querido a cho rar ! O pequeno a chorar ! Um horror ! Mas Arthur não estava tranquillo. Tinha a sensacão vaga de que ella « se lhe ia escapando b. Sentia-a menos sua. E aquella incerteza exaltava o seu amor. Tinha um desejo pungente de lhe saber os pensamentos. Desconfiava de tudo, do Manuel, da creada sobretudo — e sentia uma contrariedade amarga quando via entrar o Manolo. Os serões eram menos alegres havia silencios embaraçados, e o emigrado, para os preencher, tinha d'esgotar o seu repertorio de malagueñas, que a Concha escutava sorumb atica, com os braços cruzados, erguendo ás vezes para elle ou para Arthur o seu olhar muito brilhante. Uma manhã, ouvindo-lhe dizer que ia á Paca, Arthur declarou gue estava incommodado, que não sahia, que desejava que ella lhe fizesse companhia. Ella atirou logo para uma cadeira o vestido que ia pôr e veio interrogal-o muito ternamente : o que lhe doia queria deitar-se — Estou exquisito, passa logo — respondeu Arthur, muito satisfeito da promptidão com que ella desistira do passeio » e vendo na sua solicitude a persistencia do seu amor. Estava-se então proximo do Entrudo. N'essa semana, por duas ou tres vezes já, Arthur impedira-a habilmente de sahir ; ella não parecera contrariada, sómente tinha tristezas, monices », dizia-se nervosa, queixava-se d'enxaquecas. Na sexta-feira — antes do Domingo Gordo — Arthur, voltando ás duas horas da redacção do Seculo, encontrou-a de chapéu, pondo o véu ao espelho. Ia á Paca. — Ora, deixa lá a Paca ! — Mas preciso tambem de ir á modista . . . — Ora, deixa-te de modistas ! Esperava uma « scena» e ficou admirado, vendo-a tirar sem uma palavra o chapéu, o véu, o vestido, agarrar n'um lenço que andava a embainhar havia mez e meio. e ir sentar-se, .com um suspiro, á janella. Arthur, despeitado d'aquella resignação muda, agarrou n'um livro, estendeu-se em cima da cama. E o silencio que se cavou entre elles pareceulhe triste e escuro como uma separação. Manolo devia vir jantar n'essa noite, mas ás tres horas o Manuel veio dizer que o snr. Manrique pedia desculpa, mas que, tendo-lhe e,hegado um parente de Badajoz, só poderia apparecer á sobremesa. A Concha não se moveu, cosendo devagar, lugubremente, e no silencio do quarto só se ouvia, subtilmente, voltarem-se as folhas do livro. O jal\tar foi triste. A Concha, com duas rosetas vermelhas no rosto, não comia ; Arthur, a quem aquelle silencio infeliz, aquelle fastio desconsolado, exaltavam o ciume, petrificava-se com desespero na sua mudez, o cerebro cheio de phrases, de recriminações, de palavras eommovidas, que a sua lin• gua, d'um peso de chumbo, se recusava a pronun ciar. A sobremesa passou, e Manolo não veio. Em logar d'elle foi Melchior quem appareceu ao café, e, com um rosto satisfeito, disse logo abru ptamente que ao entrar na sala de jantar, vira o Manolo com a Mercedes, unha e carne com ella, muito chegadinhos— e o pobre calvo a babar-se ao lado, o asno ! A Concha fez-se pallida, depois escarlate. E subitamente, tornou-se muito amavel com o Melehior : fel-o sentar ao pé d'ella, muito juntinhos queimou-lhe ella mesmo o café, desmanchou-lhe o cabelIo, occupando-se d'elle. palrando alto, sem um olhar, uma palavra para Arthur. — Vocês estão amuados ? — perguntou Melchior com o rosto tumido de prazer. Arthur teve um sorriso amargo : — Tem estado com os nervos, a menina. Mas a Concha ergueu-se bruscam ente, entron no quarto fechando a porta sobre si e sentiram-na no corredor gritar pela creada. — Que diabo tem ella ? — perguntou Melchior, sorvendo placidamente o seu café. Arthur teve uma tentação de desabafar, contar as suas suspeitas ; mas, vaidoso, não querendo dar a Melchior o gostinho de vêr justificadas as suas desconfiançasI — encolheu os hombros, disse : — Eu sei lá ! Mulheres ! Melchior deu-lhe de lado um olhar apiedado e desdenhoso e pareceu sorver com delicia a ultima gota da chicara. Mas a Concha voltara, com os olhos muito brilhantes, um pouco vermelha, toda coberta de pó d'arroz. Trazia uma excitação artificial, hysterioa, : deelarou que se achava disnosta a tudo ! Quiz tocar o fado — mas atirou com tedio a guitarra ; deu lun pulo para os joeihos de Melchior, ergueu-se, valsou só pela saleta e foi necessario que lhe arrancassem a garrafa de cognac, porque a queria beber d'um trago. Continuava a não fallar a Arthur, nem o olhava ; perguntou mesmo a Melchior se queria ir só com ella dar um passeio a Belem — mas só com ella, 10s dos, como dos noci,os ! E Melchior ria, todo banhado de gozo. — Vá — disse com bonhomia — vá, faga as paI zes com o seu marido ! Ella encolhen os hombros com um despreza soa berano e estendeu os a Melchior para uma valsa. trauteando, volteavatn pela sala, pulando, tropeçando nas cadeiras, abalando o soalho com risadas sonoras, n'um grande arranque de troca ; desappareceram mesmo um momento no quarto ás escuras— e Arthur, furioso, ouvia a Concha rir, com rizinhos calidos de cocemns. -Não se ermlera da mesa, fumando, n 'um desespero lugub ne, com lagrizcas na Quando ella voltou á sala, compondo o cabello, seguida de Melchior que torcia o bigode, o Manuel levantava a mesa. — Va decir at snr, Manrique, abajo, que te esperamos — disse ella. — Listo ! O Manuel voltou d'ahi a momentos : — Diz que não póde vir. Estava no quarto da Mercedes, em grande pandega . . . Toda a animação da Concha murchou, como depois d'uma rajada uma bandeira cahindo ao comprido do mastro. Deu duas voltas pela saleta e foi para o quarto, ás escuras. Foram encontral-a, d'ahi a pouco, enroscada em cima da cama, dobrada sobre si mesma, n'uma immobilidade hostil. Respondeu bruscamente que tinha (lêyes de cabeça, febre. Para a distrahir, Melchior quiz tocar um fado : ella gritou-lhe que se calasse ! E como Arthur, julgando-a doente, a interrwava com um carinho que imploquarto fechando a porta sobre si e sentiram-na no corredor gritar pela creada. — Que diabo tem ella ? — perguntou Melchior, sorvendo placidamente o scu café. Arthur teve uma tentação de desabafar, contar as suas suspeitas ; mas, vaidoso, não querendo dar a Melchior o gostinho» de vêr justificadas as su.as desconfianças — encolheu os hombros, disse : — Eu sei lá ! Mulheres ! Melchior deu-lhe de lado um olhar apiedado e deqdenhoso e pareceu sorver com delicia a ultima gota da chicara. Mas a Concha voltara, com os olhos muito bri. lhantes, um pouco vermelha, toda coberta de pó d'arroz. Trazia uma excitação artificial, hysterica : declarou que se achava disoosta a tudo ! Quiz tocar o fado — mas atirou com tedio a guitarra ; deu um pulo para os joelhos de Melchior, ergueu-se, valsou só pela saleta e foi necessario que lhe arrancassem a garrafa de cognac, porque a queria beber d'um trago. Continuava a não fallar a Arthur, nem o olhava ; perguntou mesmo a Melchior se queria ir só com ella dar um passeio a Belem — mas só com ella, 10s dos, como dos nocios ! E Melchior ria, todo banhado dc gozo. — Vá — disse com bonhomia — vá, faga ag pa zes com o seu marido I Ella encolheu os ornbrog com um desprezo goa berano e estendeu os braços a Melchior para uma valsa. E trauteando, volteavam pela sala, pulando, tropeçando nas cadeiras, abalando o soalho com risadas sonoras, n'um grande arranque de troca ; desappareceram mesmo um momento no quarto ás escuras —e Arthur, furioso, ouvia a Concha ril', com rizinhos calidos de N õ" se er ff llera da mesa, fumando, n 'um desespero luguh no, com lagritcas na gyarganta. Quando ella voltou á snla, compondo o cabello, seguida de Melchior que torcia o bigode, o Manuel levantava a mesa. — Va decir at snr, Manrique, abajo, que te espe ramos — disse ella. — Listo ! O Manuel voltou d'ahi a momentos : — Diz que não póde vir. Estava no quarto da Mercedes, em grande pandega . . Toda a animação da Concha murchou, como depois d'uma rajada uma bandeira cahindo ao comprido do mastro. Deu duas voltas pela saleta e foi para o quarto, ás escuras. Foram encontral-a, d'ahi a pouco, enroscada em cima da cama, dobrada sobre si mesma, n'uma immobilidade hostil. Respondeu bruscamente que tinha dêyes de cabeça, febre. Para a distrahir, Melchior quiz tocar um fado : ella gritou-lhe que se calasse ! E como Arthur, julgando-a doente, a interrogava com um carinho que implorava reconciliação, enfureceu-se : nem podia uma pobrc de Christo estar doente sem ser ma,rty• risada ! Irra ! E como Arthur insistia, e o Melchior se agitava reclor do leito, pulou para o chão, e com uma força nervosa extraordinaria, empurrou-os para a saleta, furiosa, ás punhadas, batendo-.lhes com a porta nas costas. —É deixal-a ! É deixai-a ! — disse Arthur — está douda Fizera-se pallido, receando um escandalo. Àf•as que diabo tem ella — perguntou Melehiorq que de mãos nos bolsos, passeava cabisbaixo, com o rosto carregado. Ouviram então a Concha berrar de novo no cor redor pela creada e apenas a moça subiu, fechar-se no quarto com ella, dando á chave uma volta co ; erica. — Que pouca vergonha ! — fez Melchior Aqui ha marosca. — Estava de pé diante d'Arthur, fuzilavam-lhe os olhos, Arthur não respondia. Erguera-se e passeava melancolicamente, accendendo cigarros que logo arremessava, indo encostar-se á vidraça, a olhar a noite escura, sentindo vagamente, no fundo de toda aquella colera, o Manolo. De certo, impedindo-a de sahir, contrariara um rendez-vous : o Manolo despeitado, para lhe fazer ferro, decidira-se a passar a goirée com a Mercedes, de patuscada ; e, ciumenta,a Concha delirava ! É o que era ! Mas então recordava todas aquellü< s n manas d'amor, o fogo dos seus beijos, os seus juramentos balbuciados na voluptuosidade e mesmo a indifforença que ella rnostrara outras