Por Euclides da Cunha (1907)
Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.
A remessa de sucessivos batalhões para o Alto Purus — movimento de armas recordando um começo de guerra declarada — parece uma medida elementar de previdência.
É um erro. Não implica apenas o desfalecido das nossas finanças, nem se limita a projetar, de golpe, um brilho perturbador de baionetas no meio de um debate diplomático; vai além: prejudica de antemão a campanha provável e torna desde já precária a defesa das circunscrições administrativas criadas pelo tratado de Petrópolis.
Estas afirmativas parecem paradoxais, e vão muito ao arrepio da corrente geral da opinião revoltadíssima contra esse Peru — tão fraco diante da nossa própria fraqueza. Mas são demonstráveis. Está passado o tempo em que a honra e a segurança das nacionalidades se entregavam, exclusivamente, ao rigor das tropas arregimentadas.
A última guerra do Transvaal, à parte os efeitos materiais, teve conseqüências surpreendentes. Estão ainda vivíssimos em todas as memórias os admiráveis episódios daquela esgrima magistral dos boers contra as armas pesadas da Inglaterra; e entre eles, um que pelo aparecer constante e invariável nos dois campos adversos, se reveste quase do caráter de uma lei, se é que as tem a maneira heróica de brutalidade humana. Indiquemo-lo: em Paardeberg, quando as tropas regulares inglesas recuaram rudemente repelidas dos entrincheiramentos de Cronje, ampararam-na os voluntários canadenses num assalto brilhante, que ultimou no assédio; Kimberley, defendida pelos cidadãos armados, reagiu com mais eficácia e diante de mais numerosos sitiantes do que Ladsmith guarnecida pela tropa de linha; em Magersfontain o pânico dos soldados teve o corretivo instantâneo de uma ducha, na fria impassibilidade dos highlanders escoceses... São fatos expressivos.
Não escaparam à visão dos modernos profissionais da guerra. O coronel Henderson, que os testemunhou de perto, no estado-maior de Lorde Roberts, explica-os pelos terríveis efeitos desmoralizadores do armamento moderno e pelos embaraços criados pela pólvora sem fumaça.
O espírito de classe e a alta responsabilidade que lhe advém do cargo que ocupou junto ao comandante em chefe, não lhe tolheram o dizer nuamente que toda a luta sul-africana fora a glorificação dos lutadores improvisados, e a triumph for the principle of voluntary service.
De Bloch foi ainda mais incisivo: a preeminência do civil resulta-lhe, iniludível, das mesmas condições do campo das batalhas modernas, onde a virulência e rapidez do tiro impõem uma dispersão de todo oposta aos dispositivos das paradas e das manobras. Em tais circunstâncias os oficiais não podem dirigir efetivamente os soldados, e estes, sem o hábito das deliberações próprias, estonteiam, desunidos e inúteis, porque quanto maior é a sua disciplina e o "training" da fileira, tanto menor é a aptidão individual de agir.
O argumento é impressionadoramente claro: o civil apanhado a laço, o voluntário de pau e corda, o caipira a quem a farda aterroriza-mas cuja capacidade de ação se desenvolveu autônoma nas caçadas, na faina da lavoura, nos múltiplos ofícios, nas viagens e nas várias peripécias de uma existência modesta e livre, surge de improviso desarticulando todas as peças da sinistra entrosagem em que a arte militar tem triturado os povos.
E para que isto sucedesse bastou que esta última se desenvolvesse ao ponto de deslocar todas as velharias da tática, firmando a única garantia dos combates nas faculdades de iniciativa.
A conclusão é tão arrojada, e deforma tanto os moldes do conceito vulgar, que precisamos afastá-la da nossa responsabilidade de latinos sentimentais e exagerados. Deixemo-la aí blindada na rigidez britânica: "It is this quality which makes the superiority of the boers over the british. And it is this also which accounts for the superiority of the british civilian over the british regular". (De Bloch — The wars of the f uture) .
Assim se esclarecem notáveis anomalias: a glória napoleônica, em que colaborou talvez o precipitado de recrutas colhidos em todos os pontos e que iam aperrar pela primeira vez as espingardas na frente do inimigo; as batalhas estupendas da guerra da Sucessão; o esporte ruidoso e álacre dos americanos em Cuba; e, neste momento, os desfalecimentos da formidável disciplina russa diante da vibratibilidade japonesa...
Inesperado desfecho: a guerra cresceu para diminuir na guerrilha; e depois de devorar os povos devora os próprios filhos, extinguindo o soldado. Não é Marte, é Saturno.
Reagiu à reprimenda dos filósofos e ao sentimentalismo dos poetas; evolveu ilogicamente apropriando-se dos recursos da ciência, que a repelem, e dos da indústria, que é a sua antítese; por fim, armou-se com uns dez milhões de baionetas e transformou-as na arma única que a trespassa. Acaba como os velhos facínoras salteados pela fadiga moral dos próprios crimes. Suicida-se.
(continua...)
CUNHA, Euclides da. Contrastes e confrontos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1907.