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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Melchior encolheu os hombros, corn impaciencia, como se Arthur lhe tivesse perguntado quem era

— A Concha! Então você não sabe? Não se lem bra em S. Carlos, d'aquelle rapaz tisico, o Irglez Pois bem, a Concha estava com elle ; deixou-o, que o pobre diabo já se não levanta, ás bacias de san-

gue pela bocca ! É a hespanho]a mais bonita que tem vindo a Lisboa. E rapariga fina . . . Coitada, está n'aquella vida . . . mas muito fina. É filha d'um general, muito bem educada. Toca piano, oh menino ! E depois que maneiras ! A comer, é uma duqueza ! E que pé, que pé ! É d'endoidecer.

Arthur espreguiçou-se com uma vaga languidez : — Bonita, hcin

— Caramba ! — fez Melchior com um grande gesto.

Do quarto proximo vieram sons de piano e duas vozes, uma de soprano e outra de tenor, começaram a cantar o duetto do terceiro acto do Fausto :

AI pallido chiarore dei astri d'oro

Melchior escutou um momento : devia ser a segunda dama de S. Carlos, que estivera doente, a ensaiar com o Videllt

— Vá, vista-se, homem ! — exclamou — Estou a cahir com fome. Está um dia lindo !

Abriu a vidraça. Os rumores da rua entraram com a larga luz festiva.

— Arriba ! Arriba !

Arthur saltou vivamente para o chão. A linda manhã, o alegre rodar dos trens, aquelle ensaio, ao lado, d'uma aria elegante que punha no quarto uma intimidade de bastidores, a idéa da Concha

«que o queria vêr davam-lhe vagos rebates de felicidade ; sentia-se leve, desejoso d'ir para a rua, vêr mulheres com toilettes bonitas, o aço dos arreios dos trens ricos reluzir á porta das lojas. ajanota. va-se, emquanto Melchior se debruçava da varanda, torcendo o bigode, escarrando alto, a vêr se pescava a segunda dama.

Ao almoço, Melchior voltou a fallar da Concha, emquanto devorava a sua omelette: se fosse rico, punha-lhe casa . . . E que era uma rapariga com quem até se podia conversar . . . verdade, tinha pilheria ! E depois, coração . . . Sentia, que diabo !

Arthur considerava-o, notava-lhe a face grossa occupada a mastigar, a pelle engelhada em volta dos olhos, a calva crescente, o bigode espetado . a Concha sentia alguma cousa, não era de certo por aquelle typo ! » —E como Melchior insistia, que ella desejava muito vêr Arthur vinham-lhe vagas dilatações de vaidade, de desejo. Talvez ella o amasse !

— Ella conhece-me

— Viu-o em S. Carlos. Reparou em você !

Arthur recostou-se na cadeira : não duvidava que lhe tivesse feito impressão. Depois das suas humilhações, aquella idéa deleitava-o ; ás vezes, n'aquellas mulheres andaluzas, encontram-se almas profundamente amantes, avidas de sacrificio Gostaria, n'uma manhã assim luminosa, almoçar com

ella, fresca e branca, com o seu penteador de rendas fôfas, ou ainda, á noite, de verão, com as janellas abertas, vêl-a soltar as notas calidas d'uma malagueña que iriam morrer na tranquillidade suave do ar alumiado de lua. E no fundo do seu espirito agitava-se confusamente aquelle vago desejo d'um amor romantico por uma Dama das Cameli,as, d'um sentimento á Armando, com aquellas idéas de rehabi!itação que já em Coimbra tanto o perturbavam.

Disse, córando um pouco :

— Como poderei eu conhecel-a ?

Melchior, muito cynico, riu :

— Entre por alli dentro, amigo, entre, por alli dentro !

Mas Arthur « achava isso ignobil Queria algtun encontro delicado, com chic . . . Verem-se n'uma ceia, por exemplo . . .

Nada mais facil, disse Melchior. Podia-se arranjar outra patuscadazinha, sem espalhafato. Sómente, n'aquella. semana elle não podia.

— Deixe você vêr . . . Sabbado, hein

—- Sabbado — concordou Arthur, espreguiçandose com voluptuosidade.

Melchior bebera o seu café e « safava-se porque tinha d'ir ao Seculo D. Arthur subiu para o quarto, e ficou a fumar o seu charuto á janella. Ao lado, agora, a soprano cantava a aria do Rigoletto :

Caro nome de mio sposo



(continua...)

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