vezes, quando, habilmente, e}l o transtornara outros rendez-vous. E podia duvida? do seu amo? ? A sua vaidade accumulava-lhe provas, como um pedreiro diligente que acarreta pedra*; para —e a certeza do amor d'ella ia-se erguendo, indestructjvel, solida, massiça. Preferia attribuir aquella « scena » aos nervos, ao terapo, aos humores. De vez em quando, ia escutar á porta do quaxto : sentia as vozes das duas mulheres cochichar ; pop fim dee;kdiu-se a bater devagarinho A Concha gritou que não abria. — Oh, que desavergonhada ! — fez Melchior, E então. censurou verbosarnente a debilidade d'Arthur. Se fosse com elle ! Oh, se fosse com elle ! Tinha-lhe quebrado já uma bengala nas costas ! E expôz a theo.ri'a « que as hespanholas só á pancada 9. De resto gostavam de levar ! Até se apaixonavam ! Citou exemplos. aneedotas. Um amigo d'elle, desde que dera uma coça na Lola, trazia-a como um cordeiro e babada por elle. — Raparigas d'etta vida, é á bordoada ! Eu é quo sei lidar com ellas — Chame-a você, falle-lhe você ! — disse Arthur, muito desconsolado. Arthur, furioso, atirou um ponta-pé á porta que fez tremer a fechadura, E de aubito a porta abriuse, a Concha appareceu, em camisa, e, bruscamente, atirou-lhe uma bofetada que o fez cambalear. Melchior precipitara-se, mas a porta fôra rapidamente fechada. Dentro, a Concha gritava ; frascos partiam-se contra o chão, cadeiras arremessadas batiam contra as paredes e a voz affiicta da creada dizia, quasi chorosa : — Então, hija ! Então, hiia ! Por Dios Arthur, com a cara marcada, os olhos vermelhos como brazas, ficara no meio da sala, petrificado. E Melchior, com medo da policia, d'escandalos, d'aqui-d'el-reis á janella, calmara subitamente muito pallido. Disse mesmo, agarrando o chapéu — Meu rico, eu safo-me, que não estou para me metter em alhadas ! Mas, a instancias d'Arthur, ficou. E ambos sentados á mesa, com a garrafa de cognac no meio, fizeram até alta noite grogs frios, fumando, cabisbai- xos. — Raio de mulheres I — dizia Melchior de vez em quando. — Um desgosto assim ! — murmurava Arthur. E recahiam n'um silencio triste. No emtanto, a creada — que tres ou quatro vezes, pela porta do corredor, fôra abaixo e voltara, parecendo levar e trazer recados — veio, quasi de madrugada dizer-lhes, pé ante pé, que a pobrecita tinha adormecido.tarde, Melchior ficou no Hotel, e Ar rn-:lo, commovido, entrou no quarto. A Con -acolhida na roupa, resonava devagarinho. despiu-se sem ruido, escorregou entre os lenqoes, pondo-lhe um beijo cauteloso no braço Acordou d'ahi a pouco — já o dia entrava pelas frinchas da janella — ouvindo um rumor no quarto : a Concha, a pé, abria a porta da saleta. Que e': 2 — disse elle, estremunhado. Vou buscar agua, estou a arder. Arthur, prostrado das emoções, dos cansaços da noite, acconnuodou-se na roupa e adormeceu profun- I damente. Quando acordou—deviam ser dez horas—estava só na cama. Pulou para o chão, abriu a janella ao sol magnifico d'um dia adoravel. A porta da saleta estava aberta. Viu logo o chambre d'ella cahido no soalho, as chinelas, uma caixa de chapéus aberta ! Que era Onde ? campainha, a oreada veio correndo e immediatcl)ic começou, com grandes gestos, a dizer que não sabia nada, que não tinha visto a seE*nora, r:ue não se queria metter em questões ! aterrado, passou um jaquetão, correu ao quarto do Melchior. Ao ouvir, estremunhado, « que a Concha sahira i), sentou-se d'um pulo na cama : — Chame o Manuel ! O creado veio, fumando o seu cigarro, com a cabeça baixa, o olhinho malicioso, coçando os cabellos por traz da orelha. — Onde está a senhora . — gritou Melchior. O Manuel olhou para um, depois para o outro, e com as mãos na cinta, a barriga para diante, o cigarro na bocca, o olho meio fechado ao fumo : — Então ustedes não sabem ? — O quê, homem ? O Manitel tirou o cigarro e torceu-se devagar n'uma risada interior, muda. — Acaba, carrasco ! — berrou Melchior, com uma punhada no enxergão. — Pirou-se ! —- fez o outro, com uma voz muito aguda de gozo. — Com o Manolo ? — exclamou Melchior, suffocado, de joelhos na cama, os olhos esgazeados. — Pois já usted vê — disse o creaclo, como-achando perfeitamente logico. Melchior voltou-se para Arthur que se fizera muito branco e com uma expressão de desprezo, de furor, atirando-lhe as palavras como escarros : — Sua besta ! Sua besta ! — Mas então—balbuciou Arthur—mas então . . . O Manuel chegou-se para a cama e com sua voz arrastada : — Pois o Manolo e a Conchita estavam juntos Para se consolarem, n'essa noite, foram jantar ao Hotel Central : estavam taciturnos. Arthur mal comia e pareceu-lhe mcsmo um espectaculo grosseiro e indigno da sua melancolia, o deleite muito ex pansivo com que Melchior devorou, repetiu o Jambon d' Yopk atvx épinard8, E todavia Melchior estivera lugubre toda a tarde na