Por Eça de Queirós (1925)
Arthur escutava : parecia-lhe vêr o vulto branco, com a lampada na mão, subindo a escadinha da casa occi ülta nos arvoredos, vpapalldo a cada degrau, para soltar, com o olhar commovido, as notas calidas que se perdiam na sombra suave da noite ! Vinharn-lhe idéas de noites d 'opera, d'elegancias amorosas. Sentia uma molleza preguiçosa, vendo o fumo branco do charuto dissipar-se em aroma. A luz envolvia-o como uma carieia ; todas as convasas sombrias da vespera, aquellas idéas violentas do Nazareno, tinham sido levadas com aq nuvens lugubres da noite : eram tão incompativeis @om o so1 radioso como vôos de morcego. O que sentia agora, não eram desejos de Justiça, d'Egualdade, mas as molas flaccidas d'uma carruagem, um rosto aristocratico a amar . . . Tinha feito impressão á Concha, hein E retorcia o buço, ageitando a gravata. Era a impressão que já fizera á senhora da estação d'Ovar ! A senhora do vestido de xadrez ! Teve um desejo intenso de a vêr : aquella manhã lucida, festiva, dourada, reclamava urna occupaçao delicada, elegante ; se a pudesse avistar á janella, seguil-a na rua E, escovando o cnap&a, ia acompallhando com movimentos languidos de cabeça as notas amorosas da aria do Rigolctto.
Correu a florir-se á Casa Havaneza, e foi á rua
de S. Bento. O guarda-portão lá estava, empinando o ventre magestoso, as mãos atraz das costas. A janella, a mesma, entreaberta, deixava vêr por entre as bambinellas de fazenda sobrepostas a cortinas de cassa, um interior de sala, escuro e rico. Mas ningnem se debruçou á janella, ninguem sahiu do portão. Arthur accendeu um charuto, mais contrariado, mais amoroso agora, em frente da casa d' Ella, na presença d'aquella fachada muda, que era como alguma cousa da sua pessoa, Não se conteve, entrou n'urn estanco proximo, comprou phosphoros, cbarutos, e p a rguntou negligentemente á estanqueira quem vivia alli n'aquella casa.
Alli, onde está o guarda-portão . — disse a creatura, uma magrita, muito gravida — É a snr. a Daroneza de Paradas.
Ao menos sabia-lhe agora o nome ! E subindo a calçada do Correio, arrependia-se de não ter com, prado mais alguma cousa no estanco e interrogado a mulher sobre os habitos, as horas de sahida, as relações, a edade da snr. a baroneza. A creatura, com o seu enorme ventre, a bocca muito fendida, a pelle cheia de sardas, parecia accessivel ás tentações de meias libras. Por ena poderia fazer-lhe chogar uma carta, talvez . . .
Perguntou n'essa noite ao Meirinho se conhecia a baroneza de Paradas ,
— Nunca Vi.
—- Uma senhora muito bonita, com um pequerruchoa
— Nunca vi.
Desde o caso do chapéu, tratava-o com seccura ; o Padilhão tambun. Arthur suspeitava que em casa de D. Joanna se tivesse fallado, troçado, N'essa noite, teve a certeza, quando, ao passar no corredor, o Carvalhosa o deteve para lhe perguntar com o seu ar soberano :
— Então que historia ó essa do chaoéu Não se falla n'outra cousa !
Arthur, escarlate, quiz rir :
— Tolices !
E o Carvalhosa, de charuto ao canto da bocca, as mãos nos bolsos, um bambolear d'escarneo :,
— Homem, semear assim chapéus de molas peIas casas particulares
Arthur teve vontade de lhe espalmar uma botetada na bochecha livida. Não achando urna resposta, subiu para o quarto, furioso. Não se fallava n'outra cousa, -hein ? Por isso surprehendera olhadellas, rizinhos Canalhas !
Começava agora a ter odio ao Hotel : desde que se sentia vagamente troçadc, as physionomias pareciam-lhe tão estupidas como as conversas; o Bento Correia, que fingia ignoral-o, enervava-o com a sua gula tranquilla, a mastigação ruminada, com
pingos de molho que lhe cahiam sobre a ; sentia uma vaga ironia, um desdem a,tnbiente cercal-o ; cham•avam-lhe o poeta. Um dia, ouvira 0 guarda-livros dizer para o creado : « é para o poeta, do 26 nreirinho tinha mudado de legar, para se não sentar junto d'elle, de certo : quiz, por vingança, reclamar-lhe as dez libras, mas não se atreveu ; além d'isso conservava a idéa de que Meirinho lhe seria ainda necessario, mais tarde, para se relacionar com a snr. a baroneza de Paradas : por isso fazia-lhe pre o mesmo sorriso muito amigo, a que Meirinho respondia apenas com um movimento secco de ca. boça. Agora, durante o jantar, ficava isolado, mudo, sentindo-se vagamente um paria ». Levantava-se sempre da meza desesperado, lançando-se de toda a alma em idéas de vingança e de revolução. Porém ultimamente nem o Nazareno apparecia no Martinho, e como lhe não sabia a morada, a sua vida arrastava-se de novo n'aquollas fluctuações intoleraveis, sem fim, sem resultado. Depois, o dinheiro ia-se derretendo » ; o manuscripto dos Amores de Poeta lá estava, improductivo, inutil, no fundo do bahú, entre as camisolas. — A sua unica alegria era a revisão das provas dos Esmaltes e Joias, muito adiantada já.
Certa manhã — um sabbaao — em que trabalhava no seu quarto, recebeu da redacção do Seculo um bilhete dc Melchior :
Amigo. Hoje, sabbado, é o dia da pandegazi nha. Estive cata malina com as sy[phides. Aceitam. Eu levo a Carmen, você a Concha. A tipoia « do José r.L'ezo está arranjada. Ás 9 horas lá vou « buscal-o ao Hotel. A divina Concha está anciosa « por vêr el Señor -Arturito. Salero ! »
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.