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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

Alves & Cia retrata, com ironia e crítica social, a vida de um comerciante burguês que tem sua rotina e reputação abaladas por uma suspeita de traição conjugal. A partir desse conflito, a obra explora temas como honra, aparência social e hipocrisia da sociedade, revelando as fragilidades das relações humanas e dos valores morais da época.

CAPÍTULO I

Nessa manhã, Godofredo da Conceição Alves, encalmado, soprando de Ter vindo do Terreiro do Paço quase a correr, abria o batente de baetão verde, do seu escritório num entressolo da rua dos Douradores, quando o relógio de parede pôr cima da carteira do guarda-livros batia duas horas, naquele tom, cavo, a que os tetos baixos do entressolo davam uma sonoridade dolente, e cava. Godofredo parou, verificou o seu próprio relógio preso pôr uma corrente de cabelo sobre o colete branco, e não conteve um gesto de irritação vendo a sua manhã assim perdida, pelas repartições do Ministério da Marinha: e era sempre assim quando o seu negócio de comissões para o Ultramar o levava lá: apesar de Ter um primo de sua mulher, diretor-geral, de escorregar de vez em quando uma placa na mão dos contínuos, de ter descontado a dois segundos oficiais letras de favor, eram sempre as mesmas dormentes esperas pelo ministro, um folhear eterno de papelada, hesitações, demoras, todo um trabalho irregular, rangente e desconjuntado de velha máquina meio desparafusada.

Sempre o mesmo encaranguejamento – exclamou ele, pousando o chapéu sobre a carteira do guarda-livros. – Dá vontade de os espicaçar como aos bois: Eh Ruço para diante! Eh Malhado!

O guarda-livros, um moço de ar amarelado e doente, sorriu. Espalhou areia sobre a larga folha que acabava de escrever, e disse, sacudindo-a:

O sr. Machado deixou um bilhete lá dentro... diz que ia ao Lumiar.

Então Godofredo, que limpava a testa com o lenço de seda, sorriu também, de leve, passando logo pelo bigode o lenço, escondendo o sorriso... Depois examinou a correspondência, que o guarda-livros continuava a polvilhar de areia.

Um momento uma carroça, fora, atroou a rua estreita, com um ruído de ferragens sacudidas: depois tudo caiu num silêncio. Um caixeiro, agachado diante dum caixote enorme, escrevia um nome sobre a tampa. A pena de pato rangia, por cima o relógio batia um tic-tac forte. E naquele grande calor do dia, no abafamento dos tetos baixos, subia dos caixotes, de dois fardos, do pó da papelada, um cheiro vago de ranço, e de mercearia.

O sr. Machado estava ontem em D. Maria – disse então o guarda-livros, sem cessar de escrever.

Alves largou logo a carta que lia, interessado, com o olhar mais vivo:

— Que ia ontem?

— O Trapeiro de Paris... — Que tal?

O guarda-livros ergueu os olhos da carta para responder:

— Eu gostei muito do Teodorico...

Alves ainda ficou esperando algum outro detalhe, uma apreciação. Mas o guarda-livros retomara a pena, e ele recontinuou a sua leitura. Depois o trabalho do caixeiro agachado interessou-o um instante. Seguia o pincel, gozava as curvas das letras.

— Ponha-lhe um til. Fabião tem um til...

E, como o caixeiro se embaraçou um momento, ele próprio se abaixou, tomou o pincel, deu o seu til a Fabião. Fez ainda uma recomendação ao guarda-livros sobre uma remessa de baetão vermelho para Luanda e, empurrando outro batente verde, descendo dois degraus - porque naquele entressolo os pavimentos eram de níveis diferentes, penetrou enfim no seu gabinete, pôde desabotoar o colete, estender-se enfim numa poltrona de reps verde.

Fora, um dia de julho abrasava, faiscava na pedra dos passeios: mas ali, naquele gabinete, onde nunca dava o sol, assombreado pelos altos prédios fronteiros, havia uma frescura; as persianas verdes estavam corridas fazendo uma penumbra; e o verniz das duas carteiras, a dele e a do seu sócio, a esteira que cobria o chão, o reps verde da cadeira bem escovado, uma moldura de ouro encaixilhando uma vista de Luanda, a alvura dum grande mapa, tinham um ar de arranjo, de ordem, que punha como um repouso, uma frescura maior. Havia, mesmo, um ramo de flores, que sua mulher, a boa Lulu, lhe tinha mandado havia dias – compadecida de o saber toda uma daquelas manhãs de calma, no abafamento dum escritório, sem uma cor de flor para alegrar os olhos. Ele tinha posto o ramo sobre a carteira do Machado. Mas, sem água, as flores murchavam.

O batente verde abriu-se, o guarda-livros mostrou a face amarelada e doente:

— O sr. Machado deixou alguma recomendação a respeito do vinho de Colares para o Cabo Verde?

Então Alves lembrou-se da carta do sócio, que estava sobre a sua escrivaninha. Abriu-a; as duas primeiras linhas explicavam a ida ao Lumiar; depois, com efeito, começava, “a respeito do Colares...”. Alves deu a carta ao guarda-livros.

(continua...)

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