redacção, soltando de vez em quando suspiros estrondosos que diver tiam o Esteves, e nio poderu produzir uma só local, apesar d'esforços de parturiente : de facto, o Jambon d' York era a sua, primeira consolação n'esse dia. E limpando os beiços, murmurou ao ouvido d 'Arthur : Parece-me que merecemos tuna garrafinha de Bourgogne, Arthur consenffu gom um gesto indifferente. Parecia-lhe que uma nevoa imponderavel, parda e funeraria cobria as cousas e as physionomias, e A 'uma grande lassidão do cerebro, via constantemente diante de si formas fragmentadas da Concha ou tos pertencentes á Concha ou sitios e sitiAgões, que atravessara com ella. Era u-m trabalho de reminiscencia saudosa, em que procurava reviver aàS alegrias que perdera ; tinha nos membros molleaas de noites mal dormidas e na alma uma sensafto de vexame ; vinham-lhe de repente, como faiscas, odios sanguinarios ao Manolo. Os seus vagos suspiros reprimidos tinhA.m já feito voltar a cabeça a um allemão, de pinc,Rnez e barbas doutoraes, que, ao seu lado, uma banana com methodo. Como a noite estava de luar, sahirar-h de_ pois do café : seguiram, sem destino, ao longo do Aterro. — E ámanhã é Domingo Gordo • • — nosnou Melchior com um furor sombrio. —Domingo Gordo. , . — murmurou Arthur com tristeza. Outros Entrudos antigos, em Coimbra passaram-lhe na memoria, tão alegres, com as taines da Sophia, cheias de batinas d'onde sahem de os esguichos d'uma grande seringa de latão ! os guinchos divertidos, as luc,tas d'ovos, as (JitaQrilhas {noite no theatro D. Luiz, e os grogs, as felicidades ! . , . Esperava tanto divertir-se, aquelle Entrudo, com a Concha ! . , . — Uma partida assim . — murmurou. Immediatamente Melchior enfureceu-se. E de quem era a culpa ? P 'ra que tinha mettido o hespanhol de portas a dentro ? — Quem podia adivinhar ! — Quem podia adivinhar ? — exclamou Melchior com tanta ira que Arthur recuou, temendo uma violencia : — Bastava ter olhos ! P 'ra que estava o desavergonhado do andaluz sempre mettido no quarto ? Mas você, com a sua boa-fé d'Oliveira d'Azemeis ! É necessario conheca Lisboa ! É necessario ter olho ! — E repuxando com um dedo a pelle da face, esgazeava a orbita, junto á cara d'Arthur, d'um modo medonho. Rompeu então em improperios contra a Concha. Era uma bebeda ! Tinha os vicios mais nojentos. Cada palavra que dizia era uma mentira vil. Pre gava d'aquelles calotes a toda a gente. Era baixa de natureza, Fazia-se passar pela filha d'um negociante . . . Não estava mnu, o negociante ! O pae era um trapeiro de Madrid, e ella fôra, desde os doze annos, das que andam pela Puerta del Sol a charnar os soldados para o vão nas portas ! E tinha dado uma doença asquerosa ao Conde de Villa-Rica, pobre velho ! Arthur revoltou-se. Era mentira ! Melchior escandalisou-se : fez revelações, citou nomes, datas, sitios ; e como um homem que vê sobrenadar sujidades nas aguas d'um enxurro, Arthur viu passar na verbosidade do localista todas as infamias da Concha. Parecia-lhe incrivel ! — Porque me não disse você — Eu não sou accusa-Christos , E então injuriou o Manolo : se o tivesse alli, fazia-o em pedacinhos ! E como o Bourgogne lhe exaltara a loquacidade, atirando o chapéu p'ra nuca, estendeu o seu odio pelo hespanhol a toda a Hespanha ; cobriu de vituperios essa nação illustre — que era um covil de pulhas ! Bastava só olhar-lhes !para as finanças, os caloteiros ! E a administração ? Uma ladroeira ! E o exercito ? Uma cobardia indo cente ! E ainda se falava em União-lborica ! Que viessem para ello ! Calou-se um momento e brandindo a bengala para o céu : — Ah ! so eu torno a acreditar em mulheres ! Arthur ficou petrificado. Que lhe tinha ella promettido ou jurado, então o? E viu de repente na e,o• lera do Melchior, não o interesse do amigo, mas o despeito do amante. O quê, tambem elle ! Aquella suspeita foi-lhe dolorosa. E andando em silencio, olhava pelo canto do olho o perfil espesso, a figura grossa, o andar pesado. Ella dera-se a um grotesco id'aquelles? Era de mais ! Ao menos a paixão pelo Manolo tinha sua justificação : era bonito, era valente, era romanesco, era divertido! Mas este, o Melchior, pelintra, caloteiro, covarde, debochado, imbecil, bebado ? Pouh ! Todos os defeitos de Melchior lhe appareciam agora, disformes, monstruosos. Envergonhou-se da sua amizade como córara do seu amor ! Que amante t E que amigo ! Veio-lhe como um desejo infinito d'outro meio, mais limpo, mais elevado, mais digno. E á esquina da calçada do Alecrim, despediu-se do jornalista seccamente. Ia decidido a esquecer a Concha. Pisando com um pé nervoso a rua do Arsenal, construia já o plano d'uma nova existencia : arrancaria do seu cerebro, como se tira da pelle uma pustula, a lembranca, d'aquella prostituta d'instinctos vis, infectada de virus—que lhe preferira o Melchior, a