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#Ensaios#Literatura Brasileira

Conflito Inevitável

Por Euclides da Cunha (1907)

Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.

As incursões peruanas não denunciam apenas a avidez de alguns aventureiros doidamente ferretoados da ambição que os arrebata às paragens riquíssimas dos seringais. São mais sérias; são quase um expressivo movimento histórico, desencadeado com uma finalidade irresistível. Não as determinam apenas as energias sociais instáveis e dispersivas da república sul-americana mais malignada pela caudilhagem, senão as mesmas leis físicas invioláveis de toda aquela zona.

Realmente, quem quer que contemple através da visão prodigiosa de Humboldt, ou da clara inteligência de C. Wiener, todo o trato de terras que vai de Arica a Trujillo, constrito entre o Pacífico e os Andes, compreende que os destinos do Peru oscilam entre dois extremos invariáveis: ou a extinção completa da nacionalidade suplantada por uma numerosa população adventícia, que assume todas as modalidades do alemão industrioso ao cooli quase escravo — ou um desdobra. mento heróico para o futuro, uma entrada atrevida na Amazônia, um rush salvador às cabeceiras do Purus, visando do mesmo passo uma saída para o Atlântico e um cenário mais e mais fecundo às atividades. Não há escapar às aperturas do dilema.

A posição prejudicial dos Andes cria ao Peru, como à Bolívia, regimes que se combatem: um litoral estéril que mal se alarga em dunas ondeantes, separado, por uma cordilheira, da porção mais vasta e mais exuberante do país. Na estreita faixa da costa, onde se adensou o povoamento e se erigiu a capital, e pulsa toda a existência política da república, estira-se um esboço de deserto; na montana alpestre do levante e mais longe nas planícies amplas, cobertas de florestas estupendas, por onde derivam, remansados, os últimos galhos dos tributários do Amazonas - pervagam, errantes, as tribos dos quichuas inúteis.

Deste modo a natureza criadora e forte do oriente se desentranha em riquezas incalculáveis diante das vistas incuriosas do selvagem — enquanto no ocidente as praias e vales areentos mal revestidos de uma flora tolhiça onde rebrilham os cristais nitrosos e se derrama em largas superfícies a lava endurecida, vão a pouco e pouco molificando o temperamento dos descendentes diretos dos "conquistadores".

Realmente, ali, naquela tira litorânea e primeiros recostos andinos, que formam, afinal, toda a geografia política do Peru, a sociedade não se irmana à terra, desatando-lhe as energia recônditas e nobilitando-a pelas culturas. Faz uma aliança com os terremotos: devasta-a.

Enquanto estes lhe devoram as cidades, e lhe desviam os rios, e a retalham de fendas em que se enredam, baralhadas, as curvas sismais dos cataclismos — ela despedaça os flancos das montanhas em procura de ouro e de prata; perfura, escava e esquadrinha as dunas onduladas onde repousa há séculos, nas huacas subterrâneas, a sociedade espectral dos incas mumifícados com as suas incalculáveis riquezas, perquire e tala os descampados na faina estonteadora da exploração dos nitratos de sódio; e desbasta as costas e as ilhas na pesquisa do guano, que exporta para o estrangeiro sem notar que a natureza previdente lhe oferece ao lado da esterilidade do solo os adubos pré-excelentes que a destroem.

(continua...)

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