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#Contos#Literatura Brasileira

Um dia de entrudo

Por Machado de Assis (1874)

Machado de Assis, principal nome da literatura brasileira, publicou “Um Dia de Entrudo” no Jornal das Famílias (Rio de Janeiro), entre junho e agosto de 1874. O conto retrata, com humor e ironia, os costumes do antigo entrudo — antecessor do carnaval —, expondo travessuras, namoros e relações familiares na sociedade carioca do século XIX. É uma narrativa leve e satírica da primeira fase machadiana.

Era no tempo em que ao carnaval se chamava entrudo, o tempo em que em vez das máscaras brilhavam os limões de cheiro, as caçarolas d’alma. Contarei o seguinte caso. No tempo do 7 de Abril...

Nesse instante entrou na sala o esfomeado Carlos, e vendo iminente uma história que provavelmente Jó conhecia, exclamou:

— Oh! mamãe? não se janta hoje?

— Eu sei, respondeu D. Angélica, estas meninas ainda aqui estão.

— Pois acabem com isso...

Carlos atirou-se à mesa e tal bulha fez que impediu o trabalho e a anedota. D. Angélica adiou a prova do bom juízo do finado Tomás Sanches, as moças deixaram a mesa, e a mucama veio pôr a mesa do jantar.

Aproveitando o intervalo, pois aceitara o oferecimento de D. Angélica para jantar, foi Batista alguns instantes ao armarinho para saber se havia novidade. Teresa foi logo à janela e trocou um sorriso com o namorado.

D. Maria sentou-se com Ermelinda a um canto para indagar se alguma coisa havia entre Teresa e Batista.

— Eu creio que há alguma coisa. Tu não sabes nada?

Ermelinda respondeu:

— Eu nada, titia.

— Mas é impossível que não haja, e se é exato falarei disto a tua mãe.

— Por quê? perguntou Ermelinda sobressaltada.

— Não convém que tua irmã se case com um dono de armarinho... um pax vobis, uma posição inferior.

Ermelinda calou-se prometendo a si mesma ir contar tudo à irmã.

Carlos passeava pela sala de jantar, atirando de quando em quando bolas de papel ao irmão, que, por prudência, fingia estar contando as tábuas do assoalho. Joana contava a Lucinda um namoro que tivera com um rapaz da Rua do Piolho, enquanto a prima lançava de quando em quando um olhar a Benjamim.

— Muito custa a vir este jantar. Parece que nunca mais se acaba de pôr esta mesa. Tia Maria, já há de estar com uma fome!

Carlos dizia estas palavras tirando da mesa um pedaço de pão e mastigando para enganar o estômago.

— Não te pareça! disse D. Maria, por certo que estou com fome...

Finalmente ficou o jantar na mesa.

— Bem, vamos entrar em serviço.

— Não, senhor ! disse D. Angélica, esperemos o Batistinha.

— Onde foi ele?

— Foi à casa.

— Esta agora! Havemos de estar em casa à espera de um estranho! e logo quem!

— Carlos! exclamou a mãe, tu hás de ser sempre um...

D. Angélica mastigou o epíteto. Carlos pondo as mãos nos bolsos da calça entrou a passear como um homem chegado ao último grau do desespero.

— Estou capaz de ir jantar a uma casa de pasto.

— Pois vai!

Nesse momento ouviram-se passos na escada.

— Graças! disse Carlos. Chega o desejado.

Não era o desejado. Era o sr. Tibúrcio Mendes, negociante de negros novos, homem taludo e bojudo, vermelho e asseado.

— Dáa licença, D. Angélica? disse ele parando na escada.

— Entre, sr. Tibúrcio. Bons olhos o vejam.

Na entrada o sr. Tibúrcio foi cumprimentando rasgadamente a companhia.

— Faltava este cágado! disse entre si Carlos.

E já ruminava seriamente o projeto, anteriormente indicado, de ir jantar à casa de pasto, quando apareceu o dono do armarinho. Batista explicou a demora dizendo que a causa fora uma altercação com um sujeito a propósito de agulhas nº 5, coisa que não interessava absolutamente a ninguém, mas que todos ouviram com paciência cristã.

O jantar nada ofereceu de notável; os dois namoros continuaram como antes, isto é, dirigidos sempre com a máxima precaução por causa do grande desmancha-prazeres da casa. A única coisa que causou certa estranheza a Batista, que pela primeira vez se encontrava com Tibúrcio, foi a voracidade que este sujeito desenvolveu, a ponto de o deixar sem assado nem arroz.

Foi por ocasião do jantar que Tibúrcio declarou que fazia anos na terça-feira do entrudo, e, como fosse solteiro, D. Angélica convidou-o a festejar o dia jantando lá em casa. Tibúrcio não viu um olhar trocado entre Carlos e as irmãs. Prometeu que viria jantar.

Toda a tarde, manhã e a tarde do dia seguinte foram consagradas ao fabrico dos limões de cheiro. Tibúrcio assistiu até à noite ao trabalho das moças e dos rapazes. Como ele era amigo de conversar com mulheres, dificilmente se despregou da sala de trabalho. Foi muito contra a vontade que cedeu ao convite de D. Angélica que tinha a mania de jogar o solo. D. Maria também jogava e aceitou o convite. A mesa foi posta ao pé da mesa dos limões de cheiro.

Jogava-se o solo a grãos de milho, que é para os jogadores de profissão, o mesmo que, para os bêbados, beber água simples.

— Mas eu peço licença, disse Tibúrcio, para retirar-me às nove horas.

— É a hora em que tomamos chá, respondeu D. Angélica dando as cartas. Passaram todos naquela mão. Como todos conversavam, o diálogo apresentava alguma curiosidade.

— Bolo?

(continua...)

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