porca ! Recomeçaria a trabalhar : afinal, o seu destino era fazer obras d'arte e não viver agachado nas saias enxovalhadas d'uma muchacha de bordel ! Depois dos Amores de Poeta, escreveria outro drama, comedias em verso ! Forçaria a celebridade como quem viola uma mulher ! E seria um grande homem, emquanto ella, abandonada pelo emigrado, roída de doenças, erraria eefomeada pelo lodo do beco do Monete ! E elle, teria outros amores, dignos do seu alto coração e da sua posição nas Letras ! Renovaria as relações com a baroneza. que desleixara — idiota ! —por aquella meretriz barata. Oh ! Quando entrou no quarto, todo o seu futuro lhe apparecia tão reluzente de felicidades, que já considerava providencial que o estafermo se tivesse pirado ! » — Ainda bem ! Respiro ! Ouf ! Mas o aspecto do robe-de-chambre d'ella, a sua camisinha de dormir dobrada aos pés da cama, todo aquelle cheiro de mulher de que o ar estava impregnado, deram-lhe uma commocão tão brusca que os seus nervss se distenderam : uma saudade infinita amolleceu-lhe a alma e atirando-se de brucos sobre a cama, rompeu a chorar ! Ah, mas não havia de ficar assim, sem uma vinganga ! Pensou em lhe escrever uma carta cheia de todas as infamias que Melchior lhe revelara, ameaçando-a de lhe escarrar na cara, se ella ousasse, encontrando-o, erguer os olhos para elle, Mas para onde dirigiria a carta? Estaria ainda em Lisboa? Imaginou affligil-a de ciumes, tomando outra hespanhola,—a Angelita, que ella odiava—e enchendo-a de vestidos e joias . . . Mas o dinheiro ? Em cinco semanas tinha gasto quinhentos mil réis ! E com quem ! Com aquella creatura vil. — E este desperdicio augmentou o seu odio. Acabrunhou-a de injurias ; rasgou em pedaços a sua photographia ; decidiu não lhe enviar os bahús — ou remettel-os, tendo inutilisado á tesourada os vestidos e esmagado a martello as joias que ella lhe extorquira— porque Ih 'as extorquira, a ladra ! Quiz adormecer, mas não podia. A idéa de que ella., áquella hora, delirava douda nos braços do Manolo, de que nos intervallos da lubricidade, com os corpos lassos, muito unidos, caçoavam d'elle, riam, chamavam-lhe «o asno do portuguez davalhe um odio, cortado d'um pungente ciume carnal, que o fazia torcer-se sobre o enxergão, atirando punhadas ao travesseiro. Como Melchior, sentiu odio á Hespanha. Oh, se houvesse uma guerra ! Com que jubilo de vingança iria pelo Paiz, lançando proclamações, armando aldeias, arremessando contra a fronteira massas esmagadoras de patriotas ! E decidiu-se a escrever folhetins sobre a Hespanha « pondo-a mais raza que a lama ! » Foi sob estas impressões que toda a noite sonhou com invasões e batalhas : via-se á frente de Portugal armado em massa, passando o Caia, invadindo a Hespanha, á Attila, e vindo, com a furia irreprimivel d'um elemento, abater-se sobre Madrid aterrada ; ahi, sentia-se semi-deus, era Achilles : estava nú, tinha um elmo pelagico e arrastava tres vezes em torno das muralhas, que lhe pareciam as de Troia, entre um pranto de viuvas subindo para a mudez do céu, o corpo branco e exangue do Manolo. Depois, era em Lisboa, na celebração da Victoria: ahi, era o Cid: tinha uma armadura refulgente d'emblemas; estava n'um palanque coberto do pannos leves de sêda, ao lado do Rei, de D. Luiz de Bragança, que trazia sobre a cabeça, enterrada até aos olhos, uma enorme coroa d'imperador da peninsula. Amarrada a um pelourinho, nua, torcia-se a Concha, a quem verdugos experientes, com musculos d'athletas, iam arrancando a pelle a chibatadas; defronte, a perder de vista, estendia-se uma negrura de fórmas humanas : eram as raças d'Hespanha, captivas, com os pulsos arroxeados e cangas nos pescoços, que sargentos de caçadores, torcendo o buço e meneando a chibata, iam levando para os descampados onde deviam, plebe vil, estrumar os campos de trigo e enxofrar as vinhas. Quando acordou ao ruido da porta que se abria, a voz do Manuel chamou-o á realidade : —É a Conchita que quer os bahús. Está lá em baixo o gallego . . . — Não vai nada ! Não sahe nada ! — exclamou Arthur com uma violencia que ainda participava do seu sonho d'invasão. Aconchegou-se nos lençoes, quiz readormecer. Não poude : faltava-lhe aquelle corpo lindo tão co- , nhecido, que elle enlaçava logo ao acordar, ainda languido de somno. Saltou da cama e começava a vestir-se, quando o Manuel, entreabrindo a porta subtilmente, adiantou o rosto ban hado de satisfação : — O Manolo manda dizer que se os bahús não vão, manda cá um policia ou vem elle com um chi-! cote... Arthur voltou-se como uma fera, mas o Manuel accudiu : — Usted fica mal ! Usted dê as roupinhas ! Olhe que usted tem franstorno ! A sua voz era tão antipathica, que para o não vêr, por lassidão, por nojo, para acabar por uma vez com a Concha, com o Manolo, e vagamente assustado d'um