Por Machado de Assis (1877)
Machado de Assis (1839–1908) é um dos maiores nomes da literatura brasileira. O conto “Silvestre”, publicado originalmente em 1877 no Jornal das Famílias, no Rio de Janeiro, aborda o conflito entre vocação artística e imposições sociais. A narrativa explora idealização, frustração e vaidade, convidando à reflexão sobre os limites entre arte, desejo e realidade.
I
José S. P. Vargas era o péssimo dos procuradores: só procurava para os outros. Após vinte anos de incessante trabalho, por sóis e chuvas, muita canseira e muita humilhação, achava-se ele no mesmo ponto de onde partira, com a diferença que partira aos vinte anos e só, e tinha agora mulher e dois filhos. A odisséia de um desses lutadores do foro está ainda por escrever. Se alguém a fizer, há de sair-lhe menos brilhante e variada que a outra, mas pode ser que mais triste ainda que monótona, ou talvez por isso mesmo.
Mas não tratemos agora do procurador nem das suas peregrinações. Tratemos do filho dele, Silvestre, um descorado menino de quinze anos, melancólico, taciturno, metido consigo, flor nascida em lugar de pouco sol, prestes a dobrar o cálice, para a terra, de onde veio. Silvestre custara à mãe dores infinitas; talvez por isso era mais amado do que a irmã, menina de doze anos, viva, alegre, refeita, a vender saúde por todos os poros. O pai compensava a filha, amando-a mais do que ao irmão. Ao cabo, ambos os pais queriam a ambos os filhos, com uma leve nuance e nada mais.
José Vargas fez ensinar ao filho as primeiras letras, que era o mais que lhe podia dar. Silvestre aprendeu consigo um pouco de francês. Aos catorze anos, o pai quis fazê-lo seu ajudante na procuradoria; mas a organização franzina do pequeno era pouco auspiciosa para tais labutações. Pareceu-lhe melhor metê-lo em um cartório, onde ele se habilitava para escrevente juramentado, e mais tarde escrivão ou tabelião, não saindo assim dos limites do foro a dinastia dos Vargas.
Silvestre não exprimiu a menor objeção acerca de tais planos. Ouviria acaso alguma coisa do que diziam dele? Sozinho, a olhar para o ar, com a cabeça entre as mãos, parecia dominado por uma idéia fixa. Seus olhos, grandes e brilhantes, encerravam toda a vida que fugira do resto do corpo. Com os cabelos lisos, incultos e caídos sobre as têmporas, dava uns ares remotos de Bonaparte, mas um Bonaparte mais do pensamento que da ação, e muito menos másculo. Na família, a opinião aceita é que Silvestre era doente — doente de alguma coisa física — ou coração ou baço — ou vermes. Da alma não podia ser, o pequeno não tinha desgostos. A família acreditava que a alma só adoece de desgostos.
As noites eram gastadas por ele, em grande parte, a ler um tomo velho comprado a um algibebe, certo dia em que a mãe lhe deu algum dinheiro. Ninguém sabia o que era o livro, que estava escrito em francês; mas a mãe achou natural explicação daquele amor às letras desde que a filha lhe deu notícia de que a obra era lardeada de estampas. Era claro que os bonecos divertiam o menino. Infelizmente, Silvestre descuidou-se um dia e deixou-o sobre a mesa de jantar. O pai viu-o, abriu-o e confiscou-o.
— Um pirralho a folhear retratos de mulheres nuas!
Silvestre chorou lágrimas de desespero no interior da alcova. A mãe, que o livrara do castigo já planejado pelo procurador, foi consolá-lo da perda, não menos que aconselhá lo a não perverter-se com estampas desonestas. O pequeno ouviu-a, mas continuou a chorar, até que a própria dor adormeceu, os olhos secaram e a esperança lhe animou o rosto. A primeira quantia que pôde obter foi destinada a outro exemplar da obra; andou por algibebes, catou estantes e gavetas, durante uma semana e mais, até que descobriu o exemplar suspirado. Se tivesse achado um brilhante não ficaria mais contente. Meteu o livro entre a camisa e a pele e guiou para casa, onde o escondeu a sete chaves, tendo cuidado daí em diante em o não deixar rolar por cima das mesas.
Assentado que Silvestre entraria para um cartório de escrivão, foi esta ordem transmitida ao pequeno, que enfiou, mas não resistiu. Pelo contrário, alegrou-se muito, quando o pai lhe disse que era preciso ganhar a vida por si, e que, se tivesse juízo, brevemente podia ver o fruto do seu trabalho. Silvestre dispôs-se a seguir pontualmente os conselhos de seu pai e foi para o cartório. Ali deram-lhe papéis a copiar, autos a coser, serviço em que ele, posto lhe repugnasse, empregava o melhor da atenção que Deus lhe dera. Mas, como tinha muita vez os olhos no ar e o pensamento alhures, errava laudas e laudas, copiava-as de novo, com dispêndio do papel e da paciência do escrivão. O fiel do cartório tomou-lhe ojeriza; ele caricaturou o fiel, e este pequeno incidente ia cortando a fortuna forense de Silvestre. Passou, e com ele iam passando os dias, com grande enfado do pobre menino, que perdia a esperança das vantagens prometidas pelo pai.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Silvestre. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1877.