Por Eça de Queirós (1900)
- Olha! Eu para ti não tenho segredos. Nestas últimas semanas houve ai umas conversas, unsencontros... Enfim, para resumir, se daqui a tempos eu pensasse em casar com a D. Ana, creio que ela, por seu lado, não recusava. Tu ias à Feitosa. Tu sabes... Que tal rapariga é ela?
Titó cruzara os braços violentamente:
- Pois tu vais casar com a D. Ana?
- Homem, não vou casar. Não sigo esta noite para a Igreja. Por ora quero só informações... E dequem as posso ter, mais francas e mais seguras, do que de ti, que és meu amigo e que a conheces?
Titó não descruzara os braços levantando para o Fidalgo da Torre a face honesta e severa:
Pois tu pensas em casar com a D. Ana, tu, Gonçalo Mendes Ramires?...
Gonçalo atirou um gesto de impaciência e fartura:
Oh! se me vens com a fidalguia e com o Paio Ramires...
O Titó quase berrou, na sua indignação:
- Qual fidalguia! É que um homem de bem, como tu, não pensa em casar com uma criaturacomo ela!... Fidalguia?... Sim! Mas fidalguia de alma e de coração!
Gonçalo emudeceu, trespassado. Depois, com uma serenidade a que se forçara, argumentou, deduziu:
- Bem! tu então sabes outras coisas... Eu por mim sei que ela é bonita e rica; sei também que éséria, porque nunca sobre ela se rosnou nem aqui nem em Lisboa; são qualidades para se casar com uma mulher... Tu agora afianças que se não pode casar com ela. Portanto sabes outras coisas... Dize.
Foi então o Titó que emudeceu, imóvel diante do Fidalgo como se o laço duma corda o colhesse e o travasse. Por fim, soprando, com um esforço enorme:
- Tu não me chamaste para eu depor como testemunha... Em principio, sem explicações,perguntas se podes casar com essa mulher. E eu, sem explicações, em principio, declaro que não... Que diabo queres mais?
Gonçalo exclamou, revoltado:
- Que quero? Pelo amor de Deus, Titó... Supõe tu que estou doidamente apaixonado pela D.Ana, ou que tenho um interesse imenso em casar com ela... Que não estou, nem tenho; mas supõe! Nesse caso não se desvia um amigo dum ato em que ele está tão fundamente empenhado, sem lhe apresentar uma razão, uma prova...
Assim apertado Titó baixou a cabeça, que coçou com desespero. Depois acovardadamente, para escapar, adiou a contenda:
- Olha, Gonçalo, eu estou muito estafado. Tu não vais a esta hora para a Igreja; e ela menos,que o outro marido ainda não arrefeceu na cova. Então amanhã conversamos.
Atirou duas passadas enormes, empurrou a porta da varanda, berrando pelo Videirinha:
- São que horas, Videira! Toca a abalar, que não dormi desde Cidadelhe.
Videirinha, que preparava com esmero um grog frio, esvaziou atabalhoadamente o copo, recolheu o violão precioso. E Gonçalo não os deteve, esfregando silenciosamente as mãos, amuado com aquela recusa do Titó tão desamiga e teimosa. Como sombras atravessaram uma sala onde dormia, esquecida desde os Ramires do século XVIII, uma espineta de charão. No patamar da escada que conduzia à portinha verde, Gonçalo, para os alumiar, erguera um castiçal. Titó acendeu um cigarro à vela. A sua mão cabeluda tremia.
- Então entendido... Apareço amanhã, Gonçalo.
- Quando quiseres, Titó.
E no seco assentimento do Fidalgo transparecia tanto despeito - que Titó hesitou nos estreitos degraus que atulhava. Por fim desceu pesadamente.
Videirinha, já na estrada, considerava o céu, a luminosa serenidade:
- Que linda noite, Sr. Doutor!
- Linda, Videirinha... E obrigado. Você hoje tocou divinamente!
Gonçalo entrara na sala dos retratos, pousara apenas o castiçal - quando, por baixo da varanda aberta, o vozeirão do Titó retumbou:
- Ó Gonçalo, desce cá abaixo.
O Fidalgo rolou pelos degraus com sofreguidão. Para além dos álamos, no luar da estrada, Videirinha afinava o violão. E apenas a face do Fidalgo surdiu na claridade da porta, o Titó, que esperava com o chapéu para a nuca, desabafou:
- Oh Gonçalo, tu ficaste amuado... É tolice! E entre nós não quero sombras. Então lá vai! Tu não podes casar com essa mulher porque ela teve um amante. Não sei se antes ou depois desse teve outro. Não há criatura mais manhosa, nem mais disfarçada. Não me venhas agora com perguntas. Mas fica certo que ela teve um amante. Sou eu que to afirmo: e tu sabes que eu nunca minto!
Bruscamente meteu à estrada, com os possantes ombros vergados. Gonçalo não se movera de sobre os degraus de pedra, diante dos mudos álamos, como ele imóveis. Uma palavra passara, irreparável, no macio silêncio da noite e da lua - e eis o alto sonho que ele construíra sobre a D. Ana e a sua beleza e os seus duzentos contos despenhado no lodo! Lentamente subiu, repenetrou na sala. Por cima da chama alta da vela, num painel fusco, uma face acordara, uma seca, amarelada face, de altivos bigodes negros, que se inclinava, atenta como reparando. E longe, Videirinha espalhava pelos campos adormecidos os ingênuos versos celebrando a glória tamanha da Casa ilustre:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.