escandalo, gritou furioso : — Leve tudo ! Leve com os diabos ! Deixe-me ! — Usted está com o ferrito ! — disse muito jovialmente o Manuel. O homem era-lhe tão odioso, que resolveu sahir do Hotel. E como se sentia vexado diante da Mercedes, da creada, dos dous hespanhoes tenebrosos, foi n'essa manhã almoçar á Aurea. Só quando viu nas ruas as lojas fechadas, se lembrou de que era Domingo Gordo. Como o passaria Demorou o almoço, leu todos os jornaes, a astração Franceza, e ás duas horas, tomava o seu café, quando, na mesa ao pé, se veio sentar o calvo, o Videirinha, a quem o creado, de certo habituado, serviu logo um Cognac com siphão. O Videirinha cumprimentou Arthur com affabilidade e de certo para entabolar cavaco disse com bonhomia : — Domingozinho Gordo ! —É verdade, Domingo Gordo . , . — respondeu Arthur, Videirinha immediatamente se veio sentar ao pé d'elle e com uma voz de pezame, baixo : — Lá soube o desgosto ! Sinto muito ! A minha Mercedinha tambem sentiu muito. Arthur, furioso com a compaixão do Videirinha, respondeu impaciente : — Que tolice ! Desgosto ? Ora essa ! Allivio ! Eu estava farto d'ella ! Videirinha, não acreditando, bebeu discretamente um gole de Cognac. E fazendo estalar a lingua, erguendo muito as sobrancelhas : — São grandes golp a s ! São grandes golpes ! A Mercedinha até tem estado doente . . Arthur, que recordava o enthusiasmo da Mercedes por Manolo, teve uma piedade desdenhosa pela imbecilidade do calvo» e disse com um sorriso : Parece boa rapariga. Videirinha esteve um momento calado, o olhar afogado n'um extasi imbecil, e com uma voz muito dôce : — Não ha melhor, não ha melhor ! —E é bonita — disse Arthur, que o gozava, achando-o um typo O Videirinha teve um vago encolher d'hombros muito languido, como se exprimisse um : nem faltemos nisso. Olhou um momento Arthur — e puxando d'uma carteira de marroquim, tirou, pôz sobre a mesa, um pequeno nastro enxovalhado de cinco ou seis polegadas, que parecia uma medida. Esticou-o com os dedos sobre a mesa, delicadamente, olhou-o com uma concupiscencia beata e disse ternamente : — O pézinho ! A medida do pézinho ! . . . — Muito pequenino — disse polidamente Arthur. — Não ha melhor ! — Contemplou-o novamente : — Quando não estou com ella, ponho diante de mim a medida do pézinho e estou horas a olhal-o, a regalar-me por dentro — Suspirou : — Não ha melhor ! Guardou com devoção o nastro e inclinando-se para Arthur : — Eu ponho em si esta confiança porque sei que é cá da confraria — amante das bellas hespanholas ! Esteve um momento a olhar vagamente para o ar, com paixão, e recostando-se, de palpebras cerradas : — Tem-me dado muita consolação ! —E confiou então a Arthur que lhe andava a ensinar fran cez : — Agora vou-lhe dar a liçãozinha, anda no verbo rendre. Tem uma memoria ! Depois, ella lê o jornal, gosta muito de lêr o jornal e eu coço-lhe a cabecinha ! Depois, se ha alguma cousa a coser, na machina de costura , Eu COBO muito bem ó machina, até ella me diz: oh ! púpú . . . Chama-me púpú, tem gracinha nãc Diz-me ella : oh púpú . . . Que ia eu a dizer ? Esta cabeça ! Ah ! Diz.,me ella : oh ! púpú, até dá gosto vêr-te costurar . , . Coitadinha, faz-me muita justiça. . Depois fazemos uma somnecazinha . . . — Revirou os olhos e com uma voz grave, tocando no joelho d'Arthur : — Meu caro senhor, digo-lhe isto porque sei que aprecia as bellas hespanholas — são grandes gozos ! E como eram tres horas, para a não fazer esperar, pagou o Cognac, pôz com cuidado o seu cha péu branco, ergueu-se, repuxou as calças para a barriguinha saliente e vindo debruçar-se sobre a mesa, quasi ao ouvido d'Arthur : — Vamos hoje ao Casino, mascarados. A minha Mercedinha vai muito bem, vai de pagem. Eu tambem vou bem . . . vou d'hungaro. Chut ! Guarde o segredo, hein E abalou com o seu passinho miudo, Arthur espreguiçou-se, folheou ainda a Illustração e pensando : — pobre idiota ! — sahiu, foi andando até a rua Nova do Carmo. A rua estava cheia de gente que se movia devagar, n'uma madracice de pasmaceira ; pelas janellas, algumas com as vidragas tiradas, senhoras appareciam, fugiam, figuras debruçavam-se com um ar excitado. Cartuchos de farinha estalavam com uma poeirada branca, revoadas de feijões estralejavam sobre os chapéus sujeitos enfarinhados tinham gestos furiosos ; outros seguiam com um desdem seccado ; aqui, além, mas caras maltrapilhas passavam com pressa, como indo tratar d'um negocio, ou exhibindo-se com esgares lunaticos, fazendo destoar subitamente guinchps idiotas ; patrulhas rondavam com um ar enfastiado e uma atmosphera baixa, parda, pesava lugubre- mente, penetrando os corpos, dando ás expressões um tedio molle. Arthur, receando uma cartolada no chapeu, um esguicho na cara — insultos muito irritantes para quem traz a alrna magoada — retrocedeu rapidamente até ao