Por Camilo Castelo Branco (1862)
Coração, Cabeça e Estômago acompanha a trajetória de um protagonista que passa por diferentes fases da vida, guiado primeiro pelas emoções, depois pela razão e, por fim, pelas necessidades práticas. Com humor, ironia e crítica aos costumes da sociedade, a obra reflete sobre as ilusões do amor, as ambições humanas e o amadurecimento diante das experiências da vida.
Advertência do Autor à 2ª. Edição
Folheando novamente os manuscritos de Silvestre da Silva, encontrei algumas páginas que merecem ser intercaladas nesta 2ª. Edição de suas memórias.
A simpatia que o meu defunto amigo granjeou postumamente na república das letras e das tetras impõeme o dever de empurrar portas dentro da imortalidade tudo que lhe diz respeito.
O meu amigo Antônio Augusto Teixeira de Vasconcelos achou que Silvestre algumas vezes abusava do vocabulário dos eufemismos. Também me parece que sim. Mas já agora deixemos o defunto com a sua responsabilidade e tenhamos esperanças de que ele se salvará primeiro que o autor da Fany, livro querido das famílias!
Aqui vem a ponto dizer como Lopo de Vega, na Arte Nueva de Hacer Comedias:
“Sustento en fin lo que escribi y conozco
Que aunque fuera mejor de otra manera, No tuvieran el gusto que han tenido Por que as veces lo que és contra el justo Por la misma razón deleita el gusto”.
O AUTOR
PREÂMBULO
— O meu amigo Faustino Xavier de Novais conheceu perfeitamente aquele nosso amigo Silvestre da
Silva...
— Ora, se conheci!... Como está ele?
- Está bem: está enterrado há seis meses.
- Morreu?!
- Não morreu, meu caro Novais. Um filósofo não deve aceitar no seu vocabulário a palavra morte, senão convencionalmente. Não há morte. O que há é metamorfose, transformação, mudança de feito. Pergunta tu ao doutíssimo poeta José Feliciano de Castilho o destino que tem a matéria. Dir-te-á a teu respeito o que disse de Ovídio, sujeito que não era mais material que tu e que o nosso amigo Silvestre da Silva. “Ovídio cadáver”, pergunta o sábio, “onde é que pára?” Tudo isso corre fados misteriosos, como Adão, como Noé, como Rômulo, como nossos pais, como nós, como nossos filhos, rolando pelos oceanos, flutuando nos ares, manando nas fontes, correndo nos rios, agregado nas pedras, sumido nas minas, misturado nos solos, viçando nas ervas, rindo nas flores, recendendo nos frutos, cantando nos bosques, rugindo nas matas, rojando dos vulcões, etc.” Isto, a meu ver, é exato e, sobretudo, consolador. O nosso amigo Silvestre da Silva, a esta hora, anda repartido em partículas. Aqui faz parte da garganta dum rouxinol; além, é pétala duma tulipa; acolá, está consubstanciado num olho de alface; pode ser até que eu o esteja bebendo neste copo de água que tenho à minha beira e que tu o encontres nos sertões da América, alguma vez, transfigurado em cobra cascavel, disposto a comer-te, meu Faustino.
O que te eu assevero é que ele deixou de ser Silvestre da silva, há seis meses, posto que os parentes teimam em lhe ter uma lousa sobre o chão, onde o estiraram, com esta mentira: ‘Aqui jaz Silvestre da Silva.’ Pois é verdade.
O nosso amigo começou a queixar-se, há de haver um ano, de falta de apetite, e frialdade de estômago, efeito das indigestões. Foi de mal a pior. Desconfiou que passava a outra metamorfose, e deu ordem aos seus negócios da alma com a eternidade. Dos bens terrenos não fez deixação, porque lá estavam os credores, seus presuntivos herdeiros, ainda que alguns deles declinaram a herança a benefício de inventário, lamentando que em Portugal não fosse lei a prisão por dívidas: parece que os irritou a certeza de que o cadáver insolvente não podia ser preso. Em outro ponto te darei mais detida notícia desta catástrofe.
Eu fui o herdeiro dos seus papéis. Alguns credores quiseram disputarmos, cuidando que eram papéis de crédito. Fiz-lhes entender que eram pedaços dum romance; e eles, renunciando a posse, disseram que tais pataratices deviam chamar-se papelada, e não papéis.
Aceitei a distinção como necessária e retirei com a papelada, resolvido a dá-la à estampa, e com o produto dela ir resgatando a palavra do nosso defunto amigo, embolsando os credores os credores. Fiz um cálculo aproximado, que me anima a asseverar aos credores de Silvestre da Silva que hão de ser plenamente pagos, feita a 10.ª edição deste romance.
Aqui tens tu uma ação que deve ser extremamente agradável às moléculas circunfusas do nosso amigo. Espero que Silvestre ainda venha a agradecer-me o culto que assim dou à memória dele, convertido em aroma de flor, em linha de cristalina fonte, ou em Ambrósia de vinho do Porto, metamorfose mais que muito honrosa, mas pouco admirativa nele, que foi deste mundo já saturado em bom vinho. É opinião minha que o nosso amigo, a esta hora, é uma folhuda parreira.
Vamos à papelada, como dizem os outros.
Tenho debaixo dos olhos, mal enxutos da saudade, três volumes escritos da mão de Silvestre.
O primeiro, na lauda, que serve de capa, tem a seguinte inscrição em letras maiúsculas: Coração.
O segundo, menos volumoso, diz: Cabeça.
O título do terceiro, e maior volume, é: Estômago.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.