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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Ficou enthusiasmado. Vinha bem a proposito aquela pandega, depois dos tedios dos ultimos dias ! Era a sua primeira orgia com raparigas chics e entrevia uma tipoia correndo sob o luar, cheia de sons de cantigas ; depois, o Champagne, espur:uando sob um lustre de gaz e camizinhas de rendas de hombros brancos como marmore. Estirou os braços n'uma sensação de concupiscencia brutal. Que ria embebedar-se, gritar, delirar, e deante d'aquelles gosos carnaes, o Platonismo, a Sociedade, a Arte, a Revolução, pareciam-lhe cousas bem ficticias ! Nem poude, na sua excitação, continuar a revêr as pro vas. Sahiu ao acaso, pelo Chiado. Pensava na Concha e á idéa de a ter semi-nua nos braços, sentia ama viva contracção no estomago ; imaginava-a alta, pallida, d'olhos arabes, com os ardores d'um sangue sevilhano e as melancolias d'uma existencia transviada. Desejava-a tanto, agora, que quasi a amava ; não duvidava da impressão que lhe fizera e olhava vagamente as vitrines, pensando no presente que lhe daria, quando ella, desinteressada e amo. rosa, recusasse dinheiro e só lhe pedisse fidelidade, Ã tarde, quando voltou ao Hotel, o guarda-portão mostrou-lhe um rapaz de buço, com um chapéu de c,ôco, que o esperava encostado á hombreira :

—Um recado para V. Ex. a .

O rapaz approximou-se e com voz cautelosa : — V. Ex. a é que é o snr. Arthur Corvello — Sou.

— Não ha engano

— Não, homem, não !

— Tem a bondade de me dar uma palavra. — Levou-o para a rua, quasi até defronte do Casino e tirando do bolso um bilhete :—Vem iá dos amigos... Arthur leu á luz d'um candieiro de gaz :

« Camarada. Hoje é a installação do Club na casa a nova. Mathias preside. Venha-se encontrar mathe• «maticamente ás 8 horas menos um quarto, á es-

« quina do theatro D. Maria, lado occidental. Não « lhe digo que seja exacto, pois que seria offender os seus sentimentos de patriota. Queime este bi thete

— Faz favor de dar recibo — disse o rapaz.

Arthur deu-lhe o seu cartão de visita e o rapaz, levando a mão ao coco, disse com uma voz surda, grave, que impressionou Arthur :

— Saude e fraternidade !

Arthur entrou no Hotel profundamente contrariado. Era tarde para avisar o Melchior, e todavia não podia faltar ao Nazareno, ao Mathias ; além d'isso, a idéa da sala, do estrado da presidencia, aquella esperança de sessão secreta, de revoluções temerosas, attrahiam-no pelo seu lado dramatico. E comtudo lamentava perder a ceia, a noite d'amor !

A sineta chamou-o para o jantar. Antes do assado, sob a influencia do Collares, já pensava em deixar a sessão republicana e ir com a Concha ; o cognac decidiu-o : sentia mesmo um requinte de prazer animal em mandar as idéas ao diabo » e atirar-se ao bonito corpo branco que se offerecia todo calido. Diria ao Nazareno que tivera uma colica, que recebera um telegramma . . . As sessões do Club seguir-se-iam todos os dias — e a Concha, despeitada se elle falhasse, podia perder o capricho, ou voltar para a Hespanha. E para que, por um acaso, o Jacome não o viesse surprehender, sahiu. Ás nove, voltaria, encontraria o Melchior e batiam para o Dáfundo. Com a charuto na bocca, o chapéu ao lado, atraVessava o corredor, cantarolando, quando o Meirinho que conversava n'um grupo, ao avistal-o, veio para elle com uma cara severa :

— Perdão, meu amigo disse— sinto ter de lhe dizer uma cousa. Eu levei-o a casa da snr.a D. Joanna Coutinho, uma senho:a da primeira sociedade, e o meu amigo, passados dez dias, nem sequer lhe deixa um bilhete . . .

As faces d'Arthur abrasaram-se de vergonha.

— Ora isto não se faz — continuou Meirinho, — É pôr-me em má posição : dá a entender que eu levo lá gente que não sabe os habitos da Eociedade . . . Isto não se faz.

Arthur, petrificado, não achou uma palavra : viu-o oirar sobre os calcanhares e reunir-se ao grupo, cofiando a barba.

Lá estava o Bento Correia, mascando o charuto, o Carvalhosa, erguendo alto a guedelha cheia d.e caspa, o Padilhão, torcendo solemnemente a pera, o brasileiro Gomes, com a sua bocca alvar, hilare. . . Arthur teve-lhes um odio sanguinolento que se estendia a tudo o que representava a Sociedade, a Politica, a Finança ! Esqueceu um momento o Melchior, o corpinho da (%ncha, o Champagne e o luar. Sentiu a necessidade de se vingar, de hutnilhar, de aterrar aqueJle conciliabulo d'idiotas enfartados de comida, occupados de pieguices, vivendo no artificio . . . E furioso, tendo-lhes sêde do sangue, partiu como uma bala, procura do Nazareno !



(continua...)

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