Hotel. Mas, ao passar no corredor sombrio, um vulto destacou-se do vão d'uma porta e esmagou-lhe placidamente um 000 de cheiro no pescoço ; deu um grito á frialdade do liquido e voltando-se, furioso, viu a face do Videirinha, banhada de jubilo. — Foi a Mercedinha que mandou ! Foi ella que mandou ! Diz que é para o distrahir. Tem gracinha, não Tem-me enfarinhado todo, a Mercedinha . . . —É divertir-se, é divertir-se — disse Arthur subindo a correr para o quarto. Sentou-se com um livro á janella e, ora lendo, ora olhando a rua, viu cahir o crepusculo — menos triste que o seu coração. Na sombra do quarto a coberta branca do leito alvejava vagamente : elle via-a alli, como tantas vezes a vira, dormindo, longas pestanas descidas sobre a face pal]ida, um dentinho luzindo entre os labios docemente entre-' abertos e os dous gfiobos brancos dos seios al)pa recendo entre as rendas da camizinha. E aquella visão era tão nitida, que, @om um longo soluço de saudade, ergueu-se, arremessou-se sobre o leito, abraçando ao acaso a coberta. Foi jantar n'essa noite a um restaurante da Baixa. E chei.o d'odio contra o ruido dos trens rolando para os theafros, contra os grupos festivos exaltados de vinho, contra os pares de mascaras de luvas brancas — veio encerrar-se de novo no quarto. Desejaria um claustro de convento, um rochedo em que batesse o luar, junto ao mar gemente, um sitio distante, que fosse, pela tristeza, como a decoração condigna da sua alma triste. Então fez versos ; e com a imaginação afinada pela saudade, produziu com facilidade, escrevendo até tarde, emquanto gritos de bebados se repercutiam pelas ruas e perpetuamente rolavam as tipoias, de theatro para theatro. Terminou, alta noite, uma ultima estrophe — em que dizia que a sua vida, penetrada até ás profundidades pelo amor da Concha, não teria outros amores, senão como tendas que se erguem para uma noite e se desmancham ao alvorecer. Áquella hora, no theatro D. Maria, a Concha e o Manolo, de dominó, apaixoÑadamente enlaçados, giravam com furor n'uma valsa, aos compassos estridentes da Filha de Madame Angot I Ficou ao outro dia na cama até muito tarde e á noite, depois do jantar, decidiu, para « matar o tempo D, ir a S. Carlos, Tinha uma vaga esperança de encontrar lá a baconeza. Chegava á esquina do Rocio, quando viu a figura magrinha do Damião, de paletot alvadio, guarda-chuva no braço, que vinha conversando com Nazareno. Que felicid.ade ! Era na sua mágoa como uma consolação, uma força, uma direcção que lhe chegava Correu para elle com os braços estendi- dos : — 0h, Damião ! Damião recuou, fitou-o, disse simplesmente : — Eu não fallo a canalhas ! Deu um passo para o lado, travou do braço de Nazareno e seguiu. Arthur ficara como cataleptico : queria correr, os pés pegavam-se-lhe ; queria fallar, a lingua prendia-se-lhe ; sentia ferver-lhe o cerebro e um calor, onde havia um zumbido, escaldar.lhe as orelhas ; as luzes do Rocio faiscavam-lhe em zig-zags ante os olhos, e as pessoas, com um rumor abafado, pareciam-lhe mover-se no ar. Dous dominós apressados empurraram-no : despertou. Os beiços começaram a tremer-lhe, lagrimas humedeceram-lhe os olhos. A palavra de Damião — canalha ! — atravessou-lhe o cerebro, o rosto, os ouvidos, com 0 estampido, o impulso d'uma bofetada. Sentiu um desespero, um desejo sanguinolento de vingança : vinham-lhe agora á lingua as palavras vibrantes que deveria ter atirado ao Damião; sentia agora no braço a força da bofetada que lhe devia ter dado na face . . . Mas aquelle impeto ardeu um instante e extinguiu-se como um rastilho de polvora ; e abatido, prostrado, foi segtlindo ao comprido da,s casas para o Terreiro do Paço, inconscientemente, com passos molles que oseillavam. Sentia um espanto, uma revolta aterrada contra o Destino. Porquo merecia tudo o que lhe succedia Que tinha feito ? Era bom, era amante, era intelligente, ora honrado — e a cada passo que dava na vida surgia-lhe uma indifferença, um escarneo, uma humilhação, uma traição, uma desfeita ! Teve a con sciencia da sua fraqueza moral, da sua debilidade effeminada ! Revoltou-se contra si mesmo . . . nham-lhe chamado canalha, e ficara aparvalhado, n'uma tremura ! Teve odio á estructura anemica do seu corpo, á languidez romanesca da sua alma : sentiu-se um fraco, um maricas, um tremulo, um piegas . . . De que servia na vida Mais valia morrer, dcsapparecer como uma bola de sabão que quebra n'um cuspo d'espuma ! Para que viver Não tinha dinheiro, nem posição, nem uma amizade, nem um amor ! Que lhe restava Ir enterrar-se em Oliveira d'Azemeis Pertencer ao Vasco, pisar n'um almofariz semente de linhaça, perpetuamente ? Não ! Então E a morte apparecia-lhe com a doçura d'um repouso e a attracçüo d'um refugio. Deus fizera-lhe a vida amarga para o desgostar d'ella, obrigal-o a sahir, dar