Por Machado de Assis (1994)
Comédia histórica de Machado de Assis (1839–1908), Tu só, tu, puro amor dramatiza os amores de Luís de Camões e D. Catarina de Ataíde na corte portuguesa, explorando ciúme, honra e rivalidade. A peça combina lirismo e crítica social, revelando o olhar irônico do autor sobre paixões e convenções palacianas.
Tu só, tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga...
(Lusíadas 3 CXIX)
PESSOAS
CAMÕES
D. MANUEL DE PORTUGAL
D. ANTÔNIO DE LIMA
D. CATARINA DE ATAIDE
CAMINHA
D. FRANCISCA DE ARAGÃO
Sala no paço
CENA PRIMEIRA
CAMINHA, D. MANUEL DE PORTUGAL
(CAMINHA vem do fundo à esquerda; vai a entrar pela porta da direita quando lhe sai D. MANUEL DE PORTUGAL, a rir)
CAM. Alegre vindes, senhor D. Manuel de Portugal. Disse-vos El-rel alguma cousa graciosa, decerto...
D. MAN. Não; não foi El-rei. Adivinhai o que seria, se é que o não sabeis já. CAM. Que foi?
D. MAN. Sabeis o caso da galinha do Duque de Aveiro?
CAM. Não.
D. MAN. Não sabeis? Pois é isto: uns versos mui galantes do nosso Camões.
(CAMINHA estremece e faz um gesto de má vontade) Uns versos como ele os sabe fazer. (À parte) Dói-lhe a notícia. (Alto) Mas, deveras, não sabeis do encontro de Camões com o Duque de Aveiro?
CAM . Não .
D. MAN. Foi o próprio duque que mo contou agora mesmo, ao vir de estar com El-rei. . .
CAM. Que houve então?
D. MAN. Eu vo-lo digo; achavam-se ontem, na igreja do Amparo, o duque e o poeta...
CAM. (com enfado). O poeta! o poeta! Não é mais que engenhar aí uns pecos versos, para ser logo
poeta! Desperdiçais o vosso entusiasmo, senhor D. Manuel. Poeta é o nosso Sá, o meu grande Sá! Mas, esse arruador, esse brigão de horas mortas...
D MAN. Parece-vos então?...
CAM. Que esse moço tem algum engenho, muito menos do que lhe diz a presunção dele e a cegueira dos amigos; algum engenho não lhe nego eu. Faz sonetos sofríveis. E canções... digo-vos que li uma ou duas, não de todo mal alinhavadas. Pois então? Com boa vontade, mais esforço, menos soberba, gastando as noites, não a folgar pelas locandas de Lisboa, mas a meditar os poetas italianos, digo-vos que pode vlr a ser...
D MAN. Acabai.
CAM. Está acabado: um poeta sofrível.
D. MAN. Deveras? Lembra-me que já isso mesmo lhe negastes.
CAM. (sorrindo). No meu epigrama, não? E nego-lho ainda agora, se não fizer o que vos digo. Pareceu-vos gracioso o epigrama? Fi-lo por desenfado, não por ódio... Dizei, que tal vos pareceu ele?
D. MAN. Injusto, mas gracioso.
CAM. Sim? Tenho em mui boa conta o vosso parecer. Algum tempo supus que me desdenháveis. Não era impossível que assim fosse. Intrigas da corte dão azo a muita injustiça; mas principalmente acreditei que fossem artes desse rixoso... Juro-vos que ele me tem ódio.
D. MAN. O Camões?
CAM. Tem, tem...
D. MAN. Por quê?
CAM. Não sei, mas tem. Adeus.
D. MAN. Ide-vos?
CAM. Vou a El-rei, e depois ao meu senhor infante (Corteja-o e dirige-se para a porta ela
direita. D. MANUEL dirige-separa o fundo).
D. MAN. (andando).
Eu já vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro...
CAM. Recitai versos?...São vossos?...Não me negueis o gosto de vos ouvir.
D. MAN. Meus não; são de Camões... (Repete-os descendo a cena) Eu já vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro;
CAM. (sarcástico). De Camões?... Galantes são. Nem Virgílio os daria melhores. Ora, fazei o favor de repetir comigo:
Eu já vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro...
E depois? Vá, dizei-me o resto, que não quero perder iguaria de tão fino sabor.
D. MAN. O Duque de Aveiro e o poeta encontraram-se ontem na igreja do Amparo. O duque prometeu ao poeta mandar-lhe uma galinha da sua mesa; mas só lhe mandou um assado. Camões retorquiu-lhe com estes versos, que o próprio duque me mostrou agora, a rir:
Eu já vi a taverneiro
Vender vaca por carneiro
Mas, não vi, por vida minha,
Vender vaca por galinha
Senão ao Duque de Aveiro.
Confessai, confessai, Senhor Caminha, vós que sois poeta, confessai que há aí certo pico, e uma simpleza de dizer... Não vale tanto decerto como os sonetos dele, alguns dos quais são sublimes, aquele, por exemplo:
De amor escrevo, de amor trato e vivo...
ou este:
Tanto do meu estado me acho incerto...
Sabeis a continuação?
CAM. Até lhe sei o fim:
Se me pergunta alguém por que assim ando
Respondo que não sei, porém suspeito
Que só porque vos vi, minha senhora.
(Fitando-lhe muito os olhos.) Esta senhora... Sabeis vós, decerto, quem é esta senhora do poeta como eu o sei como o sabem todos... Naturalmente amam-se ainda muito?...
D. MAN. (à parte). Que quererá ele?
CAM. Amam-se por força.
D. MAN. Cuido que não.
CAM. Que não?
D. MAN. Acabou como tudo acaba.
CAM. (sorrindo). Andai lá; não sei se me dizeis tudo. Amigos sois e não é impossível que também vós... Onde está a
nossa gentil senhora D. Francisca de Aragão?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Tu só, tu, puro amor. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.