Por Raul Pompéia (1883)
O conto “Violeta”, de Raul Pompeia, aborda com delicadeza temas como amor, idealização e fragilidade dos sentimentos. A narrativa acompanha emoções intensas e, ao mesmo tempo, efêmeras, revelando como as relações humanas podem ser marcadas por ilusões e decepções, em um tom sensível e reflexivo característico do autor.
Romance original brasileiro
... Étre maitre du bien et du mal, régler la vie, régler la societé, resoudre à la longue tous los problèmes du socialisme, apporter surtout des bases solides à la justice, en résolvant par l'expérience les questions de criminalité, n'est ce pas là étre les ouvriers les plus utiles et les pias moraux du travail humain?
E. ZOLA (Le Roman Experimental)
I
Um dia, sumiu-se a pequena Eva.
O pobre marceneiro, seu pai, buscou-a.
Tempo perdido, esforço baldado.
Na pequena povoação de ***, em Minas, não houve um recanto aonde não chegassem as investigações do marceneiro em busca da filha.
Depois que se espalhou a noticia do desaparecimento da menina, ninguém se encontrava com outra pessoa que não lhe perguntasse:
- Sabe da Vevinha?...
- Já ia perguntar isso mesmo...
E não se colhia uma informação que desse luz ao negócio.
Uma senhora velha, reumática, de olhos vivos, mas bons, baixinha e regularmente gorda, que vivia, a alguma distância da povoação, roendo o dinheirinho que lhe deixara o defunto marido, muito camarada da pequena Eva, à tia do marceneiro enfim, abalara-se de casa, contra os seus hábitos, e se arrastara a ver o sobrinho na cidade. Soubera da desgraça e, o que mais é, ouvira do seu moleque uma cousa que... devia contar ao sobrinho.
Foi achá-lo na oficina, sentado sobre um banco de carpinteiro, triste, na imobilidade estúpida de uma prostração miserável. As pernas caíam-lhe a prumo, pendentes acima do tapete de fragmentos de madeira raspada pelo cepilho. Um sol desapiedado, das três horas, caía ardente sobre ele e o cercava de uma poeira dourada de faíscas microscópicas, que flutuavam à toa no ar.
O marceneiro não se apercebia disso.
O suor caía-lhe, escorrendo sobre o nariz, e aljofarava-lhe a barba espessa e negra; toda a pele requeimada do rosto parecia desfazer-se em líquido.
Os cabelos escuros e desgrenhados grudavam-se-lhe à testa; a camisa abria-se e mostrava um peito cabeludo e largo, onde sorriam as ondulações da respiração que lhe fazia arfar o ventre. Estava abatido.
Desde as seis horas da manhã até depois do meio-dia não se sentara um instante; não se alimentara. Sofria. Ao levantar-se, vira vazio o leitozinho de Eva. Que fim levara a filha? Nada, nada: era o fruto de todas as pesquisas.
Quando a tia entrou, o marceneiro não o sentiu.
A velha chegou-se para ele e pousou-lhe a mão no ombro.
- Então não me vês? disse. Não me vês, Eduardo!
Eduardo ergueu a face e respondeu-lhe com um olhar dolorido.
A velha teve pena. As lágrimas chegaram às pálpebras. De mais a desgraça a ferira também.
Como não? Era tão boa e tão linda a Vevinha, gostava tanto dela... chamava-a vovó... Que graça nos seus beicinhos vermelhos, alongando-se como em muchocho, para soltar aquelas duas silabas!... A última doçura da vida é o amor da netinha, os seus estouvamentos de passarinho... Faltava-lhe a netinha. A árvore secular sorri, quando nela chilreia uma avezinha; voa a avezinha e a ramaria toda parece uma carranca... Ela gostava de ter sobre os joelhos a Vevinha, tagarelando. Perdera isso; era tudo.
Entretanto a dor de Eduardo era maior.
O marceneiro era um desses homens que se chamam fortes, porque encobrem com uma serenidade trágica as feridas da dor. Havia menos de um ano morrera-lhe a mulher, uma mocinha bonita, amorosa e trabalhadora. Uma febre a levara da vida. Este golpe foi duro, mas Eduardo o recebeu em pleno peito, olhando de cima para a desgraça. O segundo golpe foi um requinte intolerável.
A velha voltara o rosto e fitava um sujeito a trabalhar num canto da oficina, quase no escuro.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Violeta. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7633 . Acesso em: 6 abr. 2026.