logar a outro mais forte, como n'uma hospedaria onde se desgosta o hospede pobre, para dar logar ao hospede rico. Elle que comprehendia tão bem o amor, não encontrava uma mulher que lhe desse um olhar compassivo ; elle que sentia em si idéas, imagens, estylo, não tinha um diabo que dissesse uma palavra do seu livro, lhe desse uma migalha d'aquella celebridade de que ti" nha fome ! Approximava-se cheio de sympathia, de calor, avido de ser util— recebia um empurrão ! Fôra direito á Sociedade, com tanta admiração por ella— e recebera por acolhimento alguns olhares secoados, hombros soberbamente voltados ; lançara-se para a Republica, vibrante d'enthusiasmo — e fôra repellido com vaias e assobios ! A Concha, que elle adorava, safava-se-lhe ! O Damião que admirava, insultava-o ! De que lhe servia viver, caminhando assim, envolvido na sua má sorte como n'uma atmosphera inilludivel ? Um ar frio e humido envolveu-o : estava junto ó muralha do Terreiro do Paço. O rio agitado, na maré crescente, batia tristemente na escuridão, contra as escadas dc Caes ; entre os botes amarrados, a agua tinha tenebrosidades frias ; vultos de navios faziam na noite escura redobramentos de sombras, e aqui, além, n'um mastro, tremulava um fanal mortiço. — Era só subir ao parapeito, saltar, estava livre Seria a agonia d'um momento, uma suffocação estrebuxada, goles d'agua engulidog paz! . . . Então pareceu-lhe que estava morto já, que o encontravam inchado, verde, todo coberto de lÔdo : reconhecel-o-iarn e o mysterio dramatico da sua morte encheria os jornaes, dar-lhe-ia uma tragica celebridade ! . . . Os Esmaltes e Joias seriam lidos ; procurar-se-ia n'elles o segredo da sua resolucão, como n'um documento de amargura ; folhetins comparal-o-iam a Chatterton, a Gérard de Nerval . . . A Concha choraria, a Baroneza amaria a sua memoria ! . . . E aquella gloria em volta do seu cadaver tentava-o estranhamente porque não Porque não . . . Certos reflexos mais negros da agua chamavam-no com intenções de pupilla,s humanas ; reteve-o o horror do frio, a idéa da roupa molhada collada ao corpo c uma vaga inercia, a preguiça de tomar uma resolução tão violenta . . E ao mesmo tempo, sentia-se enternecido, com uma saudado roa manesca da sua propria existencia extincta, E olha. va a agua, de pé, com a cabeça toda em febre Uma voz fina, muito lisboeta, disse ao lado : — O senhor viu por acaso tirarem-me o chapéu Voltou-se comc que estremunhado. Era um sujeitinho barrigudo, nedio, de repas grisalhas, que repetiu : — O senhor viu tirarem-me o chapéu — Eu ? Não ! — disse Arthur impaciente. — Homem, esta ! Tinha-me encostado alli . . Jantei em casa do Gonçalves, do Gonçalves da rua dos Retrozeiros, ha-de conhecer, o Gonçalves, o da Camara . . . Jantei com elle, vim depois dar o meu passeio hygienico : sento-me alli um bocado . . . vem me uma quebreira, talvez da pinguita do Porto o Gonçalves tem bom Porto, tem bons vinhos. O sogro é negociante de vinhos . . . De repente sinto um friozinho na calva : tinham-me tirado o chapéu ! O senhor não viu — Não vi — disse Arthur, afastando-se, furioso com aquelle importuno. Mas o sujeito pôz-se a andar ao lado d'elle e com gestos curtinhos, a voz muito cantada : — Homem, esta ! Eu não é pelo chapéu, diabos levem o chapéu ! pelo ferro ! E que ha-de dizer minha senhora Oh, menino, d'onde vens tu sem chapéu ? Ora, ora ! Se as lojas estivessem abertas ! Que eu não é pelos tres mil réis ! porque não estão abertas ! Senão ia ao Roxo, está claro que ia ao Roxo. O Roxo conhece-me bem. Mas que ferro ! Um chapéu novo ! Então não viram ! Ir para casa sem chapéu ! Sempre vai uma ladroeira pela Baixa ! Se fosse o lenço ! Bem me importava com o lenço ! Mas o chapéu ! o ferro ! É o ferro ! O senhor não viu ? — Oh, senhor, já lhe disse que não ! —E Arthur apressava-se, indignado d'aquella interrupção burlesca á sua tragica meditação. l.fas o sujeito ia-lhe ao lado, querendo acertar o passo pelo d'elle, loquaz, excitado ; acompanhava-o pelo Terreiro do Paço, repetia a historia da somneca, fallava no jantar do Gonçalves, contou casos d'outros roubos, até que á porta do Hespa nhol, já enervado, desesperado, Arthur interrom peu-o : — Bem, eu moro aqui, adeus ! Mas o outro reteve-o pelo botão do paletot e Arthur, immobilisado, teve de o ouvir. — O senhor comprehende, eu sou muito conhecido na Baixa, não posso sahir por ahi fóra sem chapéu. Que ha-de dizer minha senhora Que ella é uma santa : sou casado ha vinte e cinco annos e nunca me deu senão gostos. É dos Pereiras, dos Pereiras de Santo Amaro. É das melhores, uma *anta ! Mas emfim il para casa sem chapéu ! Começa logo a Joaquina — e então a Joaquina ! É a creada ; boa creada, trabalhadeira . . . Começa logo : Olha o senhor que vem sem chapéu ! Pudera, se m'O tiraram. Que eu é pelo ferro !...