Por Camilo Castelo Branco (1883)
Uma praga rogada nas escadarias da forca apresenta uma narrativa marcada por vingança, superstição e as consequências de atos movidos pelo ódio. A partir de uma maldição lançada em um momento decisivo, a história desenvolve conflitos intensos que envolvem culpa, destino e justiça, conduzindo o leitor por uma trama repleta de tensão e reflexões sobre a natureza humana.
Êste romance não deverá chamar-se "romance". Desde que esta palavra é o atilho onde se enfeixam as mentirosas invenções do escritor fantástico, não há história verdadeira que possa, como tal, recomendar-se com aquêle título.
Êstes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulário romântico, e afeiçoados às leis do estilo romântico, são verdades que não deram brado, nem se agravaram na memória da geração que as viu e as não compreendeu.
Na vida moral da sociedade há fenômenos cuja causa ninguém estuda. No drama da família há lances que são do domínio público, e o público não pode, ainda que o tente, explicá-los. Nas atribuições individualíssimas do homem há fases extraordinárias de sofrimento, que esta sociedade de entranhas cruéis lhe recrimina, reputando-lhes efeitos necessários das causas, conseqüências do crime voluntário.
A sociedade, a família, e o homem expiam incessantemente a culpa do homem, da família e da sociedade. Opera-se uma contínua redenção do gênero humano. O homem é, desde o seu princípio, a vítima da culpa com o lábio colocado no cálice da agonia.
A vida sôbre a terra é uma interminável expiação. Eu pago pelos crimes do meu pai, meus filhos expiando meus crimes, e o último ser vivo da animalidade inteligente será o holocausto do primeiro homem criminoso. É forçoso recorrer ao inconcebível, ao sobrenatural, ao misticismo da providência oculta para compreender o que vulgarmente se diz "fatalidade".
Na história, que vai ser lida, é tão sensível esta necessidade, tão aterrado se sente o espírito diante de um fato consumado, que eu não tive escrúpulo religioso ou filosófico em subordinar um encadeamento de infortúnios de uma família à praga rogada nas escadas da fôrca.
- I - Bernardo Silva era um filho bastardo de um pobre de Vizeu. Do ventre materno passou à roda dos expostos e daí aos cuidados duma pobre mulher d'aldeia.
Aos dez anos não conhecia pai; e sua mãe, mulher do povo, arrastada sôbre a lama da plebe tôda a sua vida, morrera com o segrêdo do nobre, que se dignara descer até ela para honrá-la com desonra.
Bernardo, aos dez anos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus companheiros era êle o mais desprezado, porque também era o mais preguiçoso.
O rapaz vivia triste como se a idade lhe permitisse compreender a dor imensa dum grande desastre. Lá dentro daquele coração infantil falava uma profecia fúnebre. Com os olhos sempre extáticos no horizonte negro do seu futuro, o pobre môço não tinha uma hora livre para o trabalho. Muitas vêzes uma bofetada acordava-o daquele letargo; e o braço, que estava suspenso com a agulha, continuava a tarefa molhada de lágrimas.
Aos 13 anos, era ainda um aprendiz de alfaiate, repelido dêste para aquêle mestre, desacreditado em todos, e inùtilmente espancado por todos. Chamavam-no incorrigível, e êle mesmo conheceu que o era.
Abandonou a agulha, e foi servir em casa de Francisco de Lucena. Era, aí, como em tôda parte, conhecido pelo "Bernardo Enjeitado". Nunca ninguém se lembrou, alguma vez, de que um dos seus muitos filhos, atirados à roda, poderia ser seu lacaio.
Bernardo era criado de tábua.
- II -
Êste ofício era-lhe mais generoso que o de alfaiate. Tinha muitas horas livres para sua melancolia, e muitos esconderijos no amplo palácio de seu amo para refugiar-se duma sociedade que êle detestava sem saber por quê.
Êste viver excepcional naquela galhofeira, estúrdia, e estragada, excitou a curiosidade dos seus companheiros, e, depois, a dos amos. Aquêles chasqueavam-no com desabrimento: êstes admiravam-no por compaixão.
Bernardo chorava sem motivo. Sorria-se com violência. Era humilde com um não sei quê de estranha delicadeza. Destacava-se da sua classe com um ar orgulhoso, mas não calculado. Cumpria as suas muitas obrigações, e ninguém sabia quando as cumpria. Estas qualidades, raríssimas vêzes encontradas num lacaio, tornavam-no assunto de estudo para os amos, que principiavam a interessar-se na análise daquele obscuro enjeitado.
Guardadas as inauferíveis distâncias que separam o senhor do servo, os fidalgos souberam que Bernardo desejava muito saber ler, e gastava a maior parte da noite soletrando o abecedário, decorando as lições que o mordomo da casa lhe dava nas horas de desenfado.
Qualquer que fôsse o impulso que a isso o levou, é certo que o amo, por um nobre impulso, permitiu que o rapaz fôsse a uma escola, e para isso aliviou-o dos encargos de môço de tábua, e elevou-o à hierarquia de escudeiro do menino mais velho.
- III -
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Uma praga rogada nas escadarias da forca. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1782 . Acesso em: 28 jun. 2026.