Por Eça de Queirós (1900)
Á porta do pomar ainda encontraram o Pereira da Riosa, de quinzena de cotim deitada aos ombros. Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira tomava enfim a lavra da Torre. E Gonçalo gracejou, mostrando ao Titó o lavrador famoso. Eis o homem! eis o grande homem que se preparava a tornar a Torre uma falada maravilha de seara, vinha e horta! O Pereira coçava a barba rala:
- E também a enterrar bom dinheiro! Enfim um gosto sempre valeu mais que um vintém! E oFidalgo, como patrão, merece terra em que os olhos se esqueçam de regalados!...
- Oh, Sr. Pereira! - ribombou o Titó. - Então não se esqueça de cuidar dos melões. É umavergonha! Nunca na Torre se comeu um bom melão!
- Pois para o ano, assim Deus nos conserve, já V. Exa. comerá na Torre um bom melão!
Gonçalo abraçou ainda o esperto lavrador - e apressou para a estrada, decidido a desenrolar toda a confidência ao Titó, na solidão favorável do arvoredo dos Bravais. Mas, apenas recomeçaram a caminhada, o mesmo enleio o travou - quase temendo agora as informações do Titó, homem tão severo, de Moral tão escarpada. E todo o demorado giro pelos Bravais o findaram, sem que Gonçalo desafogasse. O crepúsculo descera, mole e quente, quando recolheram - conversando sobre a pesca do sável no Guadiana.
Defronte do portão da Torre Videirinha esperava, dedilhando o violão na penumbra dos álamos. Como a noite se conservava abafada, sem uma aragem, jantaram na varanda, com dois candeeiros acesos. Logo ao desdobrar o guardanapo o Titõ, vermelho e espraiado sobre a cadeira, declarou "que graças ao Senhor da Saúde, a sede era boa!" Ele e Gonçalo praticaram as usadas façanhas de garfo e de copo. Quando o Bento serviu o café uma imensa e lustrosa lua nova surgia, ao fundo da quinta escura, por trás dos outeiros de Valverde. Gonçalo, enterrado numa cadeira de vime, acendeu o charuto com beatitude. Todos os tédios e incertezas dessas semanas se despegavam da sua alma como cinza apagada, brevemente varrida. E foi sentindo menos a doçura da noite, que um sabor melhor à vida desanuviada, que exclamou:
- Pois, senhores, agora, está uma delícia!...
Videirinha, depois dum curto cigarro, retomara o violão. Através da quinta, pedaços de muros caiados, algum trilho de rua mais descoberto, a água do Tanque-Grande, rebrilhavam ao luar que resvalava dos cerros; e a quietação do arvoredo, da claridade, da noite penetravam na alma com adormecedora carícia. Titó e Gonçalo saboreavam o famoso cognac de Moscatel, preciosa antigualha da Torre, silenciosamente enlevados no Videirinha - que recuara para o fundo da varanda, se envolvera em sombra. Nunca o bom cantador ferira as cordas com inspiração mais enternecida. Até os campos, o céu inclinado, a lua cheia sobre as colinas escutavam os queixumes do fado da Anosa. E no escuro, sob a varanda, o pigarro da Rosa, os passos abafados dos criados, algum sumido riso de rapariga, o bater das orelhas dum perdigueiro eram como a presença dum povo suavemente atraído pelo descante formoso.
Assim a noite se alongou, a lua subiu com solitário fulgor. Titó, pesado do bródio, adormecera. E como sempre, para findar, Videirinha atacou ardentemente o Fado dos Ramires:
Quem te verá sem que estremeça,
Torre de Santa Irenéia,
Assim tão negra e calada, Por noites de lua cheia...
E lançou então uma quadra nova, que trabalhara nessa semana com amor sobre uma erudita nota do bom Padre Soeiro. Era a glória magnífica de Paio Ramires, Mestre do Templo - a quem o Papa Inocêncio, e a Rainha Branca de Castela, e todos os Príncipes da Cristandade suplicam que se arme, e corra em dura pressa, e liberte S. Luís Rei de França, cativo nas terras de Egito...
Que só em Paio Ramires
Põe agora o mundo a esperança... Que junte os seus Cavaleiros E que salve o Rei de França!
E por este avô e tal façanha até Gonçalo se interessou - acompanhando o canto, num trêmulo esganiçado, de braço erguido:
Ai, que junte os seus Cavaleiros E que salve o Rei de França!...
Ao rolar mais forte do coro Titó descerrou as pálpebras, arrancou do canapé o corpanzil imenso - e declarou que marchava para Vila-Clara:
- Estou derreado! Sempre em jornada e sem dormir, desde ontem às quatro da manhã quelarguei de Cidadelhe... Caramba, dava agora, como aquele Rei grego, um cruzado por um burro!
Então Gonçalo, animado pelo cognac, também se ergueu com uma resolução quase alegre:
- O Titó, antes de saíres anda cá dentro que quero falar contigo a respeito dum caso!
Agarrara um dos candeeiros, penetrou na sala de jantar onde errava o cheiro de magnólias morrendo num vaso. E aí, sem preparação, com os olhos bem decididos, bem cravados no Titó que o seguira arrastadamente, ainda se espreguiçava:
- O Titó, ouve lá e sê franco. Tu ias muito à Feitosa... Que te parece aquela D. Ana?
Titó, que despertara como ao rebentar dum morteiro, considerou Gonçalo com assombro:
- Ora essa! Mas a que propósito?...
Gonçalo atalhou, na pressa de colher rapidamente uma certeza:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.