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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

"Senhores: instituindo os almoços e os jantares da Cidade do Rio não tive em mente concorrer com o Jornal do Commercio que era, até hoje, o único órgão brasileiro que fornecia comida aos seus redatores. Não! Quis apenas dar o bemestar aos meus companheiros de trabalho e, como entendo que a primeira condição para que um espírito produza é a saciedade do estômago tomei um cozinheiro e, ao lado da oficina tipográfica, estabeleci a despensa.

Saco vazio não se põe em pé, diz a sabedoria popular. Com fome não há talento. É preciso que haja carvão na fornalha para que se gere vapor na caldeira. Quanto tempo perde um redator em andar procurando hotel? Que riscos tremendos corre a vida de um desses rapazes, que são a glória futura da nossa pátria, entregando-se aos cozinheiros mercenários dos hotéis à la carte, onde a limpeza é um problema e a virgindade dos vinhos tão suspeita como a da Rússia imperatriz famosa?! Não, com a cozinha em casa tenho certeza de que todos os gêneros são de qualidade e os vinhos serão analisados cuidadosamente por meu compadre, o ilustre químico Campos da Paz. Este é o primeiro passo.

Começo a reforma pela cozinha e espero poder, em breve, ver realizado o meu grande e nobre ideal. Dentro em pouco os redatores da Cidade do Rio terão coupé, palacete e o edifício do meu jornal será o primeiro da América do Sul. Para isso, porém, é necessário que todos me auxiliem, porque a glória e o conforto que procuro não são para mim somente, todos terão a sua parte." Houve alarido e palmas.

Anselmo, magnificamente repostado, prometeu concorrer com o seu talento para o brilho da folha e manutenção da respectiva cozinha e Octavio Bivar, enternecido, fez o mesmo protesto. O mestre cozinheiro foi aclamado com delírio por quantos haviam saboreado as finas iguarias que ele, com tanta arte, recamara de folhas tenras e temperara com sabedoria incomparável.

Instalada a cozinha, o perfume dos guisados atraiu à Cidade do Rio, que se tornou o Hymetto das abelhas líricas, toda a poesia perambulante. Às onze horas começava invariavelmente a entrada, como no castelo de Wartburgo, não para o repto poético, mas para a manducação: e, ao meio-dia, tendo Patrocínio terminado o artigo de fundo, dirigiam-se todos para a mesa, e quanto folhetim foi ali improvisado entre um prato e outro!

O jornal dava apenas para a boca e mal, às vezes sem vinho. Anselmo andava farto, mas com os pés em petição de miséria e o Oliveira estava tão atrasado com a lavadeira, que, em certa ocasião, puxando um punho diante de Fortúnio e pedindo um lápis, o poeta perguntou pasmado:

— Para quê?

— Para tomar uma nota.

— Onde?

— Aqui no punho.

— O filho, pede antes um giz.

Ah! O pobre Oliveira, Oliveira, o troglodita, que morava em uma verdadeira caverna, em Paula Mattos: era o "speleo" da imprensa. Dele contava Ruy Vaz que, tendo mandado à lavagem química, no S. Mauncio, um paletó cor de castanha, quando o foi buscar, com a cautela, recebeu apenas os botões... porque o mais dissolvera-se na lixívia. Pobre Diógenes que trazia no corpo o azeite da sua lanterna. Fortúnio, sempre que o via, com as calças enlameadas, o paletó poeirento, o chapéu como um canteiro, dizia-lhe compadecido:

— Que a terra te seja leve!

Mas havia alegria e Patrocínio, pressentindo próxima a vitória da sua idéia, trabalhava empenhadamente para a batalha definitiva.

Efetivamente alguma coisa andava no ar. A princesa governava fragilmente, pensando mais em sermões e nos acordes do violino do White do que nos negócios do Estado e os republicanos solapavam o trono invectivando a regente.

Patrocínio, entanto, domando a sua pena tremenda, aparava os golpes que eram vibrados contra a princesa pelos republicanos que, com Silva Jardim à frente, começavam ostensivamente a propaganda, na tribuna e na imprensa. Contra o redator da Cidade do Rio avançava toda a legião, ele, porém, como se não sentisse os golpes, continuava sereno, impassível, pregando o seu programa, como se apenas escutasse o lamento dos escravos, tão alto, que não lhe deixava ouvir o rumor do tumulto dos novos combatentes que o injuriavam.

Uma manhã, porém, Anselmo invadiu a sala particular do redator-chefe, com um número de O Paiz, onde Silva Jardim havia publicado um artigo, violento e injurioso, no qual Patrocínio era tratado de traidor.

— Já leste este artigo?

— Que artigo...?

— Do Silva Jardim.

— Quem é?

— Homem, falo sério.

— Que diz ele?

— Um pavor. E deves responder.

— O filho, tenho hoje tanto trabalho!.

— Mas queres deixar tais acusações de pé?

— Que acusações!? O homenzinho entende que sou um infame, deixemo-lo com a sua ilusão. Atualmente não me pertenço: José do Patrocínio não é um homem, é uma causa. A minha pessoa não vale a minha idéia. Que me insultem à vontade, orgulho-me disso. Olha que tenho dado assunto, hein?

— Então não respondes?

— Não. Vou escrever um artigo sobre o quilombo de Jabaguara.

Curvou-se, tomou a pena, mas, de repente, aprumando-se, rugiu:

(continua...)

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